Bondi Beach: “islamismo radical”, Mossad e falsas bandeiras~ 16 min

Em cima, um palestiniano a ser decapitado pelo ISIS no campo de refugiados de Yarmouk, na Síria, em Março de 2017; em baixo, um prisioneiro israelita beija a cabeça de um combatente das Brigadas Al-Qassam antes de ser libertado, em Nuseirat, na Faixa de Gaza, em Fevereiro de 2025.

Por Francisco Ulrike

Durante os últimos 25 anos desde o início da “Guerra contra o Terrorismo”, a propaganda ocidental emprenhou-nos pelos ouvidos conceitos como “terrorismo islâmico” e “islamismo radical” sem, no entanto, dar ao público quaisquer elementos para compreender a realidade e as suas complexidades e nuances – nem sequer superficialmente.

Este artigo explora alguns desenvolvimentos no seio da comunidade judaica e da política australianas desde o atentado de Bondi Beach, a campanha por um novo êxodo judaico para a Palestina, e as teorias de que este terá sido um ataque de falsa bandeira. Contudo, para compreender o que se passou em Sydney e a hasbara que se desenvolveu em torno deste ataque terrorista, importa começar por explicar em linhas gerais algumas dessas complexidades dentro do Islão.

O Islão, assim como as restantes grandes religiões monoteístas, manifestam-se com uma grande diversidade de abordagens, interpretações e práticas. Tomemos o caso do mundo cristão. No último século, o mundo conheceu fenómenos radicalmente diferentes dentro do que é hoje considerado cristianismo.

Ao longo do século XX, o Ku Klux Klan – um grupo protestante de extrema-direita e supremacista branco norte-americano – utilizou intimidação, linchamentos, assassinatos e ataques bombistas contra afro-descendentes, católicos, judeus, imigrantes, opositores políticos e a comunidade LGBT. Por outro lado, na América Latina e noutras partes do mundo, houve padres da teologia da libertação a apoiar levantamentos armados contra regimes ditatoriais e ocupações coloniais, participando na disseminação de ideias revolucionárias e usando a imunidade de que goza a Igreja para contrabandear armas para guerrilhas populares, movimentos indígenas e outras organizações.

Quem olhar esta realidade da mesma maneira simplista com que hoje em dia se fala de “fundamentalismo islâmico” no Ocidente, poderá facilmente classificar tanto os militantes do Ku Klux Klan como os padres da teologia da libertação como “cristãos extremistas”,  “terroristas” ou qualquer outro termo derrogatório. No entanto, estaria a escapar-lhe um detalhe fundamental: ambos utilizavam a violência, mas tinham motivos, métodos e objectivos totalmente distintos.

O “islamismo radical”: salafismo vs. resistência islâmica

As raízes do salafismo remontam ao teórico islâmico Muhammad Ibn Abd Al-Wahhab, que viveu no século XVIII e escreveu o livro Kitab Al-Tawheed (‘O Livro do Monoteísmo’), que serve de base a esta ideologia ultrafundamentalista. Al-Wahhab, inspirado por teóricos anteriores como Ibn Taymiyyah (séc. XIII), queria “fazer regressar o Islão ao seu estado original” e foi preso por já então ser considerado demasiado controverso em relação às escolas sunitas tradicionais.

A partir do final do século XX, o salafismo foi disseminado em madrassas (seminários islâmicos) financiadas pela Arábia Saudita em várias partes do mundo islâmico, da Tunísia ao Afeganistão. No centro do salafismo está o ódio aos “infiéis” – que, segundo esta ideologia, incluem todos os que não partilham da interpretação salafista do Islão, incluindo muçulmanos de outras correntes islâmicas. 

A campanha de disseminação do salafismo teve o apoio tácito das potências ocidentais, que viram com bons olhos a proliferação das tensões sectárias como meio de manter o mundo islâmico dividido e, portanto, mais fácil de subjugar.

O salafismo, que pertence à mesma família do wahhabismo e das ideologias takfiri, é socialmente conservador e altamente autoritário e violento, tendo inspirado a maioria dos grupos terroristas do século XX e XXI, como o ISIS, a Al-Qaeda, o Boko Haram e a Frente Al-Nusra (entretanto rebaptizada de HTS, e agora no poder na Síria). A maioria destes grupos receberam ou recebem apoio do Império no que toca a treino, financiamento e armamento, seja directamente através de agências como a CIA e a Mossad, seja indirectamente através dos lacaios do Império na região, entre os quais se destacam a Arábia Saudita, os EAU, o Qatar e a Turquia.

Ao longo da década passada, estes e outros grupos salafistas popularizaram as decapitações, a tomada de escravas sexuais (ISIS, Al-Nusra e muitos outros grupos de “rebeldes” na Síria), a imposição da utilização da burqa, a humilhação pública e aterrorização de minorias étnicas e religiosas, os atentados bombistas contra aglomerações de civis (a Al-Nusra, sob a liderança de Jolani, actual “presidente” da Síria, explodiu vários carros-bomba em bairros xiitas e alauítas no Líbano), a destruição de património religioso e histórico (tal como fazem os israelitas) e os massacres e as limpezas étnicas. Apesar de o ISIS e da Al-Nusra terem controlado, durante anos, territórios junto aos Montes Golã ocupados, nenhum dos grupos alguma vez atacou as forças israelitas – na verdade, da única vez que o ISIS o fez, aparentemente por engano, o grupo veio imediatiamente pedir desculpas aos seus patronos.

Dentro do Islão, as forças salafistas são diametralmente opostas às forças sunitas da resistência palestiniana (como o Hamas e a Jihad Islâmica) e a forças xiitas como o Hezbollah e o Irão, que respeitam a diversidade religiosa, não impõem a utilização de burqa ou hijab, cumprem à letra códigos morais no que diz respeito à condução de operações militares, tratam com respeito prisioneiros de guerra – isto para dar apenas alguns exemplos concretos. Forças iranianas e do Hezbollah estiveram na linha da frente do combate ao ISIS na Síria e no Iraque; em Gaza, na década passada, o Hamas também combateu e esmagou grupos afiliados ao ISIS.

Tudo isto é uma explicação resumida e simplificada da complexidade do mundo islâmico e de algumas das suas correntes. Quem se focar mais detalhadamente em qualquer um destes campos encontrará muito mais nuances, que existem até no seio das forças do Eixo da Resistência – a quem quiser explorá-las, recomendamos este excelente artigo de Mohammed Abdou. Mais informações sobre as raízes históricas do salafismo no final do artigo.

A estapafúrdia associação do atentado de Bondi Beach à causa palestiniana

Nos últimos dias, as elites judaicas australianas têm tentado instrumentalizar o atentado de Bondi Beach para proveito próprio. Numa das primeiras reacções da Australian Jewish Association (AJA) ao ataque, a organização sugere que este foi uma consequência do reconhecimento do estado da Palestina pelo governo de Anthony Albanese.

Entretanto, o CEO da AJA já discorreu em mais detalhe sobre este delírio:

Quando o governo australiano reconheceu um inexistente «Estado da Palestina», eu e outros líderes judeus alertámos que isso encorajaria extremistas e que os judeus australianos acabariam por pagar o preço.

O governo Albanese tem sangue nas mãos.

Milhares de pessoas marcharam na Sydney Harbour Bridge e na Sydney Opera House, apelando à «globalização da Intifada». Os cadáveres ao longo da Bondi Beach são o resultado desse desejo.

Robert Gregory, CEO da AJA

Várias figuras nos media australianos estão a repetir o soundbite, e já há apelos à demissão de Albanese – tornando evidente a influência das elites judaicas nos media australianos e a sua capacidade de influenciar a situação política interna da Austrália.

E as repercussões do atentado de Bondi Beach não se vão cingir à Austrália – duas das maiores forças policiais do Reino Unido anunciaram ontem que vão começar a prender manifestantes que usem a expressão «globalize the intifada».

Para além do absurdo que é associar o lema «globalize the intifada» – popularizado durante o genocídio que o regime sionista está a cometer na Faixa de Gaza – a um atentado alegadamente perpetrado por elementos salafistas, convém esclarecer algo importante: o governo australiano de Anthony Albanese não é, nem de perto nem de longe, anti-sionista ou pró-Palestina.

O governo australiano, ao mesmo tempo que reconheceu o estado da Palestina, entregou uma nova tranche de 10 milhões de dólares à Elbit Systems. Esta empresa israelita tem uma fábrica de armamento em Brisbane e um “centro de investigação” de IA e robótica em Melbourne; faz parte de um complexo militar-industrial gigantesco encabeçado pela Rheinmetal em Queensland; e tem contratos activos para fornecer armamento ao exército australiano. Fábricas de outras empresas na Austrália também produzem componentes usados pelas forças israelitas.

Em Melbourne, no dia a seguir ao atentado de Bondi Beach, um evento de recolha de fundos para enviar para Gaza foi cancelado e reagendado para Janeiro. Sim, pela morte de 15 pessoas num atentado contra um evento da Chabad, uma organização sionista e genocida, deixa de se angariar dinheiro para Gaza. Quem não deixa de recolher dinheiro para enviar para as IDF e para os colonatos na Cisjordânia é a Chabad – apesar das centenas de milhares de palestinianos mortos e feridos nos últimos dois anos. As fábricas da Elbit também não deixaram de produzir.

Judia anti-sionista escorraçada da vigília pelas vítimas de Bondi Beach

Michelle Berkon, uma judia australiana residente em Sydney, foi esta segunda-feira impedida de participar numa vigília pelas vítimas do atentado de Bondi Beach por trazer um keffiyeh aos ombros.

Rodeada de polícias, e enquanto era ameaçada de prisão perante a indiferença dos restantes presentes, afirmou a jornalistas no local:

Vim aqui hoje porque sou judia, porque a minha família foi assassinada no Holocausto, porque tenho membros da minha comunidade que foram assassinados aqui. E estou a ser ameaçada de prisão por falar com a imprensa.

Se não houvesse bandeiras israelitas aqui, não teríamos usado um keffiyeh. Esta comunidade politizou esta tragédia. Estamos aqui porque a bandeira de Israel representa o genocídio.

Todos os judeus têm o direito de fazer o luto. Retirem as bandeiras israelitas!

Michelle Berkon, Sydney, 15 de Dezembro de 2025

Segundo o Palestinian Lounge, a comunidade judaica australiana é ultra-sionista e os judeus anti-sionistas são aí praticamente inexistentes. Os poucos que existem são olhados com desdém pela restante comunidade, como aconteceu a Michelle Berkon quando tentou participar nesta vigília.

As posições políticas [da comunidade judaica australiana] sobre israel fariam Ben-Gvir parecer um moderado. Ao contrário dos EUA, mesmo antes de 7 de outubro, (…) a sua natureza cínica e sociopata sempre esteve à mostra.

Palestinian Lounge

Nessa mesma vigília, Pauline Hanson, fundadora e líder do partido de extrema-direita australiano One Nation, foi recebida com aplausos pela multidão entusiástica.

Um novo êxodo judaico para a Palestina: o sonho dos sionistas 

Na altura da eleição de Mamdani, um jornalista e comentador israelita afirmou aquilo que muitos sionistas pensam mas temem exprimir em público. A 9 de Novembro, num programa da rádio israelita 103FM, o “sionista liberal” Ben Caspit afirmou:

Eu teria votado em Mamdani, não porque o apoio. (…) Quero que todos [os judeus] façam aliyah [imigração para israel]. Sou um defensor consistente e de longa data do anti-semitismo (…)

Locutor [2]: És a favor de pogroms na diáspora?

Sou a favor do anti-semitismo. Sou a favor da vinda dos judeus para cá. Este é o único sítio onde o teu filho será educado em hebraico (…)

No final, o locutor responde: «Tens toda a razão.»

Duas semanas depois, Caspit voltou à 103FM para expôr essa sua visão de que «com o crescimento do anti-semitismo, todos os judeus virão para cá [israel]».

São números, e contra eles não há argumentos. Com o crescimento do anti-semitismo em França, milhares de judeus franceses já vieram para cá.

Após o atentado em Bondi Beach, várias associações judaicas e media australianos anunciaram imediatamente que muitos judeus australianos começaram a considerar mudar-se para a Palestina ocupada. É-nos impossível confirmar se essa foi a primeira coisa em que “muitos judeus australianos” pensaram depois do atentado – mas, àqueles que não pensaram, a ideia foi-lhes implantada na mente por uma campanha agressiva nas redes sociais e nos media.

Aparentemente, há judeus (sionistas) que acham que a solução para não serem odiados pelo mundo não é deixarem de apoiar os nazis da nossa Era, mas precisamente engrossarem as fileiras do regime que ocupa a Palestina e perpetra um genocídio brutal há mais de dois anos. Como se lhes desse alguma segurança mudarem-se para a Palestina, onde podem começar a chover mísseis num qualquer momento em que a liderança sionista decida lançar um novo ataque contra o Irão ou o Líbano.

Na verdade, uma onda de atentados anti-semitas é o sonho da elite sionista, pois provocaria um novo êxodo de judeus para a Palestina, revitalizando um regime desgastado pelos últimos dois anos, ao longo dos quais muitos milhares de colonos imigraram ou obtiveram passaportes para poder escapar caso as coisas se compliquem.

Falsa bandeira? Não seria a primeira vez

Tudo isto torna plausível a teoria de que este atentado pode ter sido um ataque de falsa bandeira organizado pela Mossad. Afinal, não seria a primeira vez.

Nos anos que se seguiram à Nakba, a Mossad levou a cabo uma onda de atentados contra comunidades judaicas no Iraque e noutras partes do mundo árabe, com o objectivo de fomentar a imigração dos judeus árabes para a Palestina recém-ocupada e, assim, popular o território de onde os sionistas tinham acabado de expulsar 750 mil palestinianos.

Para quem não conhece esta história, recomendamos esta ou qualquer outra entrevista a Avi Shlaim, judeu árabe e historiador, sobre o tema.

Nada disto quer dizer que tenhamos provas que nos permitam afirmar de forma peremptória que este se tratou de um ataque de falsa bandeira – mas é claro que este atentado serve os interesses do regime sionista, encaixa-se no seu modus operandi e alimenta as suas narrativas.

A quem tiver interesse em explorar as inconsistências em torno da narrativa oficial sobre o atentado de Bondi Beach, deixamos aqui duas sugestões:

De qualquer forma, o que se nota é que há imensos casos semelhantes que reproduzem um padrão claro. Existe uma tendência geral de atentados perpetrados por elementos salafistas radicalizados que, por algum motivo, têm sempre imensa mão livre no Ocidente – apesar de, depois de a merda acontecer, os serviços secretos ou a polícia dizerem sempre que “estavam a ser monitorizados”.

E, por acaso (ou não), a merda que fazem beneficia sempre as narrativas securitárias e os interesses imperialistas ocidentais – e, quando visam judeus, beneficiam a narrativa do crescimento do anti-semitismo e preparam caminho para esse tão desejado novo êxodo judaico para a Palestina.

As raízes históricas do Wahhabismo e do salafismo

Para concluir, traduzimos um excerto de um texto do Middle East Spectator que explica como chegámos de Al-Wahhab ao salafismo dos dias de hoje.

Em 1774, Muhammad Al-Wahhab fez um pacto com o Emir de Dir’iyya, o Imam Muhammad Bin Saud, que acabou por levar à fundação do Reino da Arábia Saudita em 1932.

Nesse pacto, a casa de Saud concordou em implementar e expandir a doutrina wahhabi do Islão dentro do seu reino e fora das suas fronteiras, em troca de estudiosos islâmicos associados ao movimento wahhabi garantirem a legitimidade do domínio da casa de Saud sobre o Hejaz, a terra sagrada islâmica que contém Meca e Medina, localizada na actual Arábia Saudita.

Um facto que precisa de ser bem compreendido é que o wahabismo foi tacitamente apoiado pelo Ocidente, especialmente pela Grã-Bretanha, pois a ideologia concentrava-se principalmente em dividir e criticar outros muçulmanos, e não em confrontar as potências coloniais hegemónicas na região. Isto ainda pode ser visto nos dias de hoje, onde a maioria dos grupos wahabitas não prioriza a luta contra o Ocidente ou israel.

A partir do final do século XX, esta nova ideologia extremista espalhou-se pelo mundo, financiada pelo dinheiro do petróleo saudita e apoiada pelo Ocidente, enchendo as madrassas (seminários islâmicos) em países como o Paquistão, Afeganistão, Egito, Tunísia e outros, o que gerou toda uma geração de estudiosos wahabitas radicais, que influenciaram as massas e afastaram milhões de muçulmanos do islamismo tradicional em direcção ao pensamento radical. Isto lançou as bases do terrorismo «islâmico» na era moderna.

Desde 1744 até hoje, o pacto de Dir’iyya permanece intacto, e o wahabismo ainda é a escola de pensamento islâmico mais prevalente na Arábia Saudita, apesar de algumas pequenas alterações e liberalizações. Se já ouviste falar em «salafismo», trata-se simplesmente de um novo nome para o wahabismo, que continua a ser extremamente influente em todo o mundo.

Middle East Spectator

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