Mártires da verdade: Ali Shoeib, Fatima Ftouni e Mohammad Ftouni~ 30 min

Por Francisco Ulrike e Ana Só

Este sábado, 28 de Março, o regime sionista cometeu mais um massacre contra jornalistas, desta vez no sul do Líbano. O ataque ao veículo em que seguiam, levado a cabo por um drone israelita, assassinou Ali Shoeib, correspondente da Al-Manar, Fatima Ftouni, jornalista da Al Mayadeen, e o seu irmão, o fotojornalista Mohammad Ftouni.

Os mártires são muitos, todos os dias. A agressão contra o Irão, lançada pelo Império a 28 de Fevereiro, voltou a mergulhar a região num conflito sangrento, de consequências imprevisíveis e sem fim à vista – e o número de mártires, em todas as frentes, cresce de dia para dia. Apesar de todos merecerem ter a sua história contada e as suas palavras escutadas, a esmagadora maioria abandona esta terra sem que os seus nomes sejam conhecidos, os seus sonhos recordados.

Nós, como jornalistas, sentimos uma responsabilidade acrescida para com os nossos e as nossas colegas na região mais massacrada do mundo – mortos por bombas e mísseis ocidentais, e pela inacção colectiva da Humanidade. Ali Shoeib e Fatima Ftouni, figuras incontornáveis do jornalismo libanês, merecem a nossa atenção neste artigo que documenta o seu assassinato e recorda um pouco das suas vidas e das palavras inspiradoras que nos deixaram como legado.

Índice

1. Mais um assassinato bárbaro da ocupação israelita

2. Palavras de Fatima Ftouni

3. Palavras de Ali Shoeib

4. Palavras do pai de Fatima Ftouni no dia do seu martírio

1. Mais um assassinato bárbaro da ocupação israelita

Ali Shoeib era um dos maiores ícones do jornalismo de resistência no Líbano, e o mais experiente correspondente de guerra libanês. Fatima Ftouni, de apenas 30 anos, teve uma carreira curta mas intensa, marcada pelas suas reportagens destemidas muito perto das frentes de batalha e pelo seu contacto próximo com as populações das aldeias fronteiriças, o que lhe valeu os títulos de “heroína das praças” e “noiva do Sul do Líbano”.

O carro em que seguiam com o irmão de Fatima, Mohammad Ftouni, circulava numa estrada que liga Kfarhouna a Jezzine, no sul do Líbano, a 30 km da fronteira com a Palestina ocupada, claramente marcado com a palavra “PRESS”. Uma estrada na floresta, sem qualquer presença militar.

Segundo o correspondente do jornal Al-Akhbar, o primeiro míssil disparado pelo drone israelita falhou o alvo, atingindo as imediações do veículo. Quando os irmãos Ftouni saíram do carro, por mero acaso, outro veículo passou pelo local. Nele seguia um paramédico, Ahmad Onaissi, e um amigo, Muhammad Daher. Nesse momento, o drone voltou a disparar, desta vez dois mísseis, que mataram as cinco pessoas presentes no local.

O vídeo do momento do ataque foi publicado pelas próprias IDF, com a legenda «Ataque a um terrorista da Força Radwan disfarçado de jornalista» – em mais um exemplo da total perversidade que caracteriza o regime sionista e o Império genocida que o sustém. O “terrorista” da força de elite do Hezbollah, segundo os sionistas, era o jornalista Ali Shoeib, de 55 anos.

Ali Shoeib, o perigoso terrorista das Radwan

Fatima Ftouni sonhava com a libertação da Palestina

Jamal Ghourabi, jornalista da Al Mayadeen, esteve no local a mostrar o resultado do ataque israelita. Com o que restava do colete de Fatima na mão – e lágrimas nos olhos –, Jamal lançou as seguintes perguntas:

O que pode este colete fazer face à agressão israelita? Onde está o direito internacional que protege profissionais dos media e civis?

Entre os destroços do carro e o material dos três jornalistas destruídos pela barbárie sionista, Jamal Ghourabi encontrou o kuffiyeh de Fatima:

[Eis] o kuffiyeh no meio dos destroços do carro da colega Fatima Ftouni. Fatima sonhava com a libertação da Palestina, um dia, sonhava ver a Palestina livre. Ela carregava este kuffiyeh como um símbolo pela Palestina, um símbolo contra a agressão israelita.

Fatima Ftouni nunca abandonou o seu povo, nem a causa palestiniana, apesar de consciente dos riscos que acarreta estar próximo da frente de batalha – e de já ter sido vítima de ataques israelitas. Na Guerra dos 66 Dias, em 2024, Fatima sobreviveu a um ataque israelita que atingiu uma residência de jornalistas em Hasbaya e assassinou os seus colegas Ghassan Najjar e Muhammad Reda.

Imediatamente após o ataque, com um microfone destruído na mão, deixou uma mensagem desafiante à ocupação:

Este é o míssil pelo qual os aviões de guerra israelitas nos atacaram. E possuiremos nós outra arma? Talvez esta arma lhes tenha sido dolorosa, e de facto assim é. E afirmamos, do alto dos escombros das casas e da destruição aqui em Hasbaya, que continuaremos a transmitir a verdade, a realidade e os crimes da ocupação israelita até ao nosso último fôlego.

E, como os últimos dois anos e meio de genocídio em Gaza nos têm mostrado, a barbárie sionista não visita apenas os jornalistas, mas também as suas famílias. Há menos de um mês, a 2 de Março, Fatma Ftouni notíciou em directo o assassinato de 7 membros da sua família na vila de Toul, em Nabatieh, sul do Líbano.

Estamos agora em frente a uma casa onde a ocupação israelita cometeu ontem um massacre, assassinando uma família inteira que vivia nesta casa, na cidade de Toul. (…) Este é o estado do edifício que tinha 4 apartamentos residenciais. (…) Estamos a falar de 7 mártires da minha família, e um outro mártir que era desta zona – o meu tio e 6 familiares seus que viviam neste apartamento.

Familiares de Fatima Ftouni assassinados pela ocupação a 1 de Março de 2026, em Toul, sul do Líbano

Apesar de todas as provações, Fatima Ftouni nunca abandonou o seu posto ao serviço do seu povo. Contudo, além da barbárie sionista, os jornalistas libaneses e o povo do Sul do Líbano enfrentam também a negligência do seu governo. Este vídeo, que voltou a circular no dia deste massacre, ilustra bem o desprezo do governo libanês para com a população do Sul do Líbano.

Durante o “cessar-fogo” que supostamente esteve em vigor durante 15 meses, violado todo o santo dia pela ocupação, Fatima Ftouni confrontou o primeiro-ministro, Nawaf Salam, sobre as condições enfrentadas pela sua família e pelas populações das aldeias fronteiriças. Salam, num tom jocoso e desdenhoso, disse a Fatima: «Vejo que estás bem de saúde e em boa forma. Temos um médico connosco aqui na sala [se precisares].»

Na véspera do seu martírio, Fatima escreveu num tweet:

É claro que esta guerra não é fácil… Mas o que é certo é que, depois desta guerra, o primeiro-ministro já não vai poder menosprezar o sofrimento do povo, nem vir dizer-nos que “estamos bem de saúde”. Porque, muito simplesmente, nessa altura estaremos seguramente bem, graças à resistência.

Foto publicada por Fatima Ftouni a 8 de Junho de 2024

Ali Shoeib, o general dos media de resistência

Ali Shoeib era um dos mais importantes jornalistas libaneses, com décadas de carreira na linha da frente e a reputação de ser extremamente preciso e factual, relatando a realidade sem exageros ou sensacionalismos.

Nas palavras do escritor iraquiano Faisal Al-Saadi:

Durante mais de vinte anos, Ali Shoeib foi uma voz portadora das boas novas da vitória, enchendo-nos de tranquilidade através da sua presença e da sua transmissão honesta das imagens. Nesta árdua missão, sofreu inúmeros ferimentos, mas permaneceu firme, sólido e inabalável. Foi, verdadeiramente, um general dos media, um mártir em potência e um mártir vivo.

Este jornalista, que memorizou a geografia do sul centímetro a centímetro, permaneceu um combatente obstinado e corajoso. (…) Não era apenas um jornalista; desenhou para nós as características da vitória e encarnou-as em cada cena que transmitiu. Nunca abandonou a arena da fronteira, entre as montanhas e os vales, e manteve-se presente até colher o fruto da sua sinceridade e coragem rara.

Conhecido como o “general dos media de resistência”, Shoeib era frequentemente descrito como “um exército de um homem só”.

Esteve presente no terreno em todas as incursões israelitas e confrontações entre a resistência e as forças da ocupação. A sua documentação minuciosa da retirada israelita do sul do Líbano, em 2000, e a constante presença na linha da frente ao longo de mais de 30 anos, fez de Ali Shoeib o jornalista com o conhecimento mais completo do território ao longo da fronteira libanesa com a Palestina ocupada.

Em 2006, durante a Guerra de Julho, foi o único correspondente presente a sul do rio Litani, confrontando de forma destemida soldados israelitas apenas com a sua câmara. Ao longo de toda a sua carreira, foi alvo de repetidas ameaças de morte por parte dos sionistas – o que não o impediu de continuar a fazer o seu trabalho na linha da frente.

Numa entrevista à Press TV, em 2024, Ali Shoeib descreveu o seu impressionante percurso enquanto jornalista:

Fiz a cobertura da agressão perpetrada contra todo o Líbano em Julho de 1993. Também fiz a cobertura da guerra em larga escala lançada pelo inimigo israelita em 1996, bem como da Guerra de Julho de 2006, que destruiu vastas áreas do território libanês. Estive acampado numa zona fronteiriça durante a Guerra dos 33 Dias e nunca a abandonei porque acreditava que, enquanto os combatentes da resistência empunhassem as suas armas, eu também deveria lutar ao seu lado com a minha câmara. Também fiz a cobertura de todas as batalhas travadas na Síria contra o Daesh e a Frente Al-Nusra em Aleppo, Ghalamoun, Hama, Palmira e em todo o deserto sírio, bem como em zonas ao longo das fronteiras iraquianas. Além disso, fui também a voz do povo no Líbano, espelhando o seu sofrimento. Relatei a sua perseverança contra a agressão israelita, mostrando o sofrimento com que lutavam devido à situação económica e retratei a sua determinação em permanecer nas suas terras, apesar dos ataques israelitas contra as suas zonas.

Utilizava a arma que trago comigo, que é uma câmara, para fazer reportagens sobre civis e ser a voz do povo, enquanto no campo de batalha a utilizava para ser a voz dos combatentes que enfrentam o inimigo israelita, retratando as suas operações.

Ao longo da sua vida, confrontou várias vezes tanques e soldados israelitas, totalmente destemido. Uma das filmagens mais impressionantes de Ali Shoeib data de 19 de Setembro de 2022, quando gravou uma reportagem a partir da linha da fronteira, a escassos metros dos soldados israelitas, na zona de Shebaa.

Este soldado israelita que aqui está não se atreve a aproximar-se mais de mim porque estamos sob a protecção do Hezbollah. Tenho a coragem de estar aqui porque há um escudo protector que me defende deste inimigo cobarde, que não se atreve a aproximar-se mais de mim. Estou em território libanês libertado, e ele está em território libanês ocupado, nas Quintas de Shebaa.

[Dirigindo-se a um soldado israelita:] Não se aproxime mais. Afaste-se. Afaste-se!

Poucas horas após o seu martírio, a Al-Manar publicou um comunicado despedindo-se de Ali Shoeib:

O cavaleiro dos media de resistência desmontou após uma longa luta, e as lentes e a plataforma da Al-Manar voltaram a derramar o sangue mais precioso, pois o decano do mundo dos media, o nosso colega Ali Shoeib, é um mártir.

A Al-Manar despede-se dele como uma autêntica referência dos meios de comunicação, um apoio e companheiro de gerações de combatentes da resistência, e um professor e modelo a seguir para gerações de profissionais dos media. O nosso colega mártir partiu após uma trajectória de trabalho profissional no Canal Al-Manar e na Rádio Al-Nour, que todas as mentiras sionistas não conseguiram dominar. Ele combateu-as com imagem, som e palavra (…) Ali Shoeib expôs as mentiras das alegações [israelitas] e as baixas dos seus soldados com som e imagem, até que o assassinaram num ataque odioso a um carro de jornalistas na estrada para Jezzine, no sul do Líbano. (…)

Neste momento de luto e buscando a recompensa de Alá, a Al-Manar jura fidelidade ao sangue do grande colega mártir Ali Shoeib e de todos os mártires dos media no caminho da verdade, comprometendo-se a permanecer firme nos princípios e valores, por maiores que sejam os sacrifícios, e a continuar a jornada e a transmitir a verdade até que a vitória seja alcançada para o nosso povo, o nosso país e a nossa nação face à criminalidade sionista-americana.

Jornalistas e forças da resistência condenam massacre

Um par de horas após o ataque, uma dezena de jornalistas libaneses e internacionais reuniu-se em Sour (também chamada de Tyre), uma das cidades há mais tempo habitadas no mundo, para reagir ao massacre dos seus colegas.

Manifestamo-nos solidários aqui, na cidade de Sour, para afirmar a nossa rejeição destes ataques israelitas que afectam e visam directamente as equipas dos media, (…) que israel perpetra deliberadamente ao atacar a palavra e o microfone. Pretende silenciar a nossa voz, a voz dos media livres, que provou ser mais forte que a máquina de morte israelita. Hoje, condenamos veementemente esta flagrante violação israelita, este claro ataque cometido pela ocupação na cidade de Jezzine (…).

Sour, 28 de Março de 2026

Roni Alpha, director da Al Mayadeen no Líbano, afirmou: «Juramos pela alma [de Fatima Ftouni] que permaneceremos comprometidos com a mensagem de resistência, liberdade e soberania», acrescentando que Fatima é «uma heroína da Al-Mayadeen, da palavra e dos media árabes e internacionais».

Courtney Bonneau, a única jornalista estrangeira com residência permanente no sul do Líbano e correspondente da Vocal Politics, gravou uma mensagem em vídeo em que promete honrar a memória dos jornalistas mártires continuando o seu trabalho todos os dias «até que o exército israelita saia do Sul do Líbano»:

Trabalhei com [Ali Shoeib e Fatima Ftouni] no terreno na fronteira durante os últimos 15 meses, a documentar crimes de guerra israelitas. (…) Fatima era uma das jornalistas mais corajosas que já conheci. Nunca recuou perante o perigo, nunca hesitou em fazer uma reportagem – nunca. E hoje, enquanto documentavam estes crimes de guerra e a invasão israelita do Líbano, tornaram-se eles próprios vítimas de um crime de guerra. (…) E nós, como jornalistas no Líbano, honraremos a sua memória continuando a trabalhar hoje, amanhã e todos os dias até que o exército israelita saia do sul do Líbano.

Desde Teerão, em declarações à Al Mayadeen, o professor e analista Mohammed Marandi reagiu à morte dos três jornalistas com as seguintes palavras:

Os jornalistas da Al Mayadeen e da Al-Manar, e todos aqueles que apoiam o povo palestiniano e a resistência no Líbano e em toda a região, são heróis que têm sido uma luz brilhante, têm sido estrelas no céu da resistência (…)

Que melhor fim para a vida de alguém do que ser uma força para o bem e espalhar a verdade e a consciência? E que força mais sombria existe neste planeta do que aqueles que assassinam estas estrelas brilhantes da Humanidade? Não é apenas no Líbano que eles massacram, claro. Sabemos como massacraram mais de 250 jornalistas palestinianos, como bombardearam um jornal no Iémen, como bombardearam a rádio e televisão iraniana. Querem silêncio porque não querem que o mundo acorde. Se o mundo acordar, então a resistência crescerá, expandir-se-á para além das suas actuais fronteiras.

Cada um destes homens e mulheres na Al Mayadeen, na Al-Manar, no Iémen, na Palestina, no Irão e no Iraque, aqueles que são martirizados, os seus nomes serão lembrados como nomes de pessoas que viveram uma vida boa, uma vida correcta, uma vida decente, e morreram pelo bem. E aqueles que os mataram serão lembrados como os resquícios do mal.

O assassinato bárbaro destes jornalistas, ignorado pela esmagadora maioria da população e dos ditos “jornalistas” no Ocidente, mereceu a condenação não só de meios de comunicação por toda a região, mas também de várias organizações do Eixo da Resistência – todas as facções da resistência palestiniana publicaram comunicados a condenar o assassinato destes três jornalistas, e as IRGC dedicaram a sua 86.ª vaga da operação True Promise 4 a “Ali Shoeib, Mohammed Ftouni e Fatima Ftouni, e aos mártires arménios e cristãos da Defesa Sagrada de 8 Anos [guerra do Iraque contra o Irão] e da Guerra do Ramadão”. Em sua honra, bases norte-americanas na região e alvos israelitas na Palestina ocupada foram atacados por mísseis e drones iranianos.

Em comunicado, o Hezbollah condenou o «traiçoeiro assassinato levado a cabo pelo inimigo israelita», afirmando:O assassinato bárbaro destes jornalistas, ignorado pela esmagadora maioria da população e dos ditos “jornalistas” no Ocidente, mereceu a condenação não só de meios de comunicação por toda a região, mas também de várias organizações do Eixo da Resistência – todas as facções da resistência palestiniana publicaram comunicados a condenar o assassinato destes três jornalistas, e as IRGC dedicaram a sua 86.ª vaga da operação True Promise 4 a “Ali Shoeib, Mohammed Ftouni e Fatima Ftouni, e aos mártires arménios e cristãos da Defesa Sagrada de 8 Anos [guerra do Iraque contra o Irão] e da Guerra do Ramadão”. Em sua honra, bases norte-americanas na região e alvos israelitas na Palestina ocupada foram atacados por mísseis e drones iranianos.

Em comunicado, o Hezbollah condenou o «traiçoeiro assassinato levado a cabo pelo inimigo israelita», afirmando:

Pessoas como Haj Ali, Fatima e Mohammed apenas podem ser mortas fisicamente. São imortalizadas como ícones cuja história é contada pela narração de cada vitória descrita pelas suas palavras e documentada pelas suas câmaras.

E porque o seu maior legado são as palavras que deixaram, compilámos algumas citações de Fatima Ftouni e Ali Shoeib.

Uma coisa é já clara, e ficará ainda mais óbvia a quem tomar um pouco mais de tempo para ler as palavras destes dois jornalistas: todas as frentes de resistência à barbárie sionista estão profundamente interligadas – e dependem umas das outras. Por isso foi tão surreal ver pessoas que andaram a clamar pelos direitos das crianças e das mulheres em Gaza a embarcar na narrativa ocidental do “malvado regime iraniano violador dos direitos humanos”, e a participar (conscientemente ou não) na legitimação de uma agressão militar contra o único país da região capaz de fazer frente ao maior violador de direitos humanos do mundo: o regime sionista e o Império ocidental que o sustenta.

2. Palavras de Fatima Ftouni

«Continuarei a ser uma das mais fervorosas defensoras da resistência»

Até esse dia chegar, continuarei a ser uma das mais fervorosas defensoras da resistência. Não permitirei que a neutralidade se torne uma realidade. Nós, que vivemos ao longo destas fronteiras, recusamos deixar que alguém fale em nosso nome exigindo neutralidade. Que neutralidade?

Este lenço [keffiyeh] é de uma amiga na Palestina. Uma saudação a ela e à sua perseverança, do Sul do Líbano até Gaza. Ela disse-me: «Virá o dia em que nos encontraremos nas fronteiras destas pátrias.» Eu respondi-lhe: «Virá o dia em que rezaremos juntas em Al-Quds.»

Se alguém quiser que esqueçamos a causa palestiniana, primeiro terá de arrancar dos nossos corações o amor por Imad Mughniyeh, e da nossa memória a Jihad e Soleimani. Só então poderemos abandonar a causa palestiniana. 

Ao Sayyed digo… Há tanto para dizer! Estamos a seguir os teus passos, sempre e para sempre. Citamos das palavras do Secretário-Geral, Sayyed Nasrallah: «Tal como falharam, falharão novamente.»

Fatima Ftouni

«Este regime de ocupação só compreende a força»

Não vou enviar mensagens à comunidade internacional, nem mesmo às organizações de direitos humanos que criminalizam os ataques contra civis, jornalistas e médicos. Direi simplesmente que, apesar de usarmos capacetes e coletes à prova de bala, estes não nos conseguiram proteger devido à indiferença internacional perante os crimes da ocupação israelita.

Dizemos que este regime de ocupação só compreende a linguagem da força, e é essa força que poderá dissuadir a ocupação. Não acredito que existam convenções internacionais capazes de fazer frente a uma ocupação que matou mais de cinquenta mil civis, incluindo crianças e mulheres, em Gaza, e mais de dois mil mártires no Líbano – três mil mártires no Líbano até ao momento.

Não consigo imaginar que algo, nem sequer as cartas internacionais, possa parar esta ocupação – excepto a força.

Fatima Ftouni

«Temos total confiança na resistência»

Ainda estamos aqui, no Sul do Líbano. Este campo de batalha conta a história das forças da ocupação que tentam avançar para o território libanês. Apesar de tudo o que se vê ao longo desta frente, apesar dos avanços israelitas em certos pontos, a resistência continua a enfrentar as tropas de ocupação em múltiplas frentes (…)

Os media do inimigo estão neste momento a admitir as suas perdas. Os ânimos estão elevados, e queremos que assim se mantenham porque acreditamos na resistência, nos nossos homens e nos nossos jovens. Eles estão a defender esta terra nas frentes de batalha. (…) Temos total confiança na resistência. Regressaremos de cabeça erguida, como a resistência sempre nos ensinou, como o Secretário-Geral do Hezbollah sempre nos prometeu a vitória, e nós prometemos-lhe a vitória uma vez mais.

Fatima Ftouni

Última reportagem de Fatima Ftouni para a Al Mayadeen

Encontramo-nos agora em frente ao bairro de Baydar al-Faqaani, na cidade de Taybeh, onde ocorreram e continuam a ocorrer confrontos. Estes confrontos envolvem ataques directos a veículos militares israelitas e a escavadoras D9 que estão a erguer barreiras de terra e a demolir casas de civis aqui na cidade. As operações de resistência para repelir os ataques continuam neste bairro situado a norte de Taybeh.

Entretanto, as forças israelitas também estão presentes no Bairro Sul e nas áreas do Projecto Taybeh, onde tanques Merkava israelitas que se infiltravam vindos da cidade de Odaisseh rumo a Taybeh também foram destruídos, a partir de vários bairros, de al-Dabsh até aos bairros do sul.

A ocupação não conseguiu fixar-se neste bairro depois de seis tanques terem sido destruídos antes de conseguirem avançar em direcção a Deir Siryan, forçando as IOF a retirar-se. As IOF não têm actualmente qualquer presença visível aqui. (…)

Vale a pena notar que as forças israelitas estão receosas de se posicionarem aqui devido à sua exposição às colinas nos arredores de Yohmor al-Shaqif, que é considerada parte da segunda linha defensiva.

Esta é a situação no sector oriental, especificamente na cidade de Taybeh, onde ocorreram confrontos entre combatentes da Resistência e forças israelitas no âmbito de operações da Resistência, particularmente no bairro de Baydar al-Faqaani, para o qual estamos agora virados, a partir de uma área sobranceira a Taybeh.

Sul do Líbano. Al Mayadeen.

3. Palavras de Ali Shoeib

«Tal como as forças da resistência, estamos prontos para sermos mártires pela mesma causa»

Há mais de 30 anos que ando com uma câmara e faço a cobertura de todos estes confrontos. Sentimo-nos um pouco nervosos quando enfrentamos perigos, e isso é normal, mas não desistimos. Alguns de nós foram até martirizados, e eu fui ferido (…) enquanto fazia a cobertura de confrontos na fronteira, mas recebi tratamento e continuei o meu trabalho. (…) Desde que saibamos que os combatentes da resistência estão posicionados nas suas posições e prontos para serem martirizados, também estamos prontos para continuar a empunhar a nossa arma e ser martirizados a defender a mesma causa.

A nossa missão é motivada pela nossa fé. É verdade que somos profissionais dos media, mas temos uma causa e estamos a defender a nossa terra e a nossa pátria. E quem morre a defender a sua pátria e a sua fé é um mártir. Quando tomámos essa decisão, ponderámos todos os perigos; por isso, enquanto o combatente da resistência empunhar a sua arma e estiver pronto para ser martirizado, também eu empunharei a minha arma e estarei pronto para ser martirizado. E nunca vou abdicar dessa arma.

Fui ferido uma vez, mas continuei a minha missão. Mesmo que seja ferido novamente, vou completar a minha missão. Se for martirizado, e essa for a vontade de Deus Todo-Poderoso, peço a Deus que me conceda o martírio quando a minha missão estiver cumprida.

Vou continuar a seguir esse caminho enquanto for capaz – e nada me pode aterrorizar. Estou a receber muitas ameaças israelitas nas redes sociais e até através de telefonemas, em que ameaçam matar-me. Ignoro essas ameaças e respondo com o meu trabalho e com as reportagens do campo de batalha. Chego mesmo a trabalhar junto à vedação da fronteira, mostrando ao público como as casas dos israelitas estão a ser destruídas, tal como eles fizeram com as nossas, e que os colonos estão a ser deslocados, tal como o nosso povo foi deslocado.

Excerto de uma entrevista à Press TV (2024)

«A história de hoje é a do jornalista mártir»

Estou agora a filmar-me a mim próprio porque o fotógrafo que me acompanhou dia e noite, durante meses, tornou-se agora um mártir. (…)

A nossa arma é a câmara. A nossa arma é a imagem. A nossa arma é a mensagem. Esta é a arma que talvez tenha chegado para aterrorizar o inimigo “israelita” tanto quanto os rockets e os combatentes da resistência os aterrorizam. Portanto, isto é um crime contra a humanidade, porque todos aqui são civis. Todos aqui são jornalistas.

Estes jornalistas mártires foram martirizados hoje neste mesmo local. Estávamos a fazer a cobertura da notícia, a documentar o sofrimento das vítimas, e agora tornámo-nos a notícia, tornámo-nos vítimas. A imprensa é hoje vítima dos crimes israelitas. A notícia de hoje é o jornalista mártir e o jornalista ferido.

Ali Shoeib, durante a Guerra dos 66 Dias (2024), por ocasião de um ataque contra um grupo de jornalistas em Hasbaya

«Temos um grande respeito e amor pelo povo iraniano»

A relação entre o Hezbollah e a República Islâmica do Irão — ou melhor, entre o povo libanês e a República Islâmica — é forte porque sentimos que estamos no mesmo barco. Tal como pagámos um preço pela nossa presença perto da Palestina ocupada, o povo iraniano também pagou um preço por apoiar a causa palestiniana e está a fazer sacrifícios. (…)

Sentimos a protecção da República Islâmica e do seu povo, e o impacto da ajuda iraniana – em cada gota de água, em cada medicamento e até mesmo quando utilizamos as estradas, sentimos a protecção da República Islâmica em todos os aspectos da nossa vida. Se a República Islâmica não nos tivesse apoiado no confronto com o regime de ocupação israelita, não teríamos alcançado todas estas conquistas. Graças ao apoio iraniano, o povo libanês tem conseguido resistir à crise económica e aos desafios da vida resultantes do nosso compromisso com essa causa. 

O povo iraniano pagou o preço por dizer “não” à América e por apoiar a causa palestiniana. Por isso, nutrimos grande respeito e amor pelo povo iraniano e pedimos a Deus que nos ajude a retribuir o favor ao povo e aos líderes iranianos. Os iranianos nunca nos abandonaram, e estamos prontos a fazer sacrifícios para retribuir o favor.

Excerto de uma entrevista à Press TV (2024)

«Não abandonem Gaza»

Enquanto profissionais dos media, esta é a nossa mensagem que quero partilhar com o mundo, a partir do Sul do Líbano: pedimos às pessoas livres em todo o mundo que apoiem as crianças e as mulheres de Gaza que estão a perder as suas vidas todos os dias – bem como os combatentes da resistência em Gaza.

A nossa mensagem é apoiar a verdade contra a falsidade. Se há uma causa em que a verdade se confronta com a falsidade, é a causa palestiniana e a causa do povo de Gaza, que enfrentam a força mais poderosa, agressiva, criminosa e terrorista do mundo, com os seus corpos e quaisquer capacidades militares de que dispõem – e ainda assim obtém vitórias. (…)

A minha mensagem para o mundo é: Gaza foi-vos confiada – não a abandonem.

Excerto de uma entrevista à Press TV (2024)

4. Palavras do pai de Fatima e Mohammad Ftouni no dia do seu martírio

As notícias que ouvi sobre Fátima e Hammoudi foram-me verdadeiramente difíceis de aceitar no início. Mas sei que este caminho exige sangue, sacrifício e perseverança – e  sinto-me tranquilo.

O martírio não se limita aos media. Dezenas de mártires ascendem todos os dias, jovens flores no jardim da vida. Este caminho e este sangue derramado conduzirão inevitavelmente à vitória. A ruína de israel e os seus crimes subsequentes, que visam infra-estruturas, de postos de gasolina a jornalistas, são, por si só, uma demonstração de impotência. Este é o início da vitória, porque reflecte a derrota. Não pensem que eles estão a atingir objectivos reais. Os seus alvos são civis, os media e a voz da verdade.

Sim, estamos orgulhosos de que a nossa filha seja uma mártir, uma mártir dos media, uma mártir da Al Mayadeen. E estamos também orgulhosos de que Hammoudi, o nosso filho, o operador de câmara, seja um mártir. Seja qual for o nome que lhe queiram dar, ele é um mártir – seja um mártir do Hezbollah, um mártir dos media, um mártir da Al Mayadeen, um mártir da Al-Manar…

Também enviamos as nossas saudações, respeito e reverência ao mártir Hajj Ali Shoeib, que Deus tenha misericórdia dele. Ele foi verdadeiramente uma referência dos media. (…) Era um jornalista em todos os sentidos da palavra. (…)

Sim, os nossos olhos derramarão lágrimas e os nossos corações sofrerão, mas a paciência persistirá.

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