ONU aprova plano neocolonial para a Faixa de Gaza~ 7 min

Por Francisco Ulrike

O Conselho de Segurança da ONU aprovou ontem a resolução 2803, proposta pelos EUA, com 13 votos a favor e 2 abstenções. Esta resolução essencialmente estabelece que a Faixa de Gaza é um novo protectorado do Império, negando ao povo palestiniano qualquer participação na sua governação, e condicionando a existência de um estado palestiniano à adopção de “reformas” impostas pelas potências imperiais.

A resolução 2803 entrega a administração de Gaza a um «conselho de paz» encabeçado por Trump, e estabelece uma «força internacional de estabilização» (FIE) a quem dá poder para «usar todas as medidas necessárias» para desarmar todas as facções da resistência – e condiciona a retirada das forças de ocupação israelitas a essa «desmilitarização».

A FIE trabalhará com israel e o Egipto (…) [e] estabilizará o ambiente de segurança em Gaza, garantindo o processo de desmilitarização da Faixa de Gaza, incluindo a destruição e prevenção da reconstrução de infraestruturas militares, terroristas e ofensivas, bem como a apreensão permanente das armas aos grupos armados não estatais (…)

Resolução 2803 do CS da ONU

A resolução 2803 estabelece que o “conselho de paz” administrará Gaza até que a Autoridade Palestiniana (AP) “complete o seu programa de reformas” e possa, então, “recuperar o controlo de Gaza de forma segura e eficaz”. Este plano de Trump promovido a resolução da ONU, apoiado por todos esses estados que em Setembro anunciaram pomposamente o reconhecimento do estado palestiniano, usa uma formulação vaga em que o “estado palestiniano” é algo que, talvez num dia longínquo, possa vir a concretizar-se.

Após a fiel execução do programa de reforma da AP e o avanço do reordenamento de Gaza, as condições poderão finalmente estar reunidas para um caminho credível rumo à autodeterminação e à criação de um Estado palestiniano.

Resolução 2803 do CS da ONU

Obviamente, nem uma palavra sobre desmilitarizar o estado terrorista de israel, nem sobre convocar eleições nas quais os palestinianos possam exprimir livremente as suas preferências sobre a sua própria governação. A única referência à participação de palestinianos nesta administração neocolonial de Gaza é através de um «um comité tecnocrático e apolítico» – ou seja, um comité de colaboracionistas.

A Rússia e a China, que se apresentam como líderes de uma nova ordem internacional mais justa que emerge dos BRICS, não vetaram a resolução, optando pela abstenção. A Argélia, histórico e fiel aliado da causa palestiniana, votou a favor, desferindo a derradeira facada nas costas da resistência palestiniana.

Rejeição unânime

A aprovação do “plano de paz” de Trump na ONU foi condenada pelas diferentes facções da resistência palestiniana, que denunciaram a iniciativa de Washington como uma «nova forma» de ocupação. Em comunicado, o Hamas reiterou o seu direito legal a resistir à ocupação «por todos os meios», destacando que «os efeitos e repercussões [de dois anos de guerra genocida] continuam apesar da declaração do fim da guerra de acordo com o plano do Presidente Trump».

A resolução impõe um mecanismo de tutela internacional sobre a Faixa de Gaza, que o nosso povo e as suas facções rejeitam. Também impõe um mecanismo para alcançar os objectivos da ocupação, que esta não conseguiu concretizar através do seu genocídio brutal. (…) Atribuir à força internacional tarefas e funções dentro da Faixa de Gaza, incluindo o desarmamento da resistência, retira-lhe a sua neutralidade e transforma-a numa parte do conflito a favor da ocupação.

Comunicado do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), 18 de Novembro de 2025

A Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), também denunciou em comunicado a aprovação da resolução 2803:

Afirmamos a nossa rejeição categórica da resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a Faixa de Gaza, considerando-a uma tentativa de impor tutela através do chamado «Conselho de Paz», ao qual foram concedidos poderes governamentais transitórios e soberanos que reproduzem a ocupação sob uma nova forma, marginalizam o papel palestiniano e retiram à ONU o seu mandato. (…) 

Qualquer quadro que ignore a vontade nacional ou conceda à ocupação ou aos Estados Unidos autoridade sobre o futuro de Gaza não é vinculativo para o nosso povo nem exequível. (…) O nosso povo, que tem feito sacrifícios contínuos, não aceitará qualquer fórmula que infrinja a sua soberania e continuará a sua luta até garantir a plena liberdade na sua terra.

Comunicado da FPLP, 18 de Novembro de 2025

A Jihad Islâmica da Palestina também reagiu à resolução com um comunicado:

A resolução negligencia os requisitos básicos de justiça, ignorando a responsabilização dos criminosos de guerra e a responsabilidade da ocupação pelos crimes em curso contra o nosso povo. Ignora também a necessidade de levantar o cerco injusto e restabelecer a ligação entre a Faixa de Gaza e os territórios palestinianos ocupados — reflectindo o apoio a uma agenda que procura fragmentar a geografia palestiniana e servir as políticas da ocupação de anexação e deslocamento [forçado].

Comunicado da Jihad Islâmica da Palestina, 18 de Novembro de 2025

A Autoridade Palestiniana, como cãozinho obediente do Império que é, saudou a decisão do Conselho de Segurança da ONU, com o ministro dos negócios estrangeiros de Abbas,  Varsen Aghabekian Shahin, a afirmar que a resolução é um «primeiro passo» necessário num «longo caminho rumo à paz»..

O que é que a resolução 2803 significa para a solidariedade com a Palestina?

A votação de ontem dissipa quaisquer dúvidas sobre o mundo em que vivemos – dominado por uma ordem internacional subserviente ao Império, em que até as potências que se apresentam como contrapoderes aos EUA se vergam aos seus desígnios.

A resolução 2803 mostra, mais uma vez, que o direito internacional é uma ficção que está morta e enterrada, e que a única coisa com que o povo palestiniano pode contar é a solidariedade dos povos do mundo. E, num mundo em que a barbárie reina, a solidariedade só produzirá resultados se for além dos métodos que têm repetidamente falhado.

Como disse ontem uma companheira do Palestinian Youth Movement, num protesto na sede da ONU em Nova Iorque:

O que é que isto quer dizer para nós e para o nosso movimento? Quer dizer que renovamos o nosso compromisso com a luta. Que nunca abandonaremos Gaza. Quer dizer que sabemos que (…) a nossa causa é uma causa justa e, independentemente do que aconteça detrás destas portas imperiais, continuaremos a lutar por Gaza e pela Palestina.

A batalha que se avizinha será longa, e o Império vai usar toda a sua força para tentar isolar e erradicar a resistência, não só no Médio Oriente e na América Latina, mas também no centro do Império.

Se pretendemos resistir no Ocidente, necessitamos urgentemente de nos educar – de aprender com as experiências de resistência do presente e do passado, no Sul Global e no centro do Império. É na esperança de contribuir para essa educação que vamos começar a aceitar encomendas de zines contra o imperialismo e a barbárie, aproveitando ao mesmo tempo para recolher fundos para apoiar Gaza.

Novidades muito em breve.

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