As reais razões pelas quais Assange tem a cabeça a prémio

Julian Assange foi ontem expulso da embaixada do Equador sob detenção da polícia londrina. Nas mãos carregava uma cópia do livro “História do Estado de Segurança Nacional” de Gore Vidal, baseado numa série de entrevistas feitas ao autor pela Real News Network. Enquanto era carregado por agentes, Assange exclamava “Devem resistir!”.

A embaixada era a sua moradia desde há sete anos atrás, quando lá procurou asilo das tentativas transparentes dos Estados Unidos e seus aliados de o punir pelas repetidas ocasiões em que a Wikileaks os tornou alvo de chacota internacional.

Aquando do asilo original, Rafael Correa era Presidente do Equador e Assange tinha a simpatia do governante de esquerda reformista. Desde então, o Equador tem outro presidente, com o nome irónico de Lenín Moreno. Anteriormente Vice-Presidente de Rafael Correa, Moreno revelou-se um vira-casacas da pior espécie, desmantelando muita da legislação progressista do seu predecessor e alinhando-se com os EUA em termos de política internacional. Rafael Correa apelidou-o de “o maior traidor da história do Equador e da América Latina” por permitir a violação da embaixada e soberania do Equador ao entregar Assange aos seus carrascos em desrespeito às leis que governam o asilo político.

1. Nenhum Estado pode expulsar, retornar ou extraditar uma pessoa para outro Estado se existirem razões para crer que estaria em perigo de ser sujeita a tortura.

2. Para fins de determinar se existem razões, as autoridades competentes devem ter em conta todas as considerações de relevo incluindo, quando aplicável, a existência no Estado visado de um padrão consistente de violações grosseiras, flagrantes e em massa de direitos humanos.

Artigo 3 da Convenção contra Tortura das Nações Unidas

Tanto o Equador, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha são signatários da Convenção. Em particular, o Equador acrescenta uma declaração:

O Equador declara que, de acordo com as provisões do artigo 42 da sua Constituição Política, não permitirá a extradição dos seus nacionais.

A nacionalidade equatoriana tinha sido concedida a Assange a 12 de Dezembro de 2017. Esta foi removida recentemente para permitir a sua expulsão da embaixada, alegando irregularidades nos documentos de Assange.

As condições de Assange na embaixada foram severamente degradadas desde a eleição de Moreno, que basicamente tentou impor uma interdição total à actividade política ou jornalística de Assange às ordens dos norte-americanos. A sua comunicação com o exterior já havia sido limitada ao extremo. O seu acesso à Internet e chamadas telefónicas era contingente a termos ditados pelos EUA e as visitas de jornalistas eram controladas e espiadas ao extremo.

Moreno está debaixo de fogo devido ao caso dos chamados “Papéis INA”. Estes envolvem o presidente Moreno, a sua família e amigos próximos numa rede de tráfico de influências, subornos, lavagem de dinheiro e paraísos fiscais.

O governo de Moreno tentou colar as revelações a Assange e à Wikileaks, sem no entanto oferecer provas. Por seu lado, estes argumentam que apenas providenciaram comentário sobre o caso sem no entanto estarem envolvidos nas revelações em si.

A credibilidade de Moreno junto dos equatorianos está agora nos 17%. Ao mesmo tempo, Moreno está a usar Assange como moeda de troca junto dos EUA para a obtenção de acordos relativos ao alívio de dívidas internacionais. Em Fevereiro deste ano, o FMI emprestou 10,2 mil milhões de dólares ao Equador.

Assange enfrenta agora a possibilidade de extradição para os EUA, onde o espera um julgamento burlesco com graves implicações para o jornalismo livre. Independentemente da forma específica que as acusações tomarem, o que estará verdadeiramente em causa será se publicar os segredos embaraçosos de governos ocidentais deve ou não ser considerado um crime digno de prisão – ou algo ainda pior.

As vitórias da Wikileaks

Neste clima, é de assumir que vamos ouvir muitas fabricações sobre as razões pelas quais Assange está a ser perseguido. É importante recordar as muitas e estrondosas revelações da Wikileaks, que lhe ganharam a ira do império, e contrastá-las com as razões mesquinhas que veremos publicitadas na comunicação social.

“Homicídio Colateral”

A 5 de Abril de 2010 rebenta a primeira revelação da Wikileaks, que irá capturar as atenções de todo o mundo. Um vídeo de 17 minutos mostra um piloto de helicóptero de ataque a massacrar civis no subúrbio de Nova Bagdade no Iraque. Junto com inocentes iraquianos mortos e feridos, incluindo crianças, dois jornalistas da Reuters são desfeitos pelo ataque.

O vídeo revela a realidade das guerras “inteligentes” e sanitizadas dos EUA. Por detrás da mentira, está a velha máquina de guerra imperial, indiscriminada e gratuita. O vídeo é visto milhões de vezes por todo o mundo – só a versão publicada no site da Wikileaks conta com 16 milhões de visualizações.

Os registros do Afeganistão e Iraque

A 25 de Julho e 22 de Outubro de 2010, respectivamente, a Wikileaks revela os registros do Afeganistão e Iraque. São uma colecção de documentos pertencentes à máquina militar norte-americana que provam que os EUA estão a esconder o verdadeiro custo em termos de vidas civis das suas guerras, assim como o uso de força indiscriminada sobre civis inocentes por parte das suas tropas e mercenários. Ademais, a conivência das tropas ocidentais com práticas de tortura das forças iraquianas.

Acima de tudo, desmascara também a propaganda de que os Estados Unidos estão a obter algum tipo de “vitória” indefinida no Médio Oriente. Os registros mostram uma situação que se degrada continuamente sem saída à vista.

Os ficheiros de Guantánamo

A 25 de Abril de 2011, a Wikileaks revela informações sobre a natureza e condições dos detidos no campo de detenção extra-judicial norte-americano de Guantánamo. Os documentos mostram que há 150 detidos sem qualquer envolvimento em terrorismo, apenas inocentes que estavam no sítio errado à hora errada.

Feitos prisioneiros durante anos sem direito a julgamento e sujeitos a interrogatórios que procuram extrair informações que não possuem, quase 100 detidos estavam em estado depressivo ou psicótico.

Documentos internos de Estado

Não são uma só revelação, mas um conjunto delas entre 2009 e 2018. Incluem relatórios secretos do Congresso Americano, os conteúdos de contas de email de figuras ligadas ao aparato de espionagem, uma enorme colecção de despachos diplomáticos dos EUA, revelações sobre a espionagem americana sobre os seus “aliados” e as ferramentas usadas pelas suas agências secretas, entre outras descobertas.

Imagem de Carlos Latuff para a Wikileaks

O Estado americano não é o único visado. A Wikileaks também revela informações sobre as negociatas do Estado sírio, saudita, alemão, União Europeia e Emirados Árabes Unidos, entre outros.

As revelações expõem o desprezo dos Estados Unidos por todos os valores internacionais, incluindo os que dizem respeito aos seus aliados, e são um duro golpe diplomático. O mundo é relembrado da máxima de John Dulles: “Os Estados Unidos da América não têm amigos; têm interesses”.

Emails do Partido Democrata e de Hillary Clinton

Em 2016, são reveladas comunicações do Comité Nacional Democrático, responsável, entre outras coisas, pela nomeação de um candidato pelo Partido Democrata às presidenciais norte-americanas.

Os emails mostram que o Comité, supostamente neutro mas na verdade sob controlo da ala Clinton do partido, fez tudo em seu poder para beneficiar a candidata do aparelho em detrimento de concorrentes mais viáveis, e em benefício dos seus oponentes republicanos.

Tal inclui discussões estratégicas sobre acusar Bernie Sanders, de forma implícita, de ser ateu, para o prejudicar junto do eleitorado religioso. Ou sobre os benefícios de fornecer respeitabilidade à candidatura de Trump ao responder-lhe de forma séria nos media e elevar o sua credibilidade enquanto concorrente. Foi calculado que seria uma das candidaturas adversárias contra as quais Clinton teria hipóteses de ganhar. Por detrás da sua cobertura mediática pseudo-populista e pseudo-feminista paga com o dinheiro de bilionários, Clinton era altamente impopular enquanto candidata.

Ao mesmo tempo, a Wikileaks revelou que Clinton utilizava um servidor pessoal de email pouco seguro onde trocava correspondência relativa a segredos de Estado, desgastando ainda mais a sua reputação artificial de estadista séria.

Imagem de Carlos Latuff para a Wikileaks

No rescaldo, Clinton perdeu de forma ignóbil para Trump, uma celebridade de terceira da televisão de entretenimento barato, onde Sanders teria ganho com facilidade. Pela ambição de um dos monstros da História (uma das principais responsáveis pela intervenção militar na Líbia e Síria) e o servilismo da sua máfia política, o mundo tem de sofrer a presidência Trump.

Furioso com o eleitorado e incapaz de reconhecer as suas graves falhas, o aparelho do Partido Democrata e os media que cerraram fileiras com Clinton lançaram-se num espectáculo de russofobia que não era visto desde a Guerra Fria. A culpa por perder a eleição não é certamente deles e da sua incompetência grosseira mas de Putin, escondido debaixo da cama de todo o bom americano temente a Deus, enquanto publica memes de Facebook de tal forma devastadores que estão a destruir a República.

Ainda não vimos o fim deste episódio. Conforme se esfumam as hipóteses de alguma vez vermos provas concretas de que a Rússia fez tudo aquilo de que a acusam, tal como ser responsável pelo hacking dos emails, a horda de intrujões carreiristas que está a encher os bolsos com a paranóia mediática só vai carregar ainda mais nas teorias da conspiração.

Um dos resultados prováveis é que, barrando enfrentar uma candidatura reformista minimamente séria como a de Sanders, Trump será reeleito. Apenas lhe bastará apontar para o falhanço estrondoso da narrativa “Russiagate” e perguntar ao eleitorado: “Se mentiram sobre estas acusações, sobre o que mais terão mentido? Porque vão acreditar no que quer que seja que os meus inimigos dizem de mim?”

Exposição da indústria de espionagem

Uma das áreas de crescimento nos pós 11 de Setembro foram as empresas de espionagem privada como a Stratfor, Hacking Team e Peter Service. Todas elas foram alvo de fugas de informação publicadas pela Wikileaks, que expôs não só as suas campanhas de espionagem como também os seus métodos.

Foi mostrado como estas empresas, para além da habitual espionagem entre nações e corporações, são usadas para espiar grupos de acção política civil. A Stratfor, por exemplo, foi contratada pela Dow Chemical para espiar activistas ligados à procura de justiça pelo desastre de Bhopal, na Índia; a Coca-Cola contratou-os para espiar a PETA; também espiaram o Occupy Wall Street.

Revelaram a cobardia da imprensa

A Wikileaks tem ainda outros casos mediáticos nos seus louros, tal como a revelação das comunicações do AKP, partido do “sultão” da Turquia, Erdogan; ou revelações sobre os acordos comerciais de alto impacto como o TTIP a serem negociados nas costas de quem sentirá os efeitos.

Mas sem dúvida que uma das revelações indirectas mais interessantes da Wikileaks é quanto a imprensa séria e respeitável é um animal amestrado do poder.

Por exemplo, as informações vazadas à Wikileaks por Chelsea Manning estiveram na base do vídeo “Homicídio Colateral” e nas revelações dos registros do Afeganistão e Iraque, assim como dos ficheiros de Guantánamo. Mas antes de abordar a Wikileaks, Manning tinha contactado o Washington Post e o New York Times. O primeiro demonstrou pouco interesse, o segundo nem respondeu à chamada.

Quando finalmente os media começaram a publicar as informações da Wikileaks, foi sempre de forma ressentida. Ou porque a história se tinha tornado grande demais para ignorar ou porque tiveram de colaborar com a organização quando começou a ser levada a sério por medo de perder exclusivos ou de não serem os primeiros com a história.

No entanto, o ressabiamento permaneceu. Aos seus olhos, Assange é um intruso no seu quintal, onde estavam bem descansados a dactilografar comunicados de imprensa do Departamento de Estado e do de Negócios Estrangeiros para vender guerras como a do Iraque com base em mentiras descaradas. Até à sua hora final irão odiar Assange e a Wikileaks por terem demonstrado que são uma farsa e os terem obrigado a fazer o seu trabalho.

É por isso que não poderemos contar com eles para dizer a verdade. Já estamos a assistir à estratégia que será usada para ignorar os direitos e o legado de Assange. Será uma barragem de ataques mesquinhos e legalistas que procurarão despolitizar o que é claramente uma perseguição política. Assange quebrou uma alínea de um acordo com o Equador (que lhe foi imposto unilateralmente). Assange preencheu mal os papéis do asilo. Assange poderá ter ajudado Manning a quebrar uma palavra-passe. Assange foi mal educado com o embaixador equatoriano. Assange revelou dados pessoais irrelevantes de algum criminoso de guerra fulano, sicrano e beltrano. E por aí fora, até descobrirmos que Assange não se lava atrás das orelhas quando toma duche.

Mas não nos deixemos enganar. Assange e a Wikileaks envergonharam os poderosos do mundo. O que querem é a sua cabeça num prato, e irão abrir todos os precedentes contra a liberdade jornalística e o direito internacional que for preciso para a obter.

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