O militarismo e a retórica belicista do Livre~ 6 min

Por F
Já por ocasião das Eleições Europeias do ano passado, tínhamos explorado as posições dos vários partidos quanto à Palestina e algumas das razões pelas quais o Livre nos parece, à esquerda, o pior partido para quem se preocupa com Gaza – e com a nossa sobrevivência colectiva. As múltiplas propostas no campo da defesa que constam do seu programa eleitoral mostram a face militarista e belicista do partido de Rui Tavares, incompatível com a fachada “ecológica” e “de esquerda” construída em torno deste projecto.
No seu programa eleitoral, o Livre defende o aumento e a reorganização do “investimento em equipamentos, meios e alojamentos” dos militares e a utilização dos “mecanismos europeus de financiamento para revitalizar a indústria marítima nacional” – por exemplo, através da participação “em grandes consórcios europeus de renovação de frotas navais militares”.
Na proposta U.9 do seu programa eleitoral, o Livre defende repetidamente “o aumento do investimento em defesa e segurança”, “a modernização das infraestruturas militares” e “os investimentos em reforço de capacidade militar”, desde que estes não sejam “contabilizados na dívida pública e no défice público” e não ponham em causa “avanços no Estado social dos países da UE, nem o combate às alterações climáticas”.
Na proposta Q.15, o Livre defende ainda “políticas de recrutamento que atraiam novos recrutas”, para contrariar a tendência de diminuição do número de efectivos nas Forças Armadas, e a criação de “parcerias com a academia e a indústria (…) [para capacitar] os militares na eficácia das operações”.
Viva a UE, protectora dos direitos humanos
O Livre quer ainda “fomentar uma expansão do conceito europeu de defesa, articulado com uma expansão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional, que promova uma política de segurança e defesa (…) convencional e híbrida” que salvaguarde a Europa “da dependência estratégica e operacional relativamente aos Estados Unidos da América”.
Nesse sentido, o Livre quer optar “sistematicamente nos fornecimentos das Forças Armadas por material de origem europeia ou de outros países comprometidos com a transparência, rastreabilidade e conformidade com padrões internacionais de sustentabilidade e direitos humanos”.
Os mesmos “países europeus” comprometidos com a manutenção das relações diplomáticas, do fornecimento de armamento e do acordo comercial entre a UE e o regime sionista, a acrescer ao facto de continuarem a acolher israel nas competições desportivas e culturais europeias – enquanto este regime leva a cabo o mais brutal genocídio das nossas vidas, em curso na Faixa de Gaza há mais de 19 meses, sem quaisquer consequências.
O problema não é a NATO, mas a ameaça de os EUA saírem da NATO
Durante o debate eleitoral entre o CDS e o Livre, a líder parlamentar do partido de Rui Tavares esclareceu a posição do Livre sobre a NATO. Em resposta à acusação feita por Nuno Melo de que o Livre quer acabar com a NATO, Isabel Mendes Lopes respondeu de forma clara:
O Livre não quer acabar com a NATO, não quer que Portugal saia da NATO.
Isabel Mendes Lopes
Isabel Mendes Lopes acrescentou que é a saída dos EUA da Aliança Atlântica, uma ameaça feita por Trump, que o Livre critica – não a NATO em si.
Aparentemente, o Livre não vê nada de errado na participação dos EUA no genocídio em curso – uma política comum às administrações de Biden e Trump. No único ponto do Programa Eleitoral em que é referida a Faixa de Gaza e a Palestina, não há uma única menção do papel dos EUA e da União Europeia no genocídio em curso.
Também não há uma única referência às repetidas intervenções militares da NATO (e das potências que a lideram) que devastaram o Iraque, o Afeganistão, a Síria, os Balcãs e a Líbia. Nada de surpreendente, tendo em conta que, em 2011, enquanto deputado europeu independente eleito pelas listas do Bloco de Esquerda, Rui Tavares votou a favor da intervenção militar contra a Líbia.
Já enquanto deputado do Livre no parlamento português, Rui Tavares usou o seu lugar para criticar a resistência palestiniana num discurso asqueroso depois da ofensiva lançada a 7 de Outubro de 2023.
Num momento em que o genocídio em Gaza entrava já no seu terceiro mês, Rui Tavares reuniu com um familiar de um dos reféns israelitas em Gaza, num evento promovido pela embaixada israelita em Portugal nas suas redes sociais.
Militarismo não é compatível com ecologia
O Livre construiu a imagem de um partido ecológico, apresentando uma série de propostas detalhadas neste campo que ressoam na juventude preocupada (e com razão) com as alterações climáticas, nos meios académicos e intelectuais “progressistas” e nas classes médias urbanas que ainda não viraram à direita.
A retórica belicista e militarista, no entanto, não é inédita no seio dos partidos verdes e “de esquerda” europeus. Pelo contrário, é um padrão cada vez mais comum – de que Os Verdes alemães são o exemplo mais gritante.
Toda a gente parece esquecer que o militarismo é completamente incompatível com a ecologia – de que serve aplicar uma transição energética às nossas vidas privadas se os conflitos militares continuarem a escalar por todo o mundo, com o apoio e o incentivo do Ocidente? Quantos milhões de litros de combustíveis são consumidos diariamente por todos os tanques, aviões, mísseis, drones e navios de guerra activos pelo planeta fora? Quais as consequências de uma possível Terceira Guerra Mundial?
O Livre é, na verdade, um partido implantado no seio da esquerda portuguesa, que tinha um histórico posicionamento anti-imperialista, mas que está plenamente alinhado com as lógicas belicistas e imperialistas ocidentais.
Afinal, porque é que o partido defende a continuação do apoio militar ocidental à Ucrânia, mas não é capaz de dizer uma única palavra sobre enviar armas à resistência palestiniana?


