O mais bizarro de Gaza não está nos números, mas nos detalhes~ 11 min

Por Francisco Ulrike
Hoje cumprem-se 4 meses desde que começou o “cessar-fogo” que tirou da ribalta o genocídio que se abate, há 28 longos meses, sobre a Faixa de Gaza.
Quase dois anos e meio depois, é difícil continuar a encontrar palavras para escrever sobre isto. Podia ir buscar os números de quantas mulheres e crianças estão entre as mais de 500 vítimas mortais destes 4 meses de fogo incessante. Podia falar dos bombardeamentos, dos ataques de drones, dos disparos de artilharia e dos snipers que matam e ferem todos os dias pessoas de carne e osso, como nós.
Podia falar de todos os homens e mulheres, crianças e idosos, que morreram em desabamentos de muros e edifícios. Ou das tempestades que, neste terceiro inverno do genocídio em curso, inundaram uma e outra vez as tendas de centenas de milhares de palestinianos – quando não as destruíram totalmente. Podia listar os nomes de todas as crianças que morreram ao frio e à fome.

Podia enumerar todos os alimentos, bens essenciais, caravanas e materiais de construção que a ocupação continua a impedir de entrar em Gaza – num cerco que permanece implacável.
Podia falar dos hospitais, que continuam sem recursos para fazer face às necessidades de uma população massacrada, em todos os sentidos que possamos imaginar, pelo genocídio em curso. Ou dos milhares de palestinianos que necessitam urgentemente de cuidados médicos no estrangeiro, precisamente devido a essa falta de recursos.

Podia citar declarações de jornalistas, médicos, socorristas e pessoas comuns.
Também podia escrever sobre questões menos faladas, como as famílias que são despejadas de ruínas e campos de tendas por senhorios sem alma – que, como existem cá, também existem lá. Ou sobre as centenas de combatentes da resistência palestiniana nos túneis de Rafah, abandonados pelo mundo à sua sorte.

Podia falar de muita coisa, mas há uma pergunta que teima em ocupar a minha mente: para que é que isso serve?
Um jornalista – não um propagandista que é pago para papaguear barbaridades nos media corporativos, mas um jornalista – espera que a informação produza acção. Noutros tempos, investigações jornalísticas provocaram reais convulsões sociais. Mas hoje, num momento histórico em que tudo parece ter sido reduzido à performatividade, não importa o quão chocantes sejam as notícias, a indignação e a raiva parecem estar destinadas a ser expressas apenas nas redes sociais e em manifestações ordeiras e passivas.
E, apesar de tudo, escrevo. Escrevo porque há muito para dizer, e porque não quero ser mais um a deixar que os nossos irmãos e irmãs palestinianos caiam no esquecimento.

Também podia falar das demolições que continuam, dos palestinianos que começam lentamente a regressar a Gaza após a abertura parcial e hiper-controlada do posto fronteiriço de Rafah, e dos professores que dão aulas no meio de ruínas. Podia falar das crianças que, apesar de tudo, teimam em sorrir, ou dos primos e irmãos mais novos dos jornalistas assassinados que tomam o seu lugar.

Podia ainda falar do colapso a cada mês mais catastrófico das doações para Gaza, que torna o dia-a-dia de tantas famílias palestinianas ainda mais difícil. O colapso das campanhas de apoio mútuo, colmatado em parte pelos mercados de Natal e outros eventos durante o mês de Dezembro, está hoje muito para lá de catastrófico. Enquanto isso, organizações por essa Europa fora recolhem centenas de milhares de euros para mais uma flotilha que mobiliza recursos astronómicos, uma centena de embarcações e milhares de pessoas – e que, se correr como as outras, acabará com os barcos e toda a ajuda humanitária confiscada pela ocupação. Enquanto isso, continua a (quase) total ausência de resistência material no Ocidente – uma resistência material que, se fosse praticada por esses mesmos milhares de pessoas, talvez pusesse alguma pressão nos governos ocidentais para que mudassem o seu rumo.

A História já está escrita, e a notícia posso dá-la já:
Manifestações espontâneas tomam as ruas de cidades por toda a Europa no próprio dia da intercepção da flotilha. Os israelitas, que se acham superiores ao resto do mundo, naturalmente abusam dos tripulantes – mas estes, graças ao seu estatuto de celebridades no Ocidente, são libertados ao fim de alguns dias. Os prisioneiros palestinianos, esses, continuam e continuarão a definhar nas masmorras da ocupação sem movimentos de massas que exijam a sua libertação. No Reino Unido, em França e Itália, dezenas de prisioneiros políticos continuam e continuarão encarcerados pelo simples facto de se terem oposto ao genocídio em curso – perante a indiferença da generalidade das sociedades ocidentais e da maioria das organizações ditas “pró-Palestina”, talvez por se achar que são “apoiantes dos terroristas do Hamas”, talvez por não fazerem parte de nenhum ciclo (e circo) mediático, talvez por não se encaixarem no padrão de “salvador branco” mas, sim, serem pessoas que resistem ombro a ombro com os palestinianos.
Podia escrever sobre tudo isto – e, sobre cada um dos parágrafos, poderia escrever um artigo maior que este, com estatísticas, números e links para todas as fontes.

Mas o que queria mesmo partilhar nesta data é uma das coisas que mais me traumatizou nestes dois meses desde a última vez que escrevi um artigo exclusivamente sobre Gaza. As coisas mais traumatizantes que vi ao longo destes dois anos foram coisas sobre as quais, a maior parte das vezes, não escrevi – pois para isso é preciso tempo e, para quem é movido pelo sentido de urgência, tempo é algo que escasseia numa época da História como a que vivemos hoje.
As coisas mais traumatizantes não se encontram nos relatórios oficiais nem nos números – encontram-se nos detalhes. E o que se segue, um texto publicado pelo Dr. Ezzideen Shehab a 13 de Dezembro de 2025, é apenas um pequeno detalhe da vida de um palestiniano entre… qualquer que seja o número de palestinianos que restam após 28 meses de barbárie.
Estava sentado na clínica na primeira manhã da vaga de frio, o tipo de frio que não somente toca o corpo, mas rói a alma. Um jornalista tinha-me escrito antes a perguntar sobre o tempo e o seu efeito nos pacientes. Li a mensagem e pensei que lhe responderia mais tarde. Acreditei, insensatamente, que alguém poderia pensar calmamente num mundo como este.
Então, ergui o olhar.
À minha frente estava sentada uma mulher, em silêncio e exausta, com duas meninas pequenas agarradas a ela. Estavam vestidas com roupas leves, o tipo de roupa que alguém usaria num ameno dia de primavera, não na crueldade do inverno. Sobre elas, um casaco tão desgastado e roto que ridiculariza a própria ideia de protecção. Nos pés traziam frágeis chinelos de plástico, do tipo que se usa em casas de banho cobertas de azulejo, agora forçados a confrontar a lama, o frio e a miséria. Senti uma estranha vergonha pelos meus próprios sapatos.
Peguei na mão de uma das meninas e pousei-a sobre a mesa. Os seus dedos eram pequenos e delicados, ainda os dedos de uma criança que devia estar a aprender a desenhar ou a escrever o seu nome. Em vez disso, estavam feridos. A pele estava rasgada. Os ferimentos eram profundos apesar do seu tamanho, e estavam sujos apesar da sua simplicidade. Pareciam ter uma doença, sim, mas não uma doença que eu tivesse estudado, não uma doença com um nome em latim que pudesse ser explicada.
Enquanto examinava a mão da menina, ela falou.
Disse que, enquanto dormia na tenda na noite anterior, ratazanas tinham comido os seus dedos.
Ela não chorou. Não dramatizou. Afirmou-o como alguém pode afirmar que choveu, ou que a noite foi fria. E porque a mente se rebela quando confrontada com a obscenidade absoluta, perguntei-lhe outra vez, quase zangado, quase a pedir à realidade para se contradizer.
“Ratazanas?”
“Sim”, respondeu de imediato, surpreendida com a minha surpresa.
Nesse instante, algo dentro de mim colapsou. Não lentamente, não filosoficamente, mas violentamente. O mundo encolheu e tornou-se apertado e sufocado, como se Deus mesmo tivesse dado um passo atrás para evitar testemunhar aquilo em que a sua criação se tornara. Eu tinha lido sobre o sofrimento. Tinha-o estudado. Tinha admirado as suas descrições nos livros. Mas isto não era sofrimento. Isto era humilhação elevada a um princípio da existência.
Uma ratazana. Uma criatura viva, movida pela fome e a imundice, a roer os dedos de uma criança adormecida. E o maior horror não era a ratazana. Era o facto de este acto se ter tornado banal. De a criança ter achado estranha a minha incredulidade. De o universo a ter treinado para aceitar o inaceitável.
Queria gritar. Queria acusar alguém, quem quer que fosse. A Humanidade, governos, a história, Deus. Mas não havia ninguém para acusar. Havia apenas a mão da criança pousada serenamente na mesa.
Apercebi-me de que não sabia o que fazer. Nenhum manual me tinha preparado para isto. Nenhuma aula, nenhum exame, nenhum professor brilhante tinha alguma vez falado sobre ratazanas comerem crianças vivas enquanto dormiam. E, mesmo se um tal capítulo alguma vez tivesse existido, tenho a certeza de que o teria passado à frente. Quem poderia ler uma coisa dessas e, ainda assim, acreditar que vivia num mundo civilizado?
Isto não era pobreza. Isto não era guerra. Isto era colapso moral.
Mais tarde, quando me lembrei da pergunta do jornalista sobre a vaga de frio e o seu impacto, quase ri. Responder a uma pergunta dessas não requer qualquer intelecto, quaisquer estatísticas, qualquer comentário de um especialista. Basta simplesmente caminhar uma hora pelas ruas de Gaza. Basta olhar cuidadosa e honestamente, sem desviar os olhos.
A resposta estará lá, a respirar, a sangrar, serenamente à espera que alguém finalmente admita aquilo em que este mundo se permitiu tornar-se.
#WoundedGaza
Dr. Ezzideen Shehab, 13 de Dezembro de 2025


