Anta Gathering & Companhia: Música, liberdade, amor e genocídio~ 27 min

Por Francisco Ulrike
Portugal, um dos destinos de sonho para os colonos israelitas em fuga da Palestina ocupada, é também um paraíso onde genocidas vêm para festivais zionist-friendly expurgar os seus pecados ao som de música electrónica.
O Anta Gathering, um destes festivais, ia ter início na quinta-feira perto de Manhouce, município de São Pedro do Sul, distrito de Viseu. Mas algo lhes estragou os planos – uma denúncia do Comité de Solidariedade com a Palestina (CSP), publicada na segunda-feira no instagram, chegou a 250 mil pessoas e obteve quase 10 mil likes em apenas 72 horas.
Como denuncia o CSP, o festival é «um encontro psytrance onde os organizadores, a produção, o proprietário do terreno, artistas e outras entidades associadas são, quase exclusivamente, israelitas sionistas». Um dos irmãos organizadores, Shahar Pierre Bickel, «é um soldado reservista que regressou a israel em outubro de 2023, quando israel iniciava o genocídio em Gaza, para se alistar no exército de ocupação» e «é soldado no batalhão “Sayeret Nahal”, uma unidade das forças especiais e de reconhecimento integrada na brigada Nahal».
O burburinho que se gerou nas redes sociais levou a que pelo menos três artistas cancelassem as suas actuações, e a que câmara municipal e o posto de comando da GNR de S. Pedro do Sul fossem bombardeados com chamadas de pessoas indignadas a exigir o cancelamento do festival. Na tarde de quinta-feira, a organização do Anta Gathering anunciou oficialmente o seu cancelamento.
Antes disso, a organização publicou um comunicado a reagir à denúncia, tal como fizeram cada um dos irmãos organizadores – todos acusam o CSP de espalhar “mentiras” e “ódio”, distorcendo as acusações que lhes são feitas para depois as poderem negar.



Num texto publicado nas suas redes sociais, Shahar Bickel afirma: «Eu não estive em Gaza e não matei ninguém», enquanto o Anta Gathering afirma que «nós não somos soldados» e que «nenhum membro da equipa de produção esteve em Gaza nem participou na morte de seres humanos». O que falta saber é se consideram os palestinianos seres humanos, pois em nenhum dos comunicados referem as palavras “palestinianos” ou “Palestina”.
Dizem também que «nós não somos o nosso país, não somos o nosso governo», mas conseguem a proeza de não aproveitar a oportunidade para condenar a ocupação, o apartheid ou o genocídio – a que se referem com a palavra “guerra”.
Shahar Pierre Bickel e o serviço nas IDF
Shahar Bickel nega algo de que nunca foi acusado: servir em Gaza.
Como o CSP afirma, Shahar «regressou a israel em Outubro de 2023, quando israel iniciava o genocídio em Gaza, para se alistar no exército de ocupação».
Numa publicação datada de 13 de Outubro de 2023, Shahar Bickel anuncia que, perante a «decisão mais complexa» da sua vida, tinha escolhido «regressar e proteger os meus entes queridos».




O facto de não ter estado em Gaza não o torna menos genocida. Shahar foi “proteger o seu país” em Outubro de 2023 e servir as IDF na frente do Líbano – assegurando que os seus colegas pudessem cometer o genocídio em Gaza sem serem importunados.
Um nazi que, durante a 2ª Guerra Mundial, tivesse combatido na frente da Bélgica, seria menos problemático pelo facto de não ter participado directamente em pogroms de judeus no Leste europeu? Alguém no seu perfeito juízo afirmaria que um membro das SS era menos nazi por não ter estado destacado em Auschwitz?
No entanto, Shahar podia ter servido nas forças de ocupação no início do genocídio e, em algum momento dos últimos 22 meses, feito auto-crítica – e a crítica do regime instalado na Palestina ocupada desde 1948, dos 77 anos de ocupação e martírio, e da sua posição enquanto colono e soldado. Shahar podia ter condenado o genocídio e o regime de apartheid sionista, e ter-se tornado uma voz contra a narrativa que tenta associar todos os judeus às acções das IDF. Mas não o fez.
Celebrar a Nakba
Há apenas 4 meses, no início de Maio, teve lugar no Deserto do Naqab, no sul da Palestina ocupada, um festival para celebrar a “independência de israel” – ou seja, celebrar a Nakba. E Shahar promoveu-o.
Em maio de 2025, em plena campanha de utilização da fome como arma de guerra, Shahar promoveu uma festa do dia da “independência” de israel, onde se celebrou a Nakba e o actual genocídio em Gaza. Essa festa foi organizada pela produtora israelita “Fusion Culture”, que fará um showcase musical no “Anta Gathering”, apresentando 5 artistas israelitas do seu catálogo.
Comité de Solidariedade com a Palestina
O festival organizado pela Fusion Culture e promovido por Shahar Bickel decorreu entre 1 e 3 de Maio na “Desert Base”, no sul do Naqab.
Numa publicação a 6 de Maio de 2025, Shahar afirma:
Depois do último fim-de-semana na Desert Base, realmente entendi o tamanho da responsabilidade e o tamanho do papel que assumimos sobre nós mesmos – trazer pessoas para um festival que está a acontecer em Israel, e com que não temos muito a ver, é algo muito desafiador.
Mas eu definitivamente acredito em nós, na nossa visão e no nosso sonho, na energia e na música.
Shahar Pierre Bickel
Este festival é a síntese da cultura psicadélica sionista: celebrar o regime sionista a curtir som em terra roubada aos palestinianos, sem mencionar sequer a existência dos palestinianos nem a limpeza étnica sobre a qual assentaram as fundações do estado de israel. Fazer isto é celebrar a própria Nakba e o apagamento da Palestina – um processo que dura há 77 anos e se desenrola agora a um ritmo alucinante.
Com sorte, são os mesmos que achavam normal estar a acontecer, a 7 de Outubro de 2023, um festival “da paz e do amor” ao lado do maior campo de concentração do mundo.
Genocidas são vítimas, BDS é violento
Os pobrezinhos dos organizadores do Anta já se foram queixar para meios de comunicação israelitas como o Times of Israel e o Channel 10 – a quem afirmaram que foram feitas “ameaças contra o município” e contra “vários dos artistas participantes”, sugerindo que foram as ameaças que levaram aos cancelamentos.
Num outro comunicado, Shahar Din e Yotam, produtores do Anta Gathering, acusam a campanha de ter por objectivo “impedir a realização do festival através da intimidação e da violência”.
A estratégia é a habitual – defender genocidas como vítimas inofensivas que só querem “espalhar paz e amor”, enquanto pintam organizações e vozes pró-Palestina como “violentas” e “ameaçadoras”.
Lê-se no comunicado inicial do Anta Gathering:
Muitas forças movidas pelo ódio e pela ignorância estão a tentar impedir que este evento aconteça simplesmente por causa do local onde nascemos.
Após o anúncio do cancelamento do festival, reforçaram essa mesma ideia, lançando uma campanha de recolha de fundos com o título «Because We Are ISRAELI – When Music is Silenced by Hate».

Como se o problema fosse o sítio onde nasceram, e não as suas acções e posições – ou a falta delas.
Para todos os israelitas que querem ser bem-vindos em Portugal, há uma maneira muito simples: denunciem não só o governo do “malvado do Netanyahu”, mas o regime sionista como um todo – a ocupação, o apartheid e o genocídio. Tornem-se uma voz pela libertação do povo palestiniano e pela descolonização da Palestina. Usem a vossa influência para pressionar pelo fim do Holocausto dos nossos tempos. Façam os vossos familiares, amigos e conhecidos compreender que não faz sentido viver em terra roubada regada há décadas com sangue palestiniano.
Se és israelita e serviste nas IDF durante o genocídio – mesmo que não em Gaza – e não condenas as forças de ocupação israelitas, és responsável pelas seus crimes. És um genocida.
Se afirmas com orgulho que és israelita e não condenas a ocupação da Palestina, és cúmplice das acções que o “Estado judeu” comete em teu nome. E não é a defesa de uma abstracta “paz e amor” que te salva.
E já agora: eles são tão coitadinhos que, em apenas 48 horas, já arrecadaram mais de 20 mil euros no seu crowdfunding – mais do que a maioria das famílias em Gaza conseguem juntar num ano inteiro.
Cancelamentos e respostas vagas
Antes do cancelamento do festival, três artistas anunciaram o cancelamento das suas actuações: Yellow Mellow Sound, Soulid e Renato Oliveira/Til Sunday Pirate.
Os anúncios por Yellow Mellow Sound e Soulid são bastante pobres e vazios de posicionamentos, com este último a referir que o cancelamento se deveu “às últimas notícias e também aos ataques de ódio que tenho recebido”, sem no entanto parecer incomodado com o facto de um dos organizadores ter servido nas IDF durante o genocídio em curso.
Renato Oliveira, por outro lado, publicou um texto mais longo a justificar o cancelamento – ainda que sem referir uma única vez as palavras “Gaza”, “Palestina”, “genocídio” ou “IDF”. No entanto, em declarações ao Público, explicou mais em detalhe as razões que o levaram a tomar a decisão:
Tendo sabido das ligações dos organizadores ao exército israelita apenas na segunda-feira, o músico e produtor português pediu-lhes “uma declaração sobre a sua posição política”. “Como a resposta foi muito vaga e não houve nenhuma afirmação concreta sobre esta matéria, mas sim um discurso de vitimização, percebi que não era possível continuar a fazer parte da programação”, diz ao PÚBLICO. “Senti que a minha presença poderia ser interpretada como indiferença ao sofrimento humano”, continua. “E eu acredito que a música deve servir para dar voz à vida, à paz e à dignidade, não para criar ambiguidades.”
em “Festival organizado por israelitas com ligações às IDF foi vetado em Portugal”, Público, 27 de Agosto de 2025
A cultura psicadélica e o genocídio
A denúncia do Comité de Solidariedade com a Palestina termina com um apelo à comunidade psicadélica:
A cultura psicadélica em Portugal não pode ser um porto seguro para quem cometeu crimes de guerra e contra a humanidade.
O problema é que esta cultura há muito que está intrinsecamente ligada ao regime sionista. O trance psicadélico, ou psytrance, surgiu em Goa, na Índia, nos anos 80 – e foi importado para a Palestina ocupada por jovens israelitas que viajavam em grandes números para Goa após cumprir o serviço militar nas forças da ocupação. O regime sionista é, desde então, um dos mais importantes hubs mundias da cultura psicadélica, de onde surgiram alguns dos maiores nomes da cena psytrance, como Astral Projection, Infected Mushroom e Skazi.
O artigo “Psytrance and Israel”, assinado pela “jornalista cultural” norte-americana Katie Bain e publicado pela RedBull Music Academy, dá um bom vislumbre da psique da comunidade psicadélica israelita. Blain usa expressões como “auto-expressão radical”, “espiritualidade” e “criação de laços comunitários”, e refere-se às drogas como “substâncias de expansão de consciência ” – pintando a comunidade de misticismo, irreverência e amor pela paz, enquanto ignora completamente que esta cultura se desenvolveu em terra palestiniana roubada durante a Nakba. Não menciona uma única vez as palavras “Palestina”, “ocupação” ou “apartheid”, e refere-se aos palestinianos como “muçulmanos”.
Na verdade, estas festas e o uso de drogas psicadélicas servem, fundamentalmente, para os israelitas se abstrairem da sua realidade «cheia de stress» e das suas experiências ao serviço das forças da ocupação israelitas – onde regularmente abusam de famílias indefesas, praticam tiro ao alvo contra crianças palestinianas e detonam edifícios residenciais, apenas para depois se virem queixar de stress pós-traumático.
E, como se não bastasse, esta cultura “de paz e amor” também exclui os palestinianos que são cidadãos de segunda no estado de israel. Como explica uma figura importante do psytrance israelita entrevistada para o artigo:
“Israel é um lugar especial, mas é também cheio de stress”, diz Omri Homsy Harari, fundador de uma das primeiras psy magazines on-line israelitas e sócio da Groove Attack, a promotora de vários dos maiores festivais psicadélicos do país. “Andamos sempre stressados. As pessoas precisam de um escape para, de uma forma extrema, encontrar paz e descanso.”
“As pessoas vão para estas festas para fugir da sua realidade. (…)
O espírito de inclusão não se aplica a toda a população israelita. Embora árabes e outras minorias estejam envolvidos, são os judeus Ashkenazi seculares que constituem o grosso dos organizadores e participantes da cena [psicadélica]. “Não é que não haja lugar para muçulmanos”, diz Harari, “mas é uma questão problemática. Nunca poderia dar uma boa resposta.”
Katie Bain em “Psytrance and Israel”
Mas a podridão da cultura psicadélica israelita não acaba aqui. Nos últimos 23 meses, o mundo viu colonos a organizar raves para bloquear a entrada de ajuda humanitária em Gaza, e soldados israelitas a dançar ao som de trance psicadélico dentro de casas palestinianas em Gaza, enquanto fazem demolições de edifícios, ou nas suas pausas do genocídio.
E não é como se a cultura psicadélica sionista não fosse recebida de braços abertos nos mais importantes festivais de psytrance do mundo – o Ozora, o Boom e o Tomorrowland estão consistentemente repletos de DJs (e público) israelitas. Veja-se, por exemplo, o caso desta bizarra cena na edição do ano passado do Tomorrowland, em que o DJ Skazi dedica, em hebraico, o seu set ao estado de israel, aos reféns e aos soldados das IDF – perante uma plateia cheia de bandeiras israelitas.
Interessante, não é? Para quem fala tanto de paz e amor…
Esta é a maior contradição da cultura psicadélica – e que a sua comunidade não quer enfrentar. Falam de espiritualidade, consciência, unidade e paz, mas dão constantemente palco a genocidas. As posições vagas e vazias dos músicos que cancelaram as suas actuações no Anta Gathering mostram que, até entre sectores da comunidade que são mais sensíveis a este tema, todas essas palavras não passam de figuras de estilo.
O Anta Gathering estava planeado ter lugar num terreno que Yotam Ittah, primo dos organizadores, adquiriu para nele construir um centro de retiros, yoga e meditação – e, aparentemente, a meditação combina com eventos organizados por gente que serviu nas IDF durante o genocídio em curso.
Como explica um texto partilhado por Darren Sangita, um dissidente israelita, produtor de psytrance e defensor dos direitos do povo palestiniano:
O trance psicadélico israelita não é apenas um fenómeno cultural – está profundamente enredado no sionismo, trauma militar, identidade de colono e a ocupação em curso. Embora indivíduos da cena [psicadélica] possam ver-se como apolíticos e amantes da paz, as estruturas de que fazem parte reforçam frequentemente os sistemas de apartheid e apagamento.
Portugal: um antro de festivais sionistas
Muitas têm sido as denúncias de festivais com a participação de artistas israelitas apologistas do genocídio ou ligações a produtoras e empresas sionistas. A denúncia do Anta Gathering foi a que se tornou mais viral e provocou um clamor ensurdecedor pelo seu cancelamento – mas há muitos outros casos igualmente chocantes, ou ainda mais.
O Insomnia Festival, que está a decorrer este fim-de-semana, tem no alinhamento 7 artistas israelitas, entre eles o duo Astral Projection, que actuaram para soldados das IDF durante o genocídio em Gaza e fazem abertamente apologia do genocídio do povo palestiniano.
Como denunciou Paulo Saraiva no final de Julho:
O Festival Insomnia deste ano em Portugal inclui descaradamente actuações com profundos e perturbadores laços ao complexo militar israelita, incluindo os Astral Projection, que recentemente promoveram uma festa em Gaza. (…)
Aos participantes portugueses confirmados para o Festival Insomnia, digo: deviam ter vergonha. Colaborar com um alinhamento que inclui apoiantes declarados de apartheid e genocídio revela claramente onde estão os vossos princípios – ou a falta deles.
O Boom Festival está igualmente repleto de ligações a israel – e não é de agora. De acordo com uma análise publicada pela conta @shape.of_water, dos cabeças de cartaz que actuaram nos dois palcos principais na edição deste ano, 47% eram israelitas – e, entre as editoras representadas, destacam-se 4 que são israelitas ou têm fortes ligações com a cena de psytrance israelita.
A @shape.of_water denuncia também que as actuações dos artistas israelitas receberam financiamento do Ministério da Cultura sionista para “diplomacia psytrance“, e revela, entre outras coisas, extensas ligações entre o Boom e um dos maiores festivais de psytrance israelitas.
Obviamente, a participação sionista no Boom não se resume aos artistas e às editoras, mas encontra-se também no público. O Comité de Solidariedade com a Palestina identificou pelo menos 3 membros das IDF que participaram no genocídio em Gaza e estiveram no Boom: Gil Cohavi (Boom, genocídio), Ziv Elkayam (Boom, genocídio) e Amos Iluz (Boom, genocídio). Provavelmente foram muitos mais – estes são apenas aqueles que têm os seus perfis abertos ao público.
Ao cobrar preços exorbitantes e excluir vozes palestinianas e artistas alinhados com o BDS, o Boom garante que a «cura» é apenas para os colonizadores.
É uma clássica psyop neoliberal: vender beats de trance e visões de ayahuasca para entorpecer as massas, enquanto seres humanos reais, famílias palestinianas despedaçadas por bombas, sofrem em silêncio.
@shape.of_water
Detrás destes dois festivais mais conhecidos, há uma panóplia de outras festas, gatherings e eventos que acolhem artistas israelitas.
O River Riders Gathering, por exemplo, teve lugar entre 30 de Julho e 1 de Agosto num “jardim secreto” no Centro de Portugal, e contou com pelo menos 5 israelitas no alinhamento – entre eles BickeloZ, o nome artístico de Dean Bickel, irmão de Shahar Bickel e co-organizador do Anta Gathering.
Quem quisesse inscrever-se no River Riders era encaminhado para um número de whatsapp com indicativo israelita – o organizador do festival é Saar Alperovich, um sionista liberal que critica o governo de Netanyahu, não por nutrir qualquer simpatia pelos palestinianos, mas por entender (e bem) que as acções do regime sionista nos últimos anos vão levar à sua auto-destruição. Nas suas redes sociais, não conseguimos encontrar uma única condenação do apartheid ou da ocupação, mas encontrámos propaganda contra a resistência palestiniana.






Entre vários outros festivais que têm sido acusados nas redes sociais de ligações a artistas e produtoras sionistas, destaca-se o ZNA – ligações que não tivemos oportunidade de explorar até à data de publicação deste artigo.
Mas há muitos outros eventos e espectáculos com sionistas a acontecer por todo o lado e a toda a hora: o abominável DJ Skazi vai actuar em Lisboa no dia 8 de Novembro, num evento num “local secreto”. Há um mês, a exposição pública das suas relações com as IDF levou-o a cancelar a sua actuação no Tomorrowland deste ano – será que conseguimos impedi-lo de vir a Lisboa?
E a presença de sionistas também se faz sentir noutras esferas do universo shanti – o movimento Ecstatic Dance LX, por exemplo, está pejado deles.
No passado dia 23 de Agosto, um evento da Ecstatic Dance LX, com um programa de um dia completo, juntou uma série de artistas, incluindo vários israelitas que organizaram eventos ou actuaram em israel durante o genocídio em curso – como Guy Elhadad, Gili Agilos, Avishag Gaya, Adi Cohen e Maiky. Maiky, por exemplo, actuou na “celebração da independência” na “Desert Base”, em Maio, e no River Riders; fez uma tour em israel no Outono do ano passado; ia actuar no Anta Gathering; e parece ter uma relação de longa data com a Fusion Culture.
[Entretanto, fomos informados que este evento, organizado por Avishag Gaya, não está relacionado com um outro grupo com o nome Ecstatic Dance Lisboa – algo de que, como o grupo também não tem qualquer posicionamento sobre o genocídio em Gaza nem repudiou este evento de 23 de Agosto, não tínhamos conhecimento. Apesar dos vários pedidos, mantemos os parágrafos abaixo (ver nota no final da secção)]
As pessoas que se presumem mais envolvidas na Ecstatic Dance Lisboa – identificadas como colaboradoras em muitas das publicações do movimento – publica maioritariamente nas suas redes fotos sorridentes, vídeos de comida enquanto Gaza morre à fome, fotos do Boom e de eventos de dança, mas nenhuma referência ao genocídio em curso. Um bom retrato do universo shanti, repleto de gente que se enche de harmonia e paz interior enquanto ignora o Holocausto dos nossos tempos – que, após 23 meses, continua a progredir graças à inacção da generalidade das sociedades ocidentais.
A única excepção é Shivani Soares, que colabora frequentemente com a Ecstatic Dance Lisboa e, sim, toma uma posição pública sobre o genocídio, tendo já organizado pelo menos uma recolha de fundos para Gaza.
CORRECÇÃO [01/09/25]: Recebemos esta manhã várias mensagens a chamar-nos à atenção para o facto de o evento de 23 de Agosto não ter sido organizado pela Ecstatic Dance Lisboa, mas pela Ecstatic Dance LX, uma iniciativa que usa o mesmo nome mas é organizada por pessoas israelitas, algumas das quais se mudaram para Lisboa depois de Outubro de 2023. Uma atitude de usurpação nada surpreendente vinda de colonos israelitas.
Eis uma boa oportunidade para a Ecstatic Dance Lisboa tomar finalmente uma posição sobre o genocídio em Gaza e repudiar publicamente este grupo de sionistas que vem para Lisboa organizar eventos de dança que promovem “a conexão” e “o bem-estar”, enquanto continuam a organizar e participar em eventos na Palestina ocupada num momento em que o genocídio na Faixa de Gaza entra na sua fase final e a limpeza étnica da Cisjordânia avança a passos largos.
Individualismo e cumplicidade
Sejamos francos: a maioria da comunidade psicadélica (não-israelita) não é a favor da morte de crianças nem do extermínio de povos inteiros – mas, quando confrontada com estas contradições, prefere ignorá-las. Refugia-se em chavões como “é um conflito muito complexo” ou “ambos os lados” isto ou aquilo, na defesa de uma abstracta “paz e amor”, e desconsidera as críticas em nome do seu prazer individual, como quem diz: ”não me chateies com questões difíceis, deixa-me curtir a moca em paz”.
O problema é que, nestes eventos, a pessoa ao lado de quem tu “curtes a tua moca em paz”, daqui a um mês pode estar em Gaza a exterminar palestinianos – ou a provocar caos e destruição no Líbano, Iémen, Síria ou Irão.
Quem vai a estes festivais conviver com genocidas, e encher os bolsos a artistas e produtoras israelitas, contribui para o branqueamento dos crimes do regime sionista. É claro como a água – só não vê quem não quer ver.
E depois há personagens como Diogo Faro, que nos aparece no ecrã como o influencer defensor das causas justas, mas tem o descaramento de ir ao Boom e partilhar nas stories fotos com uma melancia e com o livro “Gaza está em toda a parte”. Não. O que está em toda a parte são os sionistas e a falta de princípios.


No mundo distópico em que vivemos, podes ser um influencer que publica reels sobre a Palestina, mas depois sacrificas os teus princípios no altar do hedonismo para ir abanar o capacete num festival cool. É este individualismo – liberal e pós-moderno – que é a maior ameaça à nossa sobrevivência colectiva – mais que o fascismo e o sionismo das nossas elites.
[Se tiverem denúncias ou informações sobre festivais ou eventos com a participação de sionistas, enviem para contacto@guilhotina.info.]

