Sob O Que Resta~ 3 min

Por Abdallah Qudaih
Costumava pensar que a destruição era ruidosa.
Explosões. Sirenes. Edifícios a colapsar.
Mas aprendi que a verdadeira destruição é silenciosa.
É acordar dentro de uma tenda e tomar consciência de que isto já não é temporário.
É aprender a dormir num sono leve porque paredes de pano não te protegem.
É saber que as ratazanas e os insectos se movem à noite, e não podes pará-los.
É nisto que agora vivo.
Não há electricidade. Não há frigorífico. Não há ventoinha no calor do Verão que transforma a tenda num forno. Carregamos os telemóveis em pontos de carregamento pagos quando podemos. A água chega em camiões quatro dias por semana. Quando vem, carrego baldes ao longo de cem metros e despejo-os num pequeno tanque. Quando a tarde chega, a água já aqueceu ao sol. Bebemo-la na mesma.
Dormimos em colchões finos no chão. As costas doem-te. O teu corpo nunca descansa verdadeiramente. Não existe privacidade. Segurança é uma palavra que se sente apenas na teoria.
Mas isto é apenas o presente.
Antes da guerra, vivia em Khuza’a, a leste de Khan Younis. Uma vila agrícola. Sossegada. Constante. O meu pai tinha uma loja de roupa no mercado. Éramos donos de terras agrícolas em diferentes zonas, tínhamos estufas cheias de tomate, campos de trigo e ervilhas. Criávamos ovelhas, galinhas, patos. Antes e depois da escola, eu dava de comer aos animais. Tínhamos um cão que guardava a quinta. Amava-o. Perdemo-lo na guerra.
Não éramos pobres. Não estávamos desesperados. Tínhamos terra, trabalho, dignidade, rotina.
Agora, a casa já não existe.
Os campos estão inacessíveis.
A quinta está destruída.
O meu telemóvel antigo, com todas as nossas fotografias, ainda está sob os escombros.
Quando digo “sob os escombros,” não falo apenas do cimento.
Falo de toda uma vida soterrada.
Algumas famílias estão ainda nas suas casas. Uns poucos edifícios sobreviveram. Outros arrendam casa, mas a renda é altíssima. Só aqueles que têm dinheiro, comerciantes que acumularam riqueza, organizadores que controlam grandes donativos ou aqueles que já possuíam sólidos recursos, podem viver assim. A maior parte das famílias comuns vive em tendas.
A guerra não afecta a todos por igual. Até na catástrofe a desigualdade sobrevive.
É por isto que escrevo.
Não para escandalizar.
Não para simular o sofrimento.
Não para competir com os números.
Os números contam os mortos.
Os pormenores explicam os vivos.
Escrevo porque, se não registar estes pormenores, eles desaparecerão como tudo o resto.
Escrevo porque sinto que é incompleta a sobrevivência sem testemunho.
Escrevo porque ainda estou aqui.
E, enquanto estiver aqui,
recuso tornar-me uma estatística.
Abdallah Qudaih é um jovem escritor palestiniano com apenas 17 anos. Em Dezembro do ano passado, como forma de ajudar a sustentar a sua família, publicou o seu primeiro livro: Sob os Escombros, um registo arrebatador da sua experiência durante o genocídio em curso. Compra-o aqui.


