Bombas atómicas no Irão? E uma granada no cu do general Serronha?~ 7 min

Por Francisco Ulrike

Na passada quinta-feira, 26 de Março, a televisão portuguesa atingiu um novo nível de perversidade. Num painel com três outras pessoas, a propósito da guerra do Império contra o Irão, o general Marco Serronha vomitou as seguintes palavras:

Isto vai-se arrastar durante muito tempo. E como é que isto se resolve? Não tem que ser uma operação terrestre, pode ser uma operação de outra natureza. Mandar 3 bombas atómicas sobre o Irão, nos sítios certos, e aquilo pára de um dia para o outro. Disso não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Aliás, já vimos isso em Hiroshima e Nagasaki.

Tanta coisa se poderia dizer em resposta a estas alarvidades – apresentar argumentos, apontar as consequências nefastas destas armas, invocar valores éticos e morais. Mas a vontade que dá é responder a este senhor na mesma moeda – como se estivesse numa tasca.

Porque é aquilo que estes programas de televisão se tornaram – autênticas tascas em que um bando de anormais se junta para arrotar barbaridades. 

Porque reparem, o general Serronha não estava num um-para-um com um propagandista bem pago para dizer o que os donos disto tudo querem – estava num painel com outros três comentadores especialistas de coisa nenhuma, e aparentemente nenhum deles achou que a barbaridade merecia resposta. Mais – o general Serronha afirma, pouco depois, que “israel pode continuar perfeitamente, e se calhar é a solução, é o que quer, é o aparar a relva”, ao que outro energúmeno responde:

mow the lawn, basicamente a lógica é, sim, tem que fazer isto de 5 em 5 anos, de 10 em 10 anos, continuamente. É a lógica que estão a vender neste momento, é um terceiro cenário…

E o general interrompe para nos dar um pouco mais da sua “sabedoria”:

Se calhar é um cenário certo, porque pode não haver alternativa política de outra maneira.

Uma autêntica conversa de tasca, transmitida para centenas de milhares de espectadores.

E o que eu diria se estivesse numa tasca é que, «se não houvesse alternativa política», o que eu gostaria de ver era alguém a enfiar uma granada pelo cu acima a este general – e «não tenho dúvida absolutamente nenhuma» que o problema ficaria resolvido.

Ou, sei lá, ir à dark-web e investir todas as minhas poupanças (inexistentes) numa nano-mini-micro bomba nuclear táctica para detonar na casa deste grandessíssimo filho da pátria que o pariu.

Desculpem… Estarei a ser muito agressivo?

Honestamente, acho que não. Afinal, a comunicação social portuguesa tornou-se numa grande tasca onde qualquer idiota pode arrotar qualquer posta de pescada que lhe venha à cabeça – uma tasca onde não há limites.

Ou será que há?

Será que se pode desejar a morte de milhões de pessoas, em directo na televisão, sem sofrer qualquer tipo de consequências, mas ofender um senhor general já não se pode?

Será que a justiça portuguesa, que nos últimos dois anos e meio não julgou um único “jornalista” ou comentador por fazer apologia do genocídio em curso na Faixa de Gaza, apesar de Portugal ser signatário de todos esses tratados e convenções internacionais, se dignaria a julgar alguém por mandar umas larachas a este energúmeno no site de um meio de comunicação independente lido por algumas centenas de pessoas?

Já agora, porque é que depois desta merda, continuam a dar-lhe tempo de antena na CNN? E porque é que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social não disse uma palavra sobre este caso?

O facto de as declarações do general Serronha não terem sido contestadas por nenhum jornalista da CNN, e de o Sindicato dos Jornalistas também guardar silêncio sobre este episódio, diz muito sobre o estado do “jornalismo” português. O facto de as outras três pessoas presentes no programa (e os operadores de câmara, e a equipa na montagem, e por aí fora) não se terem insurgido, e terem continuado a conversa como se nada se passasse, como se o general tivesse apenas dito que foi à pesca no domingo passado, diz muito sobre a nossa sociedade – que carrega consigo um legado bem vivo dos cinco séculos de colonialismo português. O facto de ninguém ter ido pegar fogo aos estúdios da CNN é sintomático da apatia instalada na generalidade da sociedade portuguesa – o absurdo é tanto que já ninguém reage a nada.

E o facto de este general achar que a guerra se ganharia com “três bombas atómicas” diz muito sobre o pensamento das elites militares ocidentais, que acham que a única maneira de vencer guerras é provocar destruição, morte e sofrimento inimaginável às populações civis.

Também mostra a falta de compreensão desta gente acerca das realidades sobre as quais são chamados a comentar na televisão. O Irão é uma nação gigantesca com 90 milhões de pessoas, e as IRGC são uma força descentralizada. Se o Império lançasse bombas atómicas sobre o Irão, o Irão e as suas capacidades militares sobreviveriam – o que é pouco provável é que sobrasse pedra sobre pedra nos colonatos israelitas na Palestina ocupada, e vidro por quebrar nos arranha-céus do Golfo.

Este senhor, aliás, mostra-se frequentemente preocupado com os pobres países do Golfo que estão a ser atacados pelo “malvado Irão” – mas parece ignorar que usar bombas nucleares no Irão teria consequências inimagináveis para as populações desses mesmos regimes autocráticos do Golfo.

As elites ocidentais são completamente dementes. “Cortam a relva” em Gaza há 20 anos, mataram gerações atrás de gerações das lideranças palestinianas, estão a cometer um genocídio há dois anos e meio – e a resistência palestiniana continua. Assassinaram Hassan Nasrallah e toda a cúpula militar do Hezbollah, mataram milhares de civis – e a resistência libanesa está hoje mais forte do que há um ano e meio. Ainda assim, esperam que estas mesmas tácticas, que falharam em Gaza e no Líbano, funcionem agora no Irão.

O general atómico é vice-presidente da Cruz Vermelha

Sim, pasmem-se, Serronha é vice-presidente da Cruz Vermelha.

Saberá este nobre general defensor dos “valores judaico-cristãos” que aquela “única democracia do Médio Oriente”, que está a tentar «resolver» o Irão em conjunto com os EUA, está a cometer crimes inimagináveis contra as populações civis não só do “malvado Irão”, mas também do Líbano, um país com uma numerosa comunidade cristã?

Porque já se sabe que não vale a pena invocar os civis, os paramédicos ou os jornalistas mortos se estes forem muçulmanos. Na cabeça destes islamofóbicos, muçulmano é sinónimo de terrorista ou de oprimido – e ambos merecem as libertadoras bombas ocidentais.

Mas saberá este idiota que um ataque israelita matou um paramédico cristão da CRUZ VERMELHA libanesa em Tyre, no sul do Líbano, há menos de um mês? Ou que, no Domingo de Ramos, na aldeia cristã de Yaroun, também no sul do Líbano, um bulldozer israelita destruiu uma estátua de São Jorge? Ou que, a 9 de Março, o Padre Pierre al-Rahi, pároco da aldeia cristã de Qlayaa, igualmente no sul do Líbano, foi morto pelo disparo de um tanque israelita?

Ou que, este ano, a ocupação israelita impediu o Patriarca Latino de Jerusalém de celebrar a missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro, pela primeira vez em séculos? E no Irão também há cristãos, a quem o “regime iraniano” garante liberdade de culto e isenção de uma série de leis islâmicas – no início desta semana, em Isfahan, um bombardeamento israelo-americano matou um cristão arménio, Avans Simonian, no seu local de trabalho.

Não me parece nada católico do general Serronha vir servir de acólito de um regime que comete tais atrocidades contra cristãos – nem da Cruz Vermelha Portuguesa ainda não o ter retirado do cargo.

E o mais surreal disto tudo é que uma pessoa corre mais risco de sofrer consequências por falar de meter uma granada no cu de UM generalzeco do que por normalizar a morte de MILHÕES de pessoas num programa de televisão.

Que se foda. Afinal, estamos na tasca.

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