«Para onde marcha a paz?»~ 12 min

Por Francisco Ulrike

Ontem, sob a chuva, centenas de pessoas saíram à rua em Lisboa para pedir paz.

Paz.

Alguns de nós decidimos marcar presença a título individual – não pela paz, mas pelo resto do lema da manifestação: «Fim às agressões e ameaças dos Estados Unidos». Apesar de estarmos sobejamente saturados de passeatas, fomos até Lisboa para manifestar o nosso apoio ao Irão e às restantes forças do Eixo da Resistência que resistem ao nosso Império genocida, pedófilo e canibal.

No entanto, aquilo que encontrámos ao chegar à Cidade Universitária foi apelos à paz na forma das palavras de ordem de sempre – que se repetem, imutáveis, há mais de dois anos. 

«Paz, sim. Guerra, não.» «Pela paz, por abril, somos muitos mil.» «A paz é um direito, sem ela nada feito.» «Palestina independente, paz no Médio Oriente.»

Mas que paz é essa?

Por todo o mundo, multidões solidárias com a Palestina passaram dois anos a exigir um «cessar-fogo». Como é que está a correr o cessar-fogo em Gaza? Ataques israelitas matam e ferem palestinianos todos os dias, e o cerco continua. E no Líbano? Todos os dias, durante 15 meses, ataques israelitas destruíram casas, mataram pessoas e impediram de forma sistemática o regresso da população civil às aldeias fronteiriças. E no Irão, em que é que deu o cessar-fogo? Uma nova guerra meio ano depois.

Sem uma derrota do regime sionista, e do Império genocida que o sustém, qualquer paz que se alcance será a paz que já conhecemos – uma paz podre e abjecta, em que apenas os inimigos do Império se abstêm de disparar, enquanto a barbárie imperial continua.

Não ouvimos palavras de ordem de apoio ao Irão nem a qualquer outra força do Eixo da Resistência. Na verdade, só se ouviu a palavra “resistência” num outro lema que também se ouve desde 2023: «israel é violência, Palestina é resistência!»

Não há nada de novo a noticiar.

Não ouvimos palavras de ordem pela saída da NATO, nem pelo corte de relações diplomáticas e comerciais com a entidade sionista (e com os EUA, já agora), nem sobre a utilização da Base das Lajes nos ataques ao Irão. A utilização das Lajes não é algo inédito, mas é gravíssimo, pois torna-nos a todos e todas cúmplices da guerra imperialista em curso. E, ainda assim, o único cartaz que encontrámos sobre isso estava nas mãos de um imigrante.

Também não vimos cartazes que homenageassem Ali Khamenei ou qualquer outra figura da resistência – à excepção dos nossos.

Ali Khamenei não foi assassinado porque era um “very bad guy“, mas porque não aceitou vergar-se aos desígnios do Império e abandonar a resistência palestiniana. Além disso, Khamenei, juntamente com a restante liderança política e militar iraniana, preparou uma estratégia de defesa que permitiu ao Irão resistir a um ataque da maior superpotência militar do mundo e ao assassinato de vários dos seus líderes e, ainda assim, permanecer de pé, capaz de retaliar e impôr um custo aos agressores.

Seyyed Ali Khamenei é um herói da resistência ao Império encabeçado por israel e os Estados Unidos, o mesmo Império da guerra contra o qual estávamos a manifestar-nos – mas não vimos uma única menção a Khamenei. Este cenário é uma mera repetição do que aconteceu após os assassinatos de Sinwar, Nasrallah e Abu Obeida.

No entanto, há uma coisa curiosa: sempre que fui a uma manifestação com um cartaz com alguma dessas figuras, em Portugal ou fora, fui abordado por palestinianos, ou libaneses, ou muçulmanos de outras nacionalidades, que me agradecem e pedem para tirar fotos para partilhar com a família. Ontem, aconteceu-nos mais uma vez. Este é mais um sinal de o quanto o público pró-Palestina ocidental está desfasado da realidade dos povos com quem diz estar solidário.

Ao longo da manifestação, a única faixa com uma mensagem minimamente adequada ao presente momento histórico vinha, naturalmente, da periferia – dos camaradas do Vida Justa:

Sim, sem justiça não haverá paz. E a justiça, essa, só parece estar mais próxima graças aos mísseis e drones da resistência, que chovem sobre alvos norte-americanos e israelitas em toda a região desde há duas semanas.

Quem, em solidariedade com o povo palestiniano, libanês ou iraniano, está neste preciso momento a pedir “paz”, está totalmente alheado da realidade no terreno. No Irão, desde que começou a guerra, todas as noites as ruas se enchem de multidões que exigem vingança, declaram total apoio às forças armadas e rejeitam qualquer tipo de entendimento com o inimigo. 

Este vídeo, gravado no meio de uma manifestação nos últimos dias, mostra o que mais de uma dúzia de iranianos, mulheres (com e sem hijab) e homens, têm a dizer sobre a possibilidade de um cessar-fogo:

Senhor, nem sequer fale [em cessar-fogo]. Nem mesmo os nossos corpos mortos se renderão a eles. Nem mesmo os nossos cadáveres aceitarão isso.

Não há cessar-fogo. Lutaremos e resistiremos até que israel seja destruído.

Até erradicarmos [israel], não podemos dormir em paz.

Como afirmou uma jovem iraniana sem hijab:

Quem disser que devemos negociar agora, vendo estas condições, é verdadeiramente um idiota.

A guerra foi uma realidade que o Império impôs ao Irão, pela segunda vez, enquanto o “malvado regime” negociava com os EUA um acordo nuclear. Agora, é o Irão que rejeita qualquer tipo de cessar-fogo – com a liderança política, a cúpula militar e o próprio povo determinados a infligir ao Império um golpe de tal maneira devastador que este nunca volte sequer a considerar atacar o Irão.

Mas não foi por acaso que chegámos aqui – nem tinha de ter sido assim. 

Ao longo dos últimos dois anos, as elites ocidentais gozaram da total impunidade que as massas ocidentais lhes concederam. Não importa o que façam aos olhos do mundo, ou as barbaridades que digam, ou as revelações sobre o que fazem em privado – as nossas elites nunca sofrem consequências. Não importa quantas crianças matem – nem quão descaradamente os nossos líderes admitam, à frente de toda a gente, as atrocidades que cometem.

Independentemente do que aconteça, parece que, especialmente nesta república das bananas à beira-mar plantada, a solidariedade que temos para oferecer se resume exclusivamente a marchas ordeiras e vigílias inócuas, que não fazem as nossas elites mover-se um milímetro sequer do rumo que escolheram – enquanto os povos do Médio Oriente pagam com sangue e devastação a sua solidariedade com a Palestina e a sua resistência contra a barbárie.

«Queremos paz, queremos pão, amizade e cooperação», ouvia-se na marcha. Por mim, devia haver menos cooperação (ou nenhuma) – com o Império. Eu quero que Portugal saia da NATO, que feche as embaixadas dos EUA e de israel, que corte quaisquer laços comerciais com regimes genocidas, que saia da UE. Quero que o projecto colonial sionista seja desmantelado, e que a Palestina seja livre, do rio ao mar. Não quero apenas que os EUA sejam proibidos de usar as Lajes para as operações no Irão – quero que os EUA sejam expulsos de uma vez por todas dos Açores. Na verdade, o que eu gostaria mesmo é que as Lajes fossem usadas para abater aviões norte-americanos em rota para o Médio Oriente.

Depois destes dois anos e meio, «paz e cooperação» é tudo o que eu não quero. 

Massacres de crianças à escala industrial em Gaza, o estrangulamento do Líbano, o bárbaro cerco a Cuba, o rapto de Maduro, os Epstein Files ou o despoletar de uma guerra regional com consequências imprevisíveis para toda a Humanidade – nada despoleta esse rio de revolta que tudo arrasta, cuja força ecoa como um murro que faz estremecer a mesa onde se sentam os senhores que mandam no mundo, dizendo: “Basta! Esta merda não é normal!”

Mas não, essa revolta nunca chega. Do lado de cá, neste velho e podre continente ainda agarrado ao seu passado também colonialista, independentemente do que aconteça, o máximo que podemos esperar são desfiles que pedem “paz” e não conseguem absolutamente nada além de nos dar a oportunidade de dizermos a nós mesmos, e aos outros, que fizemos alguma coisa, que “nos manifestámos contra” – em marchas ordeiras e coordenadas com as mesmas autoridades responsáveis pelas políticas que dizemos combater.

E, como se não bastasse, estas manifestações nem sequer servem para criar espaços de expressão livre e debate aberto.

Quando a cauda da manifestação, onde estávamos, chegou ao destino final, o discurso de encerramento estava já a chegar ao fim. Ainda deu tempo para ouvir qualquer coisa sobre o direito internacional e a Carta das Nações Unidas – que os últimos dois anos provaram estar mais que mortos e enterrados – e, em menos de 5 minutos, a pessoa que discursava declarou o fim da manifestação e mandou toda a gente ir para casa «aproveitar o resto do dia» quando acabasse de tocar a Grândola.

Dois quilómetros de manifestação. Uma hora e meia de protesto. Sem palavras de ordem que avancem exigências concretas ou disputem a propaganda ocidental, sem microfone aberto, sem espaço de discussão colectivo – enfim, sem abrir qualquer possibilidade de aquele ajuntamento de pessoas se tornar mais do que isso mesmo.

Mais uma manifestação que permite à malta aliviar um pouco o peso das suas consciências, que não desafia em nada o statu quo, e que, acima de tudo, garante a manutenção da tal paz que permite às nossas elites continuar a colocar o mundo a ferro e fogo.

E essa paz não é garantida apenas pelas forças repressivas do estado – como habitual, o serviço de ordem esteve presente para intimidar qualquer elemento que ousasse sair da coreografia, que ousasse perturbar a paz da própria passeata. Não vá alguém achar que as manifestações deviam servir para estilhaçar esta paz podre – em vez de a conservar.

Não basta viver neste mundo bizarro em que, perante a brutalidade do que está a acontecer, é suposto toda a gente agir no dia-a-dia como se nada passasse – até nas manifestações (nestas, pelo menos) uma pessoa tem que medir aquilo que diz, não vão os senhores do serviço de ordem tratar-te da saúde.

É triste afirmar isto – mas não é surpreendente que, apesar da gravidade do momento histórico que vivemos, estes protestos juntem apenas algumas centenas de pessoas. Há muita gente que, apesar de revoltada com tudo isto, sabe bem o que pode esperar deste tipo de desfiles – e, se é para uma pessoa continuar sem voz, talvez mais valha ficar em casa.

Como canta Emicida no seu épico Ismália encontra a paz:

Eu não sou da paz, não sou memo
Paz é coisa de rico
Eu não visto camiseta nenhuma, não, senhor
Não solto pomba nenhuma, não, senhor
Não venha me pedir para eu chorar mais, secou
A paz é uma desgraça (…)

Eu é que não vou tomar praça no meio dessa multidão
A paz não resolve nada, a paz marcha
Para onde marcha?
A paz fica bonita na televisão (…)

A paz é muito organizada, muito certinha, tadinha
A paz tem hora marcada (…)

A paz nunca vem aqui no pedaço, já reparou? (…)
A paz é muito branca
A paz é uma madame que nunca olhou na minha cara
A paz é pálida, ela precisa de sangue, eu já disse

Não quero, não vou a nenhum passeio, nenhuma passeata
Não saio, não movo uma palha, nem morta
Nem que a paz venha me buscar na minha porta
Não abro, não deixo entrar
A paz está proibida, proibida
A paz só aparece nessas horas onde a guerra é transferida
Nessas horas a cidade inteira se organiza pra pedir paz, viu? (…)

Mas a paz é que é culpada, não sabe?
Essa paz é que é culpada.

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