A abertura do posto fronteiriço de Rafah: vitória ou espectáculo?~ 2 min

Por Majed Abusalama. Traduzido do inglês por Ana Só.
O exército israelita matou ontem 29 palestinianos — vidas apagadas sem chegarem às notícias — enquanto a abertura humilhante e rigorosamente controlada do posto fronteiriço de Rafah é celebrada como uma “vitória” após dois anos e meio do genocídio em curso. Este espectáculo vende ilusões coloniais enquanto promove os mais perigosos planos de limpeza étnica e continua a desmantelar a luta palestiniana pela libertação.
É doloroso ver partes da comunidade internacional a aplaudirem este momento. Na realidade, aqueles a quem será permitido atravessar serão uma pequena elite — talvez algumas centenas de pessoas por dia —, enquanto a grande maioria permanecerá encurralada sob bombardeamentos e fome. Esta celebração distrai das verdadeiras prioridades da luta: forçar a entrada imediata de ajuda humanitária suficiente, permitir que as organizações internacionais operem em Gaza livres de restrições coloniais, e confrontar a impunidade entranhada de israel. Sem abordar estas questões centrais, estas “aberturas” simbólicas não oferecem nada a uma população que sobreviveu ao genocídio.
O que mais me entristece é a forma como esta transição está a ser enquadrada como progresso, quando na verdade reflete uma capitulação completa aos regimes de Trump e de israel. Dezenas de jovens foram deixados a morrer em túneis durante semanas sem qualquer intervenção significativa para os salvar, enquanto o corpo de um único soldado israelita dominou as manchetes globais e mobilizou o mundo inteiro para resgatar de Gaza [o corpo de] um criminoso de guerra. O contraste expõe, mais uma vez, quais as vidas consideradas valiosas — e quais os sofrimentos tornados invisíveis.
Majed Abusalama é um palestiniano de Gaza, que cresceu em Jabalia e está agora na diáspora. É jornalista, escritor, co-fundador da Palestine Speaks e doutorando na Universidade de Tampere, na Finlândia.

