O genocídio não acabou: um mês de “cessar-fogo” em Gaza~ 22 min

Por Francisco Ulrike

O suposto “cessar-fogo” em Gaza, sob os auspícios do “plano de paz” de Trump, entrou em vigor há um mês, a 11 de Outubro. Desde então, as forças da ocupação assassinaram pelo menos 271 palestinianos, incluindo 107 crianças, e feriram outros 622, dos quais 221 são crianças – o que representa uma média de 9 palestinianos mortos e 20 feridos por dia de “cessar-fogo”.

Ao longo deste mês, ataques israelitas atingiam carros, carrinhas, tendas, casas (ou o que restava delas), cafés, pontos de internet, escolas, o pátio do Hospital Al-Shifa e pescadores que tentavam apanhar algum peixe para saciar a fome do seu povo. Civis foram executados por snipers sionistas, crianças voltaram a ser decapitadas, e os raptos continuaram.

Entre as vítimas mortais deste primeiro mês de “cessar-fogo”, encontra-se Mu’ath Abu Rokbah, o último veterinário no norte de Gaza, morto num ataque aéreo israelita, e o jornalista Mohammad Al-Munirawi, morto junto com a sua mulher num bombardeamento que atingiu a sua tenda no campo de refugiados de Nuseirat, tornando-se o 256º jornalista palestiniano assassinado pela ocupação desde Outubro de 2023.

Nos tempos que correm, as palavras são esvaziadas de significado e usadas pela máquina de propaganda para moldar narrativas e controlar as percepções do público sobre a realidade. E a realidade é que, em Gaza, o genocídio não acabou nem nunca foi “posto em pausa” – e afirmá-lo contribui para reforçar a narrativa do Império, que busca fabricar no público um falso sentimento de alívio, mitigar o sentido de urgência, e varrer o genocídio para debaixo do tapete.

Numa Faixa de Gaza sem as infraestruturas mais básicas e com uma população massacrada em todos os sentidos por dois anos de Holocausto, não era preciso cair uma só bomba para o genocídio continuar – bastava que o cerco se mantivesse e que o Império fizesse depender a reconstrução do desarmamento da resistência (como acontece no Líbano há 11 meses).

Na verdade, as consequências da fome extrema fabricada pelo cerco medieval imposto sobre Gaza continuar-se-iam a sentir mesmo que o cerco fosse levantado e a ajuda humanitária fluisse desimpedida. Os estágios avançados de fome provocam danos irreversíveis nos órgãos internos, e as mazelas causadas acomapanharão os sobreviventes para o resto da vida.

No entanto, o regime sionista tem-se demonstrado determinado a continuar o genocídio também através dos mísseis e das bombas, com total apoio do Império. Durante este mês, as IDF lançaram duas campanhas massivas de bombardeamentos contra Gaza. A 19 de Outubro, mais de cem ataques de norte a sul de Gaza fizeram 44 mártires. Entre 28 e 29 de Outubro, 16 horas de bombardeamentos deixaram 104 pessoas mortas, incluindo 46 crianças e 20 mulheres, e pelo menos 253 feridas.

Já é habitual ver o regime sionista tratar os acordos de cessar-fogo como papel higiénico – veja-se o caso do Líbano, onde a UNIFIL registou mais de 7 mil violações por parte das IDF desde o final de Novembro do ano passado. No entanto, este é o primeiro “cessar-fogo” da História em que um dos lados assassina uma centena de pessoas em menos de 24 horas e a comunicação social e a comunidade internacional continuam a agir como se, de facto, existisse um cessar-fogo. Essa mesma comunidade internacional exige peremptoriamente o desarmamento da resistência, mas dá carta branca ao regime sionista para cometer todos os crimes possíveis e imaginários.

As demolições continuam

As demolições de casas e outras infraestruturas continuam nas áreas sob controlo das forças israelitas. Segundo a BBC, israel «destruiu mais de 1500 edifícios em Gaza» desde o início do “cessar-fogo”. As imagens de satélite analisadas pela emissora britânica mostram que «bairros inteiros controlados pelas IDF foram arrasados em menos de um mês». Para além dos edifícios, foram destruídos também jardins, árvores e pomares. Em alguns casos, os bairros e vilas destruídos pareciam estar em larga medida intactos até ao presente cessar-fogo.

A análise visual da BBC Verify das imagens de satélite revelou que a destruição de edifícios em Gaza pelo exército israelita tem continuado em grande escala. (…)

O número real de edifícios destruídos pode ser significativamente maior, uma vez que as imagens de satélite de algumas áreas não estão disponíveis para avaliação pela BBC Verify.

BBC, 11 de Novembro de 2025

Como afirma a Euro-Med Human Rights Monitor num relatório publicado a 31 de Outubro:

Bombardeamentos de artilharia, disparos e demolições de edifícios continuaram nos últimos dois dias, particularmente nos bairros orientais de Khan Younis e da Cidade de Gaza. Estas acções sugerem que israel está a consolidar uma nova realidade, permitindo-se conduzir operações militares contínuas nas áreas que controla, cobrindo cerca de 50% de Gaza (…)

Esses crimes não constituem incidentes isolados, mas reflectem um padrão deliberado que demonstra a intenção política e militar de minar o cessar-fogo por meio de assassinatos intermitentes, mantendo a agressão militar em curso e possibilitando o genocídio sob o manto do silêncio internacional e da cumplicidade política.

Relatório completo

É nessas áreas que os gangues e milícias colaboracionistas continuam a operar e a preparar-se para uma futura confrontação com a resistência sob a protecção das forças da ocupação.

A ajuda humanitária

O Gabinete de Imprensa do Governo de Gaza informou este dia 6 de Novembro que, até então, tinham entrado em Gaza apenas 4453 camiões dos 15 600 esperados nesse período – uma média de 171 camiões por dia, menos de um terço dos 600 camiões diários estabelecidos pelo acordo. A ocupação continua a bloquear a entrada de 350 alimentos essenciais, como ovos, carne, peixe e vegetais, enquanto permite a entrada de refrigerantes, chocolate e batatas fritas.

John Whyte, vice-director das operações da UNRWA em Gaza, revelou ao jornal irlandês The Journal que o regime sionista proibiu todos os veículos da UNRWA de entrar no território.

Eles simplesmente não deixam passar nada que pertença à UNRWA. Exigem que entreguemos os nossos suprimentos a outras agências e removamos o logótipo da UNRWA antes que eles possam passar. Isso está a causar enormes atrasos logísticos.

John Whyte ao The Journal

A UNRWA tem 12 mil funcionários na Faixa de Gaza, que continuam a oferecer os serviços que lhes é possível, nas difíceis condições a que estão sujeitos, separados dos seus colegas no exterior e com acesso muito limitado a bens essenciais.

A situação é especialmente grave no norte de Gaza, onde a ONU afirma que não entrou ajuda directa nos últimos 75 dias. Segundo a jornalista Hind Khoudary, «as pessoas dizem-nos que vão para a cama com fome. Fazem fila durante horas para conseguir água e não têm dinheiro para carne ou ovos.»

Calorias sim, nutrientes não

Hind Khoudary tem repetidamente alertado para o facto de grande parte do que entra em Gaza serem camiões comerciais que transportam mercadorias para venda, em vez de mantimentos essenciais de ajuda humanitária. Deste modo, as prateleiras nos mercados enchem-se com produtos processados e de baixo valor nutritivo, como parte da estratégia da ocupação para perpetuar a catástrofe humanitária enquanto cria, ao mesmo tempo, uma ilusão de abundância. https://t.me/guilhotinainfo/6110 

Como explica a Euro-Med Human Rights Monitor:

A maioria das pessoas, que já sofrem de desnutrição, tornaram-se dependentes desses produtos disponíveis – alimentos que podem causar aumento de peso, mas fornecem pouca nutrição real ou recuperação dos efeitos duradouros da fome.

Após meses de fome deliberada, israel agora inunda o mercado com alimentos ricos em calorias e pobres em nutrientes, levando as pessoas a ganhar peso para que os sinais visíveis da fome desapareçam. A fome não acabou, apenas assumiu uma nova forma.

Por trás das prateleiras cheias de chocolate e queijo, os corpos continuam fracos, desnutridos e dependentes do que Israel decide permitir entrar.

As centenas de corpos devolvidos por israel e o tráfico de órgãos

Como parte do acordo de troca de prisioneiros, a resistência em Gaza e o regime sionista têm devolvido os corpos de israelitas e palestinianos na posse de cada uma das partes. Até agora, a resistência devolveu 18 dos 28 corpos de prisioneiros israelitas, e o regime sionista devolveu os corpos de 315 civis palestinianos raptados de Gaza durante o genocídio em curso.

Os prisioneiros israelitas foram, na sua maioria, mortos por bombardeamentos israelitas, enquanto que os corpos de palestinianos recebidos em Gaza mostram todos sinais visíveis de tortura infligida durante o cativeiro. A maior parte foi executada, e muitos chegaram ainda com os olhos vendados e as mãos atadas. Um dos corpos foi devolvido com uma corda ainda ao pescoço, outros foram devolvidos sem um ou mais membros, ou decapitados.

De acordo com o Dr. Munir Al-Bursh, director-geral do Ministério da Saúde de Gaza:

Alguns dos corpos foram atropelados por tanques. Outros pertenciam a pacientes que já estavam doentes e tinham bolsas de colostomia instaladas, mas foram mortos ou deixados a morrer. Havia sinais evidentes de tortura e alguns dos corpos tinham sido dissecados.

Devido ao estado de decomposição da maioria dos cadáveres, do total de 315 corpos, apenas 89 puderam ser identificiados pelos seus familiares.

O cirurgião britânico-palestiniano Ghassan Abu-Sitta confirmou esta semana à emissão árabe da Al Jazeera o que os seus colegas no terreno têm vindo a denunciar: israel está a roubar orgãos aos reféns palestinianos. Entre os órgãos roubados pelos sionistas destacam-se córneas, corações, pulmões, rins e fígados.

Fotografias dos cadáveres analisadas por Abu-Sitta indicam que os órgãos foram removidos «de forma profissional e cirúrgica, utilizando serras ósseas afiadas, sem causar qualquer dano aos tecidos circundantes, (…) prontos para transplante». A maioria terão sido retirados de palestinianos ainda vivos.

Estes corpos também apresentavam queimaduras de nitrogénio líquido na pele, mas não apresentavam outros ferimentos. É improvável que os órgãos tenham sido retirados após a morte. Todos estes corpos pertenciam a palestinianos cujas famílias afirmaram que eles tinham sido presos vivos. Portanto, tudo isto é altamente indicativo de recolha de órgãos.

Ghassan Abu-Sitta à Al-Jazeera

Acordo violado em toda a linha

O posto fronteiriço de Rafah, que segundo o acordo de “cessar-fogo” ia ser reaberto nos dois sentidos, continua fechado. A abertura da passagem fronteiriça com o Egipto permitiria a evacuação de feridos graves que necessitam de receber cuidados médicos urgentes no estangeiro – algo que o regime sionista continua a impedir. Neste momento, segundo o director do Hospital Al-Shifa, Mohammad Abu Selmiya, há 5 mil palestinianos amputados, incluindo 2 mil crianças, que necessitam urgentemente de próteses – inexistentes em Gaza.

A ocupação continua a impedir a entrada de material médico necessário para reabilitar o sistema de saúde em Gaza. Esta terça-feira, a UNICEF denunciou que israel está a impedir a entrada de 1,6 milhões de seringas necessárias para vacinar crianças, assim como biberons e frigoríficos solares para conservar vacinas – segundo os sionistas, estes items são de “uso dual”.

Uma história desoladora, contada na passada sexta-feira pelo fotojornalista Khalil Khlout, ilustra bem como as consequências do genocídio, mesmo que não houvesse ataques regulares, se farão sentir por muito tempo. Wafaa Hamad, uma criança pequena que era a única sobrevivente da sua família, morreu após mais de um ano a lutar pela vida nos hospitais de Gaza. A sua casa foi atingida no dia 3 de Setembro de 2024 por um bombardeamento que matou os outros 7 membros da sua família. Wafaa perdeu a perna direita e sofreu extensos ferimentos, entrou em coma, e acabou por sucumbir na semana passada.

Durante este mês, várias crianças foram mortas ou feridas por brinquedos e latas de comida armadilhadas que o sádico exército genocida deixou para trás durante a retirada. O território está também repleto de bombas e outras munições não-detonadas, que representam um perigo constante para a população civil.

A ocupação continua ainda a impedir a entrada de maquinaria pesada em Gaza, forçando as equipas da protecção civil a executar as operações de resgate dos sobreviventes de ataques israelitas à mão.

Numa entrevista à Electronic Intifada ao fim de duas semanas de “cessar-fogo”, o porta-voz do Município de Gaza, Asem Alnabih, relatava que durante esse período não entrou no Norte de Gaza qualquer veículo pesado ou combustível, nenhuma peça de substituição para sistemas de saneamento, nem equipamento de reconstrução.

Ao longo do último mês, as forças da ocupação raptaram pelo menos 35 civis, incluindo vários pescadores raptados no mar. Um vídeo publicado pela Euro-Med capturou o momento em que um funcionário da UNICEF, de olhos vendados, foi raptado pelas forças israelitas no posto fronteiriço de Karem Abu Salem, no dia 30 de Outubro. Destes 35 civis, 29 continuam detidos.

O terceiro inverno deste Holocausto aproxima-se, e o regime sionista continua empenhado em criar as condições mais hostis possíveis à sobrevivência da população de Gaza. Segundo a Sahat News:

Entre 10 e 21 de Outubro, 99 pedidos de ONGs internacionais para entregar ajuda em Gaza foram rejeitados, assim como 6 pedidos de agências da ONU. A ajuda bloqueada pela ocupação inclui tendas e lonas, cobertores, colchões, alimentos e suprimentos nutricionais, kits de higiene, materiais de saneamento, dispositivos auxiliares e roupas infantis.

Os palestinianos na Faixa de Gaza continuam a depender de iniciativas de apoio mútuo para sobreviver num território fisicamente e economicamente devastado. Para quem quiser ajudar, as AsSentadas lançaram uma nova recolha de fundos para ajudar as 12 famílias que apoiam regularmente a sobreviver a este inverno.

Bisan Owda: «Vejo tudo, excepto a paz»

A 9 de Novembro, a jornalista palestiniana Bisan Owda publicou o seguinte relato:

Sobreviver é cem vezes mais difícil do que morrer, e é ainda mais difícil depois do chamado “plano de paz” em Gaza. Esta é a coisa mais falsa, ridícula e inútil que já ouvi, este plano de paz americano.

Vejo tudo à minha volta: vejo destruição, vejo fome, vejo pobreza, não vejo medicamentos, não vejo educação, não vejo infraestruturas, nem eletricidade, nem água — vejo tudo, excepto a paz.

Estamos a trabalhar e continuaremos a trabalhar, porque não temos mais ninguém em quem confiar excepto o nosso povo, e o nosso povo não tem mais ninguém em quem confiar excepto nós. (…)

É ridículo como toda a gente tenta (…) fazer-vos acreditar que não há genocídio (…). [É] a paz israelo-americana. Mas as ambulâncias continuam a voar nas nossas ruas, continuam os bombardeamentos e os tiroteios.

O mundo pode fingir que sim, mas o genocídio em Gaza não acabou. E tudo isto sem falar da Cisjordânia ou do Líbano, onde os ataques israelitas se intensificaram desde a entrada em vigor deste suposto “cessar-fogo”.

O mundo não pode abandonar (ainda mais) a Palestina

A Inundação de Al-Aqsa, lançada pela resistência palestiniana a 7 de Outubo, foi um grito de revolta contra essa paz podre do opressor. Um grito lançado pelos filhos, irmãos e órfãos de um povo que vive há décadas no maior campo de concentração do mundo, sem quaisquer perspectivas de uma vida decente e abandonado pela comunidade internacional.

Neste momento, o maior risco que Gaza enfrenta é que se volte a instalar-se essa paz do opressor – em que o genocídio continua, mas agora longe dos ecrãs e dos telejornais. Que Gaza volte a ser esquecida e abandonada pelo resto do mundo, e que a solidariedade com a Palestina volte a resumir-se a desfiles em datas certas, tal como acontecia até 6 de Outubro de 2023.  

A resistência e o povo palestiniano resistiram heroicamente durante dois anos, e frustraram os planos da ocupação. Todo o poderio do Império não conseguiu derrotar a resistência nem fazer vergar a determinação da população de Gaza. No entanto, a resistência palestiniana também não tem capacidades para impor, sozinha, uma derrota militar ao regime sionista e ao Império.

A Palestina, para ser livre num horizonte próximo, precisa da resistência do resto do mundo. 

E quando se diz resistência, não se deve ler solidariedade simbólica. Enquanto movimentos sociais, é necessário compreender que as normais actividades de um activista do século XXI não constituem actos de resistência. Manifestações, vigílias, projecções de filmes e rodas de conversa não são actos de resistência, são actos de solidariedade simbólica. De certa maneira, pode dizer-se que são actos de resistência contra o esquecimento, e contra o marasmo que se instalou nas nossas sociedades perdidas numa espiral de individualismo – mas não são actos de resistência material.

Isto não quer dizer que este tipo de actividades não tenham o seu papel. Têm. Mas, por si só, não colocam qualquer pressão no sistema para nos aproximar da libertação da Palestina – e da nossa libertação colectiva. 

Resistência não é oposição simbólica – é acção directa

Como explicou o historiador Tad Stoermer numa recente entrevista com a Dra. Myriam François:

Sim, [as pessoas terão que enfrentar a força da lei]. As pessoas têm que ser presas. Toda a resistência, para garantir que a autoridade abusiva lhe presta atenção, envolve risco. Risco de quê? Risco de perda. E toda resistência depende dessa única questão: o que estás disposto a arriscar, e quanto? É a natureza e o alcance desse risco. E sem ele não há oposição significativa.

Pessoas como Henry David Thoreau sentiam [um grande] nível de frustração para com os moderados que apenas defendiam reformas, apaziguamento e compromisso com o abuso de autoridade que condenava 4 milhões de americanos a viver na brutalidade, e que estavam perfeitamente bem em permitir a perpetuação desse abuso, desde que eles permanecessem confortáveis e não tivessem que arriscar o seu próprio lugar no establishment. (…) [Sem] resistência real, isso nunca acabaria. A opressão nunca acabaria, continuaria perpetuamente, porque não havia razão para que acabasse.

Essa é a realidade: enquanto os movimentos e organizações que afirmam querer uma mudança não tomarem a decisão de passar do simbolismo para a resistência, enquanto não decidirem impôr um custo ao sistema que nos oprime a todas e todos, assumindo os riscos que isso implica, o sistema não terá qualquer incentivo para ceder às nossas exigências.

Aos movimentos pró-Palestina em Portugal

Na Guilhotina, no último ano, temo-nos esforçado por amplificar os apelos à escalada da solidariedade que saem de Gaza e de organizações pela libertação da Palestina – da Global Escalation às greves globais e ao apelo ao cerco das embaixadas norte-americanas neste 25 de Abril.

Nenhum destes apelos foram atendidos, pois o movimento em Portugal está preso ao seu próprio calendário de manifestações convocadas com um mês de antecedência, e é em grande parte averso à acção directa. 

Se repararmos, os movimentos pela Palestina em Portugal são dominados pelos ciclos mediáticos, em vez de serem eles a dominar os ciclos mediáticos e a forçar a introdução de pautas e questões importantes no debate público e nos media.

Em dois anos de genocídio em Gaza, as únicas duas vezes em que houve manifestações convocadas de emergência, com menos de 24 horas de antecedência, foi com a intercepção de Flotilhas da Liberdade tripuladas por celebridades. Isto não é uma crítica à Flotilha – é uma crítica à nossa solidariedade selectiva.

Nestes dois anos, assistimos a todas as atrocidades possíveis e imaginárias, vimos crianças a ser projectadas por explosões para o topo de prédios vizinhos, vimos os mercenários da Fundação Humanitária de Gaza a transformar a entrega de ajuda humanitária numa versão real dos Hunger Games, vimos o Líbano e o Iémen a ser atacados pelas várias faces do Império, e vimos os prisioneiros da Palestine Action lançarem uma greve de fome histórica contra os abusos que sofrem dentro das prisões britânicas. Também vimos a Base das Lajes a ser usada no ataque contra instalações nucleares no Irão, em Junho. E, em nenhum destes casos, foi chamada qualquer manifestação – de emergência ou não, ordeira ou não.

E, se os movimentos pela Palestina em Portugal não quiserem passar do simbolismo à resistência material, podem usar as acções simbólicas para, pelo menos, fazer frente às narrativas do Império e avançar pautas que sirvam a libertação da Palestina – em vez de a reduzir a uma causa humanitarista.

Este ano, durante meses a fio, os movimentos organizaram marchas, buzinões e outras acções que colocavam no centro o reconhecimento da Palestina. E o que aconteceu? O governo português anunciou o reconhecimento da Palestina – não porque o movimento o impôs, mas porque o Império assim o decidiu. E, para que isso ficasse claro, fê-lo no mesmo dia que várias outras potências ocidentais, que desde aí continuam a apoiar o regime sionista, mas agora com uma imagem um pouco mais limpa. E em que é que o reconhecimento da Palestina deu? As representações dos colaboracionistas da Autoridade Palestiniana estão a ser promovidas a embaixadas – mas o genocídio continua, o cerco continua, a impunidade continua.

Precisamos de deixar de apelar a uma paz abstracta que serve os opressores – que nos permitirá dormir mais descansados, mas não porá fim à violência diária infligida sobre o povo palestiniano em Gaza, na Cisjordânia e nos restantes territórios palestinianos ocupados em 1948.

A Palestina não precisa de ser “independente”, nas fronteiras de 1967 ou nuns quaisquer bantustões que lhes sejam concedidos pela ocupação – a Palestina precisa de ser descolonizada, do rio ao mar, e o regime sionista desmantelado.

A resistência precisa de ser defendida. Especialmente num momento em que todos os propagandistas, políticos e opinion makers repetem em coro as exigências do Império, importa construir oposição ao desarmamento da resistência.

Muita gente esquece-se que, se não fosse a resistência palestiniana, as forças israelitas já teriam tomado controlo de todo o território e “encaminhado” toda a população para o exílio ou os campos de concentração montados nas suas bases no deserto do Naqab. E, se assim fosse, os nossos movimentos perderiam qualquer sentido.

Porque é que há homenagens às crianças palestinianas, mas não há homenagens à resistência que defende os seus direitos?

E, se alguém decidir ir por aí, que se aproveite para estender o nosso apoio às restantes forças da resistência, especialmente a libanesa – aquela que mais arriscou para apoiar Gaza, e aquela que mais vulnerável está aos desígnios do Império.

Em Setembro, milhares de pessoas exigiram a libertação das tripulações das Flotilhas, detidas nas prisões israelitas. Como habitual, estas pessoas – maioritariamente europeias, conhecidas e com atenção mediática – foram libertadas ao fim de alguns dias. Em contraste, há pelo menos duas dezenas de libaneses nas prisões da ocupação, entre civis e combatentes da resistência  – alguns deles há mais de um ano. Libaneses – que arriscaram muito mais do que qualquer um de nós para apoiar Gaza. Libaneses – que, só por existirem de cabeça erguida, correm mais riscos do que qualquer uma das pessoas que foi na Flotilha. Apodrecem nas masmorras da ocupação abandonados pelo mundo.

Até quando?

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