As peripécias da estrela da esquerda liberal na câmara de Nova Iorque~ 20 min

Por Francisco Ulrike

Na segunda-feira da semana passada, 26 de Janeiro, agentes da polícia de Nova Iorque (NYPD) dispararam contra Jabez Chakraborty, um jovem de 22 anos originário do Bangladesh. A família tinha ligado para o 112 a pedir apoio médico para Jabez, que se encontrava em «crise emocional». Ao invés de paramédicos, bateram-lhes à porta agentes da NYPD que, como bons porcos que são, trataram de alvejar o jovem.

Num comunicado publicado pela Desis Rising Up and Moving (DRUM), uma organização nova-iorquina de migrantes do sudeste asiático e das Caraíbas, a família de Jabez afirma estar «chocada e enraivecida» com o comportamento da NYPD.

Pedimos ajuda. Ligámos para o 112 a pedir uma ambulância para prestar assistência médica ao nosso filho, que se encontrava em crise emocional. Não chamámos a polícia. Em vez dos socorristas médicos, chegou a polícia e disparou várias vezes contra o nosso filho, mesmo à nossa frente.

Comunicado da família ChakrabortyComunicado da família Chakraborty

Mas esta não é a única coisa chocante desta história. Zohran Mamdani, presidente da câmara de Nova Iorque, reagiu ao incidente com a seguinte mensagem:

Fui informado sobre um tiroteio que envolveu um agente da polícia em Queens, ocorrido hoje cedo. A NYPD estava a responder a uma chamada para o 112, quando se deparou com um indivíduo empunhando uma faca. (…) Estou grato aos serviços de emergência que se colocam em risco todos os dias para manter as nossas comunidades seguras.

Camarada Mamdani

O mesmo Mamdani que, em 2020, afirmou que a NYPD era «racista, anti-queer e uma ameaça grave à segurança pública», parabeniza agora os agentes que alvejaram um jovem racializado por «manterem as nossas comunidades seguras». E não só: Mamdani culpabiliza a vítima pelo incidente, papagueando a narrativa da NYPD. Mamdani faz discursos pomposos em que critica o ICE, prontamente amplificados por contas da esquerda “progressista” nas redes sociais, mas a sua reacção a este caso não difere muito das reacções de Kristi Noem, a Secretária de Segurança Interna da administração Trump conhecida como “Barbie do ICE”, aos assassinatos de Alex Pretti (a quem chamou «terrorista doméstico») e Renee Good (que acusou de ter «tentado atropelar um agente da lei», afirmando tratar-se de um «caso de terrorismo doméstico»). Imagens disponíveis dos dois assassinatos mostram que nem Good nem Pretti constituíam qualquer perigo para os agentes, os únicos terroristas destas histórias.

No comunicado publicado pela DRUM, a família Chakraborty relata outros abusos que sofreu às mãos da NYPD, deixando algumas palavras a Mamdani e às autoridades nova-iorquinas:

Depois de disparar contra o nosso filho, a NYPD exigiu que lhes entregássemos os nossos telemóveis e palavras-passe, ameaçando-nos para que obedecêssemos. Enquanto o nosso filho jazia no chão, alvejado, a polícia agiu como se fosse o ICE, interrogando-nos sobre de que país éramos, quando foi a última vez que o visitámos, e se a nossa filha tinha nascido aqui.

Não nos foi permitido acompanhar o nosso filho ao hospital. Em vez disso, fomos levados para a esquadra, onde os agentes da polícia nos interrogaram e detiveram. A NYPD tratou-nos de forma cruel, quando nem sequer sabíamos se o nosso filho estava vivo. (…)

Depois de tudo isto, vimos a declaração do presidente da câmara, Mamdani, a apladuos agentes da NYPD que alvejaram o nosso filho, nos ameaçaram e mentiram, e nos impediram de ver o nosso filho durante mais de 24 horas. Por que razão o presidente da câmara elogia os agentes que, de forma irresponsável, quase mataram o nosso filho à nossa frente? (…) 

Exigimos saber: por que razão a NYPD veio quando pedimos uma ambulância? Por que razão a NYPD está de vigia à entrada do quarto do nosso filho no hospital estando ele ligado a um ventilador? (…) Por que razão fomos desumanizados, desrespeitados e tratados como criminosos (…)?

Comunicado da família Chakraborty

Segundo o site de notícias local Gothamist, a 30 de Janeiro Jabez Chakraborty continuava «ligado a um aparelho de respiração artificial», depois de ter sido submetido «a múltiplas cirurgias após ter sido alvejado quatro vezes». De acordo com a AOL, «Chakraborty foi acusado pelo Ministério Público do Queens por tentativa de homicídio e está no hospital ligado a um aparelho de respiração artificial, sob vigilância policial.»

Força que Mamdani prometeu extinguir detém manifestantes anti-ICE (e outras promessas traídas)

Durante a campanha, Mamdani havia prometido remover a NYPD dos casos de saúde mental – precisamente para evitar situações como a de Jabez. Outra das suas promessas de campanha foi a extinção do Strategic Response Group (SRP), uma unidade da NYPD utilizada frequentemente para reprimir protestos na cidade.

A 27 de Janeiro, um grupo de manifestantes ocupou a recepção de um hotel do grupo Hilton em protesto contra a política do grupo hoteleiro de alojar agentes do ICE. Duas semanas antes, o grupo Hilton havia cortado relações com um dos seus franchises em Minneapolis, o Hampton Inn, após a gerência ter recusado aceitar reservas do Departamento de Segurança Interna (do qual o ICE faz parte).

Os manifestantes bloquearam a entrada principal do edifício e gritaram slogans anti-ICE – mantendo-se, no entanto, pacíficos. A NYPD enviou para o local agentes do SRG, que puseram fim ao protesto e detiveram 66 pessoas – a primeira detenção em massa da administração Mamdani. Segundo a Fox5NY, 64 pessoas vão responder por trespasse e perturbação da ordem pública, e outras 2 estão acusadas de resistência à detenção e obstrução às autoridades.

Um porta-voz do Presidente Mamdani reagiu a estes acontecimentos de forma muito curiosa:

O presidente da câmara Mamdani elogia os manifestantes que exerceram hoje o seu direito de manifestação contra o ICE. Como ele disse, o ICE é uma agência sem escrúpulos que tem repetidamente realizado rusgas e detenções cruéis, desumanas e ilegais de cidadãos americanos. O presidente da câmara também está satisfeito com a resposta da NYPD ao protesto e com o facto de a manifestação de hoje ter terminado sem violência.

Declarações de porta-voz do Presidente da Câmara Zohan Mamdani citadas pela Fox 5 New York, NBC e outros media

Ou seja, o presidente da câmara de Nova Iorque «elogia os manifestantes que exerceram hoje o seu direito de manifestação contra o ICE» e, ao mesmo tempo, «está satisfeito com a resposta da NYPD» (deter 66 manifestantes) e com o facto de o protesto ter terminado «sem violência». Mamdani e a sua equipa dizem tudo e o seu contrário, permitindo aos seus fãs citar algumas partes que reforçam a narrativa de que é alguém que está a fazer frente ao sistema, enquanto outras servem para assegurar os seus críticos de que tudo vai continuar na mesma. Não podíamos inventar um melhor exemplo prático da novilíngua que domina os nossos tempos.

Enquanto isso, Mamdani renova as suas promessas de acabar com o SRG, num momento incerto no futuro – mas, de acordo com o Gothamist, «Mamdani diz que, enquanto isso não acontecer, espera que o SRG continue a ser mobilizado para os protestos na cidade». Ao mesmo tempo, Mamdani mantém a comissária sionista Jessica Tisch à frente da NYPD. Como afirma em comunicado uma das facções dos Democratic Socialists of America (DSA):

O Grupo de Resposta Estratégica da NYPD, que Mamdani outrora propôs desmantelar e que brutalizou milhares de manifestantes pró-Palestina, continua nas ruas, tendo sido recentemente mobilizado para prender manifestantes anti-ICE. A polícia-mor de Mamdani, Tisch, está ao leme, a comandar os polícias assassinos que agem com total impunidade, colocando-nos a todos em perigo. (…)

A DSA tem de exigir que o presidente da câmara «socialista» aja como um socialista – demitindo Tisch, desmantelando o SRG e mandando para a prisão os polícias que alvejaram Jabez Chakraborty. Se ele não o fizer, abandonem este democrata e lutem contra ele a cada passo! Apoiar Mamdani significa apoiar a NYPD, Tisch e os perpetradores do terror policial racista contra os negros, os castanhos e os imigrantes de Nova Iorque.

Comunicado da DSA – Just Break Already

Também na semana passada, Mamdani anunciou que a prometida expansão do programa de vouchers habitacionais não pode ser implementada, citando restrições orçamentais.

Pedir a líderes judaicos para aprovar a condenação de um protesto contra a venda, numa sinagoga, de terra roubada a palestinianos 

Vale a pena recuar até outra polémica desencadeada por um protesto, organizado pela PAL-Awda no dia 8 de Janeiro, em frente a uma sinagoga onde decorria um evento, organizado por «agências imobiliárias sionistas», «anunciando explicitamente a criação de uma “comunidade anglo-saxónica”, Ma’ale Adumim, um colonato na Cisjordânia». 

E qual é que terá sido a polémica? Uma sinagoga acolher um evento de venda de terra roubada a palestinianos? Não. A polémica foi um perigoso slogan gritado pelos manifestantes à porta desse evento: «Say it loud, say it clear, we support Hamas here!» [Digam-no alto e em bom som, aqui apoiamos o Hamas!]

Um grupo de apoiantes de israel confrontou o protesto gritando «Morte à Palestina!» e «Nós adoramos o ICE» e proferindo insultos homofóbicos e ameaças de violência física e violação contra os manifestantes. Contudo, foram as palavras de ordem de apoio ao Hamas que mereceram um coro de condenação por parte dos media norte-americanos e de políticos de ambos os partidos – dos mais reaccionários a outra das estrelas da esquerda liberal: Alexandria Ocasio-Cortez, que qualificou os cânticos como «nojentos e anti-semitas». Ninguém, nem mesmo AOC, condenou a venda de terra roubada num local de culto.

Protesto contra a venda de terra palestiniana, Queens, 8 de Janeiro [Fotos de ksuiza]

Mamdani, no entanto, manteve um quase total silêncio durante 24 horas – um silêncio que, muitos especularam, seria a prova de que Mamdani “é um apoiante do Hamas”. Um artigo do New York Times, inusitadamente sincero, explica a razão do silêncio: a equipa de Mamdani esteve um dia inteiro a consultar «proeminentes figuras judaicas» sobre qual a melhor formulação para condenar os cânticos. Vivemos num mundo em que tudo pode ser dito à cara-podre, pois a barbárie e o ridículo já foram normalizados, e a impunidade parece sempre garantida – enquanto a esmagadora maioria da população permanece em câmaras de ressonância cuidadosamente desenhadas para lhes ser apresentado apenas aquilo que reforça as suas crenças.

Segundo o NYT, foi Josh Binderman, «um veterano do grupo sionista liberal J Street» que serve como uma espécie de enviado especial de Mamdani para a “comunidade judaica” de Nova Iorque, que redigiu cinco rascunhos diferentes até conseguir aprovação dessas «proeminentes figuras judaicas». Um dos rascunhos que não foi aprovado colocava Mamdani a condenar igualmente o Hamas e a Jewish Defense League, designada pelo FBI como organização terrorista pelo FBI em 2021 – a típica posição desenhada para agradar a gregos e a troianos.

A ideia surgiu da presença, entre os contra-manifestantes pró-israel, de bandeiras do partido Kach, uma organização ortodoxa sionista com ligações à Jewish Defense League. O Kach foi fundado por Meir Kahane – um militante anti-árabe nascido em Brooklyn – e é de tal maneira extremista que foi banido de concorrer a eleições no estado de israel em 1988, e ilegalizado em 1994. No entanto, segundo o NYT, «vários revisores judeus entenderam que isso não devia ser mencionado, pois acreditavam que os slogans pró-Hamas eram mais generalizados».

Depois de um longo processo de tentativa e erro, a equipa de Mamdani lá conseguiu desencantar uma reacção ao protesto ao gosto das «proeminentes figuras judaicas». Ao final da tarde de dia 9, o tão esperado pronunciamento finalmente chegou:

Slogans de apoio a uma organização terrorista não têm lugar na nossa cidade. Continuaremos a garantir a segurança dos nova-iorquinos que entram e saem dos locais de culto, bem como o direito constitucional de manifestação.

Tweet do presidente Mamdani

Ou seja, aquilo que o primeiro presidente muçulmano de Nova Iorque tem a dizer sobre tudo isto é que o Hamas é uma «organização terrorista».

Entretanto, Julie Menin, presidente da assembleia municipal de Nova Iorque, está a elaborar um plano que inclui estabelecer perímetros em torno de escolas judaicas e sinagogas «para proteger estudantes e congregantes dos protestos» – ou, melhor dizendo, para os sionistas poderem vender terra palestiniana descansados. A governadora Kathy Hochul havia anunciado legislação que previa perímetros de 8 metros em torno de sinagogas em todo o estado, mas Menin propõe 30 metros na cidade de Nova Iorque.

E o que diz Mamdani? Que instruiu a sua «comissária da polícia [Tisch] e o meu departamento legal para rever a legalidade de propostas como a da presidente Menin». «Se algo estiver dentro dos limites da lei, eu apoiarei. Se não estiver, então não posso [fazê-lo]», conclui Mamdani – como quem diz: “é a lei, não tenho nada que ver com isso”.

Contudo, como alertam a Palestine Legal e o Center for Constitutional Rights num comunicado conjunto:

A regulamentação proposta pela governadora Hochul transmite uma perigosa mensagem: se as pessoas quiserem isolar da contestação as suas violações do direito internacional, basta transferirem os seus eventos para locais de culto para suprimirem os protestos.

Palestine Legal e Center for Constitutional Rights

O comunicado da organização judaica Jewish Voice for Peace sobre a polémica em torno do protesto de dia 8, e das vendas de terra roubada em sinagogas no geral, resume bem o ridículo de tudo isto:

Quando as pessoas protestam contra a venda de terras palestinianas roubadas, os políticos eleitos e demasiadas instituições judaicas apressam-se a condenar as manifestações. Mas essa indignação obscurece as verdadeiras questões: por que razão estão as terras palestinianas a ser roubadas e vendidas? E por que razão são vendidas dentro das nossas sinagogas e templos?

Jewish Voice for Peace

A mãe de Mamdani nos Epstein Files

Na passada sexta-feira, 30 de Dezembro, foram publicados milhares de novos documentos dos Epstein Files – que não só dão ainda mais provas da extensa relação de Jeffrey Epstein com o ex-primeiro-ministro israelita Ehud Barak e a Mossad, como fornecem incontáveis detalhes mórbidos deste mega-esquema de tráfico humano, escravatura sexual, pedofilia e até canibalismo – que envolve um zilião de figuras das elites políticas, mediáticas, económicas, culturais e académicas do Ocidente (e dos seus aliados pelo mundo fora). Entre os nomes mais referidos nestes documentos encontram-se figuras importantes de ambos os campos da política norte-americana (como Donald Trump, George Bush e Bill Clinton) e da elite bilionária (como Bill Gates, Jeff Bezos e Elon Musk), mas também figuras “progressistas” e aparentemente “anti-sistema”, como Noam Chomsky.

A realizadora Mira Nair, mãe de Zohran Mamdani, também é mencionada. Nos últimos dias, circularam nas redes uma série de imagens geradas por inteligência artificial que “mostram” Nair com Epstein e Bill Clinton – e que serviram para alimentar uma série de teorias sem qualquer base na realidade, como a de que Mamdani seria filho de Epstein.

Os (pelo menos) dois e-mails em que Nair é mencionada, contudo, são reais – e dizem-nos algumas coisas.

No primeiro, datado de 2009, Peggy Siegal, agente publicitária de Epstein, conta que esteve numa festa numa casa de Ghislaine Maxwell onde estavam também Mira Nair, Hilary Swank, Richard Gere, Jean Pigozzi, Bill Clinton e Jeff Bezos.

Embora a festa pareça ter alguma relação com o filme “Amelia” estreado nesse ano, realizado por Nair e protagonizado por Swank e Gere, a presença de figuras como Bill Clinton, Jeff Bezos e Jean Pigozzi sugerem que este provavelmente não era um mero evento rotineiro relacionado com o filme, ao contrário do que fact checkers corporativos nos querem fazer acreditar. A festa decorreu numa casa de Ghislaine Maxwell, o braço direito de Epstein, um ano após Epstein ter sido condenado por tentar comprar sexo a uma menor.

Nove anos mais tarde, Epstein foi convidado para uma «exibição muito privada» de um filme que explora «os limites da fé e da sexualidade» e que tem como personagem principal a filha de um rabino. O e-mail refere peremptoriamente que «nenhuma imprensa é permitida», e na lista de espectadores encontra-se mais uma vez o nome da mãe de Mamdani.

Nada disto prova que Nair tenha estado presente em festas onde foram praticadas violações, pedofilia ou outros rituais ainda mais macabros, mas mostra que esta se mexia (ou mexe) nos meios das elites que o fazem.

Como comentou o canal Enemy Watch:

A presença de Mira Nair na after-party de Epstein não é uma nota de rodapé; é uma janela para a podridão da elite sobre a qual Mamdani construiu a sua carreira. A sua mãe confraternizava com predadores e oligarcas, enquanto ele prega publicamente contra eles.

Enemy Watch

Se somarmos a tudo isto o facto de Mamdani ter recebido milhões de dólares da Open Society Foundation de George Soros em donativos para a sua campanha, e de ter uma relação próxima com elites judaicas norte-americanas, não devia ser difícil unir os pontos e tirar as conclusões óbvias. E, ainda assim, haverá quem insista que dois mais dois são cinco.

Os Epstein Files mostram-nos aquilo que muita gente achava serem teorias da conspiração: somos governados por elites de psicopatas que se divertem a torturar, violar e sacrificar pessoas (e crianças) – e a comer carne humana. Mas mostram-nos também que muitas das figuras que aparentam opôr-se ao sistema não são mais do que oposição controlada – veja-se o caso de Chomsky, que proclamava publicamente oposição ao movimento reaccionário e racista encabeçado por Trump, mas longe das luzes da ribalta foi fotografado em amena cavaqueira com Steve Bannon e Jeffrey Epstein.

Fotos publicada no âmbito dos Epstein Files a 19 de Dezembro de 2025

«Não há nada de novo debaixo do sol»

Não escrevo sobre tudo isto por ter um ódio irracional a estes “democratas liberais e progressistas” – mas porque o público merece ser alertado para estas ilusões de mudança, que alimentam falsas esperanças e revitalizam a via eleitoralista enquanto demonizam a resistência material.

Nós, jornalistas, não somos máquinas infalíveis – como seres humanos, somos susceptíveis a propaganda e às ilusões que nos são vendidas a todos e todas. Contudo, quando reconhecemos um padrão que já observámos anteriormente, temos o dever de o denunciar – diga o padrão respeito a um candidato da esquerda liberal ou a uma campanha de propaganda para legitimar mais uma guerra imperialista.

Há uns bons anos, quando Alexandria Ocasio Cortez chegou pela primeira vez às luzes da ribalta, eu fui um dos que se iludiu com as suas promessas de mudança – até vi uma série da Netflix sobre ela que me deixou bem impressionado com o vigoroso processo de organização nos bairros em torno da sua campanha, retratado nessa grande produção cinematográfica. A AOC dessa campanha é radicalmente diferente da de hoje, com muita gente a comparar o seu percurso com o de Nancy Pelosi. Ao longo dos últimos mais de dois anos de genocídio em Gaza, AOC apoiou Biden e Kamala e continua a apoiar o envio de “armamento defensivo” para o regime sionista. Este mês, AOC declarou apoio formal a uma candidata do Alaska que tem ligações aos lobbies das armas e do petróleo e a uma candidata democrata que recebe dinheiro da AIPAC – que disputa as eleições no Texas contra um candidato republicano que rejeitou a AIPAC e condena abertamente israel por estar a cometer genocídio.

O padrão é sempre o mesmo: fetichizar os candidatos “da mudança” com base nas suas identidades – Obama, o negro; AOC, a mulher latina; Sanders, o velhinho socialista fofinho; Mamdani, o muçulmano pró-Palestina.

E estes fenómenos não se cingem aos Estados Unidos – a actual Ministra do Interior britânica, Shabana Mahmood, em 2014, concluiu um discurso perante uma multidão pró-Palestina, que protestava contra a ofensiva israelita contra Gaza que decorria nesse Verão, com as seguintes palavras: «Nunca ficaremos em silêncio até que a Palestina seja livre!». Hoje, a ministra muçulmana do Labour (supostamente de centro-esquerda), que em tempos foi pró-Palestina, chefia o ministério que proscreveu a Palestine Action como “organização terrorista”, e acaba de anunciar a expansão da utilização de tecnologias de reconhecimento facial pela polícia britânica – tecnologia fornecida pela empresa israelita Corsight AI que tem sido usada pelas forças israelitas em Gaza. De acordo com Shabana, a polícia britânica já fez «1700 detenções graças ao uso do reconhecimento facial em tempo real».

Mamdani, durante a campanha eleitoral, condenou a resistência palestiniana e defendeu o direito de um regime sionista genocida de apartheid e ocupação a existir. Ao fazê-lo, o candidato Mamdani não serviu apenas para criar falsas esperanças no sistema eleitoral, re-legitimando-o aos olhos do público, mas também para deslegitimar quaisquer exemplos de resistência material à barbárie. Mamdani consolidou-se assim como uma figura que serve os interesses de um regime pedófilo e genocida que, desde o Ocidente, domina todo o mundo – mesmo que proclame publicamente a sua oposição a um ou outro aspecto deste regime.

Claro que haverá sempre quem responda a tudo isto com o argumento de que há muitos poderes dentro da cidade de Nova Iorque com que Mamdani se debate, e que o impedem de implementar a mudança a que diz aspirar. Uma coisa é certa: ninguém obrigou Mamdani a parabenizar os agentes da NYPD que alvejaram Jabez Chakraborty – e, se alguém o obrigou, é sinal de que não tem qualquer autonomia, sendo só mais um pau-mandado das elites com a missão de manter tudo na mesma enquanto alimenta falsas dicotomias entre fascistas reaccionários e democratas progressistas.

Quem quiser pode continuar a enfiar a cabeça na areia e ignorar a realidade à nossa frente: nós, no Ocidente, vivemos no IV Reich – e não foi preciso a extrema-direita tomar o poder para lá chegarmos.

Gostaste do artigo? Considera subscrever a newsletter. Permite-nos chegar a ti directamente e evitar a censura das redes sociais.

Sigam o nosso trabalho via Facebook, Twitter, Youtube, Instagram ou Telegram; partilhem via os bonitos botões vermelhos abaixo.

Right Menu Icon