Venezuela: narrativas imperialistas, Mamdani e os “progressistas”~ 7 min

Por Francisco Ulrike e Ana Só

Nicolás Maduro, o presidente da Venezuela, e Cilia Flores, a primeira-dama, foram raptados por forças norte-americanas na madrugada de ontem. De seguida, foram levados até aos Estados Unidos, onde a maior organização terrorista do planeta pretende levar a cabo uma encenação de justiça.

Após uma longa viagem agrilhoado, Maduro aterrou em Nova Iorque – essa cidade onde o ídolo da esquerda liberal que se diz “pró-Palestina” tomou recentemente posse como presidente da câmara. Numa altura em que proliferam nas redes sociais vídeos de discursos bonitos e intervenções emocionadas de Mamdani – desenhados para alimentar falsas esperanças no eleitoralismo –, vale a pena relembrar alguns dos seus posicionamentos recentes sobre a Venezuela.

Durante a sua campanha, Zohran Mamdani evitou falar de questões ideológicas e de política externa, refugiando-se em chavões sobre o “custo de vida” e os “nova-iorquinos comuns”.

À parte ocasionais críticas a israel e menções ao genocídio em Gaza, Mamdani nunca fez críticas ao Império em si – mas fez críticas à resistência palestiniana e a outras vítimas do imperialismo, como a Venezuela.

Em Setembro, durante uma entrevista para um podcast, foi pressionado para se posicionar sobre a Venezuela e Cuba. Mamdani afirmou que “Maduro fez muitas coisas horríveis” e que “o governo de Maduro é um governo de repressão, não há dúvida sobre isso”, e falou das condições difíceis enfrentadas pelos venezuelanos – mas foi incapaz de dizer algo de positivo sobre a Venezuela ou de referir uma única vez as sanções e a guerra económica impostas sobre o país há longos anos. Dias depois, um comunicado oficial da sua campanha esclareceu que Mamdani considera que Nicolás Maduro e Miguel Díaz-Canel são “ditadores”.

Ontem voltou a circular um comunicado publicado pela Coligação Anti-Guerra do Bronx em Outubro, e que é bastante útil para compreender como a “esquerda progressista” serve as narrativas imperialistas ao propagar as suas mentiras e demonizar os inimigos do Império – que aqui traduzimos na íntegra.

Zohran Mamdani papagueia mentiras da CIA para justificar sanções e guerra contra Cuba e Venezuela  

por Bronx Anti-War Coalition

A recente afirmação de Zohran Mamdani de que «Nicolás Maduro e Miguel Díaz-Canel são ditadores… que reprimem a imprensa livre e justa» não é apenas falsa — é desinformação imperialista directamente tirada do manual da CIA. Ao regurgitar a propaganda do Departamento de Estado dos EUA, Mamdani branqueia as sanções ilegais de Washington, que mataram mais de 40 000 venezuelanos desde 2017, ao negar-lhes medicamentos, alimentos e combustível. As suas mentiras preparam o terreno para a ameaça de invasão militar de Trump e os apelos de Marco Rubio a uma mudança violenta de regime, provando a sua lealdade ao império em detrimento da verdade.

A hipocrisia de Mamdani é flagrante: rotula os líderes socialistas de “ditadores”, ao mesmo tempo que se mantém em silêncio quanto ao facto de os EUA prenderem dissidentes políticos como Mumia Abu-Jamal, que continua na prisão por resistir ao terrorismo de Estado, encarcerarem migrantes em jaulas e financiarem verdadeiras ditaduras como a Arábia Saudita, o Qatar e “israel”. A sua duplicidade de critérios racista usa os «direitos humanos» como arma apenas contra o Sul Global anti-imperialista, classificando Cuba e Venezuela — nações com robustas eleições multipartidárias e historicamente alta participação eleitoral — como «ditaduras» para justificar o seu estrangulamento. Enquanto isso, os EUA gastam milhares de milhões na manipulação de eleições estrangeiras e golpes de Estado, e a esmagar a liberdade de expressão através de monopólios dos meios de comunicação corporativos.

Os «crimes» de Cuba e da Venezuela? Garantirem cuidados de saúde, habitação e educação gratuitas, apesar das sanções brutais dos EUA. O governo de Maduro derrotou um golpe apoiado pelos EUA em 2019, mobilizando milhões nas ruas. Díaz-Canel foi eleito com 86% dos eleitores cubanos a apoiar o projecto socialista. Afirmar que estes líderes «prendem os opositores» ignora o contexto: agentes financiados pelos EUA em ambos os países sabotam activamente as infra-estruturas e planeiam assassinatos. Nenhuma nação deveria tolerar a desestabilização violenta financiada por forças estrangeiras.

Mamdani personifica uma verdade crucial: a supremacia branca e o imperialismo encontram-se em todas as cores e religiões. Como muçulmano, ele usa cinicamente a sua identidade como arma para desviar críticas, retratando a dissidência como “intolerância”, enquanto promove políticas que defendem o mesmo sistema imperialista de supremacia branca que demoniza os muçulmanos em todo o mundo. A sua aparência de identidade marginalizada mascara o seu papel de propagandista da violência imperial, semelhante aos agentes muçulmanos da CIA que torturam detidos em locais secretos ou aos nacionalistas hindus que cometem genocídio contra muçulmanos na Índia. Se ele realmente se opusesse ao império, condenaria as suas sanções e guerras — em vez de papaguear as suas mentiras.

Mamdani afirma cinicamente que «se concentra nos nova-iorquinos, não na política externa», ao mesmo tempo que ignora que os migrantes venezuelanos que fogem da fome induzida pelos EUA são nova-iorquinos. As suas lágrimas de crocodilo pela «democracia» excluem aqueles cujas vidas dependem do fim das sanções. Esta é a essência da social-democracia — Bernie Sanders aplaudiu a mudança de regime na Bolívia, AOC financia as guerras genocidas da NATO, e Mamdani agora junta-se-lhes no branqueamento da violência imperial através da estética progressista.

O Bronx Anti-War avisou explicitamente os eleitores para rejeitarem Mamdani durante as primárias, precisamente porque a sua marca de «socialista democrático» esconde lealdades sionistas e imperialistas. Agora, à medida que se aproxima do poder, o seu recuo liberal é insuficiente e tardio. O papel de Mamdani é claro: legitimar a agressão dos EUA no exterior, enquanto simboliza as comunidades oprimidas no país.

O eleitoralismo nunca desmantelará o império — ele é a válvula de escape do império. O Bronx Anti-War exorta os nova-iorquinos a rejeitar as mentiras de Mamdani e todos os políticos norte-americanos que servem a máquina de morte do capitalismo. Solidariedade significa acção directa: fechar portos que enviam armas para «israel», ocupar ministérios que possibilitam sanções, e construir um duplo poder nas comunidades locais enraizado na revolução, não nas urnas.

NOTA: Vale a pena também notar que uma das primeiras ordens executivas de Mamdani após tomar posse diz respeito à limitação do direito à manifestação nas imediações de sinagogas – mesmo durante “eventos não-religiosos” (leia-se recolhas de fundos para as IDF, vendas de propriedade palestiniana e eventos da Chabad e de outras organizações sionistas).

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