O reconhecimento do Estado da Palestina: uma falsa questão~ 5 min

Por F

Muito se tem falado nos últimos meses do reconhecimento do estado da Palestina. As promessas feitas repetidamente por líderes ocidentais, como Macron, têm produzido muitas manchetes e contribuído para alimentar essa ilusão de que “a maré está a mudar” e os nossos governantes finalmente nos estão a ouvir.

No entanto, reconhecer a Palestina não passa de um exercício de retórica – por si só, não tem qualquer impacto na realidade no terreno.

Há um ano atrás, a Irlanda, o Estado Espanhol e a Noruega reconheceram a Palestina. Ontem, o parlamento norueguês rejeitou uma proposta que forçaria o Fundo Soberano da Noruega a desinvestir de todas as empresas que operam nos colonatos israelitas na Cisjordânia – os mesmos colonatos que tornam inviável um Estado Palestiniano que seja mais do que um conjunto de bantustões totalmente rodeados por colonos israelitas.

O fundo de mais de 1,5 triliões de dólares, alimentado pelos lucros das exportações de gás e petróleo e gerido pelo Norges Bank, é o maior fundo soberano do mundo e o maior fundo europeu cúmplice com o genocídio e a ocupação da Palestina. A proposta foi chumbada, com 88 votos contra e apenas 16 a favor.

Durante a sessão, o presidente do parlamento, do mesmo partido do actual governo que reconheceu a Palestina, pediu a uma deputada para guardar o keffiyeh que trazia nos ombros antes de fazer a sua intervenção.

Muito blá blá, pouca acção

Apesar dos anúncios pomposos e das manobras mediáticas, o comércio de armamento (e não só) com o regime sionista está mais vivo que nunca.

Como denuncia o site de notícias irlandês The Ditch, os voos que transportam peças para os F-35 israelitas continuam a passar pelos aeroportos irlandeses, e as exportações irlandesas para os colonatos israelitas na Cisjordânia durante o ano de 2024 são 40 vezes superiores aos números oficiais divulgados pelas autoridades irlandesas.

O Estado Espanhol, apesar de repetidas promessas em sentido contrário, tem hoje mais negócios com a indústria do armamento israelita do que alguma vez teve. E, mesmo quando contratos com empresas israelitas são rasgados, como aconteceu esta terça-feira, são substituídos por contratos com outras empresas de armamento cúmplices com o genocídio em curso – neste caso, as norte-americanas Raytheon e Lockheed Martin.

A França, apesar das promessas de Macron, continua a enviar secretamente para o regime sionista material militar produzido em território francês, como denuncia uma investigação conjunta do The Ditch e do media francês Disclose publicada ontem.

147 países, a esmagadora maioria do Sul Global, reconhecem a Palestina – o que não impede gigantes como a África do Sul e o Brasil de, em pleno genocídio, aumentarem as exportações de carvão e combustíveis que alimentam a máquina de guerra israelita que está a tentar obliterar Gaza e a acelerar a limpeza étnica da Cisjordânia.

Colaboracionistas

E há outro problema: o reconhecimento da Palestina vem associado não só à defesa da “solução dos dois estados” e das fronteiras de 1967, mas também ao reconhecimento da Autoridade Palestiniana (AP) como a legítima representante do povo palestiniano.

Sediada em Ramallah e liderada por Mahmoud Abbas, a AP é uma força colaboracionista que funciona como uma extensão do regime sionista para administrar os bantustões da Cisjordânia.

Entre Dezembro de 2024 e Janeiro de 2025, antes da escalada de agressões israelitas na Cisjordânia que sucedeu ao anúncio de cessar-fogo em Gaza, a AP levou a cabo, a pedido do regime sionista, uma intensa campanha contra as forças da resistência palestiniana no campo de refugiados de Jenin, durante a qual matou, feriu e deteve tanto combatentes como civis.

Segundo a Axios, Mahmoud Abbas lançou a operação em Jenin “para enviar à administração Trump a mensagem de que a Autoridade Palestiniana é um parceiro de confiança”. O mesmo Abbas que recentemente culpou o Hamas pelo genocídio em curso e exigiu “a libertação dos reféns”.

A Palestina precisa de acções concretas, não de exercícios de abstraccionismo

O tempo dedicado pelos movimentos pró-Palestina a apelar à assinatura de petições pelo reconhecimento do estado da Palestina, ou a partilhar as “boas notícias” que trazem mãos cheias de nada, seria mais bem empregue a denunciar a cumplicidade presente a toda a nossa volta – e a fazer algo quanto a ela.

Afinal, estão presentes em Portugal vários bancos – bem grandes por sinal – com investimentos na máquina genocida israelita – assim como seguradoras, empresas de transportes e até a empresa de armamento israelita Thales.

20 meses depois, o funcionamento destes bancos, seguradoras e empresas continua a não ser perturbado, e as fachadas dos seus escritórios e agências continuam imaculados – com excepção de uma dezena de ataques levados a cabo por pequenos grupos de accionistas contra agências do BPI, BBVA, Santander e Allianz em Lisboa, Almada e Caldas da Rainha durante os últimos 6 meses.

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