Presos políticos pró-Palestina em greve de fome dos EUA ao Reino Unido~ 10 min

Por Calla Mairead Walsh. Traduzido por Ana Só, do original em inglês publicado a 28 de Agosto.

NOTA: A prisioneira política T. Hoxha declarou hoje vitória e interrompeu a sua greve de fome ao 28º dia. No entanto, este texto fornece uma análise importantíssima sobre a relação entre a luta pela libertação da Palestina e os prisioneiros políticos – e põe em evidência das contradições presentes na maioria das organizações pró-Palestina no Ocidente.

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28 de Agosto de 2025 — A prisioneira política T. Hoxha está a morrer.

T. Hoxha está no 18.º dia da sua greve de fome na prisão HMP Peterborough, em protesto contra os abusos políticos da prisão. Sendo uma dos Filton 24 – detidos indefinidamente ao abrigo da «Lei do Terrorismo» britânica enquanto aguardam julgamento na próxima Primavera –, Hoxha é acusada de ter participado no heróico desmantelamento de uma fábrica de armas da Elbit Systems, causando prejuízos no valor de 1 milhão de euros.

Após mais de duas semanas em greve, os familiares de Hoxha relatam que a sua saúde física e mental está a deteriorar-se rapidamente, o seu cabelo está a cair, sente dores nos maxilares, e a sua confusão mental está a piorar, enquanto a prisão negligencia os seus cuidados médicos. Os apoiantes no exterior estão a organizar uma campanha de telefonemas para exigir que a administração da prisão lhe forneça saquetas de electrólitos e satisfaça as suas exigências: a reintegração no seu emprego na biblioteca da prisão e a entrega da sua correspondência, que a administração da prisão está a reter. A 27 de Agosto, Hoxha desenvolveu febre, teve uma dor de cabeça persistente, vomitou após tomar vitaminas e notou uma descoloração da pele, e uma enfermeira anunciou que Hoxha está na “zona de perigo”. Desde 28 de Agosto, os apoiantes estão a pedir que ela seja urgentemente internada num hospital.

Agora, mais vidas estão em risco. Quando Casey Goonan, único prisioneiro político nos EUA da intifada estudantil de 2024, soube da greve de fome de Hoxha, a 26 de Agosto, Casey e a sua companheira de cela na prisão de Santa Rita declararam imediatamente uma greve de fome em solidariedade com Hoxha até que as exigências desta fossem atendidas, internacionalizando a greve. Recusar-se a ingerir alimentos é especialmente arriscado para Casey, que tem diabetes, mas que já organizou greves de fome colectivas bem-sucedidas no passado.

À semelhança dos prisioneiros da Pal Action UK, Casey tem sido repetidamente alvo de perseguição, devido à natureza política do seu alegado crime, e deliberadamente isolado dos outros reclusos, uma táctica clássica utilizada pelo estado contra prisioneiros políticos para impedir que os reclusos se organizem. Ainda este Verão, Casey sofreu retaliações por ter apresentado uma queixa contra um guarda ameaçador, e viu as suas chamadas telefónicas, visitas e acesso à cantina revogados durante mais de um mês. O estado adiou várias vezes a audiência de sentença de Casey, que deveria ter tido lugar em Abril, mas está agora marcada para 23 de Setembro de 2025. Casey pode ser condenado a até 20 anos numa prisão federal com “agravante de terrorismo” por alegadamente ter incendiado veículos da polícia na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Também a semelhança da utilização da legislação contraterrorista como arma nos casos do Reino Unido, acrescentar esta «agravante de terrorismo» às acusações de Casey dá ao governo federal muito mais margem para abusos e excessos draconianos na sentença e tratamento de Casey.

Para anunciar a expansão da greve, Casey publicou a seguinte declaração:

Hoje soube da T Hoxha, uma prisioneira da Pal Action no Reino Unido que está no 16.º dia de greve de fome na prisão HMP Peterborough. Às 16h00 de 26 de Agosto de 2025, duas das suas três exigências foram atendidas, mas ela continua em greve para exigir que a prisão liberte a correspondência que lhe tem sido retida.

Como prisioneiros detidos pela nossa participação, no Ocidente, no movimento pela libertação da Palestina, temos uns para com os outros a responsabilidade, além-fronteiras, de conduzir as nossas vidas na prisão com a mesma resiliência do movimento dos prisioneiros palestinianos mantido em cativeiro nas prisões israelitas.

Os estados pelos quais fomos capturados são os facilitadores do genocídio e extermínio acelerados dos palestinianos em Gaza pela entidade sionista, bem como dos genocídios em curso dos povos negros e indígenas cujas terras continuam a ocupar.

À medida que a esquerda ocidental continua a saltar de crise em crise e a fugir às suas responsabilidades para com a Palestina, só nos temos a nós. Por “nós”, refiro-me às pessoas que enfrentam repressão pelo seu apoio à Palestina, que estão a sacrificar-se, a sacrificar-se de verdade. Pessoas como T. Hoxha, que sofreu 16 dias de fome apenas para receber o seu correio.

O movimento de solidariedade com a Palestina no Ocidente não pode abandonar pessoas como ela, que arriscaram as suas vidas e continuam a fazê-lo em resistência a esta intolerável condição de genocídio.

Solidariedade é acção, não palavras. A partir de hoje, o meu companheiro de cela e eu estamos em greve de fome na prisão de Santa Rita até que as suas exigências sejam atendidas. Solidariedade com T. Hoxha e todos os prisioneiros do movimento de solidariedade com a Palestina!

DERRUBEM OS MUROS! LIBERTEM TODOS OS PRISIONEIROS DO IMPÉRIO COLONIALISTA!

À medida que os corpos de Hoxha e Casey definham e enfraquecem, e começam a devorar-se vivos, temos de nos perguntar: por que não ouvimos os seus nomes serem entoados nas ruas em protestos pró-Palestina, os seus rostos estampados em cartazes e murais, as suas reivindicações reproduzidas em conferências e panfletos? Onde estão as ONG podres de ricas que poderiam usar as suas enormes plataformas para defender Casey e os Filton 24 e, se não para doar para os seus fundos legais, pelo menos para reconhecer a sua existência? E Elias Rodriguez, Jakhi McCray, Tarek Bazrouk e inúmeros outros prisioneiros políticos nos chamados Estados Unidos? São demasiados para citar. Como é que alguém aqui se atreve a expressar derrotismo a partir das suas casas quentes ou a queixar-se de que nenhum de nós se sacrifica, sem fazer nada para escalar – e ignorando as pessoas que fizeram sacrifícios e agora estão presas em celas frias? Quantas pessoas chegarão ao fim deste artigo sem fazer uma chamada a favor dos grevistas de fome?

Hoxha, os Filton 24, Casey, Elias, Jakhi e prisioneiros políticos de longa data como Mumia, Imam Jamil al-Amin e os da Revolta de George Floyd, não recebem o tipo de apoio que merecem da parte do movimento, especialmente das ONG que se identificam como a liderança do movimento, porque não são “vítimas perfeitas”. Não são acusados de serem pacíficos, são acusados de resistir e, não pedem desculpa por isso.

Como escreveu um dos camaradas de Casey no artigo “Sobre Casey Goonan e o abandono dos prisioneiros políticos no movimento pró-Palestina”, «Apesar das vagas afirmações sobre a interligação da repressão e das lutas entre os aparatos policiais e prisionais americanos e os israelitas, tem havido pouca manifestação concreta dessa compreensão dentro do movimento pró-Palestina nos EUA. Entretanto, a luta coordenada entre prisioneiros e militantes externos tem sido um ponto-chave para o sucesso da libertação palestiniana.» Aponta para o carácter pequeno-burguês e a ONGização do “movimento” nos EUA, e sua atitude reformista em relação ao imperialismo e colonialismo americanos, como prováveis explicações para o seu isolamento dos militantes e fracasso em escalar de forma geral. Como D. Musa Springer afirmou na Mondoweiss, esta tendência é oportunista e suicida — «não nos vermos reflectidos nos rostos dos nossos prisioneiros políticos e nos organizarmos em conformidade… Permitimos que os nossos prisioneiros políticos se tornassem fantasmas, dentro de um movimento que afirma querer o exorcismo radical dos sistemas opressivos».

«Os nossos prisioneiros são a nossa bússola» não é um slogan vazio na Palestina, é a realidade material da luta. Quando o comunista revolucionário libanês Georges Abdallah foi libertado em Julho, após décadas numa prisão francesa, explicou este axioma na mais clara das formas: «Aquele que resiste é quem tem a última palavra e determina o que deve ou não ser feito. Quem tem o direito supremo de tomar decisões é quem se sacrifica pela resistência. Nenhum espectador tem o direito de discutir nenhum assunto.» Os prisioneiros da revolução palestiniana não são esquecidos, nem são apenas alvo de palavras bonitas, são por quem o sangue corre. Não podemos esquecer, afinal, que a Inundação de Al-Aqsa foi ela mesma uma fuga da prisão e deu à luz o Toufan al-Ahrar, a Inundação dos Livres. Mas até que a reverência aos prisioneiros políticos seja realmente posta em prática aqui no Ocidente, será apenas isso, apenas um slogan, e cada vez mais vazio.

Não há muito mais a dizer aqui que não tenha já sido referido acima acerca desta tendência para abandonar militantes que enfrentam repressão, mas os riscos parecem iminentemente maiores quando não é apenas a vida na prisão que está em jogo, mas a própria vida física. Lembro-me de quando estive na prisão no ano passado por ter participado numa acção directa com a Pal Action US, por um período relativamente curto (40 dias) e, na altura, Casey era o único outro prisioneiro político desta iteração do movimento palestiniano, além dos prisioneiros da Pal Action UK. Senti que estávamos todos a respirar juntos, os nossos espíritos a voar através das grades de metal, do betão, das montanhas e dos mares, nunca sozinhos. Escrevemos mensagens de feliz aniversário nos nossos tablets da prisão para serem entregues aos prisioneiros no Reino Unido. Pedimos aos nossos apoiantes que parassem de nos escrever cartas e, em vez disso, escrevessem a pessoas que estavam presas há muito mais tempo, como Casey. É como Casey disse: «Só nos temos a nós. Por “nós”, refiro-me às pessoas que enfrentam repressão pelo seu apoio à Palestina, que estão a sacrificar-se, a sacrificar-se de verdade». Desde que fui libertado, por vezes temo ter regressado ao meu conforto ou à minha apatia, ter perdido o contacto com a clareza crua e a urgência (não o desespero) que senti enquanto estava preso, que todos devemos sentir, o tempo todo, em todos os lugares. Mas as palavras de Casey trazem-me de volta a essa clareza. Lembram que Casey e Hoxha são, na verdade, mais livres do que todos nós, porque estão a resistir.

Para obter as últimas actualizações, instruções e conjunto de exigências, vai a instagram.com/prisoners4palestine e x.com/Workshops4Gaza.

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