Extrema-direita vai à FCSH vitimizar-se e acaba a agredir estudante~ 10 min

Por Francisco Ulrike
Na tarde da última terça-feira, Afonso Gonçalves, o autoproclamado líder da Reconquista, foi até à porta da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa para protagonizar um espectáculo de fraca qualidade na esperança de conseguir mais uns seguidores no twitter, uma das poucas redes sociais de onde ainda não foi banido.
O Afonso nasceu em 2000 e, até há um par de anos, era completamente desconhecido no panorama político português – hoje, é uma das estrelas de um patriotismo tosco que aparentemente tem feito sucesso entre certos sectores das novas gerações rendidos ao soundbite, ao scroll e ao attention span de 15 segundos. Gerações que apenas desconhecem uma única expressão em inglês: fact-checking.
Do alto do seu modesto ego, o Afonso quis com este acto afirmar-se como o Charlie Kirk português, tentando capitalizar a morte deste para seu próprio proveito. Na mesa que instalou à porta da FCSH, Afonso colocou um cartaz em que se lia “Change My Mind”, o lema popularizado por Kirk, acompanhado de um Uncle Sam adaptado para Uncle Charlie. Ao seu lado, um outro cartaz afirmava “A esquerda mata”.
Ao contrário de Charlie Kirk, o Afonso não tentou criar qualquer ilusão de debate construtivo, partindo imediatamente para o insulto gratuito – o que, naturalmente, não caiu bem a vários e várias estudantes presentes. Afonso Gonçalves foi insultado e convidado a pôr-se a andar dali para fora, mas preferiu ficar e continuar o seu espectáculo provocatório.
Num vídeo publicado pelo próprio, podem ver-se estudantes a quase virarem a mesa instalada pelo Afonso e a arrancar o cartaz que dizia “A esquerda mata”. O Afonso e a sua equipa editaram cuidadosamente o vídeo para se fazerem passar por vítimas, mostrando esses actos violentos contra a mesa e o cartaz, mas deixando de fora o momento mais relevante de todo o espectáculo: uma estudante foi agredida pelo grunho guarda-costas do Afonsinho (que tem muita garganta mas, como um bom fascista, prefere que alguém suje as mãos por ele).

Violência política e racial em Portugal
O Afonso é novinho, mas já tem idade para se lembrar que, em 2020, Bruno Candé foi assassinado por um veterano da Guerra Colonial que não gostava de pretos. Pouco antes, no final de 2019, quatro cabo-verdianos foram brutalmente atacados em Bragança – um deles, Luís Giovani Rodrigues, acabou por morrer.
Antes disso – quando o Afonso ainda não tinha nascido ou era uma criança –, Alcindo Monteiro foi morto por skinheads em 1995, e Gisberta foi assassinada em 2006 por um grupo de adolescentes movidos pela transfobia. No entanto, é pouco provável que estes assassinatos não sejam conhecidos pelo Afonso – quem sabe se não considera que estes foram actos corajosos de compatriotas seus contra “os parasitas da nossa sociedade”. Quem tiver a infelicidade de se perder nas respostas aos tweets do Afonso sobre este episódio na FCSH, encontrará apelos explícitos à violência por parte dos seus apoiantes (“Chega de diálogo – Faca nos dentes”), que chamam aos estudantes desta (e doutras) universidades “esquerdalhas” coisas como “não-humanos com aspecto humano”, “animais” e “doentes mentais” que deviam ser “internados no Júlio de Matos” ou “institucionalizados e drogados com benzodiazepinas para não constituírem uma ameaça à sociedade e a si próprios”.
O Afonso diz que “a esquerda é intolerante, extremista e promove o ódio e a violência”, mas não é preciso ser um génio para ver a realidade à nossa frente.
Lembram-se de quando a Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional ameaçou de morte, por e-mail, três deputadas (Joacine Katar Moreira, Beatriz Gomes Dias e Mariana Mortágua) e sete activistas antifascistas (entre os quais Mamadou Ba e Jonathan Costa), dando-lhes “48 horas para que (…) renunciem às suas funções políticas e abandonem o território nacional”?
Mas a violência política e racial não é exclusiva dos movimentos políticos de extrema-direita. Na última década, mais de uma dúzia de pessoas foram mortas pelas forças policiais – como Kuku, Mc Snake e Odair Moniz. As vítimas são invariavelmente negros, ciganos, imigrantes ou brancos pobres.
Em 2020, Ihor Humenyuk foi torturado e morto no Aeroporto Humberto Delgado por três inspectores do SEF. A 15 de Setembro de 2021, Danijoy Pontes e Daniel Rodrigues foram “encontrados mortos” no Estabelecimento Prisional de Lisboa, e em Janeiro de 2022 foi a vez de Miguel Cesteiro, na cadeia de Alcoentre. Em Março de 2024, Aissa Ait Aissa morreu como consequência das agressões que sofreu enquanto estava algemado, após ter sido sequestrado por polícias no Algarve.
Esta é a realidade – em Portugal, nas últimas 3 décadas, os assassinatos políticos e raciais foram todos protagonizados por fascistas (fardados ou não), e não pela esquerda.
Interacções entre fachos: como a polícia tratou o Afonso
A polícia foi chamada à FCSH por estudantes que testemunharam a agressão protagonizada pelo guarda-costas do Afonso. O vídeo por este publicado, ao deixar de fora essa agressão, dá a ideia que a polícia foi enviada ao local com o intuito de impedir o pobrezinho do Afonso de usar da sua liberdade de expressão.
Um vídeo de 13 minutos publicado na conta da Reconquista mostra a interacção entre as forças policiais e a nova estrela do nacionalismo português. Nesse vídeo, pode ver-se o Afonso a confrontar num tom agressivo um agente por estar a olhá-lo nos olhos, a recusar-se a acatar ordens policiais, a exigir a identificação do responsável pela operação, e a fazer uma ameaça velada a um dos agentes.
Obviamente, o Afonso apresenta-se como vítima em toda a linha. A pergunta que se impõe é só uma: o que teria acontecido a um esquerdalho, um anarquista, um imigrante ou um português negro que tivesse o mesmo comportamento para com agentes da polícia?
Ao guarda-costas do Afonso também não foi feito nada, pois a estudante agredida decidiu não apresentar queixa – isto apesar de a agressão ter sido testemunhada por dezenas de pessoas.
Aqui se vê que os “portugueses de bem” recebem tratamento especial das forças policiais, mesmo que assumam uma postura de hostilidade para com elas. Num contraste gritante, em Março de 2024, no seguimento de incidentes num supermercado em Olhão, o imigrante marroquino Aissa Ait Aissa foi sequestrado por dois polícias apesar de a responsável da loja se ter recusado a apresentar queixa, e acabou a morrer como consequência do espancamento de que foi alvo enquanto estava algemado.
Quem matou Charlie Kirk?
Durante o espectáculo que deu à frente da FCSH, Afonso Gonçalves afirmou:
Hoje em dia, quem promove a violência política, quem desumaniza os adversários políticos, é unicamente a esquerda. O que acaba por resultar até no assassinato, como o assassinato de Charlie Kirk, que foi celebrado não pela direita, mas pela esquerda.
Sim, é certo – houve quem, na esquerda, tenha celebrado a morte de Charlie Kirk. No entanto, quem acha esta gente que é para criticar alguém por celebrar a morte dum reaccionário, quando há dois anos que a extrema-direita ocidental tanto se esforça para negar que está em curso um genocídio na Faixa de Gaza e para desumanizar os palestinianos (e os árabes e os muçulmanos no geral), contribuindo assim para justificar o seu extermínio?
Depois de, durante os últimos dois anos, vermos o regime sionista a assassinar os líderes políticos do Hamas e do Hezbollah, bem como o primeiro-ministro e múltiplos ministros do governo do Iémen, é preciso descaramento para afirmar que “quem promove a violência política (…) é unicamente a esquerda”.
A verdade é que, hoje em dia, a malta procura desesperadamente o clickbait, os likes e a viralização – mas, na grande maioria dos casos, não sabe sequer do que está a falar. Afinal, quem matou Charlie Kirk?
Nos meses anteriores à sua morte, e à semelhança do que já tinha acontecido com Candace Owens e Tucker Carlson, Kirk tinha começado a questionar publicamente as acções do regime sionista e a sua influência no sistema político norte-americano. Kirk também tinha recentemente recusado um suborno de Netanyahu e, poucos dias antes da sua morte, um dos seus financiadores sionistas retirou-lhe o apoio. Segundo alguém próximo a Kirk, pouco antes da sua morte, este confessou-lhe que sentia receio das consequências de falar publicamente contra israel.
Há provas de que tenham sido os israelitas a matar Charlie Kirk? Não – mas a narrativa oficial está cheia de inconsistências, e o comportamento de Netanyahu tem sido extremamente suspeito. Meros minutos após o seu assassinato, o primeiro-ministro israelita foi o primeiro líder político a reagir – mesmo antes de Donald Trump –, tentando instrumentalizar a morte de Kirk para benifício do regime sionista.
Desde então, em entrevistas a meios de comunicação ocidentais e na sua conta oficial, o primeiro-ministro israelita tem negado repetidamente qualquer envolvimento no seu assassinato – tal como recorrentemente nega que civis estejam a ser mortos deliberadamente em Gaza, que as IDF atacam hospitais, e por aí fora.
Depois de vermos, durante dois anos, os sionistas a negar veementemente aquilo que está aos olhos de todo o mundo, é difícil censurar alguém que suponha que a verdade é o exacto oposto daquilo que sai da boca de Netanyahu.
E, curiosamente, o espaço vazio que a morte de Kirk deixou no Turning Point USA está a ser prontamente ocupado por sionistas fervorosos, como Ben Shapiro e JD Vance.
E já que falamos nisto… Se a extrema-direita gosta tanto de falar de “substituições populacionais” fantasiosas, porque é que não denunciam a mais real e descarada substituição populacional em curso na actualidade – a protagonizada pelos colonos judeus na Palestina?
Da próxima vez que o Afonso for fazer o seu espectáculo à porta de uma faculdade “esquerdalha”, em vez do cartaz “A esquerda mata”, talvez fosse mais apropriado ter um cartaz a dizer “israel mata”.


