Economia de Sobrevivência: a Vida dentro de Gaza~ 7 min

Por Abdallah Qudaih
Antes da guerra, acreditava que a distinção entre o certo e o errado era clara.
Um preço justo era um preço justo.
Ajudar alguém que está a passar necessidades era natural.
Explorar o sofrimento de outra pessoa era indigno.
A guerra não se limita à destruição de edifícios.
A guerra reestrutura a arquitectura moral de uma sociedade.
Hoje, em Gaza, não vivemos num mercado funcional.
Vivemos numa economia de sobrevivência.
E a sobrevivência distorce tudo.
Durante as primeiras vagas de evacuações, assisti a algo que senti como sendo uma traição.
Quando chegaram as ordens de evacuação, milhares de famílias tentaram fugir com o que quer que conseguissem transportar. Colchões atados com cordas. Sacos de plástico cheios de roupa. Documentos apertados contra o peito. Crianças agarradas a cobertores.
Os donos de carrinhas e autocarros aumentaram os preços dos transportes para valores várias vezes acima das suas tarifas normais. Algumas famílias não conseguiam pagá-los. Em vez disso, percorriam quilómetros a pé, debaixo do sol, debaixo dos drones, debaixo do medo.
Nós estávamos entre estes.
De início, parecia simples: exploração.
Mas a guerra ensina-te a olhar mais fundo.
Os preços do combustível já se tinham multiplicado.
As linhas de abastecimento tinham colapsado.
As peças sobressalentes escasseavam.
Se um veículo avariasse, as reparações podiam custar uma fortuna, presumindo que as peças existissem sequer.
Os bombardeamentos tornavam cada viagem um risco.
Então, os preços subiram.
Mas porque eram as peças sobressalentes tão caras?
Porque era tão escasso o combustível?
Porque se tornaram as reparações tão insustentáveis?
A resposta não começava com o condutor.
Começava com o bloqueio.
Com a destruição de infra-estruturas.
Com o controlo dos postos de passagem.
Com a asfixia deliberada das cadeias de abastecimento.
Numa economia de sobrevivência, a exploração raramente é isolada.
Espalha-se através de uma cadeia de medo.
Um comerciante aumenta os preços porque os abastecimentos são incertos.
Outro acumula bens porque o amanhã pode não trazer nada.
Uma família gasta tudo o que tem apenas para sobreviver a semana.
Mais tarde, quando recebem um pacote de ajuda humanitária, produtos de limpeza, bens enlatados, tudo o que tenha algum valor, vendem uma parte a preços inflacionados para recuperar das perdas e comprar aquilo de que realmente precisam.
Este comportamento aumenta o sofrimento.
Mas nem sempre nasce da ganância.
Nasce do medo.
Medo de ficar sem nada.
Medo de ser o próximo a ficar sem opções.
Medo do colapso.
É assim que a sobrevivência dá nova forma à moralidade.
Mas o medo, por si só, não explica tudo.
Há aqueles que exploram de forma sistemática.
Alguns comerciantes armazenaram bens durante os períodos de escassez e apenas os disponibilizaram quando os postos de entrada fecharam, vendendo-os a preços que drenaram poupanças inteiras.
Alguns intermediários e autoproclamadas “iniciativas” receberam doações para os deslocados e tornaram-nas em oportunidades para lucrarem, fotografando pacotes de ajuda humanitária para as redes sociais, ao mesmo tempo que vendiam parte desses mesmos bens precisamente às pessoas que supostamente estariam a apoiar.
Há instituições que afirmam servir quem está vulnerável enquanto operam sem transparência. Há indivíduos que aprenderam que o caos gera oportunidades.
A guerra não cria injustiça do nada.
Amplifica a que já existe.
E, quando a supervisão colapsa, a linha entre necessidade e lucro esbate-se.
A ocupação não precisa de gerir minuciosamente cada transacção.
Precisa apenas de criar condições que minem a confiança e reduzam os recursos, e em que o medo governe a tomada de decisões.
Quando as comunidades começam a competir pela sobrevivência ao invés de cooperarem para a estabilidade, a fragmentação acelera.
Também isto serve a destruição.
E, contudo, esta não é a história completa.
Porque dentro desses mesmos campos, debaixo dos mesmos drones, algo mais persiste.
Quando a chuva forte faz cair uma tenda, os vizinhos reúnem-se sem discussão. Aparece corda. Aparece mais tecido. Mãos reerguem postes de metal. Alguém traz chá. Alguém consola as crianças.
Quando os camiões de água chegam, quatro dias por semana, partilham-se baldes. Se um idoso não consegue percorrer os cem metros para transportar a água, alguém a carrega por ele.
Quando não há electricidade e é preciso carregar os telemóveis em postos pagos, por vezes alguém oferece mais uns poucos minutos de bateria para mandar uma mensagem: “Ainda estamos vivos.”
Vi discussões começarem no seio de famílias comprimidas em espaços exíguos, a tensão alimentada pela exaustão e o calor. Também vi essas mesmas famílias reconciliarem-se horas mais tarde, porque a sobrevivência não deixa espaço para discórdia permanente.
Esta é a contradição da economia de sobrevivência.
A mesma pressão que gera exploração também gera solidariedade.
A mesma escassez que fomenta a acumulação também fomenta a partilha.
A guerra empurra o comportamento humano para os extremos.
Alguns endurecem.
Alguns quebram.
Alguns erguem-se.
A maioria apenas luta para se manter humano em condições concebidas para nos despojar de humanidade.
O mundo lá fora muitas vezes quer narrativas simples: heróis ou vilões, santos ou oportunistas.
A realidade é mais dura.
Um homem que cobra excessivamente pelo transporte pode estar aterrorizado por poder perder o seu único veículo, a única fonte de rendimento da sua família.
Uma família que revende parte da ajuda humanitária pode estar a tentar comprar vegetais, porque os seus filhos pequenos não podem sobreviver apenas de comida em lata.
E, ainda assim, um comerciante que acumula combustível na expectativa de maiores lucros não pode ser separado do sistema que recompensa a escassez.
A paisagem moral estratifica-se.
Isto foi o que aprendi:
Numa economia de sobrevivência, os preços não são apenas sinais económicos.
São indicadores psicológicos de medo.
Quanto maior o medo, mais alto o preço.
E o medo, sob violência prolongada, torna-se força regente.
Mas a dignidade também.
Até aqui, sob as tendas, sob bloqueio, sob vigilância constante de drones, as pessoas ainda escolhem, todos os dias, se vão contribuir para a fragmentação ou para a resiliência.
O genocídio não visa apenas a destruição física.
Visa corroer os laços internos de uma sociedade.
Ainda assim, esses laços não desapareceram.
São esticados.
São testados.
São deformados.
Mas persistem.
A economia de sobrevivência não é limpa.
Não é romântica.
Não é moralmente simples.
É uma negociação diária entre o medo e a consciência.
E todos os dias, em pequenas decisões invisíveis, num balde de água partilhado, num preço elevado, numa tenda reconstruída, uma comunidade continua a definir o que resta de si.
Abdallah Qudaih
Abdallah Qudaih é um jovem escritor palestiniano com apenas 17 anos. Em Dezembro do ano passado, como forma de ajudar a sustentar a sua família, publicou o seu primeiro livro: Sob os Escombros, um registo arrebatador da sua experiência durante o genocídio em curso. Compra-o aqui.


