Mick Jagger, Coimbra e os Epstein Files: uma reflexão~ 6 min

Na foto, da esquerda para a direita: Bill Clinton, Mick Jagger e Jeffrey Epstein [publicada no âmbito dos Epstein Files a 19 de Dezembro de 2025]

Por FilhodeMelquisedeque

Nos últimos dias, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou públicos os chamados Epstein Files, um vasto arquivo de documentos, imagens e registos de voos relacionados com o caso Jeffrey Epstein, disponíveis no portal oficial do governo norte-americano.

Estes ficheiros reforçam o retrato perturbador de uma rede de tráfico humano — incluindo menores — associada a práticas de abuso de poder, troca de influências e cumplicidades em círculos de elite, expondo de forma ainda mais crua a podridão moral e a perversidade estrutural de certas elites norte-americanas e internacionais. No topo desta estrutura macabra está Jeffrey Epstein, destacando-se entre os seus mais próximos colaboradores Ghislaine Maxwell, Leslie Wexner e Ehud Barak, ex-primeiro-ministro israelita e ex-director da Aman, a divisão de serviços secretos militares israelitas de que faz parte a Unidade 8200. Robert Maxwell, pai de Ghislaine, foi, em muitos sentidos, mentor de Epstein – e era agente da Mossad. 

Trata-se de um caso amplamente investigado e noticiado, cujas ramificações continuam a levantar questões sérias sobre responsabilidade, ética e impunidade nos mais altos estratos da sociedade internacional. De acordo com informação tornada pública e com investigações jornalísticas independentes, Jeffrey Epstein terá operado durante anos apoiado por um vasto capital financeiro e por uma rede de relações influentes. Os seus contactos estendiam-se a figuras do mundo político, financeiro, científico, académico, cultural e ao mundo da moda, num sistema que, alegadamente, permitiu a exploração continuada de vítimas menores de idade, transportadas entre países no seu avião privado, conhecido como “Lolita Express”.

O que mais inquieta não é apenas a gravidade dos factos em si, mas a normalização social que parece sobreviver a estes escândalos. Muitas das figuras associadas — directa ou indirectamente — a este círculo continuam a ser celebradas publicamente, recebidas com honras e reverência, como se nada tivesse acontecido.

Coimbra, a minha cidade, não é excepção.

Recentemente, Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, esteve de férias em terras portuguesas, tendo sido fotografado em várias cidades — Lisboa, Coimbra e Nazaré — rodeado por inúmeros fãs, incluindo agentes da PSP, todos a disputar a habitual selfie ao lado do “astro”. Este contraste — entre a idolatria mediática e a existência de associações documentadas a Epstein e, ainda que indirectas, a um dos maiores escândalos de abuso das últimas décadas — levanta uma questão incómoda, mas necessária.

E esta não foi a primeira vez que Jagger visitou a minha cidade. No dia 27 de Setembro de 2003 — numa altura em que decorria a investigação do caso Casa Pia, que tanta tinta fez correr na imprensa portuguesa — os Rolling Stones deram um concerto histórico no Estádio Cidade de Coimbra, perante cerca de 50 mil pessoas. A banda foi recebida com pompa e circunstância, num evento promovido pela produtora Ritmos & Blues (R&B) e com apoio logístico da Câmara Municipal de Coimbra, que afirmou não ter pago directamente o cachet com fundos públicos.

Paralelamente, é hoje sabido — e confirmado pela imprensa portuguesa — que o avião privado de Epstein esteve pelo menos quatro vezes na ilha de Santa Maria, nos Açores, entre 2002 e 2003. Este dado, embora não constitua prova de qualquer crime cometido em território nacional, relembra que Portugal não esteve completamente à margem dos circuitos logísticos associados a este caso.

À esquerda, Mick Jagger com Ghislaine Maxwell; à direita, Mick Jagger, Bill Clinton e uma mulher não identificada [fotos divulgadas no âmbito dos Epstein Files]

Não se trata de substituir tribunais nem de emitir condenações sumárias. Trata-se, sim, de questionar os critérios éticos que orientam a nossa veneração pública. De perguntar se faz sentido continuar a tratar determinadas figuras como intocáveis, apenas porque pertencem ao panteão da fama e do entretenimento.

Talvez seja tempo de as instituições públicas — incluindo as autarquias — reflectirem de forma mais exigente sobre os projectos, pessoas e símbolos que escolhem promover. E talvez seja também tempo de a sociedade civil abandonar a complacência e recuperar a capacidade de escrutínio crítico.

Porque este problema não existe apenas “lá fora”. Existe também entre nós, alimentado pelo silêncio, pela indiferença e por uma conveniente amnésia colectiva. Pessoas de alto perfil na sociedade portuguesa circulam nos mesmos corredores de poder e influência, protegendo-se mutuamente.

Dois exemplos referidos na imprensa:

  • “O Sr. e a Sra. M. Espírito”, com endereço no Estoril, constam do infame “Livro Negro” de contactos de Epstein;
  • um antigo ministro português, Luís Filipe Marques Amado (PS), surge listado num e-mail datado de 1 de Outubro de 2010, relacionado com uma alegada reunião proposta a Epstein. Confrontado com essas referências, o ex-Ministro da Defesa Nacional (2005–2006) e dos Negócios Estrangeiros (2006–2011), deputado à Assembleia da República e membro de governos liderados por José Sócrates, respondeu: «Acho isso ridículo. Eu nunca vi esse homem na minha vida.»

Talvez esteja na hora de repensar quem escolhemos venerar. De dar reconhecimento a quem realmente o merece — muitas vezes a quem vive na porta ao lado da nossa — e de deixar de idolatrar figuras apenas porque são famosas, ricas ou mediáticas.

Fica, assim, o apelo e a pergunta incómoda:
que valores estamos a promover quando escolhemos ignorar indícios e contextos tão graves em nome da fama, do entretenimento e do conforto da indiferença?

Até o Chomsky está metido nisto – à esquerda, Chomsky no avião privado de Epstein; à direita, Chomsky em amena cavaqueira com Steve Bannon, importante figura da extrema-direita norte-americana, co-fundador da Breitbart News e estrategista-chefe da Casa Branca durante 7 meses na primeira administração de Donald Trump. Does «controlled opposition» ring a bell?

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