A “liberdade” ao serviço do Império: sobre os protestos no Irão~ 98 min

Por Francisco Ulrike e Ana Só
O Irão tornou-se, nas últimas semanas, o centro das atenções no mundo ocidental.
Quando, logo no final de Dezembro, os protestos económicos começaram a ser instrumentalizados por elementos anti-regime – acompanhados de uma intensa campanha de propaganda por parte dos media anti-regime em língua persa –, percebemos que este ia ser um evento significativo, não necessariamente pela sua dimensão, mas ao nível da propaganda e da guerra de narrativas. O facto de os porta-vozes do Império ameaçarem, uma e outra vez, com uma operação militar para “apoiar os manifestantes” tornava bastante difícil prever a escala e o desfecho desta operação – pelo que optámos por esperar que a poeira assentasse para vos relatar, da habitual maneira detalhada, as últimas semanas no Irão.
Desde finais de Dezembro observámos diariamente, de forma atenta, o desenrolar dos acontecimentos. O que vão encontrar neste artigo vai desafiar as concepções da maioria sobre a sociedade iraniana – e sobre os protestos –, pelo que só faz sentido lê-lo com uma mente aberta e disposição para aceitar que muita da propaganda de que somos alvo é falsa.
Dividimos este artigo em três partes: a primeira apresenta uma cronologia objectiva e factual dos protestos, evitando ao máximo tecer considerações e análises subjectivas; a segunda faz uma interpretação (subjectiva, naturalmente) dos acontecimentos; e a terceira responde aos principais argumentos da esquerda e dos anarquistas que papagueiam a narrativa do Império.
Índice
- Cronologia das duas semanas de protestos
- Interpretação dos acontecimentos
- «Nem Washington nem Ayatollahs»: resposta à esquerda e aos anarquistas que papagueiam a narrativa do Império
- Conclusão
No entanto, antes de avançar, é necessário compreender algumas questões essenciais, desconhecidas pela generalidade do nosso público que só tem acesso à narrativa hegemónica ocidental sobre o Irão.
Primeiro, é preciso entender o sistema político iraniano, com as suas complexidades e nuances, para além dos chavões do “islamofascismo” ou da “ditadura teocrática” – que revelam um completo desconhecimento das diferenças monumentais entre as várias correntes do Islão e entre os diferentes “regimes” e forças que o Ocidente amalgama debaixo do rótulo de “islamistas” (algo que já explorámos neste artigo).
A República Islâmica do Irão não é perfeita, e há muita coisa que pode ser criticada – de vários ângulos. No entanto, como há constantemente um sem-fim de meios de comunicação a apontar o dedo ao “regime” iraniano, munidos de exércitos de propagandistas pagos, e como nós nunca recebemos pelo jornalismo independente que fazemos, preferimos utilizar o limitado tempo disponível para chamar a atenção para vários aspectos ignorados pela generalidade do público.
Há, no Irão, centenas de igrejas e dezenas de sinagogas. Entre 10 e 20 mil judeus vivem hoje no Irão – e, apesar de constituírem apenas 0,01% a 0,02% da população, há no parlamento um lugar reservado para um deputado da comunidade judaica, tal como para os arménios e os assírios (cristãos) e os zoroastrianos. Todos gozam de liberdade de culto e conservam as suas tradições, costumes e práticas, estando dispensados do cumprimento de várias leis islâmicas.
No que toca aos direitos das mulheres, o Irão é um país que, como quase todos os outros, tem muita coisa a melhorar. No entanto, a República Islâmica do Irão não é um regime que mantém as mulheres na ignorância e no confinamento do lar – a proporção de mulheres no ensino superior passou de 3% em 1978, o último ano do reinado do Xá, para 59% em 2018. Actualmente, 70% da população estudantil em cursos de ciências e engenharias são mulheres – números mais elevados do que em vários países ocidentais.
Os avanços também se verificaram, embora em menor medida, nos corpos docentes das universidades – antes da Revolução Islâmica, as mulheres representavam apenas 1,4% dos docentes, face aos actuais 24%. As mulheres têm hoje uma forte presença em papéis de importante exposição pública, como a comunicação social, e representam 52,5% dos trabalhadores no sector dos serviços e 37% na indústria médica. Todos estes números foram compilados pelo American Iranian Council – uma fonte insuspeita, dado que é sediada nos EUA e defende a “democracia e liberdade” para o Irão.
Isto não quer dizer que seja um paraíso para as mulheres – no Irão continua a haver, por exemplo, uma grande disparidade na remuneração entre homens e mulheres, tal como cá, bem como feminicídios e violência doméstica – frequentemente apresentados pela propaganda ocidental como produto directo de uma “sociedade patriarcal baseada na lei islâmica”, na qual o sistema judicial garante impunidade aos agressores. Faz-vos lembrar o sistema judicial de algum outro país? Como explicar então que os feminicídios, a violência doméstica e as violações continuem a ser uma realidade no Ocidente civilizado e democrático, onde não há nenhum “regime islamofascista”?
Na sociedade iraniana, ao contrário do que a propaganda ocidental quer fazer acreditar, a mulher tem um lugar e uma participação radicalmente diferente das de outros regimes islâmicos como o dos Taliban no Afeganistão ou o de Jolani na Síria. Quem fizer uma pesquisa no google, encontrará mil fontes a afirmar que o hijab continua a ser obrigatório e que a polícia da moralidade reprime brutalmente as mulheres que não tapam adequadamente o cabelo – mas jornalistas independentes (como Dimitri Lascaris, greco-canadiano, e Max Blumenthal, judeu norte-americano) e académicos ocidentais (como David Miller), que estiveram em Teerão em Maio do ano passado, relatam uma realidade totalmente diferente, com centenas de mulheres a andar na rua sem hijab, sozinhas ou acompanhadas por homens ou outras mulheres, e a quase total ausência de polícia armada nas ruas de Teerão, ao contrário do que acontece na maioria das capitais ocidentais. Vários relatos de mulheres iranianas que vivem (ou viviam até há pouco tempo) no Ocidente confirmam-no.
Relembramos ainda que, além de ser o maior apoiante da resistência palestiniana, libanesa, iemenita e iraquiana, a República Islâmica do Irão esteve na linha da frente do combate ao Estado Islâmico – e força mais islamofascista não há.
Em suma, para compreender o que se está a passar no Irão é preciso interiorizar que a sociedade iraniana, com todos os seus defeitos e feitios, é muito diferente daquilo que a propaganda pinta. Acreditem ou não, ao contrário da maioria das sociedades ocidentais, no Irão a discussão política está muito presente na esfera pública, dos cafés às universidades, e a generalidade da população tem acesso (através de VPNs) a dezenas de media da oposição em língua persa, sediados no estrangeiro e financiados pelas potências imperiais (como o Iran International e a BBC Persian). Quem visita o país conta que há no seio da generalidade da população, muito mais do que cá, um vasto conhecimento sobre política e história, bem como compreensão do sistema imperialista que domina o mundo – provavelmente uma das principais razões pelas quais, apesar de todas as sanções, agressões militares e campanhas agressivas de propaganda, as massas iranianas não abandonaram a República Islâmica.
Isto não quer dizer que não existam sectores da sociedade iraniana que se opõem ao modelo da República Islâmica e aspiram a uma “democracia e liberdade” à imagem do Ocidente. Existe, sim, uma oposição – mas, pelo que podemos perceber, não tem uma grande expressão. E, como poderão ver com os vossos próprios olhos ao longo deste artigo, os protestos das últimas semanas mostram isso mesmo.
É igualmente importante compreender que as coisas não acontecem num vácuo. Há pouco mais de 6 meses, em meados de Junho de 2025, israel lançou um ataque multifacetado contra o Irão, ao qual os EUA se juntaram com o bombardeamento de centrais nucleares. O ataque tinha como objectivo eliminar a liderança política, militar e científica iraniana, na esperança de fazer colapsar o “regime” – o plano, no entanto, falhou redondamente. Amplos sectores da sociedade iraniana, especialmente entre as camadas mais jovens e urbanas, que não eram necessariamente apoiantes fervorosos da República Islâmica, viram com os seus próprios olhos os horrores provocados pelas mesmas potências que dizem querer “liberdade” para o povo iraniano – unindo ainda mais a sociedade iraniana em torno da liderança, e descredibilizando uma oposição que defende uma “democracia” à imagem do Ocidente. Para a generalidade da sociedade iraniana, ficou claro que os EUA e israel são inimigos, não aliados.
Por último, é pertinente deixar claro que a nossa leitura da presente realidade mantém no centro o Holocausto em curso na Faixa de Gaza, que avança à vista de todo o mundo. A normalização do genocídio, e destes níveis extremos de violência, já estão a ter consequências concretas e materiais para todos nós – das periferias deste mundo, como a Venezuela e a Palestina, ao centro do Império. Também é claro que o sionismo é parte integrante e central do Império ocidental. Analisar acontecimentos nesta região massacrada durante décadas e décadas pelo Ocidente sem colocar Gaza no centro é intelectualmente ofensivo e, em última análise, uma afronta às vítimas do Holocausto da nossa Era.
Também já é altura de o público interiorizar que os mesmos media que passaram um ano e meio a negar veementemente estar em curso um genocídio, e espalharam mentiras e histórias fabricadas para denegrir a resistência palestiniana, também nos vão mentir sobre outros assuntos, especialmente sobre os inimigos do Império – e por isso deviamos ficar de pé atrás quando encontramos as nossas opiniões e posições nas bocas desses mesmos propagandistas ocidentais que tanto se esforçaram por normalizar o genocídio em curso.
Precisamos de compreender que o fascismo moderno, no Ocidente, emerge do chamado centro político, dos “democratas” moderados que estão no poder na maior parte do Império, que apoiam o extermínio do povo palestiniano e armam até aos dentes o regime sionista, ao mesmo tempo que silenciam, censuram e reprimem as vozes que se lhe opõem. É extraordinário que ainda haja quem considere que este genocídio não destruiu o conceito ilusório de “democracia” liberal que serve de contraponto a essas supostas “ditaduras”.
E é por isso que, enquanto jornalistas e enquanto seres humanos, seguimos fontes que também colocam no centro o genocídio em Gaza e apoiam sem rodeios a resistência à barbárie. As duas principais fontes através das quais seguimos os acontecimentos das últimas semanas no Irão foram o Fotros Resistance e o Middle East Spectator – ambos iranianos, pró-Palestina, abertamente pró-resistência e, naturalmente, apoiantes da República Islâmica. Escolhemo-las pois têm sido, ao longo dos últimos dois anos, fontes bastante fidedignas, inclusivamente denunciando os media estatais iranianos quando estes publicam informações falsas, e criticam abertamente o actual governo de Masoud Pezeshkian em vários aspectos.
A Guilhotina nunca fingiu qualquer ilusão de neutralidade. Nenhum jornalismo é neutro – e nós, como habitual, optamos por dar voz a quem não é ouvido deste lado do mundo. Para quem quiser a narrativa ocidental sobre estes acontecimentos, não faltarão outras fontes para consultar.
Todos os acontecimentos mencionados na cronologia abaixo são eventos dos quais conseguimos obter confirmação visual, seja através de vídeos ou de fotografias, e são acompanhados de links para as fontes. Convidamo-vos a abri-los e tirar as vossas próprias conclusões.
Apesar de longa, esta não é uma cronologia completa e minuciosa de todos os acontecimentos – o Irão tem uma população de 90 milhões de pessoas e centenas de cidades – mas apresenta uma ideia geral do desenrolar das últimas semanas.
1. Cronologia das duas semanas de protestos
No dia 28 de Dezembro, comerciantes fecharam os seus negócios e saíram à rua em Teerão e algumas outras cidades contra a situação económica e uma súbita desvalorização do rial relativamente ao dólar. Embora a situação económica do Irão tenha sido afectada pelas políticas neoliberais implementadas pelo actual governo, são as sanções e a guerra económica travada pelo Império ao longo das últimas quatro décadas que estão na raiz das dificuldades enfrentadas diariamente pelo povo iraniano.
Algumas fontes ocidentais, como o New York Post, afirmam que o colapso do rial está ligado a um enorme escândalo de corrupção em torno do Ayandeh Bank, que levou ao seu encerramento no ano passado. No entanto, o ex-agente do MI6 e ex-diplomata britânico Alastair Crook, numa entrevista ao The Cradle, explicou como essa desvalorização foi, também ela, fabricada pelo Império e os seus lacaios:
O primeiro dos precursores da mudança de regime entrou em acção: um ataque ao rial através do Dubai – o rial desvalorizou 30% a 28 de Dezembro, no mesmo dia em que decorriam as conversações em Mar-a-Lago [entre Trump e Netanyahu]. Porquê? Qual foi o factor que causou tal queda no rial? Bem, não houve nenhum – excepto as pessoas estarem a vender o rial a descoberto para o comprar de volta mais tarde. Foi, portanto, um ataque concertado à moeda. Já vimos isto antes inúmeras vezes. (…)
E é verdade – os comerciantes ficaram em pânico, porque uma queda de 30% significava que os negócios já não eram viáveis. Então começaram a protestar, mas protestavam contra isso, a queda da moeda, apenas a má gestão da economia por parte deste governo e o facto de não terem meios para fazer nada quanto a isso.
Alastair Crooke ao The Cradle, Janeiro de 2025
Os protestos, neste primeiro dia, exigiam ao governo medidas para contrariar esta desvalorização e salvar os comerciantes da bancarrota, e não tinham qualquer dimensão “anti-regime”. Foram pacíficos e decorreram sem interferência das forças policiais (acreditem ou não, no Irão há direito de manifestação).


Logo após os primeiros protestos, a 29 de Dezembro, o governador do Banco Central do Irão submeteu a sua demissão ao presidente iraniano. Isto não quer dizer que é tudo rosas – Pezeshkian nomeou outro economista liberal para o cargo – mas mostra como as autoridades iranianas ouvem e reagem a protestos, mesmo de pequenas dimensões, muito mais do que as ditas “democracias ocidentais”. Quando foi a última vez que viram um político ocidental demitir-se após um dia de protestos com um ou dois milhares de pessoas?
Nos dias 29 e 30 de Dezembro, os protestos económicos continuaram e alastraram-se para as universidades. Os manifestantes expressaram frustração para com as políticas do actual governo, mas não demonstravam descontentamento com a República Islâmica – pelo contrário. A título de exemplo, num protesto na Universidade de Teerão no dia 30, um manifestante dirigia-se à multidão afirmando que «estamos a lutar contra os oficiais corruptos e sem honra que continuam a roubar o nosso dinheiro», mencionando Ali Ansari, o magnata que era dono do Ayandeh Bank, e outros nomes. O estudante conclui assim a sua intervenção:
Sr. Ejei [Chefe do Judiciário], o que é que está a fazer? Esta é a voz de um iraniano das Basij [milícias populares de defesa da Revolução Islâmica]. Sacrificar-me-ia por esta pátria. Daria a minha vida pela República Islâmica!
Fonte
Enquanto ele está a dizer as últimas palavras, a multidão rompe em aplausos e gritos de aprovação. Outras intervenções deste mesmo estudante receberam amplo apoio dos manifestantes. Outro vídeo, também de dia 30, mostra manifestantes a gritar as palavras de ordem: «Protestar é nosso direito, permanecer unidos é o nosso caminho».
Também foi nestes dias que se registaram os primeiros casos de elementos suspeitos a infiltrarem-se nos protestos com o propósito de os agitar, tentando em alguns casos iniciar palavras de ordem anti-regime. Os manifestantes, conscientes de que potências estrangeiras poderiam tentar instrumentalizar estes protestos para provocar instabilidade no país, confrontaram estes elementos e, em alguns casos, expulsaram-nos (exemplos 1 e 2). Na Universidade de Teerão, quatro estudantes tentaram começar slogans anti-regime e foram imediatamente interrompidas e vaiadas pela multidão.
Neste dia 30, tiveram lugar vários protestos económicos em Teerão, com participações entre dezenas e algumas centenas de pessoas. Também nesta data, milhares de pessoas reuniram-se na Praça Imam Hussein, em Teerão, para celebrar o dia 9 de Dey (o décimo mês do calendário iraniano) – o dia em que, em 2009, enormes manifestações em apoio à República Islâmica puseram fim a meses de instabilidade na sequência de alegadas irregularidades nas eleições.

O clima dos protestos, até então, era em larga medida calmo e pacífico, como se pode ver nos vídeos – decorrendo sem intervenção das forças de segurança.
No dia 31, registaram-se os primeiros ataques violentos contra forças de segurança (e não só) – não como produto de um grande processo de mobilização popular reprimido brutalmente pela ditadura teocrática, mas em acções direccionadas a alvos específicos, protagonizadas por grupos de algumas dezenas de pessoas. Em Fasa, manifestantes tentaram invadir o Governo Civil – um edifício onde são guardadas armas e munições; as forças de segurança responderam, e 3 agentes ficaram feridos nos confrontos. Em Arak, foram atirados cocktails molotov contra a polícia, incendiando um agente. Em Ramhormoz, na província do Cuzistão, o Governo Civil foi atacado por “manifestantes”.
Na noite de 31, fontes iranianas anunciaram a morte de Amir Khodad-Yari Fard, de 22 anos, um membro das Basij assassinado por participantes nos motins em Kuhdasht, que deixaram outros 13 membros das Basij feridos. Nos dias seguintes, fontes da oposição e ONGs sediadas no Ocidente começaram a afirmar que Amir foi assassinado pelas forças de segurança e não por elementos que participavam nos motins – e media ocidentais agora apresentam-no como uma das vítimas mortais do regime islâmico, sem qualquer contraditório.
No dia seguinte, fontes iranianas divulgaram declarações de um polícia, internado e acamado, que sofreu queimaduras na cara durante os confrontos da noite anterior em Kuhdasht.
A violência continuou a escalar, com um grupo de manifestantes a espancar brutalmente um membro das forças de segurança, sozinho e desarmado, no dia 1 de Janeiro. Nesse dia, a associação de comerciantes de Isfahan lançou um comunicado a expressar preocupação com a situação económica e, ao mesmo tempo, a condenar a instrumentalização dos protestos por manifestantes violentos que «põem em risco a segurança e a paz dos bazares». No dia seguinte, associações de comerciantes de várias partes do Irão publicaram comunicados semelhantes.
Apesar de não se verificar uma grande adesão aos protestos, estes tornaram-se progressivamente mais violentos, e começou a ser mais comum a utilização de molotovs e outros engenhos incendiários – especialmente à noite, onde o efeito visual é mais marcante.
Nos dias 1 e 2 de Janeiro, registaram-se confrontos com as autoridades em várias cidades, assim como ataques contra múltiplas esquadras da polícia, edifícios administrativos, sedes das Basij, carros, edifícios religiosos, bancos, lojas e até uma ambulância e uma farmácia. Reparem como, em todos estes vídeos, os ataques e confrontos são protagonizados por grupos de algumas dezenas de pessoas, e não por “marés humanas em revolta aberta contra o regime”.
Após um par de dias a ler relatos de que havia elementos armados no meio dos manifestantes, foi na noite de dia 2 que vimos a primeira confirmação visual: um vídeo que mostra vários elementos armados com kalashnikovs nas ruas de Sarableh, na província de Ilam, que faz fronteira com o Iraque. Isto não prova sem sombra de dúvidas o envolvimento da Mossad em específico mas, como publicámos na altura no nosso canal, é «um forte indício do envolvimento de serviços secretos estrangeiros, seja directamente seja através do MKO, MEK, PJAK ou outros grupos». O grande número de vídeos semelhantes que foram sendo publicados desde então só reforça essa suspeita.
Na noite de dia 2, fontes iranianas anunciaram a morte de Ali Azizi, membro das Basij, esfaqueado e baleado. Desta vez praticamente em simultâneo, a ONG Hengaw, desde a Noruega, anunciou que Ali Azizi não era das Basij e que tinha sido assassinado pelas forças de segurança. Estas fontes da “oposição iraniana”, sejam mascaradas de ONGs ou de meios de comunicação, referem sempre testemunhas anónimas que afirmam ter assistido aos assassinatos, mas nunca partilham imagens dos enormes protestos pacíficos brutalmente reprimidos pela “polícia do regime”. No dia seguinte, o Fotros Resistance divulgou uma foto de Azizi em uniforme.

O dia 2 de Janeiro viu também grandes manifestações tomarem as ruas de Hamadan, Kavar e outras cidades iranianas em condenação dos motins do dia anterior. Com o escalar da violência e os cada vez mais frequentes ataques às forças de segurança, os confrontos foram fazendo cada vez mais feridos e mortos – entre as forças de segurança, entre os participantes nestes protestos, motins e ataques, e também entre civis não-envolvidos. Também houve cada vez mais detenções.

1.1 Inteligência artificial e manipulação mediática
A partir de dia 30 de Dezembro, começaram a circular vídeos e imagens adulteradas ou totalmente fabricadas, amplificadas pelos mesmos algoritmos que suprimem conteúdo pró-Palestina.
O carácter violento destes “protestos anti-regime” tinha como objectivo, logo desde o início, provocar repressão violenta, imagens chocantes e mortes que pudessem ser apresentadas como “manifestantes pela liberdade brutalmente reprimidos”. Nos dias de hoje, quando os enormes protestos anti-regime não acontecem, ou quando a repressão brutal contra os “manifestantes pacíficos” não se materializa, a tecnologia dá uma ajuda.
Primeiro, surgiram vídeos com áudios adulterados – vídeos de protestos económicos, tal como cenas gravadas nas ruas de Teerão onde não se ouviam quaisquer cânticos, viram os áudios originais substituídos por cânticos pró-Xá (exemplo 1, 2 e 3).
Além disso, várias mortes anunciadas por fontes da oposição nas redes sociais foram desmentidas pelas supostas vítimas, que gravaram vídeos a garantir que estão vivos e não participaram nos protestos – como Mahdi Samavati, Reza Niknam e Mehdi Kamali (tradução completa do vídeo aqui).
Também proliferaram nas redes sociais imagens geradas por IA – felizmente (ainda) de má qualidade e por isso relativamente fáceis de identificar.

Até há alguns dias, se visitássemos este artigo do site The Iranist, considerado pelo Grok como uma fonte suficientemente credível para ser citada, encontraríamos esta mesma foto como o exemplo de um “manifestante corajoso”. Ali Azizi também é listado como uma das vítimas mortais do regime, sem contraditório. Agora, o artigo está escondido atrás de uma paywall, mas pode ser acedido na íntegra aqui.
Se se perguntarem porque é que não damos muita credibilidade a fontes da oposição iraniana, isto devia ser suficiente para compreender. Mas há mais.
O National Council of Resistance of Iran (NCRI), com sede em Paris, inclui na lista de “mortos pelo regime” Reza Niknam (apesar de estar vivo), bem como Ali Azizi e Amir Khodad-Yari Fard (sem referir que há relatos contraditórios sobre as suas mortes). O mesmo acontece com outras fontes da oposição e media ocidentais.
A partir de 1 de Janeiro, também começaram a circular “notícias” nos media da oposição de que cidades iranianas teriam sido capturadas pelos manifestantes – algo depois amplificado nas redes sociais. A realidade é que, durante todo o processo, nenhuma cidade “caiu” – mas estas manchetes serviram para alimentar a ideia de que o “regime” estava à beira do colapso.
Ainda assim, convém ter em mente que nem sempre o que se afirma ser manipulado ou gerado por IA o é – nem de um lado, nem de outro. Nos tempos que correm, onde reina a desinformação, o mais importante é cada um e cada uma usar os seus próprios olhos para chegar às suas conclusões.
1.2 O assassinato de Qassem Soleimani
Os mesmos algoritmos que suprimem vozes pró-palestinianas facilitam a viralização de conteúdos que servem as narrativas do Império – mesmo que não sejam reais. Ao mesmo tempo, eventos extremamente significativos passam despercebidos à generalidade do público.
No dia 3 de Janeiro cumpriram-se 6 anos desde que o lendário general das IRGC que liderou o combate ao ISIS na Síria e no Iraque, Qassem Soleimani, foi assassinado – um acto levado a cabo pela primeira administração Trump e que colocou o Médio Oriente à beira de um novo e sangrento conflito. Independentemente da imagem que tenham das IRGC, o facto é que Soleimani é venerado por milhões de pessoas no Irão e em toda a região.
Entre 1 e 3 de Janeiro, centenas de milhares de pessoas visitaram o Cemitério dos Mártires em Kerman, onde Soleimani está sepultado – mas, naturalmente, não houve uma palavra sobre isto nos media ocidentais. [vídeos de dia 1 (2), dia 2 e dia 3]
1.3 Violência extrema e o pico dos protestos
Apesar de não haver nenhum aumento significativo na participação, a violência continuou a escalar. Entre os dias 3 e 7 de Janeiro, além de confrontos com a polícia em várias cidades, foram registados:
- um ataque incendiário contra a Câmara do Comércio de Tabriz, que havia publicado um comunicado de apoio à República Islâmica;
- um ataque com um lança-chamas improvisado contra a polícia, que incendiou um agente;
- ataques incendiários contra edifícios religiosos;
- destruição de carros e autocarros;
- o espancamento brutal de um polícia sozinho nas ruas de Hamedan, outro espancamento de um polícia em Isfahan e o espancamento de um civil em Kermanshah;
- tentativa de invasão e tomada de uma base das Basij na província fronteiriça de Ilam, aparentemente com o intuito de capturar o armamento aí guardado;
- mais elementos armados com kalashnikovs nas ruas da província de Ilam;
- elementos munidos de cimitarras no meio dos protestos em Malekshahi;
- pelo menos uma tentativa de atropelamento de polícias;
- uma livraria de livros religiosos foi completamente consumida pelas chamas.

Na noite de dia 4, um grupo de algumas dezenas de “manifestantes” reuniu-se à porta de um hospital em Ilam, aguardando pacientemente a chegada da polícia para então fugir para dentro do hospital e levar para lá a confrontação – numa operação cuidadosamente planeada, que serviu para contas da oposição iraniana e de propagandistas ocidentais espalharem a história de que as forças de segurança invadiram um hospital para «caçar manifestantes hospitalizados», «remover os corpos dos mortos e deter civis feridos em busca de cuidados médicos». No entanto, um vídeo de 5 minutos publicado pelo Fotros Resistance não deixa grandes dúvidas sobre a sequência dos acontecimentos.
Reparem como os vídeos que registam todos estes eventos mostram sempre grupos reduzidos, na casa das dezenas de pessoas ou, na melhor das hipóteses, algumas centenas.
A 6 de Janeiro, uma grande manifestação, talvez a maior até então, ocupou as ruas de Abdanan – onde, após um início pacífico, manifestantes invadiram e saquearam um supermercado, e destruíram sacos de arroz no meio da multidão. Diferentes fontes da oposição iraniana e ocidentais apresentaram-no como um acto de rebeldia e desobediência, já que, aparentemente, este era um supermercado “afiliado às IRGC”.
Separadamente, manifestantes em Abdanan invadiram uma filial de uma cadeia de supermercados associada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e espalharam arroz pelas ruas sem o levar para casa (…) como um gesto de desafio numa região economicamente desfavorecida.
Amwaj Media
Em Abdanan, na província de Ilam, os manifestantes atiraram arroz para o ar, um acto deliberado e simbólico de rejeição à tentativa do regime de reduzir a revolta contra as «queixas económicas». A mensagem era evidente: não se trata de pão, mas de liberdade e dignidade.
Now Lebanon
Manifestantes na cidade de Abdanan invadiram um supermercado gerido pelos militares e atiraram punhados de arroz para o ar, desafiando abertamente a oferta do governo de subsídios para bens básicos destinados a aplacar a agitação.
The Observer
Nesta altura, já há vários dias circulavam relatos de confrontos mortíferos entre as forças de segurança e “manifestantes armados”, com mortos de ambos os lados. No dia 7, surge um vídeo que mostra claramente um manifestante armado com uma caçadeira a disparar contra a polícia na província de Charmahal Bakhtiari, enquanto ele e outros gritam slogans contra Khamenei. Também dia 7 é publicado um vídeo de câmaras de CCTV, datado de 1 de Janeiro, que mostra “manifestantes” em Marvdasht a atacarem uma casa privada e incendiarem o carro que se encontrava na garagem.
Por outro lado, neste período registaram-se manifestações de apoio à República Islâmica: dia 4 em Borujerd, dia 5 em Qom e dia 6 em Isfahan.
No dia 8 de Janeiro, as autoridades iranianas impuseram um corte de internet nas províncias ocidentais onde se tinham registado motins mais descontrolados e confrontos armados – como as de Ilam e Kermanshah, duas províncias de maioria curda. Durante o dia, em Lumar, província de Ilam, “manifestantes” invadiram e vandalizaram um banco. Por outro lado, na cidade de Ilam, milhares de pessoas participaram no funeral de um agente da polícia morto pelos “manifestantes pacíficos”.
Foi neste dia que se registou o pico dos protestos. O filho do Xá deposto pela Revolução Islâmica de 1979, “príncipe” no exílio, apelara desde os EUA a grandes manifestações ao final da tarde de dia 8 para exigir o fim do regime – um apelo amplificado pelos media ocidentais e os ligados à oposição, como o Iran International. Mais de uma semana de intensa propaganda pelos meios de comunicação da oposição iraniana, segundo os quais o regime estaria à beira do colapso, finalmente produziu resultados – em Teerão, registou-se a maior manifestação anti-regime desde o início dos protestos a 28 de Dezembro.
As imagens disponíveis, publicadas por fontes iranianas e ocidentais, mostram multidões de dimensão considerável, com seguramente vários milhares de pessoas. Se nos pedissem para estimar um número, diríamos que se vêem nessas imagens entre 5 a 10 mil pessoas. Embora já seja um protesto algo significativo, não demonstra a tal “oposição generalizada do povo iraniano ao regime dos mullahs”, tão apregoada deste lado do mundo. Teerão é uma cidade de 10 milhões de pessoas. As imagens estão disponíveis ao alcance de um clique, e cada um e cada uma pode tirar as suas próprias conclusões.

A manifestação, inicialmente pacífica, rapidamente mergulhou no caos, com elementos entre os manifestantes a pegarem fogo a um grande número de carros e edifícios. Cenas de violência extrema foram desencadeadas em inúmeras cidades iranianas, e circularam relatos de confrontos intensos com elementos armados em Kermanshah e vários outros pontos do Irão. À meia-noite, o acesso à internet foi bloqueado em todo o país.
Ao final da manhã de dia 9, começam a ser publicadas imagens da noite anterior – imagens que, se fossem divulgadas pelos media ocidentais, chocariam toda a gente que proclama solidariedade com os “manifestantes pacíficos”.
As imagens mostram um grande número de autocarros, carros, camiões dos bombeiros, lojas e mesquitas incendiadas; danos consideráveis em estações de metro e de autocarros, contentores do lixo, etc.; e supermercados atacados e saqueados, onde os “manifestantes” destruíram bens alimentares.
Também foram divulgadas imagens de “manifestantes” munidos de armas de vários calibres em confrontos armados com forças de segurança em Kermanshah. Também em Kermanshah, Melina Asadi, uma menina de 3 anos, foi assassinada a tiro à porta de uma farmácia. Numa entrevista no dia 9, legendada pela AlMayadeen, o pai de Melina relatou o momento do seu assassinato, que transformou uma simples ida à farmácia numa tragédia para a sua família.
No dia 9, manifestações em condenação dos motins e em apoio à República Islâmica tomaram as ruas de Mashhad, Arak, Zanjan, Qazvin, Ahvaz, Ardabil, Shahr-e Kord e várias outras cidades.
Também dia 9, o “príncipe” Pahlavi apelou abertamente a uma intervenção norte-americana. Novos protestos extremamente violentos e confrontos armados foram registados na maioria das grandes cidades. Milhares de pessoas voltaram a tomar as ruas em várias partes de Teerão e de outras cidades, e as cenas de violência extrema repetiram-se novamente – foram publicadas um par de fotos de mesquitas e carros em chamas, mas o bloqueio da internet fez com que saíssem poucas imagens dos motins durante a noite.
No dia 10, surgiram mais filmagens da violência dos “manifestantes pacíficos” dos dias anteriores, como este vídeo, que mostra “manifestantes” em Sabzevar a atirar cocktails molotov para dentro de uma mesquita onde crianças estavam a brincar, ou este, que mostra um manifestante a atirar um molotov contra um edifício residencial. Outras reportagens mostram edifícios inteiros em chamas em Karaj; múltiplas lojas incendiadas em Gorgan; um edifício do Crescente Vermelho incendiado, junto com vários veículos, em Izeh; e uma mesquita incendiada e vandalizada em Sarableh.
Filmagens de câmaras de CCTV publicadas neste dia mostram manifestantes armados em Teerão a incendiar motas e edifícios, e a espancar um polícia sozinho.
O director do Departamento de Bombeiros de Teerão anunciou os danos causados nos motins dos dias anteriores: 50 veículos pesados (tais como camiões dos bombeiros) danificados em todo o país, incluindo 8 totalmente destruídos; dois quartéis dos bombeiros incendiados, em Mashhad e Shiraz; e equipamento de emergência roubado por manifestantes. Em Teerão, camiões dos bombeiros foram atacados quando iam a caminho de uma casa em chamas. Em declarações à imprensa, o presidente da câmara de Teerão estimou os danos causados pelos motins das noites de 8 e 9 em mais de 18 milhões de dólares, e afirmou que trabalhadores municipais foram atacados e feridos. Um representante do município de Mashhad afirmou que 15 autocarros foram incendiados, e 320 paragens de autocarro e 600 sinais foram destruídos.

Nesse mesmo dia, muitos milhares de pessoas participaram em funerais de membros das forças de segurança em Shiraz e Qom. Ainda houve alguns protestos anti-regime e cenas de violência em Teerão, Karaj e algumas outras cidades, mas de menor dimensão do que os das noites anteriores.
No dia 11, largos milhares de pessoas tomaram as ruas de Kermanshah para o funeral de Melina, a menina de 3 anos morta três dias antes, e outros mártires caídos nos motins. Também se realizaram funerais em Ilam, Hamedan e Bushehr – todos com participação massiva. Enormes manifestações de apoio à República Islâmica tiveram lugar em Mashhad, Yazd e Isfahan.

Ao longo dos dias, foi sendo publicada mais informação sobre algumas das vítimas da violência dos “manifestantes”: Anila, uma menina de 8 anos, foi morta em Isfahan (imagens do funeral); Amir-Ali Latifi, voluntário do Crescente Vermelho em Rasht, foi morto no dia 9 durante uma missão de salvamento; Bahareh, uma menina de 2 anos, acabou por sucumbir aos seus ferimentos após 3 dias em coma. Marzieh Nabavinia, enfermeira e mãe, morreu queimada numa clínica em Rasht, após esta ter sido incendiada por “manifestantes”. Nabavinia ficou para trás para ajudar a evacuar os pacientes e, após o último ter sido retirado do local, acabou por ficar presa nas chamas. Dias depois, a sua irmã fez um discurso emocionado em que afirmou: «A imolação do teu ser, célula por célula, tornou-se o preço a pagar pelo despertar dos nossos corações desatentos e a desgraça dos nossos inimigos.» Outras imagens divulgadas nestes dias mostravam corpos de um segurança e um bombeiro consumidos pelas chamas.
Deste lado do mundo, não há notícias nem discursos emocionados sobre estas (e tantas outras) vítimas desta onda de violência. Da maioria, nunca saberemos os nomes.
Neste dia 11, os media estatais iranianos anunciaram que pelo menos 109 agentes das forças de segurança tinham sido mortos desde o início dos protestos, com muitos outros a lutar pela vida nos hospitais. Foram também publicadas várias entrevistas com civis espancados brutalmente por manifestantes, e com paramédicos com queimaduras depois de a ambulância de serviço em que seguiam ter sido atacada e incendiada por “manifestantes”. Surgiram mais imagens dos dias anteriores: um vídeo, alegadamente de dia 9, mostra um civil a ser espancado por um grupo de “manifestantes”, um deles armado, em Gohardasht; e fotos mostram um supermercado completamente consumido pelas chamas e a comida destruída em Mobarakeh.

A partir deste dia, não se registam mais “protestos anti-regime” significativos. Contas da oposição ainda vão, durante alguns dias, reciclando imagens de noites anteriores para dar a ilusão de que os protestos estavam a continuar. Entretanto, já admitiram que a “revolução” falhou e que a única “esperança” é uma intervenção norte-americana.
1.4 12 de Janeiro: Milhões nas ruas em apoio à República Islâmica
Na segunda-feira, 12 de Janeiro, o Irão foi palco de uma das maiores mobilizações da sua história, com marés humanas a inundar o centro de dezenas de cidades em todo o território. Milhões de pessoas saíram à rua para reiterar o seu apoio à República Islâmica e condenar a violência descontrolada.
Muitos activistas no Ocidente, depois de passarem vários dias a proclamar apoio ao povo iraniano, reagem às imagens com negação. Como habitual, ao depararem-se com algo que põe em causa a sua visão do mundo, rejeitam-no – em vez de ajustar a sua visão do mundo à realidade que se lhes apresenta. Muitos – de propagandistas respeitados, como Piers Morgan, até à horda de comentadorzecos das redes sociais – juram a pé juntos que as imagens foram geradas por inteligência artificial, apesar de terem sido transmitidas em directo e de haver no terreno inúmeros repórteres, não só iranianos mas também da AlJazeera, da AlMayadeen e de outros media regionais, que documentaram as marchas. Outros dizem que as pessoas foram obrigadas a participar pelas “forças do regime” – argumentos tão habituais que iranianos no meio das manifestações gravam vídeos a gozar com isso.
Filmagens aéreas divulgadas pela televisão iraniana mostram uma avenida ampla em Teerão repleta de gente até perder de vista, numa marcha com vários quilómetros em que as autoridades estimam terem participado mais de 2 milhões de pessoas. Deixamos aqui uma compilação que montámos com vídeos de várias cidades para que possam tirar as vossas próprias conclusões.
As manifestações tiveram uma ampla participação de gente de todas as idades, muitos homens e também muitas mulheres – algumas das quais com o cabelo descoberto e, pasmem-se, até com tatuagens

O regime é de tal maneira odiado que o presidente Masoud Pezeshkian, o ministro dos negócios estrangeiros, Abbas Araghchi, o presidente do parlamento, Mohammad Qalibaf, e o presidente do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, estiveram no meio da multidão – essa mesma multidão que, segundo muitos, odeia o regime e só participou nas marchas porque foi obrigada.
Ao longo do dia, foram publicadas inúmeras entrevistas a participantes das marchas (exemplo 1, 2, 3, 4, 5 e 6), bem como vídeos de manifestantes a queimar fotografias de Pahlavi, de Trump e de Netanyahu.
Apesar de tudo isto, um artigo do Público datado de 15 de Janeiro sugere que não houve milhões de iranianos nas ruas a apoiar “o regime”, que tal se trata de desinformação – e para o provar mostram imagens do funeral de Qassem Soleimani, em 2020, que não vimos nenhuma conta iraniana “pró-regime” partilhar, mas não analisam nenhuma das imagens publicadas no próprio dia, e que compilámos acima. Enfim.
Também a 12 de Janeiro, as autoridades iranianas mostraram aos embaixadores do Reino Unido, Alemanha, Itália, França e muitos outros países, vídeos de “manifestantes” armados a destruir propriedade e matar pessoas nas ruas de cidades iranianas – uma sessão registada em vídeo. Dias mais tarde, foi realizada outra sessão com os adidos militares de vários países para mostrar mais imagens da barbárie dos dias anteriores.

Nos dias seguintes, continuaram a realizar-se funerais em todo o Irão, que juntaram muitos milhares de pessoas. Para terem uma ideia do ambiente, podem ver esta reportagem num funeral no dia 13 em Alborz, durante a qual são entrevistadas mulheres e homens de várias idades, ou as declarações de um taxista à AlMayadeen nesse mesmo dia.
Desde então, foram sendo publicados muitos mais vídeos que expõem a dimensão da violência. Mostram “manifestantes”:
- com machetes e armas de fogo de vários calibres, incluindo uma situação em que intimidam um civil e roubam os seus pertences;
- a disparar no meio da rua;
- fortemente armados a usar um telefone de satélite;
- a invadir um banco, destruir e roubar equipamento;
- a atacar mesquitas e edifícios religiosos;
- a espancar um idoso e incendiar-lhe o carro;
- a espancar outro idoso;
- a espancar membros das Basij;
- a atacar um autocarro;
- a atacar ambulâncias;
- e muito, muito mais.
Outros vídeos mostram um polícia a ser atingido pelas costas (e potencialmente morto), e uma jornalista da IRIB ensanguentada após ser atacada por “manifestantes”. Uma reportagem mostra edifícios do Crescente Vermelho incendiados em várias cidades. Também foram publicadas entrevistas a médicos forenses e membros das Basij feridos.
1.5 Manipulação mediática no Ocidente: dois exemplos
A manipulação da realidade pela oposição iraniana (que opera em larga medida do estrangeiro) é depois consolidada como verdade absoluta pelos media ocidentais, das televisões aos pequenos jornais regionais. Reparem como este artigo – que fala da «intensidade do movimento», e de como os «manifestantes pacíficos» estão sob «repressão brutal de um regime autoritário» – começa com uma foto de uma avenida preenchida por uma grande manifestação encabeçada por uma faixa em que se lê «Mudança de Regime pelo Povo Iraniano». Só lhes faltou dizer que a foto é de uma manifestação em Setembro… em Bruxelas.

Um outro artigo, publicado a 17 de Janeiro pelo centenário jornal britânico The Sunday Times, dá-nos um bom exemplo de como a narrativa dos media ocidentais é desinformação pura. (salta a paywall aqui)
Este artigo, como os de tantos outros media ocidentais, menciona números de mortos astronómicos fornecidos por “médicos no terreno”, partilha relatos de testemunhas sempre anónimas e faz referência a “vídeos gráficos” que, por alguma razão, nunca são partilhados. Também nunca há links para qualquer tipo de prova dos “factos” que relatam.
Os relatos das “testemunhas” têm frequentemente contornos cinematográficos, e pintam invariavelmente as forças do regime como os seres mais maléficos do mundo. Ora reparem:
«Têm dez minutos para chorar», foi a ordem seca do oficial ao casal, ao revelar o cadáver da sua filha de vinte e poucos anos, morta a tiro nas ruas históricas de Isfahan.
Quando ela não voltou para casa após as manifestações, depois de procurarem durante dias em morgues e hospitais, pagaram 700 milhões de tomans (3.700 libras) em “dinheiro pela bala” exigido pelas forças de segurança, e foram levados de carro numa viagem de cinco horas até outra cidade, onde o corpo dela tinha sido atirado para uma sepultura antiga.
The Sunday Times
As “testemunhas” do The Times falam de atiradores nos telhados e em carrinhas de caixa aberta a massacrar manifestantes com tiros “na nuca”, e de “famílias inteiras baleadas nos seus carros”.
Vale a pena relembrar que estes são os mesmos media que sistematicamente humanizam os pobres dos israelitas, branqueiam os seus crimes contra o povo palestiniano, e rotulam qualquer acto de resistência como “terrorismo”.
Quando se trata do Irão, são os membros das IRGC e das Basij que são desumanizados e demonizados, com narrativas que fazem lembrar os “comunistas que comem criancinhas ao pequeno-almoço”, enquanto os elementos que perpetraram centenas de actos extremamente violentos e destrutivos são apresentados como “manifestantes pela liberdade”.
Este artigo também refere que militantes do Hezbollah e de milícias iraquianas foram destacados para o Irão para auxiliar no massacre de manifestantes – mais uma história inventada do ar. No entanto, curiosamente, nenhuma destas testemunhas parece achar oportuno mencionar a violência extrema e a presença de elementos armados nos protestos, apesar de haver ampla documentação visual – muito pelo contrário.
Vejamos o que tem a dizer Omid Shams, uma “escritora iraniana e activista pelos direitos humanos exilada em Londres”, uma das poucas testemunhas nomeadas no artigo:
Alguns manifestantes podem estar a fazer uma pausa para se reorganizarem, disse Shams, mas também há descontentamento por a promessa feita por Donald Trump na semana passada de que «a ajuda está a caminho» não ter sido cumprida. (…) Os manifestantes esperam que isso seja apenas uma manobra do temperamental presidente dos EUA. Shams disse que a revolta é pacífica e poucos acreditam que a mudança possa ocorrer sem ajuda externa. «Se ela não vier, temo o que poderá acontecer», acrescentou.
The Sunday Times
Portanto, a única coisa que pode salvar estes “manifestantes desarmados” é uma intervenção norte-americana que leve para o Irão “liberdade” à força da bomba. Em todo o artigo, não há uma única referência a elementos armados entre os manifestantes, nem aos actos de violência que perpetraram, nem às enormes manifestações de apoio à República Islâmica no dia 12 de Janeiro. Também não há fotos que mostrem a dimensão avassaladora desta “revolta do povo iraniano contra o regime”.
Por último, vale a pena notar que a imagem de capa deste artigo consiste nas fotos de 8 iranianos supostamente mortos pelo malvado regime – e entre elas está a foto de Melina Asadi, de 3 anos, que segundo tanto o pai como a mãe foi morta pelos “manifestantes”.
E o título desta mirabolante peça de ficção?
Relatório iraniano afirma que 16.500 pessoas morreram num “genocídio sob escuridão digital”
The Sunday Times
A sério que, depois de se recusarem a chamar genocídio ao que se está a passar em Gaza, têm o descaramento de usar esta palavra? A perversidade não tem limites.

2. Interpretação dos acontecimentos
Compreender a realidade no terreno é essencial para construir uma opinião informada sobre qualquer acontecimento – e esperamos que a cronologia aqui apresentada contribua para mostrar que a realidade é bem diferente da que nos vendem os propagandistas ocidentais. Mais uma vez, esta não é uma cronologia minuciosa e completa – o propósito deste artigo não é negar que possam ter acontecido outros protestos pacíficos que não tenhamos referido, ou que possam ter existido casos de violência policial. O facto de não termos visto imagens que o comprovem não significa, necessariamente, que não possam ter acontecido.
O que, sim, fica claro é que se verificou um padrão de violência, gratuita e descontrolada, desde os primeiros dias de instrumentalização dos protestos económicos que tiveram início no dia 28 de Dezembro, e que não carregavam inicialmente nenhuma mensagem “anti-regime”. Mas, magicamente, essa violência raramente é mencionada nos meios de desinformação ocidentais e nos comunicados de “solidariedade com a revolta do povo iraniano”.
Quem tiver noção do que aconteceu nas últimas semanas – da queima de carros, motas, veículos dos bombeiros e casas, ao espancamento de polícias e civis, passando pela presença de elementos armados no meio dos protestos – não terá dificuldade em compreender que uma parte considerável da população iraniana tenha saído à rua em massa em condenação e rejeição destes motins – ou, como outros lhe chamariam, “insurreição” ou “revolução”. Num momento em que a violência extrema era acompanhada de constantes ameaças de uma intervenção militar ocidental para “libertar” o povo iraniano, não é surpreendente que mesmo sectores mais liberais da sociedade iraniana, que não são necessariamente os mais fervorosos apoiantes do modelo da República Islâmica, tenham cerrado fileiras em torno do seu governo. O que é surpreendente é tanta gente deste lado não conseguir chegar a essa conclusão pela sua própria cabeça.
Acontecimentos que para nós são reels de instagram ou comunicados de organizações obscuras sem expressão, e tema de conversa durante um par de semanas, são eventos concretos com consequências tangíveis, materiais e duradouras para os povos que os vivem na pele. O modelo foi exactamente o mesmo que foi utilizado noutros países, como a Síria, a Líbia e a Ucrânia, para desencadear revoluções coloridas e mudanças de regime: instigação de protestos “anti-regime” que provoquem uma reacção brutal das forças de segurança – que, por sua vez, é instrumentalizada para instigar mais ódio ao “regime” e escalar ainda mais os protestos; numa segunda fase, o armamento dos freedom fighters locais, sejam eles comunistas libertários, salafistas ou neonazis; e, se necessário, uma intervenção militar para dar o empurrão final ao “regime” e mergulhar o país no caos.
O que esta operação teve de inédito foi introduzir a violência extrema desde o primeiro momento, sem esperar que os protestos ganhassem dimensão e que houvesse cenas de repressão policial que provocassem descontentamento no seio da população iraniana – e que pudessem ser exibidas ao mundo para criar uma aparente legitimidade para a “comunidade internacional” intervir.
Outros dois factores importantes distinguem o Irão de outros países alvo de mudanças de regime. O primeiro é que a Guerra dos 12 Dias, imposta pelo regime sionista e os EUA sobre o Irão, provocou danos extensos em infraestruturas essenciais e causou a morte de centenas de civis, sem ter sido condenada por um único país europeu – enterrando quaisquer ilusões sobre a suposta “solidariedade” das ditas “democracias” ocidentais para com o povo iraniano. O segundo é o genocídio que essas mesmas “democracias” perpetram há mais de dois anos em Gaza, que expôs a farsa ocidental de defesa dos “direitos humanos” e da “liberdade”.
Podemos não gostar de o ouvir, mas há muita gente no Irão que aprecia que o seu “regime” ofereça solidariedade concreta e material ao povo e à resistência palestiniana – em vez de fazer como os restantes países do mundo, que expressam “preocupação com a situação” em comunicados ao mesmo tempo que continuam a fazer comércio com o projecto sionista e a alimentar a sua máquina de guerra, enquanto a generalidade das sociedades ocidentais segue na normalidade das suas vidas como se nada se passasse.
Acreditem ou não, é natural que quem sofre na pele as consequências materiais do imperialismo não esteja assim tão ansioso por viver num regime à imagem das sociedades do centro do Império – por muito que, por cá, acreditemos que somos livres.
Quem se queixa de que a repressão do regime e o bloqueio de internet têm o intuito de “calar a voz do povo iraniano” esquece que são precisamente as constantes tentativas de instrumentalizar protestos legítimos a favor de interesses estrangeiros que roubam ao povo iraniano a possibilidade de lutar nas ruas pelos seus direitos. Neste caso, as exigências dos comerciantes ao seu governo foram eclipsadas pela violência extrema dos “manifestantes anti-regime”, e muitos deles sofreram danos significativos nos seus negócios e propriedades. Mas nada disto é novo.
2.1 «Não se apropriem da nossa voz»: a greve de 9 de Dezembro
Uma greve no sector da energia, que teve lugar a 9 de Dezembro em Asaluyeh, no sul do Irão, tem sido apresentada pela propaganda como prova da oposição das massas trabalhadoras iranianas à República Islâmica, e como um dos precursores dos recentes protestos anti-regime.
Este excelente artigo de Helyeh Doutaghi – iraniana, formada em direito internacional pela Universidade de Yale e com uma década de participação em movimentos sociais na América do Norte, e que esteve presente nesta greve – fornece não só um relato detalhado desta histórica jornada de luta sindical como uma análise das tentativas de instrumentalização – sem ignorar as contradições do sistema económico iraniano. E o que Doutaghi descreve é radicalmente diferente do que contam os propagandistas ocidentais e a oposição iraniana:
O que aconteceu em Asaluyeh não foi apenas uma greve laboral. Foi uma demonstração da soberania da classe trabalhadora, uma acção política anti-imperialista sob cerco imperial (…)
O protesto de South Pars foi, antes de mais, um movimento operário construído, liderado e promovido pelos próprios trabalhadores: organizados, disciplinados e com consciência histórica. As suas reivindicações não surgiram de alianças com o empregador ou a burguesia local ou meios de comunicação da oposição financiados por estrangeiros, intervenções da elite da diáspora ou centros académicos no coração do império que sustentam, material e ideologicamente, projectos genocidas através das suas instituições. Pelo contrário, estas reivindicações surgiram das contradições laborais vividas no sector económico mais estratégico do Irão.
Ao contrário dos protestos orquestrados ou instrumentalizados pelas potências imperiais para provocar rupturas, espectáculo, violência ou promover mudanças de regime, esta mobilização estava enraizada na continuidade da promessa inacabada de justiça social da revolução da República Islâmica, no reconhecimento constitucional dos direitos dos trabalhadores, e no entendimento colectivo da posição do Irão sob um cerco imperial sustentado — desde sanções até actos de aberta agressão militar.
Helyeh Doutaghi
O protesto que juntou 5 mil pessoas, entre trabalhadores da South Pars Gas Refinery e as suas famílias, foi totalmente pacífico e coordenado com a polícia local, sem que se tenha registado qualquer repressão – como vídeos do dia o mostram. O protesto foi organizado pela Associação de Sindicatos de Trabalhadores da Refinaria de Bushehr (ASTRB), que, segundo Doutaghi, é não só um dos mais importantes sindicatos iranianos, mas «um dos poucos sindicatos independentes cuja liderança não foi comprometida e que não colabora com patrões contra os interesses colectivos dos seus membros».
Apesar de uma forte presença policial e dos bloqueios nas estradas durante a madrugada — em grande parte resultado da pressão dos empregadores por parte do sector oligárquico do petróleo e do gás, fortalecido pelas sanções —, a conduta das forças de segurança foi facilitadora e não repressiva. (…)
Quando questionado sobre esta estratégia [não violenta], Mirghaffari [presidente da ASTRB] explicou que «a violência apenas serviria aos actores externos que procuram sequestrar o movimento para objectivos de mudança de regime, bem como aos actores nacionais ansiosos por securitizar uma luta fundamentalmente baseada no trabalho, a fim de a suprimir». A promoção da violência, enfatizou, «tem-se mostrado repetidamente benéfica para as agendas intervencionistas estrangeiras e prejudicial para os movimentos da classe trabalhadora». (…)
Os trabalhadores viam a exploração não apenas como roubo de classe, mas como sabotagem nacional. Numa economia sancionada sob constante ataque externo, defender os direitos dos trabalhadores torna-se um acto de defesa da própria soberania. (…) Hoje, os movimentos sindicais no Irão opõem-se não apenas ao capital, mas também a toda a economia política moldada pela guerra híbrida do imperialismo. (…)
As sanções têm sido um elemento central dessa dinâmica de classes. Não só servem como instrumento de guerra económica, mas são também um mecanismo de reestruturação das relações de classe nacionais. Ao restringir o acesso ao capital, aos mercados e à circulação global, as sanções geram uma acumulação desigual e fortalecem uma facção capitalista oligárquica que opera como uma extensão do capitalismo ocidental, em vez de como seu oponente. Através da privatização, do desmantelamento de activos e do acesso privilegiado a rendas intermediadas pelo Estado, esta classe consolida o controlo monopolista sobre sectores estratégicos da economia, traduzindo o domínio económico em poder político. (…) Ao situar os direitos dos trabalhadores num horizonte anti-imperialista transnacional, ligando a mão-de-obra iraniana às lutas de Gaza à Venezuela, o sindicato articula uma política em que a defesa dos salários, a aplicação de protecções legais e a consolidação do poder no local de trabalho são inseparáveis da resistência à dominação imperial e do avanço da emancipação colectiva.
Helyeh Doutaghi
Como era previsível, apesar de a mensagem ser clara, houve nos dias seguintes várias tentativas de instrumentalização da greve por parte dos media da oposição, como a BBC Persian e o Iran International, e não só – a conta oficial do governo norte-americano em persa publicou, no dia 11 de Dezembro, uma mensagem sobre os «trabalhadores que corajosamente se opuseram à intimidação» e à «pressão e ameaças de segurança do regime da República Islâmica», à qual o presidente da ASTRB respondeu:
Como um dos organizadores destes protestos, deixem que vos diga: primeiro, o termo “regime” é mais adequado ao governo selvagem dos Estados Unidos, e não a um governo nascido de uma revolução popular. Segundo, não precisamos do apoio do vosso governo canibalesco. Não se apropriem da nossa voz.
Alireza Mirghaffari

Todos os que agora apelam ao fim do “regime maléfico” enquanto proclamam “solidariedade com o povo iraniano” estão a fazer exactamente aquilo que o presidente da ASTRB pediu para não fazermos: «Não se apropriem da nossa voz.»
2.2 O envolvimento da Mossad é propaganda iraniana?
Por estes dias, um dos argumentos mais comuns dos liberais de esquerda nas caixas de comentários é o de que a história de a Mossad estar envolvida nos protestos é “propaganda iraniana”. O principal problema deste argumento é que é desmentido pelos próprios israelitas e norte-americanos.
No dia 2 de Janeiro, o ex-secretário de estado norte-americano Mike Pompeo publicou um tweet em que desejou um “feliz ano novo para cada iraniano nas ruas” e também “para cada agente da Mossad que caminha ao seu lado”.
Já dia 29, a conta da Mossad em persa no twitter tinha publicado uma mensagem em que afirmava: «Saiamos juntos para as ruas. Chegou a hora. Estamos convosco. Não apenas à distância e verbalmente. Estamos convosco também no terreno.» Enquanto muitos na esquerda liberal acusam quem fala do envolvimento da Mossad de fazerem “propaganda pró-Irão”, os media israelitas falam abertamente desse envolvimento.

Mais recentemente, a 13 de Janeiro, o analista israelita Tamir Morag afirmou que «actores estrangeiros estão a armar os manifestantes no Irão com armas de fogo, razão pela qual centenas de membros do regime foram mortos». «Estejam à vontade para adivinhar quem está por trás disso», diz Morag.
Dia 22 foi a vez de Emily Schrader, uma comentadora e “activista” anti-Irão israelo-americana, fazer uma revelação bombástica: «Faço parte de uma aliança histórica e altamente confidencial de veteranos israelitas da tech (anteriores membros da [unidade] 8200) e operacionais clandestinos iranianos.»
A questão que se impõe é simples: se a revolta do povo iraniano fosse genuína e o envolvimento da Mossad fosse “propaganda”, qual seria o interesse do Império em afirmar que a Mossad está no terreno, algo que obviamente descredibiliza a oposição e os protestos, dando razão à “propaganda” iraniana?
Ou será que o fazem porque a oposição também não esconde essa ligação ao Ocidente? Mais uma vez, quem sai a correr para proclamar publicamente a sua posição, que acha mais moral e politicamente correcta, não perdia nada em parar um pouco e reflectir para tentar compreender minimamente a situação no terreno. Canais da oposição, como o Iran International mas não só, além de noticiarem cada peido que o Xá dá desde o conforto do seu exílio luxuoso nos EUA, estão constantemente a amplificar a voz de “manifestantes” que apelam abertamente a Trump para lançar um bombardeamento libertador ou que seguram orgulhosamente fotos do Xá.

Isto não quer dizer que todos os manifestantes fossem agentes da Mossad ou apoiantes do Xá, e que não houvesse gente a manifestar-se por razões que considera legítimas ou a acreditar piamente que Trump lhes vai dar liberdade. No entanto, é inegável que o padrão de violência extrema em vários pontos do Irão, sem ter por detrás um contexto de grandes mobilizações populares, denota um plano deliberado para provocar o caos no país. A tentativa de tomada de esquadras e bases das Basij reforça-o. O espancamento e assassinato de civis também, assim como o surgimento de armas nas mãos de manifestantes em tantos sítios.
A 16 de Janeiro, num artigo insuspeito sobre a repressão do malvado regime, o Financial Times fez uma revelação pouco comum para um jornal ocidental:
Testemunhos das cenas dos tumultos (…) revelam um relato confuso da situação, na qual agitadores se misturavam com manifestantes genuínos. Os confrontos ceifaram a vida não apenas de cidadãos desarmados que faziam parte das multidões sem liderança, mas também de agentes de segurança bem equipados.
«Havia grupos de homens vestidos de preto, ágeis e rápidos», disse um manifestante em Teerão. «Ateavam fogo a um caixote do lixo e depois passavam rapidamente para o alvo seguinte.»
Outra testemunha na zona oeste de Teerão disse ao FT que viu cerca de uma dúzia de homens em boa forma física, «que pareciam comandos», vestidos com roupas pretas semelhantes, a correr pela zona e a exortar as pessoas a saírem das suas casas e a juntarem-se aos protestos. «Definitivamente, estavam organizados, mas não sei quem os comandava», disse.
Financial Times
Importa também compreender que quem fala de “envolvimento de agentes da Mossad” não está a dizer que os protestos e a violência foram levados a cabo por espiões israelitas à imagem do James Bond. Não é preciso ser-se israelita para ser agente da Mossad, basta aceitar colaborar com a agência – e só alguém extremamente ingénuo ou desinformado pode achar que a Mossad não tem agentes no Irão. Relembramos que durante a Guerra dos 12 Dias, muito dos ataques israelitas foram levados a cabo a partir do território iraniano, seja através de actos de sabotagem, seja através do lançamento de drones guardados em camiões modificados e armazéns, e activados remotamente – a mesma técnica utilizada pelos ucranianos para atacar bombardeiros nucleares russos em várias bases aéreas em toda a Rússia, também em Junho do ano passado.
Se esta operação no Irão foi coordenada pela Mossad, pela CIA ou pelo MI6, ou por uma combinação de várias agências de serviços secretos ocidentais, é difícil saber com certeza. O que é certo é que há mão estrangeira. O mais cego é aquele que não quer ver.
2.3 Bloqueio da internet
Na noite de dia 8, as autoridades iranianas cortaram o acesso à internet em todo o país – um bloqueio que, em grande medida, continua em vigor até hoje.
A decisão foi rapidamente pintada no Ocidente como mais uma medida repressiva e indefensável do regime, que tinha como objectivo “calar a voz do povo iraniano” – algo que depende directamente da narrativa de uma imensa revolta do povo iraniano, da qual magicamente não há imagens. Se a revolta está em curso desde o final de Dezembro, 10 dias antes do bloqueio, e se o regime estava à beira do colapso, porque é que não há imagens que mostrem a dimensão avassaladora dos protestos?
Se, como expusemos na cronologia, a maioria dos “protestos” desta “revolta” foram actos de violência perpetrados por grupos altamente organizados de algumas dezenas ou centenas de pessoas, em muitos casos armadas, não haverá outras razões para o bloqueio da internet além de calar “a voz do povo iraniano”? Por exemplo, cortar a comunicação dos agentes no terreno com as pessoas que os dirigem? Relembramos que um dos vídeos acima linkados mostra claramente uma “manifestante” a usar um telefone de satélite no meio dos protestos – claro que haverá quem diga que isso é propaganda, enquanto acredita em propaganda que não tem sequer imagens que a sustentem. Adiante.
O plano era usar o Starlink, um sistema propriedade do fascista sionista Elon Musk, para fazer face a um eventual bloqueio da internet e, assim, “dar voz” aos “manifestantes silenciados pelo regime”. Segundo o New York Times, há neste momento 50 mil terminais do Starlink no Irão – que, «desde 2022, activistas e grupos da sociedade civil têm trabalhado para introduzir clandestinamente no país». No entanto, o Irão também parece ter conseguido suprimir, em larga medida, o serviço de Musk, algo que deixou estupefactas as elites ocidentais com a mania da superioridade – com a Forbes a anunciar: ”Irão desactiva Starlink de Musk pela primeira vez”.
Outra característica comum das operações de mudança de regime é a viralização de vídeos com discursos emocionados, normalmente proferidos por alguma mulher que encaixe nos padrões ocidentais de beleza, orquestrados para maximizar a empatia com os “manifestantes pela liberdade” e a repulsa pelo malvado regime que estes querem derrubar. O bloqueio da internet, mais do que “calar a voz do povo iraniano”, calou as vozes da propaganda – e foi isso que incomodou tanto os media ocidentais e da oposição que, em vez de vídeos sensacionalistas em alta definição, têm de publicar fotos granuladas que mostram meia dúzia de badamecos em torno de uma fogueira, enquanto falam de uma revolta com milhões de pessoas – ou imagens de manifestações em Bruxelas.
A realidade que muitos liberais não querem encarar é simples: o “regime” não pode liberalizar o acesso à internet porque uma das principais componentes desta guerra em curso contra o Irão é a guerra de propaganda.
Afirmar isto não implica concordar ou deixar de concordar com esta “medida autoritária” – é apenas relatar a realidade tal como ela é. Podíamos afirmar aqui, do alto de uma qualquer pureza ideológica, que condenávamos o “atentado brutal contra a liberdade de expressão do povo iraniano” – e isso teria zero influência na realidade no terreno. A única diferença é que serviríamos a narrativa do Império e ficaríamos, por isso, mais bem vistos nos círculos activistas dominados pela reputação e as aparências.
2.4 Números de mortos
Precisamente no momento em que o acesso à internet estava totalmente cortado, começam a surgir magicamente números astronómicos sobre as supostas vítimas mortais da repressão, fornecidos por fontes (sempre anónimas) nos hospitais e no governo iraniano, ou por ONGs sediadas no Ocidente, cujo único propósito é dar uma ilusão de credibilidade às narrativas do Império.
Primeiro eram 500, depois 2 mil, e então vieram umas organizações dizer que eram 10 mil, outras 12 mil, e ainda outras 20 mil. São sempre números supostamente verificados e curiosamente redondos – obviamente tirados do cu. Entretanto, para não ser ridículo de tão óbvio, já vieram com outros números menos redondos, como os 16.500 do The Sunday Times.
Reparem como é suposto acreditarmos que o malvado regime iraniano chacinou mais gente num par de dias de “brutal repressão” do que a ocupação israelita durante todo o primeiro mês do genocídio em Gaza, pautado por bombardeamentos incessantes, em que foram registados pelas autoridades de saúde da Faixa de Gaza cerca de 10 mil mortos.
Também é curioso como estes números dizem sempre respeito a “manifestantes brutalmente massacrados pelo regime”, sem nunca se mencionar a violência e o grande número de agentes das forças de segurança e civis mortos pelos “manifestantes pela liberdade”. As imagens de corpos nas morgues, apresentadas com o mesmo enquadramento, mostram supostamente a dimensão do massacre que o “regime” quer esconder – apesar de fontes “pró-regime” publicarem essas mesmas imagens.
No entanto, como não podia deixar de ser, há sempre um qualquer “amante da liberdade” que usa IA para dar um toque mais dramático à cena:

A propaganda tem um intuito claro: demonizar o Irão e legitimar, no seio da opinião pública ocidental, uma intervenção militar para “libertar” o povo iraniano. Mais uma vez, só não vê quem não quer ver – e quem participa neste circo é cúmplice.

Há “manifestantes” que foram mortos pelas “forças do regime” nestas últimas semanas? Certamente. Isso surpreende alguém? Se nós nos juntássemos com mais 5 amigos e fossemos para o meio de Lisboa incendiar mercearias e igrejas, e disparar tiros de caçadeira contra a polícia, o que é que acham que nos aconteceria?
As agências que armaram esta malta – e lhes asseguraram que, se causassem caos suficiente, viriam as tropas especiais norte-americanas para os salvar e dar o “golpe final” que faria colapsar o regime – sabiam muito bem qual seria o seu provável desfecho. O Ocidente promete sempre mundos e fundos aos seus aliados, mas abandona-os sistematicamente assim que estes servem o seu propósito – veja-se o que está a acontecer com os curdos na Síria. O objectivo aqui era, sobretudo, criar uma onda de manchetes que vilipendiassem o Irão. No momento da verdade, sem comunicações com o exterior, estes agentes iranianos foram deixados à sua mercê.
No dia 21 de Janeiro, as autoridades iranianas publicaram as estatísticas oficiais sobre as vítimas dos “protestos”:
Esses crimes [perpetrados durante os motins] resultaram no martírio de 2.427 civis inocentes e membros das forças de segurança, de um total de 3.117 mortes durante esses incidentes.
Fonte: Stay Free World
Muitos outros continuam hospitalizados, fruto dos ferimentos que sofreram.
2.5 As razões e os verdadeiros objectivos do Império no Irão
Se ainda não está claro para a generalidade do público, é necessário mais uma vez afirmar o óbvio: o Irão não está sob ataque em todos os grandes media ocidentais porque há alguma preocupação com o povo iraniano, a sua liberdade ou os seus direitos humanos, ou porque é uma teocracia liderada pelo malvado Ayatollah Ali Khamenei. O Irão está sob ataque porque se opõe ao regime sionista e à presença norte-americana no Médio Oriente, e porque a República Islâmica apoia as forças palestinianas, libanesas, iemenitas e iraquianas que resistem ao projecto sionista e ao imperialismo ocidental.
Se a liderança da República Islâmica decidisse ceder às pressões ocidentais para parar de enriquecer urânio, desmantelar o seu programa de mísseis e terminar o seu apoio às diferentes facções da resistência palestiniana, ao Hezbollah, ao Ansar Allah e às Unidades de Mobilização Popular no Iraque, este “regime” seria aceite de braços abertos pela “comunidade internacional”, onde se sentam as monarquias teocráticas do Golfo, muito menos democráticas e livres do que o Irão. E, se esse fosse o rumo escolhido, não haveria uma única palavra nas televisões e jornais quando o “regime iraniano” reprimisse brutalmente, por exemplo, manifestantes contra a normalização de relações com o regime sionista ou em apoio à Resistência – como o Bahrain faz regularmente, sem que ninguém fale disso.
Se o “regime iraniano” não ceder a essas exigências, a crença de muitos iranianos é a de que não os espera uma simples mudança de regime, mas um total desmantelar do estado iraniano e a balcanização do território. O Império não quer tornar o Irão num país próspero e “livre”, subserviente ao Ocidente – quer desmantelar o país, tal como fez à Líbia e à Síria.
Para compreender o que isto significaria, recuperamos as palavras de Sara Sagaii, uma mulher canadiana-iraniana, numa entrevista em Junho do ano passado, em plena Guerra dos 12 Dias. Sara é de esquerda, liberal e não usa hijab (portanto nem teocrática nem fascista será), tendo vivido mais de dez anos no Canadá, onde esteve envolvida em activismo – até regressar, há poucos anos, ao Irão. Ao longo da entrevista, Sara explica as razões que a fizeram trocar o Canadá, uma sociedade liberal e dita democrática, pelo Irão; relata as profundas transformações da sociedade iraniana ao longo da última década; e fala extensivamente sobre a guerra que estava a acontecer no momento; mas é na parte que diz respeito aos planos do Império que queremos focar-nos:
A mudança de regime não significa nada para os imperialistas no que diz respeito a um país como o Irão. (…) Para eles, o problema do Irão é ser um país antigo, um dos Estados-nação com mais tempo de existência contínua no planeta. Somos um povo que não foi criado pelos imperialistas. Temos um Estado-nação consistente dentro dos limites do que é o Irão contemporâneo desde o período Sahavi, há cerca de 400 anos. E acho que o grande problema que eles têm para com o Irão é não ser possível reduzi-lo a uma única etnia (…), há uma diversidade de línguas, diversidade de etnias. (…) Mas todos os diferentes povos chamaram ao Irão a sua casa. Este é um conceito de país que querem apagar.
Querem que todos os países da região sejam uma cópia de israel – é assim que eu vejo a situação. E israel é um etnoestado que caminha rapidamente para o fascismo – e acho que isso acompanha o facto de ser um etnoestado, porque quando se define um Estado para uma só etnia, acaba por se ter o tipo de tratamento fascista de outras pessoas que é levado ao extremo em israel. (…) E acho que é isso que eles querem também para o Irão.
Em suma, diria que se trata de balcanização, (…) [de] dividir o país em países sem sentido, essencialmente traçar fronteiras… uma espécie de Sykes-Picot tardio, que não conseguiram executar após a Primeira Guerra Mundial. (…)
O Irão é demasiado grande, geograficamente complexo, e os iranianos são lutadores – sempre o foram ao longo da história. Por isso, não penso que o que está a acontecer tenha que ver com a República Islâmica, não acho que seja apenas quererem um regime diferente. Acho que tem que ver com a existência de um país como o Irão, que é tão difícil de controlar – eles não conseguem lidar com isso. E os iranianos querem independência (…) Somos um povo orgulhoso e temos dificuldade em estar sob o domínio dos imperialistas. E acho que, na Revolução de 1979, vimos a raiva e a reacção do povo iraniano por ter vivido assim durante décadas. Há muitas críticas a fazer aos últimos 40 anos do governo que daí surgiu, mas fundamentalmente acredito que tivemos independência e mantivemos a integridade territorial do nosso país – factores que são uma ameaça para os colonizadores que querem um mundo diferente, onde algo como o Irão não exista de todo. (…)
Eles querem um mundo onde todos os países, todos os povos, sejam exactamente iguais a eles, sejam moldados à sua imagem, os escutem, estejam sob o seu domínio, sob o seu controlo, e não haja alternativa – nem mesmo um conceito de alternativa que as pessoas possam apontar e dizer “o Irão está a fazer de outra forma, talvez nós também possamos”. Querem eliminar até a própria ideia. Portanto, sim, acho que se o Irão perder esta guerra, deixará de existir um Irão. (…)
Sara Sagaii
Mais à frente na entrevista, Sara fala sobre o que a agressão israelita de Junho passado provocou na sociedade iraniana:
Quero agradecer aos colonizadores por isto. Quero agradecer aos israelitas por nos atacarem directamente de forma tão selvagem enquanto o Irão estava envolvido em negociações. O Irão estava numa posição em que demonstrava boa-fé total e absoluta, e esperava um bom resultado para as negociações. E posso dizer-vos que o consenso no Irão era essencialmente «precisamos de um acordo», o povo queria um acordo. (…) As pessoas aguardavam ansiosamente que este acordo fosse finalizado para que pudessem ter uma vida «normal». [Com] este tipo de engano, e basicamente terem-nos tirado o tapete de debaixo dos pés, e a confiança que tínhamos no próprio processo, penso que muitas pessoas ficaram ofendidas, muitas pessoas ficaram magoadas – e até pessoas que eram bastante pró-Ocidente viram qual era a realidade, viram o que de facto estava a acontecer: que nunca iria haver um acordo, que as negociações eram apenas uma farsa.
Considero-me bastante de esquerda. Muitas pessoas podem não pensar necessariamente assim, mas o que vejo agora é que muita gente está a chegar a uma conclusão semelhante à minha. (…) O facto de as pessoas terem tomado consciência do que estamos realmente a enfrentar em termos da barbárie dos israelitas e da administração Trump é, creio, positivo para nós. Ao menos positivo a longo prazo para os iranianos.
Sara Sagaii
No final da entrevista, Sara regressa a um dos tópicos iniciais para apontar mais uma razão pela qual decidiu abandonar o Canadá: a propaganda de guerra barata e ensurdecedora com que nos bombardeiam diariamente deste lado do mundo – e que agora se direcciona contra o Irão. As palavras que se seguem foram ditas em Junho, mas assentam que nem uma luva aos dias de hoje.
Estou muito feliz hoje [por ter deixado o Canadá], quando vejo o estado da diáspora iraniana no Canadá e nos EUA, as muitas pessoas que estão envolvidas neste tipo de demonstração repugnante de alegria pela morte de compatriotas, porque acham que israel lhes vai proporcionar um Irão livre ou toda aquela merda que nos têm impingido ao longo dos anos. É tão desprezível e tão desesperado a este ponto por ser tão óbvio o que está a acontecer. Como é possível deixarem-se enganar por [esta] propaganda? Como é possível chumbar num teste com consulta? É neste ponto que estamos agora.
Sara Sagaii

3. «Nem Washington nem Ayatollahs»: resposta à esquerda e aos anarquistas que papagueiam a narrativa do Império
As posições que classificam o Irão como uma “ditadura” – tomadas recentemente por várias vozes do activismo dos direitos humanos, do jornalismo independente, do anarquismo e do movimento LGBT – têm implícita uma falsa dicotomia entre aquilo que supostamente são regimes ditatoriais e o que quer que as pessoas considerem hoje como “democracia” e “liberdade”.
Esta dicotomia é falsa porque fundamentalmente ignora o carácter cada vez mais autoritário e repressivo das “democracias” ocidentais que, além de serem parte integrante do Império que está a perpetrar o genocídio na Faixa de Gaza, reprimem nas metrópoles as vozes anti-imperialistas e defensoras da resistência armada ao colonialismo – jornalistas são interrogados e presos de forma arbitrária; cirurgiões são impedidos de entrar no Espaço Schengen; posições políticas, como a defesa de uma Palestina livre do rio ao mar ou da globalização da intifada, são criminalizadas por regimes ditos de centro ou centro-esquerda, como na Alemanha, em França e no Reino Unido; congressos são reprimidos; e as poucas pessoas que corajosamente passam das palavras aos actos contra a máquina de guerra ocidental são aprisionadas mesmo antes de serem condenadas, como está a acontecer no Reino Unido, perante a indiferença da generalidade das sociedades ocidentais.
A outra falsa premissa que esta posição deixa implícita é que, de alguma maneira, o povo iraniano seria mais livre, e a sua sociedade mais democrática, caso o sistema da República Islâmica fosse desmantelado e substituído por um sistema mais do agrado das elites e das massas liberais ocidentais.
Se quiserem ter uma visão política séria, é necessário terem uma compreensão mais multifacetada do mundo do que simplesmente «tirania é má», porque, como ocidentais, nós próprios somos governados pela estrutura de poder mais tirânica do planeta.
Caitlin Johnstone em On “Leftists” And “Anarchists” Who Cheer For Regime Change In Iran
Contudo, o principal problema de todos estes posicionamentos de “solidariedade com o povo iraniano” que se viram nas últimas semanas é o de estarem completamente desligados da realidade no terreno. Enquanto aceitam e propagam a narrativa de uma revolta generalizada (quando, magicamente, não há imagens dessas marés humanas intermináveis) que romantiza os “manifestantes pela liberdade”, ignoram a dimensão e extensão da violência e destruição perpetradas por esses mesmos manifestantes, amplamente documentada em vídeo. Enquanto proclamam “solidariedade com o povo iraniano”, descartam sem rodeios os milhões de iranianos e iranianas que saíram à rua no dia 12 de Janeiro para condenar os motins, afirmando que “ou foram obrigados, ou estão manipulados” – o que só é possível quando se olha a realidade através de uma lente colonial e orientalista. Não há nada de esquerda ou anti-imperialista em desprezar sujeitos do Sul Global só porque estes não se alinham com as narrativas ocidentais.

Se a malta seguisse fontes que não estão alinhadas com os interesses do Império, teria visto, como já mencionámos, dezenas de vídeos de carros destruídos ou incendiados por esses “manifestantes”, assim como de camiões dos bombeiros, supermercados, autocarros, lojas, clínicas, mesquitas, livrarias e até casas residenciais, além de espancamentos selvagens de polícias e civis. Se as imagens de mesquitas a arder poderão dar alguma satisfação a muita gente na esquerda e no anarquismo ocidental, é difícil dar sentido à destruição de carros das classes populares, de lojas de pequenos comerciantes, ou de camiões dos bombeiros. O que é certo é que esta não é, de todo, uma boa forma de conseguir apoio popular para um movimento dito “revolucionário” contra um “regime opressor”.
Será assim tão descabido que milhões de iranianos não queiram ver o seu país mergulhado numa instabilidade que seria aproveitada pelo Império para o desmantelar? O mesmo Império ocidental (“democrático” e “livre”) que mantém o mundo todo a ferro e fogo, que passou os últimos dois anos a perpetrar e normalizar o genocídio em Gaza, e que aprisiona quem faz frente à máquina de guerra?
Face a esta realidade, os exercícios teóricos abstraccionistas que proclamam “Nem Washington nem Ayatollahs” desmancham-se sozinhos. A realidade material e concreta mostra-nos que não existe uma terceira opção.
Como afirma a jornalista e escritora Caitlyn Johnstone, este tipo de posições só é possível se fingirmos «viver numa terra imaginária onde o governo iraniano podia ser derrubado sem beneficiar o império norte-americano».
Isso é uma fantasia. Não vivemos nesse tipo de mundo. Vivemos no mundo que realmente existe. (…)
Os ocidentais que torcem por uma mudança de regime no Irão estão a torcer pelo avanço da estrutura de poder sob a qual vivem, que por acaso é também o império mais poderoso que já existiu, que por acaso é também a estrutura de poder mais assassina e destrutiva da Terra.
Caitlyn Johnstone, 11 de Janeiro de 2026
Este tipo de posições é útil para quem quer proclamar a sua pureza ideológica, mas o único impacto real que tem é contribuir para o coro ensurdecedor sobre o quão malvado é o Inimigo Número Um do Império a cada momento. Por muito que afirmem ser contra uma eventual intervenção militar norte-americana, contribuem para a demonização da vítima – o factor mais determinante para fabricar consentimento no seio do público ocidental para essa mesma intervenção “libertadora”.
Muitos dos que, durante a última década, se juntaram de viva voz ao coro sobre o “malvado do Assad” passaram o último ano em silêncio sobre os massacres numa Síria tomada por hordas de takfiris armadas pelo Império para libertar o povo sírio da sua “opressiva ditadura”. Num país onde outrora havia um estado laico e igualdade de género perante a lei, proliferam agora as burqas e a escravatura sexual, e a convivência pacífica entre diferentes etnias e religiões foi substituída por violência sectária e limpezas étnicas. Muitos dos arautos da “libertação” da Síria, que passaram anos a chamar “assadistas” a quem alertou para os perigos destas aventuras imperialistas, guardam um silêncio desinteressado agora que esses perigos se materializaram – enquanto atacam o próximo inimigo do Império.

É triste ver tanta gente que se diz de esquerda, anarquista, anti-imperialista e pró-Palestina a alinhar, mais uma vez, com as mesmas narrativas que se ouvem nas bocas de diásporas reaccionárias, de Lisboa a Montreal, de sionistas e de neoconservadores norte-americanos – por muito que, depois de papaguear a sua propaganda, lhes declarem publicamente oposição.
E isto é especialmente trágico nos meios pró-Palestina, que proclamam solidariedade para com as vítimas do genocídio, enquanto invisibilizam sistematicamente (quando não condenam) a resistência que as defende – e que agora se juntam ao coro contra o malvado Irão, o maior aliado da causa palestiniana. Nas palavras de Nizar Banat, uma importante figura da resistência na Cisjordânia, assassinado pela Autoridade Palestiniana em 2021:
Para aqueles (palestinianos) que desaprovam o Irão: quem vos deu os vossos rockets? Não aplaudem os rockets e torcem por eles em apoio à resistência? (…) Deviam ter vergonha!
Dizem que o Irão «explora a causa palestiniana para espalhar o xiismo». Se assim é, por que se sujeitaria a 42 anos de sanções? Várias centenas de milhões dos seus dólares foram confiscados e, mesmo assim, continua a tirar da comida do seu povo para apoiar e sustentar a resistência palestiniana. Não têm de o fazer. O Irão é o único país do mundo que tem uma cláusula permanente no seu orçamento, o orçamento do pão do povo iraniano, que se compromete a apoiar a revolução palestiniana, independentemente da sua orientação; seja a Fatah, a FPLP, os comunistas, qualquer um! (…)
O Irão é uma nação com dignidade e honra, e sabe claramente que a presença americana é o problema, que a presença israelita é o problema.
Nizar Banat

Mais uma vez, para quem ainda não percebeu: este apoio à resistência palestiniana e a outras forças na região é a principal razão para o Irão sofrer sanções, ameaças militares e tentativas de revolução coloridas aplaudidas pelos liberais e “progressistas” no Ocidente. Reparem que a República Islâmica do Irão (xiita) não é sectária: apoiam não só forças palestinianas islâmicas (como o Hamas e a Jihad Islâmica, sunitas) como também forças laicas e de esquerda (como a FPLP e a Fatah), tal como apoiaram a resistência sul-africana ao regime de apartheid e outras lutas anticoloniais. Mas o sectarismo começa a ferver nas veias dos activistas e militantes no Ocidente assim que vêem “islâmico” no nome de alguma coisa.
Na verdade, é pior que sectarismo. Nas palavras da Dra. Rahmeh Aladwan, que já foi detida 4 vezes pelo regime britânico por delito de opinião:
Fundamentalmente, não é da conta de ninguém como as nações árabes ou muçulmanas se governam. Opor-se à autonomia muçulmana nos seus próprios países é a antítese dos valores «democráticos» e «anti-imperialistas» que a esquerda ocidental afirma defender.
O liberalismo está a ser exposto pelo que realmente é: anti-religioso e autoritário, mas de uma forma dissimulada, cínica e ardilosa. A secularização do Ocidente não torna o seu modelo um mandato global.
Dra. Rahmeh Aladwan
Afinal, porque é que não se vêem todos esses colectivos, jornais e influencers publicar textos inflamados contra o “regime” do Burkina Faso, outro país do Sul Global que resiste ao imperialismo ocidental e que facilmente encaixaria nesses rótulos de “ditadura autoritária” – e que, segundo essas lógicas, poderia colocar-se na categoria de sociedades onde “não há liberdade”? Será porque Ibrahim Traoré, apesar de ser um general que chegou ao poder através de um golpe de estado, não lidera um “regime” islâmico? Que ninguém lhes conte que Traoré é muçulmano!
Esta anti-religiosidade torna-se um tanto mais perversa após mais de dois anos do Holocausto dos nossos tempos, durante os quais as únicas forças que prestaram apoio real ao povo palestiniano foram, todas elas, islâmicas. Enquanto nós, deste lado, andámos a escrever artigos e comunicados, enviar postais, assinar petições e organizar manifestações e vigílias – ou, na melhor das hipóteses, a organizar Flotilhas em que os seus tripulantes estavam protegidos pelo estatuto de celebridade –, as forças do Eixo da Resistência pagaram a sua solidariedade com milhares de mártires dos quais nunca ninguém quis saber o nome, e cujo sofrimento nunca ninguém santificou.
Por cá, ninguém está disposto a correr os mesmos riscos que eles para materializar a solidariedade, mas há sempre uma horda de comentadores e activistas dos direitos humanos pronta para chamar “tiranos”, “fascistas” ou “terroristas” a quem enfrenta com os seus corpos, e não com meras palavras, os nazis dos nossos tempos.
É por estas e por outras que a esquerda e o anarquismo ocidental são olhados como são pelo Sul Global.

Após dois anos de barbárie completa e descontrolada – imposta não só sobre Gaza, mas sobre toda a Palestina, o Líbano, o Iémen e a Síria –, durante os quais o Império expôs a sua verdadeira natureza aos olhos do mundo inteiro, basta de andar aqui com paninhos quentes.
O genocídio em Gaza, e todas as suas ramificações, avançam livremente com a total cumplicidade das elites políticas, económicas e mediáticas ocidentais. Ao longo dos últimos dois anos, as massas ocidentais falharam em impor às suas elites quaisquer custos económicos significativos (através de greves ou outras formas de resistência material) ou eleitorais – tornando-nos a todos e todas cúmplices de toda esta barbárie que, se não é fascismo, não sabemos o que será.

3.1 “Se são pró-Irão, são insensíveis ao sofrimento dos iranianos”
Durante estes dias de intensa propaganda contra o Irão, uma das acusações lançadas contra quem resiste à narrativa do Império é a de que somos “insensíveis ao sofrimento” dos iranianos. Tomemos este exemplo:
Quando o sofrimento se torna «secundário» na vossa grande análise, não estão a ser radicais. (…) Se não conseguem ver a dor das pessoas porque estão ocupados a mapear blocos de poder, negam-nos a nossa agência.
Katayoun Keshavarzi
Isto foi publicado por uma “activista” anti-Irão com 283 mil seguidores na sua conta de instagram – onde, das últimas 200 publicações, apenas encontrámos duas sobre a Palestina («quando o sofrimento se torna “secundário”», como ela diz).
Como se o que nos movesse não fosse precisamente o sofrimento, mas uns quaisquer “blocos de poder” imaginários. De que poder é que esta malta está a falar? E de que blocos? O Eixo da Resistência é composto por forças que estão, todas elas – da resistência palestiniana ao Ansar Allah, do Irão ao Hezbollah –, sob um cerco selvagem do Império, e que foram abandonadas pelo resto do mundo.
Deste lado, o principal factor que nos move não é a geopolítica, é precisamente o sofrimento. Este argumento, porém, apresenta estas duas coisas como distintas e sem relação entre si, quando o imperialismo ocidental que rege a geopolítica mundial é a maior fonte de sofrimento da História.
O derrube de “regimes” vistos no Ocidente como “tirânicos” causou, mais vezes do que não, muito mais sofrimento do que aquele que já existia. Em que resultou derrubar o Gaddafi? Na desintegração da Líbia, conflito eterno e o regresso de mercados de escravos. Em que resultou derrubar o Assad? Na desintegração da Síria, violência sectária, massacres, e o regresso da escravatura sexual. E ainda há quem se surpreenda que a generalidade do povo iraniano não queira ter o mesmo destino.
Mas nem sequer o derrube de “regimes” em casos sem aparentes consequências geopolíticas garante uma redução do sofrimento – especialmente quando por detrás das “revoltas populares” não há organizações de massas com um projecto revolucionário.
Vejamos o caso do Bangladesh, onde uma grande revolta popular derrubou um regime autoritário no Verão de 2024. Não nutríamos qualquer simpatia por este regime, um regime com fortes ligações ao supremacismo hindu liderado por Modi, e observámos com agrado o seu colapso. Mas o que aconteceu desde então? Na ausência de uma organização revolucionária capaz de liderar um processo que transformasse as fundações da sociedade do Bangladesh, a população acolheu de braços abertos o tecnocrata fofinho formado no Ocidente, que regressou ao país para liderar a transição para a “democracia”. Um ano e meio depois, o governo deste tecnocrata fofinho anunciou as intenções do Bangladesh de participar na “força de estabilização internacional” que se prevê (tentar) ocupar Gaza ao abrigo de um mandato neocolonial aprovado pelo conselho de segurança da ONU em Novembro passado.
Como se vê, mesmo quando estas “revoluções sem líder” produzem uma aparente redução do sofrimento, muitas vezes este é apenas deslocalizado.
Sempre que enfrentamos algo que não seja o Império e isso beneficia o Império, quer queiramos quer não, não estamos a combater o sofrimento. Estamos apenas a deslocá-lo para limpar a nossa consciência.
Bni Zubaid
O mais absurdo destas acusações é que a maioria dos grupos e activistas que, nas últimas semanas, proclamaram orgulhosamente a sua “solidariedade com o povo iraniano”, passaram anos sem mencionar uma única vez as sanções ao Irão e os impactos que estas têm no quotidiano do povo iraniano. E isto leva a uma conclusão amarga mas inescapável: no Ocidente, a maioria dos círculos activistas, pró-Palestina, de esquerda e anarquistas dança ao som da música que o Império tocar.
Isto não é solidariedade, é emitir opiniões e repetir frases feitas sobre assuntos sobre os quais não se percebe merda nenhuma, repetindo o que o resto da tribo diz sem se fazer o mínimo esforço para compreender a realidade.
3.2 “Então e as mulheres e a comunidade LGBT?”
Quando todos os outros argumentos falham, o derradeiro trunfo que os liberais têm na manga é a ideia de que o “regime” alvo oprime as mulheres e a comunidade LGBT.
Este trunfo, além de se basear num orientalismo que apresenta sempre as mulheres do país alvo como um grupo homogéneo, oprimido e sem agência, vive numa realidade abstracta que ignora o trágico resultado das intervenções libertadoras que invocam os “direitos das mulheres” como pretexto. As bombas lançadas pela aviação ocidental, e o rasto de instabilidade que deixam, mataram milhões de pessoas nos últimos 30 anos só no mundo árabe – e isso inclui centenas de milhares de mulheres e membros da comunidade LGBT. E não são só as mortes – muito mais consequências advieram das aventuras do Império contra as “ditaduras” de Saddam e Assad, como o regresso da escravatura sexual.
Quem olha para o mundo através de lógicas identitárias devia compreender que as bombas lançadas contra “regimes tirânicos” são a coisa mais inclusiva do mundo – e matam sem olhar ao género, à etnia ou à orientação sexual.
Como coloca Bni Zubaid:
Quem é estatisticamente o maior inimigo das mulheres na região?
A entidade israelita.Quem é o maior inimigo do maior inimigo das mulheres na região?
A República Islâmica do Irão.O que é mais feminista do que sacrificar a economia e a estabilidade de um país por mais de quarenta anos para enfrentar uma entidade que massacra e viola centenas de milhares de mulheres?
A vossa condescendência leva-vos a questionar o direito de não usar um véu.
A nossa realidade obriga-nos a questionar o direito de ainda ter uma cabeça sobre os ombros.
Bni Zubaid
Os pontos acima são suficientes para desmascarar qualquer publicação idealista que sirva chá e bolos aos seus leitores, sentados numa poltrona em forma de nuvem que lhes permita não sentir o cheiro do fumo ou do sangue. A teoria é para o Norte, a prática é para o Sul. Já sabíamos disso.
Bni Zubaid
4. Conclusão
Gostaríamos de concluir com palavras de Alaa Mansour, uma investigadora independente, realizadora e artista libanesa:
a grande falha deontológica, que perdurará como prova histórica, é que após mais de dois anos — após séculos — de uma verdade tornada obscena pela sua clareza, de o império ziomericano a afogar o nosso povo palestiniano em sangue e morte em todas as suas formas, em Gaza, na Cisjordânia e em toda a Palestina ocupada, de o Líbano a ser metodicamente sangrado e mantido sob fogo e ocupação permanentes, e de a Síria ter sido estilhaçada e ter colapsado enquanto retaguarda estratégica da Resistência, isto nem sequer foi suficiente para produzir a mais elementar consequência política: a unificação de vozes em torno de uma posição única e intransigente — inimizade absoluta para com a ziomérica e todos os seus aliados, e o alinhamento incondicional em apoio à Resistência como o único processo revolucionário capaz de libertação total — que confronta o inimigo da própria vida.
este fracasso torna-se mais revelador no caso do Irão. porque o Irão é alvo precisamente por continuar a ser a única nação na região que organiza materialmente a Resistência contra o império capitalista colonial, não retoricamente, não simbolicamente, mas como infra-estrutura e profundidade estratégica, através de logística, armas, dissuasão e continuidade. o Irão é atacado por aquilo que torna possível. no entanto, em vez de interpretar este foco como uma confissão do próprio inimigo, vastos sectores do discurso político e intelectual pseudo-esquerdista insistem em falsas ambiguidades, higienização moral e sentimentalismo liberal — recusando-se a alinhar-se com o próprio eixo que tornou concebíveis a sobrevivência e a dignidade armada dos palestinianos.
idealizar uma “outra” Resistência — futura, secular, hipotética — é um acto privilegiado de hipocrisia e ingratidão: uma negação da Resistência que está realmente a lutar contra o projecto ziomericano aqui e agora — com corpos, com armas, com tempo arrancado à morte. desloca a batalha para um qualquer lugar ilusório, a fim de se esquivar ao fardo do presente [e] romantizar a Resistência como um ideal abstracto, ao mesmo tempo que a recusa como uma responsabilidade concreta. (…) porquê negar o facto óbvio de que a guerra de aniquilação contra a região é organizada em torno de um objectivo único, impossível e definitivo: a erradicação dessa própria Resistência, precisamente por ela constituir a maior ameaça ao império?
é por isto que a guerra de aniquilação, através das suas sucessivas iterações, converge para o Irão. o que está a ser atacado não é um regime, mas uma capacidade: a capacidade da Resistência de perdurar e se regenerar ao longo do tempo. (…) esta é a construção do mundo do império em tempo real. um sistema de governação tecnofascista global e totalmente integrado, um aparato necrocapitalista que se alimenta de divisão, falácia controlada e guerra permanente, produzindo simulacros especulativos e fabricando alucinações como se fossem a própria realidade. (…)
a ziomérica não é um regime ao qual se comparar. é um império a ser desmantelado.
a falsa dicotomia entre emancipação e libertação tem de ser dissolvida. é a mesma manobra ideológica que fabrica uma falsa equivalência entre um império supremacista de morte e destruição, que ocupa a terra através da aniquilação, e um regime político designado por esse mesmo império como sua principal ameaça. este ilusionismo obscurece a realidade — transformando assimetria em simetria, batalha existencial em visões políticas, aniquilação em “diferença de regimes”. a sua função é o desarmamento em múltipla escala: neutralizar a libertação ao privá-la de inimigos, e tornar o império concebível como apenas uma posição entre outras, em vez da força organizadora da máquina da morte que é.
isto não é uma carência de informação. o mundo sabe. é uma carência de lealdade. uma recusa em escolher lados quando o lado de deus está escrito em veias abertas: a vida organizada contra a aniquilação, a verdade contra a falsidade. qualquer discurso que hesite aqui, que procure nuances onde a maquinaria da morte é total e sem remorsos, já está alinhado com o assassino. não há olhar revolucionário que nasça de um mundo de morte.
a Resistência é um antagonismo irredutível.
a libertação não produz liberdade. a liberdade produz libertação. um povo é libertado porque já escolheu ser livre — livre o suficiente para resistir, livre o suficiente para suportar o preço, livre o suficiente para apostar tudo contra a dominação. a Resistência é essa aposta. é a liberdade praticada debaixo de fogo, a liberdade que existe não como uma promessa, mas como uma práxis sacrificial.
a liberdade é o pré-requisito da libertação — porque a Resistência é a própria liberdade. não é uma recompensa concedida após a vitória, nem uma condição adiada para algum horizonte futuro. a liberdade é a decisão tomada no presente: recusar a escravidão do império, romper com os seus termos, viver e agir fora da sua permissão.
se a chamada “liberdade” de alguém é concebida para prevalecer sobre o dever e a necessidade da Resistência, então essa «liberdade» não passa de um subproduto imperial ilusório. (…) os privilégios burgueses permitem que a Resistência seja tratada como uma preferência estética, e não como uma necessidade material. (…)
a libertação da Palestina não é uma luta entre outras. é a revolução — porque concentra e revela a totalidade da própria libertação: libertação do império colonial capitalista ziomericano, um império que não é apenas um poder entre muitos, mas o núcleo organizador da metaviolência. é a soma da maldade moderna, a infra-estrutura através da qual a dominação, a extracção e o extermínio são normalizados à escala planetária, e o maior crime da história moderna, precisamente porque se apresenta como ordem, “civilização” e inalterabilidade. enfrentá-lo na Palestina é enfrentá-lo em todo o lado. derrotá-lo lá é destruir a sua pretensão sobre o mundo e sobre a própria terra.
Alaa Mansour em Armed Dignity








