Colapso catastrófico nas doações para Gaza desde o “cessar-fogo”~ 21 min

Por Francisco Ulrike

Nas duas últimas semanas, vários meios de comunicação – como a Qods News Agency, o Great Reporter e o The Guardian – divulgaram dados alarmantes no que toca à queda do volume de doações desde o início do suposto “cessar-fogo” em Gaza. Várias organizações falam de um colapso catastrófico nas doações desde Outubro.

Voluntários que têm sustentado famílias durante os últimos dois anos afirmam que as doações caíram para menos de metade – em alguns casos, registaram-se quedas de 90% no valor angariado. Megan Hall, uma activista australiana que gere 95 campanhas de angariação de fundos para famílias em Gaza, nas quais chegou a recolher 5000 dólares semanais, agora mal consegue 2 mil dólares num mês.

Com o genocídio a avançar longe dos olhos do mundo, a coberto do suposto “cessar-fogo”, as famílias que dependem de campanhas de apoio mútuo são as mais vulneráveis – e constituem uma larga parte das famílias de Gaza. A parca ajuda humanitária que tem entrado em Gaza desde 11 de Outubro não chega à maioria da população, o sistema de saúde continua devastado, a fome aperta, e a esmagadora maioria das famílias vivem em ruínas ou tendas deterioradas pelo tempo, expostas ao frio e às tempestades, e sem quaisquer infra-estruturas básicas de saneamento e electricidade.

As famílias estão presas em bairros cheios de escombros, rodeadas de munições não detonadas, impossibilitadas de reconstruir ou mudar-se. (…) Tempestades recentes já inundaram acampamentos na cidade de Gaza e na região central, desalojando famílias mais uma vez. (…) Latrinas inundadas, água potável contaminada e falta de roupas quentes criaram condições perfeitas para surtos de doenças.

Great Reporter, 21 de Novembro de 2025

Ahmed al-Deeb tem 28 anos e é da Cidade de Gaza. Ahmed e a sua família alargada de 14 pessoas – que inclui a sua sobrinha de 2 anos, que está doente – sobreviveram durante meses graças a uma campanha de apoio mútuo estabelecida por Megan Hall. Em Setembro, a campanha juntou 3 mil dólares, suficiente para assegurar o básico de alimentação e medicamentos e pagar a renda de 300 dólares pelo pedaço de terra onde montaram a tenda da família, agora alagada.

Em Outubro, as doações caíram para 300 dólares, o mesmo valor que foi recolhido durante o mês de Novembro – apesar de o seu caso ter sido referido num media da envergadura e alcance do The Guardian.

A família de Ahmed al-Deeb tem sobrevivido a lentilhas e massa, e não teve acesso a qualquer ajuda humanitária durante os últimos oito meses. Se não conseguirem pagar a renda, a família pode ser despejada da sua tenda – o que se tornará cada vez mais provável caso a tendência decrescente das doações continue. 

Como aponta a Quds News Network, «famílias que dependem de pequenas campanhas de angariação de fundos dizem que estão a voltar a passar dificuldades extremas».

A história de Deeb repete-se em toda a Faixa de Gaza, onde os angariadores de fundos afirmam que o cessar-fogo não pôs fim à crise – apenas à urgência com que grande parte do mundo a vê.

Great Reporter, 21 de Novembro de 2025

ONGs e organizações humanitárias: o padrão repete-se

Em iniciativas locais de maior escala, a tendência é a mesma. A Gaza Soup Kitchen – uma organização fundada por palestinianos em Gaza, que alimenta 10 mil pessoas por dia – registou uma queda de 51% nas doações entre Setembro e Outubro.

O padrão repete-se em ONGs e organizações humanitárias de dimensão internacional, como a Oxfam e a Save the Children.

A Save the Children, por exemplo, registou uma queda de um terço nas doações vindas de campanhas nas redes sociais. No entanto, como afirma Alison Griffin, dirigente da Save the Children UK, doações vindas de outras fontes – como os doadores com rendimentos elevados e as doações por testamento – têm-se mantido estáveis.

Percepções, mediatismo e censura sistemática

Ao contrário das organizações humanitárias tradicionais, que contam frequentemente com uma grande base de doadores estatais e privados, as iniciativas de apoio mútuo dependem de pequenas doações, com palestinianos e voluntários por todo o mundo a usar as redes sociais para aumentar a visibilidade das campanhas.

Uma das razões apontadas por muitos voluntários por detrás destas campanhas para o decréscimo das doações é a percepção que o público tem de que o sofrimento dos palestinianos acabou. Megan Hall afirma:

A queda nas doações é catastrófica. Parece que, com o chamado “cessar-fogo”, o mundo acha que os palestinianos já não precisam da nossa ajuda. (…)

A ajuda mútua manteve pessoas vivas durante dois anos. E agora, com o inverno a chegar e depois de tantas vezes desalojadas, muitas nem sequer têm roupas de inverno ou cobertores.

Paul Biggar, CEO da Tech for Palestine, salienta que os algorítmos de redes sociais como a Meta suprimem conteúdos pró-palestinianos, o que dificulta a visibilidade de campanhas de angariação de fundos fora dos círculos já estabelecidos. Isto significa que estas campanhas são escondidas de novas audiências, ficando restringidas aos mesmos pequenos círculos de activistas que estão, eles mesmos, a ficar sem dinheiro.

Megan Hall diz que ela e outros voluntários gastaram as suas próprias poupanças e tomaram medidas desesperadas para assegurar o mínimo às famílias que apoiam. «Tenho vendido os meus móveis para pagar a renda de uma família», revelou Megan.

Se agora o mundo escuta ou não, pode determinar não só quantos habitantes de Gaza sobreviverão a este inverno, mas também por quanto tempo o frágil cessar-fogo se aguentará numa Faixa onde o desespero cresce tão depressa como as cheias.

Great Reporter, 21 de Novembro de 2025

Pelo andar da carruagem, os palestinianos que não foram mortos pelas bombas, nem pelos mísseis, nem pelas balas, vão ser mortos pela indiferença do mundo.

Cheias inundam ruas e tendas na Cidade de Gaza a 14 de Novembro de 2025. [Frame de um vídeo de Abdel Qader Sabbah, via Drop Site News.]

Portugal: o exemplo das AsSentadas

O padrão repete-se em Portugal.

As AsSentadas, um colectivo de mulheres portuguesas que apoia regularmente famílias em Gaza há mais de um ano e meio, lançaram a sua mais recente campanha de angariação de fundos no dia 1 de Novembro. A campanha tem como objectivo ajudar 12 famílias a comprar tendas, oleados, cobertores e roupas para sobreviver ao inverno. Há, em todas as famílias, adultos doentes e crianças pequenas.

Nos primeiros três dias, houve 16 doações. No mês inteiro que se seguiu, houve apenas 7.

Metade dos cerca de 900 euros arrecadados até agora foram doados nesses primeiros três dias. Nos últimos 16 dias, houve apenas uma doação.

Concerto solidário no CCB

Em contrapartida, organizações com mais recursos, contactos, capacidade logística e exposição mediática tomam, de forma recorrente, opções absurdas.

A Fundação José Saramago e a Associação Pão a Pão, em parceria com o CCB e a RTP, estão a organizar um espectáculo intitulado «Juntos por Gaza», que junta grandes nomes da música portuguesa – como Sérgio Godinho, Jorge Palma, Clã e Capicua – e outros 10 artistas. O espectáculo vai ter lugar este 4 de Dezembro no CCB, e os bilhetes custam entre 15 e 35 euros. Todos os fundos recolhidos vão… para a UNRWA.

A escolha da UNRWA como destinatária dos fundos é problemática por várias razões. Primeiro, demonstra uma completa incompreensão da realidade no terreno em Gaza e das necessidades urgentes da população de Gaza.

Como explicámos no artigo que faz um balanço do primeiro mês de “cessar-fogo”, a ocupação está a impôr enormes restrições às ONGs que actuam na Faixa de Gaza. No que toca à UNRWA, o regime sionista proibiu todos os veículos da UNRWA, e tudo o que pertença à organização, de entrar no território – o pouco que a organização consegue fazer chegar a Gaza tem de ser entregue a outras agências, e o logo da UNRWA tem de ser removido.

A esmagadora maioria da população de Gaza não recebe ajuda humanitária há meses. Como jornalistas no terreno e organizações como a Euro-Med têm vindo a avisar, uma parte considerável dos poucos camiões que entram em Gaza destinam-se a comerciantes privados, e não às organizações humanitárias. Os mercados foram inundados de produtos com elevado teor calórico, mas de baixo valor nutritivo, como doces, batatas fritas e refrigerantes, enquanto a escassez de bens essenciais continua – a par com os preços astronómicos.

Como se lê no artigo publicado pelo Great Reporter:

Nas primeiras semanas do cessar-fogo, foi negada a entrada a dezenas de carregamentos de alimentos, água, produtos médicos e materiais para abrigos. Cerca de 50 milhões de dólares em ajuda humanitária ficaram retidos nos pontos de acesso ou em armazéns, segundo ONGs. Muitas recusas citaram o estatuto burocrático de “não autorizado” ou restrições impostas pelas autoridades israelitas.

(…) Grupos de ajuda humanitária afirmam que a diferença entre a ajuda prometida e a ajuda prestada obrigou as famílias a depender ainda mais de redes informais de ajuda mútua — as mesmas redes que agora estão a sofrer um colapso no financiamento.

Além de tudo isto, a UNRWA é uma organização gigantesca que gasta uma boa parte do dinheiro arrecadado com gastos administrativos.

Enquanto agência da ONU, a UNRWA conta com um vasto leque de fontes de financiamento, de estados a privados – ao contrário das famílias em Gaza. O dinheiro que será arrecadado neste espectáculo terá pouco impacto no orçamento da UNRWA – mas podia ser determinante para ajudar famílias no terreno a sobreviver a este inverno.

Crianças brincam nas ruínas de um edifício no norte da Faixa de Gaza, a 19 de Novembro de 2025 [Foto: Mahmoud Issa/Reuters]

Já para não falar de que incluir a RTP como entidade colaboradora de um evento de solidariedade com Gaza serve para branquear a cumplicidade da televisão pública portuguesa no genocídio em curso. Nós não esquecemos: a RTP está manchada com o sangue de vários jornalistas palestinianos.

O estranho mundo do activismo português

Infelizmente, a incompreensão da realidade no terreno prolifera também nos meios pró-Palestina – e o activismo português é assolado, desde bem antes de 2023, por uma série de maleitas que se tornam ainda mais graves quando o Holocausto dos nossos tempos entra na sua fase mais perigosa, agora longe das televisões e dos feeds da maioria da população.

Ao longo dos últimos dois anos, na Guilhotina, focámos os nossos esforços em desconstruir a narrativa ocidental, expôr a dimensão colonial da ocupação da Palestina, desconstruir a propaganda contra a resistência palestiniana e expôr os crimes do regime sionista. Fizemo-lo na esperança de que a informação levasse à organização e à acção para travar a máquina imperialista que extermina palestinianos, libaneses, sírios, iemenitas e quem quer que não se vergue aos seus desígnios – e normaliza uma barbárie que não vai poupar nem quem está no centro do Império.

No entanto, mais de dois anos após Outubro de 2023, os movimentos continuam incapazes de colocar pressão real sobre o poder político português para pôr fim à sua cumplicidade com a ocupação israelita, e falham em impor um custo material aos bancos, seguradoras e empresas implicadas no genocídio em curso.

A ausência de resistência material por estas bandas, a par com o agravar da situação no terreno em Gaza e o colapso das doações para campanhas de apoio mútuo, levaram-nos a reorientar as nossas prioridades nas últimas semanas – focando as nossas energias em apoiar iniciativas de apoio mútuo já existentes. Foi por isso que preparámos uma selecção de 81 zines contra o imperialismo e a barbárie, que temos vendido em vários eventos para juntar dinheiro para enviar directamente para Gaza – através da campanha de inverno das AsSentadas e do colectivo Gather 4 Gaza. (Também aceitamos encomendas – mais info aqui.)

Nesse sentido, temos contactado variados grupos, disponibilizando-nos para montar a nossa banca de zines nos seus eventos. No entanto, ao longo das últimas semanas (e meses) temo-nos deparado repetidamente com obstáculos incompreensíveis. Inicialmente, tínhamos pensado relatar alguns casos sem referir os nomes dos movimentos e organizações, mas o que entretanto descobrimos sobre uma das organizações para a qual estão a ser recolhidos fundos leva-nos a expor em detalhe o seu caso.

Parents for Peace e HEAL Palestine

Há, em Portugal, um grande número de organizações que, ao fim de dois anos de genocídio, continuam a reduzir a Palestina a uma causa humanitarista, a condenar (ou ignorar) a resistência palestiniana e/ou a defender a solução de dois estados – e, por arrasto, a continuação do regime sionista e da ocupação pela Palestina. Ainda assim, algumas destas organizações continuam a organizar eventos para apoiar Gaza – e, se a prioridade é o apoio a Gaza, as questões de posicionamento político tornam-se pouco relevantes. 

Uma dessas organizações é a Parents for Peace, que contactámos em meados do mês passado a mostrar interesse em participar nos seus Bazares de Natal em Lisboa e no Porto.

Após uma resposta inicial positiva, alertaram-nos para a participação nos bazares estar condicionada à entrega de todos os fundos recolhidos à HEAL Palestine. Uma pesquisa rápida mostrou-nos que a HEAL Palestine é uma ONG com alguma dimensão, sediada nos EUA e com mais de 300 mil seguidores no instagram – motivo pelo qual explicámos que preferíamos enviar os fundos recolhidos directamente para Gaza, através de dois colectivos que conhecemos pessoalmente e que não têm quaisquer funcionários ou gastos administrativos. Juntámos informação detalhada e links sobre ambos os colectivos.

A resposta seguinte já foi negativa. Mostraram-se inflexíveis na entrega de todos os fundos à HEAL Palestine. Na esperança de encontrar um meio termo, propusemos entregar um terço do dinheiro recolhido à HEAL Palestine, outro terço às AsSentadas e o último terço ao Gather 4 Gaza. Pareceu-nos uma situação benéfica para todos – principalmente para os nossos irmãos e irmãs em Gaza.

A resposta foi peremptória e negativa. De certa maneira, depois do que entretanto descobrimos sobre a HEAL, até agradecemos terem-nos poupado o esforço e o dinheiro que íamos gastar do nosso bolso para estar presentes nos bazares e juntar dinheiro para esta organização.

A HEAL é uma organização sem fins lucrativos registada nos Estados Unidos, cheia de figuras proeminentes na sua direcção.

Tania Nasir, co-fundadora e vice-directora da HEAL, tem 20 anos de experiência enquanto gerente de topo na Johnson & Johnson, uma empresa na lista de boicote do BDS.

Naseem Tuffaha, presidente da HEAL, é um executivo que esteve 24 anos na Microsoft, onde desempenhou «vários papéis de liderança» e «promoveu o crescimento da IT e das startups na Palestina». (Qualquer relação com os planos dos EUA de criar zonas económicas especiais em Gaza e no sul do Líbano será, seguramente, pura coincidência.)

O tesoureiro da HEAL é Mohanned Awad, que reside nos Emirados Árabes Unidos (EAU) e esteve à frente do capítulo emirati da PCRF. «O Sr. Awad traz para o Conselho da HEAL valiosos conhecimentos em negócios e marketing, além de conexões nos EAU.» Os EAU, esse regime autocrático lacaio do Império e colaboracionista com o projecto sionista.

Outro dos membros da direcção é Ali Alireza, director-geral da Haji Husein Alireza & Co., a mais antiga importadora e fabricante de automóveis da Arábia Saudita, outro regime que é profundamente cúmplice no genocídio do povo palestiniano.

[Alireza] tem décadas de experiência em conselhos corporativos em sectores como vendas, finanças e seguros, incluindo a Direcção da SAMBA antes da sua fusão para formar o Saudi National Bank, e participou em comissões na Câmara de Comércio de Jeddah. Ex-membro do Conselho da PCRF, o Sr. Alireza traz valiosa experiência em negócios e finanças, além de conexões no Golfo, para a Direcção da HEAL.

Fonte: HEAL Palestine

Tudo isto é retirado directamente do site da HEAL e devia, no mínimo, provocar algum cepticismo. Mas há mais.

Islam Hijazi era a Gestora do Programa da HEAL em Gaza. No site e no relatório anual da organização, Hijazi é honrada com uma menção especial por ter sido «tragicamente morta» a 26 de Setembro de 2024. No entanto, não há uma única menção a quem a assassinou – algo reminiscente do parlapiê genocida que domina a narrativa do Ocidente e dos estados do Golfo. Na verdade, não há em todo o site, nem no relatório anual, uma única menção a israel – o regime que provocou todos os problemas que, enquanto movimentos de solidariedade, estamos a tentar colmatar.

Quem visitar o site da HEAL descobrirá ainda que um dos seus quatro pilares se prende com a formação de «futuros líderes para impulsionar mudanças positivas e unidade na Palestina». Se essa «mudança positiva» for a mesma que buscam os regimes saudita e emirati, não será de admirar se viermos a encontrar estes “líderes” formados pela HEAL nos comités “tecnocráticos e apolíticos”, não-eleitos, que se prevê colaborarem com a administração neocolonial de Gaza – segundo o plano delineado pela resolução 2803 recém-aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU – ou a juntarem-se às fileiras da Autoridade Palestiniana, a entidade colaboracionista encabeçada por Mahmoud Abbas, sem quaisquer eleições há duas décadas.

Para concluir, a HEAL Palestine gaba-se de estar «comprometida com total transparência para com os nossos doadores, parceiros e as comunidades que servimos». No entanto, no relatório anual relativo a 2024, disponibilizado no site, não há nas suas 31 páginas qualquer informação detalhada sobre a alocação de recursos da organização – apenas um gráfico na parte final do relatório. Neste, podemos ver que 14% dos fundos recolhidos são gastos em «custos administrativos» e «desenvolvimento» – mais do triplo daquilo que gastam em «educação».

Com isto não queremos dizer que tenhamos provas de que a HEAL não é uma organização legítima – apenas que haveria formas muito mais eficientes, e menos questionáveis, de apoiar Gaza.

Tal como no caso da UNRWA, teríamos, nos nossos meios em Portugal, possibilidade de conseguir um impacto muito maior em Gaza se apoiássemos directamente iniciativas de apoio mútuo a famílias e projectos no terreno, em vez de apoiarmos organizações da envergadura da HEAL.

As organizações que se dizem pró-Palestina não precisam de se fiar na Guilhotina para fazer uma leitura crítica da realidade – o Fumaça publicou o mês passado uma grande investigação sobre a Indústria da Ajuda na Palestina. Compreender a realidade no terreno requer tempo, não análises simplistas e ideias feitas – e seria útil para tornar mais eficazes os nossos esforços colectivos para apoiar Gaza.

Desde os Acordos de Oslo, em 1993, mais de 50 mil milhões de dólares chegaram à Palestina em forma de ajuda humanitária e ao desenvolvimento. Trinta anos depois, que impacto teve e para onde foi o dinheiro? Que avanços permitiu este apoio internacional na resistência contra o projeto colonial do Estado de Israel? Esta investigação explora a relação entre a comunidade internacional de doadores, as organizações não-governamentais e a sociedade civil e governo palestinianos, centrando-se nas consequências que a agenda de instituições internacionais tem na perpetuação da ocupação colonial da Palestina.

Investigação «Indústria da Ajuda na Palestina», do Fumaça

O absurdo atravessa sectores e ideologias

Ao longo dos últimos meses houve vários outros episódios, e há dois que achamos relevante referir.

O primeiro teve lugar no final de Junho, quando fomos contactados para ajudar a divulgar um dia de eventos em São Lázaro para apoiar Gaza. A nossa resposta foi imediata e positiva, e manifestámos também o nosso interesse em montar uma banca com zines. Na altura, ainda não tínhamos a maior parte das zines que hoje temos em português – a esmagadora maioria da banca eram textos de vozes anticoloniais da Palestina e do mundo.

A resposta foi cordial mas negativa, pois iriam «precisar da aprovação de toda a equipa e das carpintarias de São Lázaro, que implica vermos as zines previamente, etc». Ou seja, num evento sobre a Palestina, a organização teria de decidir previamente se aceitava este ou aquele texto sobre a Palestina. Será isto normal? Só se for em Portugal.

Meses depois, foi-nos recusada a participação na Feira do Livro Anarquista porque a organização da feira decidiu que a Guilhotina não está dentro do «âmbito da acção e pensamento anarquistas», e que não era do seu interesse ter uma banca de literatura palestiniana e anticolonial.

Todos estes casos seriam compreensíveis se tal ou tal movimento discordasse desta ou daquela posição da Guilhotina, presente ou passada, e se não quisessem dar espaço à Guilhotina para juntar dinheiro para o projecto enquanto propagamos essas ideias. No entanto, metade da banca é literatura de vozes da resistência anticolonial na Palestina e no mundo, a outra metade são textos sobre a Palestina (e temas relacionados) por nós publicados ao longo dos últimos dois anos, e todo o dinheiro vai directamente para Gaza – o que torna tudo mais absurdo.

Para terminar, regressamos à Parents for Peace, e à última comunicação que recebemos do colectivo, que conclui assim:

se quiserem doar algumas das vossas fanzines para reverterem para a HEAL, são bem-vindos. se não, esperamos que possa haver outra vez em que possamos ajudar-nos mutuamente

Não afirmamos que esta mensagem seja representativa de todo o colectivo do Parents for Peace, pois sabemos que quem gere as comunicações em redes sociais nem sempre fala necessariamente por todo o colectivo – mas é mais um exemplo de como o síndrome de salvador branco reina em muitos dos meios ditos pró-Palestina.

Talvez um dia possamos ajudar-nos mutuamente? Como se o ponto aqui fosse ajudarmo-nos uns aos outros – e não apoiar Gaza. Como se no centro estivéssemos nós, os salvadores do povo palestiniano – e não Gaza, o seu povo e a sua resistência.

Campo de refugiados de Al Yarmouk, na Cidade de Gaza, a 14 de Novembro de 2025 [Foto: Hamza Z. H. Qraiqea/Anadolu]

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