Venezuela // Contexto é para parvos: os humanitários~ 7 min

Parte 1 de 3

Vimos 206 segmentos noticiosos da RTP, SIC e TVI, emitidos entre 22 de Janeiro a 13 de Fevereiro para compreender melhor os principais mecanismos de propaganda que estão a ser usados contra a Venezuela.

Tornou-se bastante claro que, para lá de uma minoria de mentiras descaradas, a maioria dos argumentos dependia simplesmente da ausência de contexto do que era noticiado. Todos os crimes do passado e seus autores são assim comprimidos a um só momento presente e colocados na lapela do inimigo da hora.

Para quem tem o mínimo de contexto histórico da América Latina e das traquinices homicidas do império norte-americano, é transparente o que está a acontecer em relação à Venezuela.

Aquilo com que o jornalismo do copy paste está a contar é que ninguém tenha esse contexto. Ou talvez os próprios jornalistas não o tenham e tudo isto pareça a coisa mais natural do mundo para quem fez carreira de dactilografar comunicados de imprensa do Departamento de Estado norte-americano e da NATO.

O disco riscado diz o seguinte: a Venezuela era um reino encantado de riquezas naturais até que chegou o Chávez malvadão que tomou o poder e instalou a ditadura socialista. A partir daí começou a fome, a pobreza e a hiperinflação. Sucedeu-lhe Maduro , que ainda é pior que Chávez. A culpa de tudo o que está mal na Venezuela agora e para sempre pode ser colocado aos pés destes dois homens e dos seus seguidores desmiolados que não sabem o que é bom para eles.

Recuperemos então o contexto adequado ao que está a acontecer.

Contexto: os humanitários

É interessante ver como os mesmos políticos que os media tratam como idiotas relativamente às suas políticas internas, são vistos como gente séria no que toca a apoiar intervenções externas. Por exemplo, as notícias adoram dar risadinhas às custas dos tweets e declarações de Trump. Mas sempre que Trump faz ou promete guerra ao terceiro mundo, é tratado com a máxima seriedade. Dos 206 segmentos noticiosos da RTP, SIC e TVI que vimos, nenhum mostra sequer uma ponta de cinismo em relação ao que Trump e os seus homens de mão dizem. Tudo é tratado como legítimo.

Se estas fossem figuras de carácter inatacável, talvez se compreendesse. Mas são homens como Elliott Abrams, representante especial destacado para a Venezuela. Abrams entrou para a história como o sujeito que ajudou a armar e financiar esquadrões de morte hiper violentos na Guatemala, El Salvador e Nicarágua, de modo a inocular camponeses miseráveis contra possíveis aspirações redistributivas. Para que fique claro do que falamos: violações em grupo de crianças menores de idade; execuções sumárias de comunidades inteiras, incluindo crianças e bebés; exposição de corpos mutilados como avisos e as piores torturas imagináveis.

Abrams foi o único condenado no caso Irão-Contra no tempo do Reagan – não porque ajudou a levar a cabo milhares de torturas, violações e homicídios – mas porque mentiu ao Congresso sobre tê-lo feito. Por tal, sofreu a terrível punição de 50 dólares de multa e 100 dias de serviço comunitário. Em 2002 voltou a fazer das suas, ao dar aprovação tácita ao golpe de Estado contra Chávez.

Um dos episódios mais importantes desses dias para o que está a acontecer hoje foi a revelação de que parte das armas enviadas aos Contras foram disfarçadas de “ajuda humanitária” para a Nicarágua. Pensar-se-ia que tal é uma peça importante de contexto a ter em conta para a actual situação. Ao invés disso, os jornalistas preferem gozar com a desconfiança do “regime de Maduro” em relação a prendas humanitárias de homens como Abrams.

Depois há John Bolton. Bolton fez carreira de ser um mentiroso ao serviço do império. A sua jogada favorita é acusar país tal e tal de possuir ou estar prestes a adquirir, armas nucleares ou biológicas. Se tal soa familiar, é porque Bolton foi um dos principais impulsionadores da Guerra do Iraque – aquela que matou um milhão de pessoas – com a desculpa das “armas de destruição massiva” que nunca ninguém deu achadas. Novamente, não é este o tipo de contexto que seria importante integrar na cobertura sobre a Venezuela? É que no caso de Bolton, ele nem sequer se esforça por esconder o que quer.

Também é engraçado que, depois do circo “humanitário” na fronteira venezuelana a 23 de Fevereiro, os Estados Unidos estejam a querer usar a destruição de um camião com “ajuda humanitária”, muito provavelmente por manifestantes da oposição, como argumento para acusar o governo venezuelano de crimes contra a humanidade. É que os crimes contra a humanidade são julgados no Tribunal Penal Internacional. E Bolton disse publicamente, a falar pela Presidência, que os Estados Unidos não reconhecem a autoridade do TPI, não colaborarão com o TPI e que tomariam medidas contra os juízes do TPI se alguma vez avançassem casos contra cidadãos americanos.

Outros citados frequentes são o Secretário de Estado Mike Pompeo e o Vice-Presidente Mike Pence. Ambos foram financiados pela indústria do petróleo, e pelos irmãos Koch em específico, que só por acaso possuem uma refinaria no Texas que processa petróleo bruto pesado. Se adivinharam que esse é o tipo de petróleo bruto presente no solo da Venezuela, parabéns.

Mais gravosa é a postura acrítica dos media em relação aos Estados Unidos e as suas lágrimas de crocodilo sobre democracia e crises humanitárias quando está neste preciso momento a decorrer a Guerra do Iémen. A Arábia Saudita, uma monarquia sem qualquer tipo de democracia, está a levar a cabo um bloqueio genocida contra o povo iemenita que já dura há um ano.

Incapazes de derrotar a resistência iemenita no campo de batalha, querem matar este povo à fome e doença. Para tal usam armas norte-americanas, que dependem de logística e manutenção norte-americanas para continuarem a ser usadas. É uma guerra que os Estados Unidos podiam travar amanhã com um estalar de dedos. Mas onde está a ajuda humanitária para o povo do Iémen?

Para as crianças do Iémen, não sobram ajudas humanitárias. Só a fome, cólera e morte.

No mesmo período, 22 de Janeiro a 13 de Fevereiro, em que a RTP, SIC e TVI produziram 206 segmentos vídeo sobre a Venezuela, quantos pensam que produziram sobre o Iémen? A RTP não fez nenhum e tanto a SIC como a TVI só tinham um cada – do Papa a pedir paz.

Na verdade, usar a fome como arma não é nada de novo para os EUA. Eis a Secretária de Estado do Bill Clinton, Madeleine Albright, a dizer que valeu a pena usar sanções “contra Saddam” e matar meio milhão de crianças iraquianas.

Do lado europeu, temos o Presidente não eleito do Conselho Europeu, Donald Tusk, a lamentar a falta de mandato democrático de Maduro. Temos o Presidente francês Emmanuel Macron a criticar a violência da repressão política na Venezuela enquanto a polícia francesa anda a arrancar olhos e mãos aos coletes amarelos. Temos o Primeiro-Ministro espanhol Pedro Sanchéz a colocar ultimatos para eleições “livres” na Venezuela enquanto toda a máquina do Estado Espanhol trabalha para esmagar o independentismo catalão. É todo um festival de hipocrisia.

Já lá vão mais de duas décadas de “guerras humanitárias”. Países como o Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria foram terraplanados. Continuar a disseminar acriticamente o argumento da defesa da democracia e direitos humanos no que toca à política externa norte-americana e europeia desafia todos os limites da credulidade. É perfeitamente compreensível que os media norte-americanos o continuem a fazer. Mas o que impele os media portugueses a fazer o mesmo?

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