Zohran Mamdani e a ilusão de mudança~ 25 min

Por Francisco Ulrike

Zohran Mamdani venceu as eleições para a câmara municipal de Nova Iorque. Apesar de algumas das suas propostas de campanha serem, efectivamente, “radicais” no panorama norte-americano (transportes gratuitos e mercearias municipais, entre outras), Mamdani não é uma figura “anti-sistema” – e as suas aparentes “posições pró-Palestina”, essenciais para conquistar o eleitorado, deixam muito a desejar.

Mamdani é da mesma linha que as duas estrelas da “esquerda” norte-americana: Alexandria Ocasio Cortez, que continua a votar a favor do envio de armamento “defensivo” para israel, e Bernie Sanders, que demorou quase 2 anos a admitir que o que está em curso na Faixa de Gaza é um genocídio. Mamdani, tal como AOC e Sanders, defende o direito do projecto colonial sionista a existir e condena a resistência palestiniana.

Personagens como Mamdani fazem furor nos chamados meios progressistas pois criam uma falsa ilusão de mudança, absolvendo-nos assim da nossa responsabilidade colectiva de construir um movimento revolucionário que enfrente a barbárie e se debata por edificar um mundo diferente.

O nosso desencanto com Mamdani não é de agora – e por isso não prestámos grande atenção a este circo eleitoral. No entanto, como recebemos várias críticas à nossa reacção inicial à sua eleição, decidimos explorar mais a fundo esta personagem. E o que descobrimos não só confirma as nossas suspeitas, como as supera.

Conteúdos

  1. Pró-Palestina?
  2. O currículo educativo sionista
  3. «Vou ter sionistas na minha administração»
  4. As posições sobre a NYPD
  5. Mamdani mantém Tisch à frente da NYPD
  6. Política externa: Cuba e Venezuela
  7. A família Soros e o assessor de Obama
  8. A esposa de Mamdani
  9. Identitarismo e o revitalizar da “ordem democrática”
  10. «Não quero que alguém ofereça aos cidadãos americanos condições que lhes permitam esquecer a Palestina»
  11. Falsas esperanças e optimismo delirante
  12. Reacções de árabes e muçulmanos à eleição de Mamdani

Pró-Palestina?

Apesar de condenar a resistência palestiniana e defender a existência da entidade sionista, Mamdani ganhou o apreço das massas pró-Palestina quando prometeu mandar prender Netanyahu se este decidisse visitar Nova Iorque. A promessa tornou-se uma fonte de esperança para quem anseia ver alguém nos corredores do poder a enfrentar o regime sionista. Contudo, como veremos mais à frente, há vários sinais que esta foi só mais uma promessa vazia para conquistar os corações das massas enojadas pelo genocídio em curso há mais de dois anos na Faixa de Gaza.

A verdade é que, independentemente da imagem criada por certas manchetes, Mamdani não colocou a Palestina no centro da sua campanha. Na maioria das entrevistas que deu ao longo dos últimos meses, Mamdani não falou sobre a Palestina por iniciativa própria – só quando os entrevistadores puxaram o tema. E, quando isso aconteceu, a sua reacção foi sempre centrar os sentimentos dos judeus que se sentem “ameaçados”, alimentar a narrativa fabricada do crescimento do anti-semitismo e condenar a resistência palestiniana.

Como todas as nações, acredito que [israel] tem o direito de existir e também a responsabilidade de respeitar o direito internacional. (…) Poucos dias após o horrível crime de guerra de 7 de Outubro, um amigo contou-me que foi à sua sinagoga (…) e sentiu um tremor na espinha (…)

Zohran Mamdani, Junho de 2025

Muita gente especulou que estas suas declarações, em Junho, teriam feito parte de uma estratégia de apaziguamento num panorama norte-americano absolutamente hostil a qualquer coisa além do enquadramento humanitarista da questão palestiniana. Nós aceitámos inicialmente essa hipótese – mas o padrão nunca mudou, e Mamdani continuou a priorizar os sentimentos dos judeus, em detrimento dos dos seus irmãos muçulmanos na Palestina.

Em Setembro, durante uma entrevista à MSNBC, foi-lhe perguntado qual a sua posição sobre a expressão «global infitata [sic]». Mamdani respondeu:

Comprometo-me a ir ainda mais longe, a compreender as divergências, a debater-me com a complexidade desses diferentes pontos de vista (…)

Reuni-me com autoridades eleitas judias, rabinos, líderes comunitários, e houve uma rabina que me disse que essa frase, para ela, trazia de volta memórias dos atentados contra autocarros em Haifa, dos ataques a restaurantes em Jerusalém, e eu percebi, pelo que ela estava a partilhar comigo, que ela tinha medo, como disse, de que isso pudesse chegar a Nova Iorque (…) Depois dessa conversa, eu disse que essa é uma linguagem que eu desencorajaria.

Zohran Mamdani na MSNBC, Setembro de 2025

Portanto, o ídolo da esquerda liberal que se afirma pró-Palestina usa as suas aparições na televisão para desencorajar a utilização da perigosa expressão «intifada», a palavra árabe para «revolta» ou «insurreição», que pode ser pacífica ou violenta.

Mas há mais. No dia 23 de Outubro, durante o debate televisivo entre os candidatos à câmara municipal de Nova Iorque, Mamdani anunciou que vai assegurar «a implementação do currículo “Hidden Voices” no nosso sistema de educação». Três dias depois, na ABC, reiterou a sua posição, afirmando que o currículo «celebra a amplitude e a beleza da vida judaica na história da nossa cidade».

E o que diz o currículo “Hidden Voices”, defendido por este candidato percepcionado como “pró-Palestina” e “anti-sionista”? Que «um aspecto importante da identidade judaico-americana é a conexão com israel», definindo sionismo como «o direito à autodeterminação nacional judaica na sua pátria ancestral». Tudo isto foi noticiado pelo Forward, um jornal judaico de esquerda com sede em Nova Iorque.

Pouco antes, em meados de Outubro, numa acção de campanha na sinagoga Beth Elohim, Mamdani prometeu que vai ter sionistas na sua administração:

Não sou sionista. Também não pretendo criar uma câmara municipal ou uma cidade à minha imagem. Vou ter pessoas na minha administração que são sionistas, sejam sionistas liberais ou onde quer que eles possam estar nesse espectro. E, de alguns deles, saberei quais os seus pensamentos sobre o sionismo. De muitos deles, não saberei, porque as perguntas que lhes farei quando os estiver a contratar não vão ser perguntas sobre israel e a Palestina.

Fonte: The Free Press

NYPD e Jessica Tisch

Durante a revolta desencadeada pelo assassinato de George Floyd, Mamdani expressou apoio ao movimento pela redução do financiamento à polícia – e isso foi usado pelos seus opositores durante a campanha para o apresentar como um candidato radical, “comunista e jihadista”. Na altura, Mamdani disse que a NYPD era «racista, anti-queer e uma ameaça grave à segurança pública».

Em 2022, foi reeleito para a assembleia estadual de Nova Iorque pelo círculo eleitoral de Queens, um bairro em que a vasta maioria da população é imigrante ou afrodescendente. No seu website de campanha, lia-se: «Precisamos de reduzir drasticamente o poder e a presença da NYPD».

Na altura, Mamdani prometia reduzir o número de agentes da NYPD em 1300, cancelar todas as horas-extra, congelar as contratações e impor uma «moratória a todas as compras de equipamento».

A reforma não é o caminho para sair de um sistema policial racista que está a funcionar exactamente como foi concebido — como um meio de controlo sobre os nova-iorquinos negros e castanhos.

Zohran Mamdani durante a campanha de 2022

No entanto, quando o foco da actuação de Mamdani passou das ruas e da política eleitoral na periferia para os corredores do poder no centro de uma das mais importantes cidades norte-americanas, o seu discurso mudou radicalmente.

Agora, Mamdani diz que a polícia «será um parceiro decisivo na garantia da segurança pública». Em declarações que proferiu em Julho, já o tinha deixado claro:

Não vou cortar o financiamento da polícia. Não estou a concorrer para cortar o financiamento da polícia

Mamdani, Julho de 2025

Mamdani descreveu-se então como um «candidato que não está preso ao tempo, que aprende e lidera, e parte disso significa admitir que amadureci». Aquilo que Mamdani aprendeu foi a obedecer aos seus patronos.

Durante o debate televisivo de há duas semanas, deu-se aquele que provavelmente foi o momento mais revelador da sua campanha: Mamdani anunciou que pretende manter a comissária Jessica Tisch à frente da NYPD.

Segundo o Forward, Tisch tem 44 anos e «é amplamente respeitada na comunidade judaica pelo seu historial no âmbito da segurança pública desde a sua nomeação, no ano passado, e pelo seu forte apoio a israel».

Os antepassados de Tisch emigraram da Ucrânia para os EUA em 1904 – um século depois, a família Tisch é «uma das famílias judaicas mais proeminentes» de Nova Iorque. A família controla, desde meados do século XX, a Loews Corporation, e tem uma fortuna estimada em 10 biliões de dólares.

Pelo menos quatro membros da família Tisch contribuíram para um super PAC que apoiou o ex-governador Andrew Cuomo nas primárias. (…) De acordo com a Forbes, a família Tisch doou US$1,2 milhões para o super PAC anti-Mamdani “Fix the City”.

Forward, 27 de Outubro de 2025

Para entendermos as visões da comissária Tisch sobre israel, vejamos um tweet seu de Junho deste ano, durante a Guerra dos 12 Dias entre o regime sionista e o Irão:

Poucos conhecem esta faceta da NYPD, uma força policial municipal que tem escritórios em 4 continentes a pretexto do “combate ao terrorismo”, incluindo 4 estados-vassalos do Império no Médio Oriente – Jordânia, EAU, Qatar e israel.

Em plena agressão gratuita do Império contra o Irão, aquilo que a comissária sionista cortejada por Mamdani teve a dizer foi que «o alcance da NYPD é verdadeiramente extraordinário».

Fica por explicar como é que Mamdani, mantendo uma sionista convicta à frente da NYPD, pretende mandar prender Netanyahu se ele aparecer em Nova Iorque.

Uma reviravolta inesperada para quem achava que Mamdani era pró-Palestina, não? Na verdade, esta “reviravolta” só é inesperada para quem esteve desatento – meses depois de, durante as primárias, ter prometido mandar prender Netanyahu, Mamdani voltou atrás na sua palavra e deu a entender que, na verdade, não o fará.

O que fica claro é que Mamdani, mais do que um símbolo de mudança, é um exemplo de como estas figuras da esquerda liberal mudam radicalmente de posição consoante aquilo que o eleitorado do momento quiser ouvir. A prioridade de Mamdani não é a transformação da sociedade, mas a sua própria carreira.

Política externa: Cuba e Venezuela

Esperava-se que um “símbolo de mudança”, de esquerda e muçulmano, fizesse frente à retórica intervencionista das elites norte-americanas, exacerbada pela actual administração Trump – ou, pelo menos, que não alimentasse as narrativas que legitimam essa retórica. Contudo, como já explicámos antes, a política externa esteve, em grande medida, ausente da campanha de Mamdani – e as posições que tomou foram quase sempre em reacção a perguntas que lhe foram colocadas durante entrevistas.

Em meados de Setembro, durante um episódio de um podcast para o qual foi convidado, os apresentadores pressionaram-no para responder se considera Nicolás Maduro (presidente da Venezuela) e Miguel Díaz-Canel (presidente de Cuba) “ditadores”. A resposta de Mamdani foi cautelosa, afirmando que «Maduro fez muitas coisas horríveis» e condenando a repressão nos dois países, mas recusando-se a chamá-los de “ditadores”.

No entanto, poucos dias depois, um comunicado publicado pela sua campanha esclareceu a posição do candidato Mamdani:

Quero deixar clara a minha posição. Considero que tanto Nicolás Maduro como Miguel Díaz-Canel são ditadores. Os seus governos reprimiram eleições livres e justas, prenderam opositores políticos e suprimiram a imprensa livre e justa.

Podemos especular se a recusa inicial de Mamdani em chamá-los de “ditadores” se deve às suas convicções, que o fizeram resistir em alinhar completamente com a narrativa dominante nos EUA, ou ao receio do impacto que essa posição poderia ter no seu eleitorado mais à esquerda.

O que fica claro com o comunicado da sua campanha é que Mamdani é apenas a cara da máquina que o levou até à presidência da Câmara de Nova Iorque, que ele serve sem qualquer esforço para fazer prevalecer as suas posições. E, se assim é, pouco interessa quais as suas opiniões pessoais, se é boa pessoa ou se se preocupa com a sua comunidade.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

Mamdani foi idolatrado como alguém que enfrenta os interesses dos bilionários, com a esquerda liberal a realçar os milhões investidos por inúmeros bilionários sionistas para tentar impedir a sua eleição. No entanto, como habitual, há um senão – detrás de Mamdani também há bilionários.

Pouco depois do anúncio dos resultados, Alexander Soros, filho do bilionário George Soros, celebrou a vitória publicando uma foto sua com Mamdani:

E a relação de Mamdani com a família Soros não se resume a esta foto. Segundo o New York Post:

Apesar da retórica de Mamdani contra os bilionários, o bilionário progressista George Soros doou indirectamente 37 milhões de dólares ao Working Families Party e a outros nove grupos de esquerda que apoiaram a campanha de Mamdani.

New York Post, 5 de Novembro de 2025

Entre os assessores de Mamdani durante a presente campanha encontramos Patrick Gaspard, director político da campanha de Obama em 2008. Foi Gaspard que apresentou Mamdani a «algumas das figuras de poder mais influentes de Nova Iorque». Entre várias posições importantes que ocupou ao longo da vida, Gaspard foi, entre 2018 e 2020, presidente da Open Society Foundations de George Soros, uma das maiores organizações proponentes de mudanças de regime por esse mundo fora.

Desde Julho, Mamdani reuniu-se com inúmeros empresários da cidade com o objectivo de apaziguar as suas preocupações e ouvir o que têm a dizer.

Nas palavras da Basira Press:

É importante salientar que a família Soros é composta por sionistas convictos que apoiam a existência do estado ilegítimo de “israel”. A família Soros é anti-Netanyahu/Likud, não anti-sionista.

É por isso que financiam grupos sionistas liberais como J Street, Code Pink, Human Rights Watch, etc., que apoiam a chamada “solução de dois Estados” e reduzem a Palestina a uma causa humanista liberal, na qual o assassino pode viver lado a lado com a vítima.

Soros apoia mudanças de regime em todos os Estados anti-sionistas legítimos – Irão, Síria, Iémen e Líbano. (…)

Lembrem-se que [Laura] Loomer e Soros estão na mesma equipa, com os mesmos objectivos, apenas com tácticas diferentes. Por defeito, isso significa que Mamdani e Loomer também estão, em muitos aspectos, na mesma equipa. Ambos condenam o Hamas e o Eixo de Resistência liderado pelo Irão. (…)

Esta rivalidade em torno de Mamdani é falsa. Os seus apoiantes e opositores exageram quem ele realmente é.

Basira Press, Novembro de 2025

Para completar a festa, como aponta o jornalista palestiniano Laith Marouf, a esposa de Mamdani, Rama Duwaji, fez campanha durante 15 anos pela mudança de regime na Síria e contra o Eixo da Resistência como um todo. Os chavões “em defesa da democracia” e “dos direitos das mulheres” e por “liberdade para o povo sírio” desapareceram desde que Damasco caiu e Jolani subiu ao poder.

Ela, como outros defensores da “democracia e liberdade” na Síria, permanecem em silêncio perante a ausência de eleições, a chacina de milhares de alauitas na costa síria, os raptos e o degradar acelerado dos direitos das mulheres na “Síria Livre”.

Identitarismo e o revitalizar da “ordem democrática” 

Mamdani é apresentado como imigrante, muçulmano e socialista, e a sua vitória é exaltada pelos sectores da esquerda para os quais as identidades individuais são mais importantes que a nossa libertação colectiva. Depois de abandonarem o anticapitalismo e o anti-imperialismo, e substituírem a resistência material pelo activismo inconsequente, estes sectores da esquerda ocidental agarram-se com unhas e dentes à política eleitoral porque já não têm mais nada para oferecer aos povos de um mundo em colapso.

Nos EUA, estes autoproclamados “democratic socialists” servem para revitalizar o Partido Democrata e tentar salvar a imagem de uma suposta “democracia” que está mais que morta e enterrada.

A “estrondosa votação” em Mamdani é indicada por muitos como um sinal de que há consideráveis segmentos do eleitorado norte-americano abertos a “propostas socialistas”, ignorando que muitos dos eleitores foram conquistados pela progressiva moderação das posições de Mamdani ao longo da campanha eleitoral.

Outros apontam a vibrante campanha de Mamdani, que construiu uma enorme mobilização nos bairros, como sinal de esperança. No entanto, a organização de enormes camadas populares em torno de uma “campanha pela mudança” de nada serve se esta se desintegrar após o circo eleitoral – como aconteceu com Obama e AOC. A mudança não se concretiza com uma eleição, mas com organização popular e revolucionária e com acção política no quotidiano.

Dois anos de genocídio transmitidos diariamente nos nossos ecrãs expuseram grotescamente as contradições das sociedades ocidentais. A ideia de “democracias ocidentais” foi estilhaçada pelo ignorar sistemático da opinião pública em nome do extermínio do povo palestiniano. O silenciamento e a repressão violenta de manifestantes pacíficos desfez a ilusão de liberdade.

Os métodos convencionais de acção política – manifestações, campanhas de sensibilização, acções simbólicas, petições, cartas e e-mails aos representantes eleitos – foram ignorados sistematicamente pelos nossos “representantes” e falharam em alcançar quaisquer resultados. Vai ficando cada vez mais claro que, para conseguir materializar mudanças concretas na realidade, são necessários outros métodos de acção política.

A operação Mamdani tenta travar esse processo e redireccionar as massas em processo de radicalização de volta à política eleitoral. A duplicação do número de votantes indica isso mesmo, e é apontado por muitos como um sinal da vitalidade da democracia. No entanto, esse argumento ignora que a “votação estrondosa” em Mamdani foi apenas 1 milhão de votos numa cidade com 5 milhões de votantes. Apesar de todo o circo em torno destas eleições, quase 3 milhões de votantes não se sentiram suficientemente motivados por nenhum candidato para sair de casa e ir às urnas. Independentemente das cambalhotas que os propagandistas decidam dar, o “sistema democrático” continua profundamente descredibilizado perante a generalidade da população.

As pretensas identidades “muçulmano” e “imigrante” dão cobertura a Mamdani para fazer coisas absolutamente ofensivas após dois anos a ver corpos despedeçados em Gaza. Vejam bem como Mamdani conseguiu enquadrar no mesmo frame, num vídeo de campanha em árabe, a bandeira da Palestina e publicidade à coca-cola.

Mamdani, supostamente, apoia o BDS – ou apoiava antes de se tornar o candidato democrata à Câmara Municipal de Nova Iorque.

E, já agora, desde quando é que muçulmanos usam quipás?

Mamdani numa celebração do Yom Kippur, Outubro de 2025

Reacções a Mamdani por vozes árabes e norte-americanas

Como houve quem acusasse a nossa reacção à eleição de Mamdani de ser uma “crítica europeia e branca”, recolhemos várias reacções de várias pessoas e colectivos árabes e norte-americanos.

Começamos pela reacção do jornalista sírio-palestiniano Laith Marouf, que reside no Líbano, no programa Dialogue Works:

A ascensão de Obama atrasou o progresso social nos Estados Unidos, porque confundiu as pessoas a abraçarem o simbolismo em vez da acção. Isso permitiu que os EUA fizessem o que fizeram sob a face negra de Obama. (…)

Na verdade, eu preferia ter Trump como líder. Preferia que Cuomo tivesse ganho. Sabem porquê? Porque, neste momento, talvez Mamdani melhore a vida dos nova-iorquinos. Ele vai proporcionar-lhes habitação social, alimentos mais baratos, melhores transportes, melhores oportunidades de educação e assim por diante, o que basicamente vai desradicalizar a grande maioria dos nova-iorquinos.

Pessoalmente, quero que a vida das pessoas no Ocidente piore. Não quero que alguém ofereça aos cidadãos americanos, britânicos, franceses ou italianos melhores condições de vida que lhes permitam ir a um bar ou restaurante e esquecer a Palestina. Quero que a vida dos cidadãos ocidentais piore cada vez mais, de modo a que se radicalizem a tal ponto que possam pegar em armas contra o regime opressivo sob o qual vivem, que também está a matar palestinianos, árabes e muçulmanos, africanos e latino-americanos em todo o mundo.

Muitas vezes, os liberais que ganham essas eleições, como Mamdani, são uma maldição para as possibilidades de radicalização do movimento. Adoro o facto de Trump estar a usar carrinhas descaracterizadas com bandidos mascarados a circular pelas ruas e a raptar pessoas – adoro isso, porque mostra realmente aos cidadãos americanos que eles também podem ser raptados numa carrinha descaracterizada e feitos desaparecer, algo que pode radicalizá-los. Se Obama estivesse no poder, estaria a fazer o mesmo que Trump está a fazer agora, mas mandaria que as carrinhas estivessem identificadas e o agente do ICE não usasse máscara, e então as pessoas diriam «oh, isso é mais legal», e teriam mais tolerância para com isso.

Precisamos de coisas, especificamente no Ocidente, que radicalizem essa população cúmplice – na verdade, é a cumplicidade das populações, o silêncio dessas populações, a falta de acções radicais, que são realmente as razões pelas quais a guerra na Palestina continua, o genocídio na Palestina [continua].

Sabem, os palestinianos, os libaneses, o Eixo da Resistência, fizeram tudo o que podiam, resistiram dois anos às hordas do Ocidente. É uma situação sem precedentes. Fizemos tudo o que podíamos e frustrámos os seus planos. Não fomos derrotados. Eles não conseguiram vencer contra Gaza. Não conseguiram vencer contra o Líbano. Não conseguiram vencer contra o Iémen ou o Irão. Mas as pessoas no Ocidente não aproveitaram isso para tomar medidas radicais que possam trazer a repressão do Império para dentro, para que [o Império] tire a sua maldita bota do nosso pescoço nos campos de morte nos nossos países.

O radicalismo nos domínios imperiais ocidentais, neste momento mais que em qualquer outro, é crucial para a libertação da Palestina – e a eleição de Mamdani poderá conter esse radicalismo.

Laith Marouf, Novembro de 2025

No final do artigo, apresentamos uma compilação de publicações de várias pessoas e colectivos árabes e/ou muçulmanos.

Recomendamos também a leitura de três artigos que oferecem análises sóbrias da eleição de Mamdani e das suas consequências para os movimentos pró-Palestina (e não só), de uma perspectiva revolucionária.

Falsas esperanças e optimismo delirante

Os defensores de Mamdani argumentam que todas estes seus recuos em vários temas relativamente a posições que tomou no passado não passam de uma estratégia para conseguir não ser aniquilado pelo establishment e vencer as eleições. No entanto, é só mais um delírio liberal esperar que alguém que não demonstra firmeza para expressar em palavras as suas convicções (se é que as tem) durante uma campanha eleitoral, vá mostrar firmeza durante o seu mandato para implementar políticas que vão contra os interesses do grande capital e do establishment norte-americano.

E não há nada de novo aqui. A actual Ministra do Interior britânica, Shabana Mahmood, em 2014, concluiu um discurso perante uma multidão pró-Palestina, que protestava contra a ofensiva israelita contra Gaza que decorria nesse Verão, com as seguintes palavras: «Nunca ficaremos em silêncio até que a Palestina seja livre!». Hoje, chefia o ministério que proscreveu a Palestine Action como “organização terrorista”, ordena a detenção de manifestantes pacíficos que expressam oposição à proscrição, e é responsável pelos abusos sistemáticos sofridos pelos 33 prisioneiros que aguardam julgamento nas prisões britânicas por terem agido contra a máquina de guerra israelita.

Vimos de que valeram as ilusões de mudança com Obama, os «democratic socialists» Bernie Sanders e Alexandria Ocasio Cortez, e Alexis Tsipras e o Syriza. 

A questão aqui é simples: devemos continuar a depositar esperanças nos mesmos métodos e estratégias, recusando qualquer crítica como inútil e desmoralizante, e esperar resultados diferentes?

A Guilhotina não alimenta falsas esperanças, nem deixaremos de criticar quem acharmos que temos de criticar, independentemente do seu quadrante político ou dos qualificativos com que se identifique.

A esperança de vermos um mundo diferente durante as nossas vidas está em quem resiste, não em quem coopta a imagem de “esquerda radical” para perpetuar o ciclo (e circo) eleitoral de ilusão e desilusão.
A nossa esperança está e estará sempre na resistência – activa e material –, onde quer que seja. A esperança está na resistência em Gaza, na Cisjordânia, no Iémen e no Líbano – e está nos prisioneiros da Palestine Action que, mesmo encarcerados, se recusam a parar de lutar por aquilo em que acreditam, mesmo que isso lhes custe a vida.

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