A esperança em Ibrahim Traoré: uma nova África unida e soberana?~ 24 min

Por Jorge Santos
Na manhã de 30 de Setembro de 2022, efetivos militares da unidade “Cobra”, chefiados pelo jovem capitão Ibrahim Traoré, mobilizaram-se e tomaram vários pontos de Uagadugu, capital do Burkina Faso.
Inicialmente, estes militares encetaram negociações com o presidente Paul-Henri Damiba na tentativa de chegar a um acordo que pusesse fim ao descontentamento popular para com a incapacidade do governo de derrotar a insurgência de militantes salafistas no país (cerca de 40% do território estava controlado por grupos armados violentos como Ansarul Islam ou JNIM). Contudo, as negociações falharam e a população civil saiu às ruas para demonstrar o seu apoio às forças armadas.
Durante a noite, Traoré anunciou que a decisão dos oficiais rebeldes tinha sido a de depor o governo. Todas as atividades políticas e a Constituição da República foram então suspendidas, e foi constituído um governo provisório por parte do recém-criado Movimento Patriótico de Salvaguarda e Restauração, cujo líder é Ibrahim Traoré.
Quem é o capitão Ibrahim Traoré?
Nascido em 1988, em Kerá, zona ocidental do país, Traoré estudou geologia na Universidade Uagadugu, onde fez parte da Associação de Estudantes Muçulmanos e da Associação Nacional de Estudantes Marxistas do Burkina Faso.
Era conhecido por ser um estudante “reservado” mas “muito talentoso” e por defender colegas em disputas.
Em 2009, juntou-se ao exército do Burkina Faso e graduou-se na Academia Militar.
Em 2014, fez parte da missão das Nações Unidas de manutenção de paz no Mali, tendo sido reconhecido por “mostrar coragem” durante a resposta a ataques de insurgentes em Tombuctu, e também participou em operações militares contra insurgentes no Norte do Burkina Faso em 2019.
No ano seguinte, o sargento Traoré foi promovido a capitão. Foi nesta altura que, segundo o próprio, se sentiu desiludido com a liderança do país, especialmente devido à corrupção endémica dos políticos e à falta de equipamento militar dos soldados.
Ibrahim fazia parte de uma nova geração que havia sido inspirada pelos ideais socialistas e pan-africanistas de Thomas Sankara, o presidente burkinabé assassinado em 1987.
Sankara, o “Che Guevara africano”, era um revolucionário marxista e pan-africanista que recusou as “ajudas” predatórias do Ocidente, nacionalizou os principais recursos do país e investiu fortemente no desenvolvimento social e na autossuficiência económica, tendo pago com a vida a sua audácia e visão libertadoras.
O imperialismo tentou apagar o seu legado para manter vivo o colonialismo, mas o impacto da breve experiência socialista no Burkina manteve-se viva até hoje.
Em apenas quatro anos de governo, Sankara foi responsável por elevar os níveis de literacia no Burkina de apenas 13% em 1983 para 73% em 1987.
Os seus “Pioneiros da Revolução”, organização juvenil inspirada em organizações nacionais de formação marxista como os jovens pioneiros da URSS e da China, tiveram impacto na consciencialização política e de classe das gerações seguintes, incluindo a de Traoré.
Foi esta geração pós-Sankara, que se frustrou com a incapacidade dos sucessivos governos de alcançar desenvolvimento socioeconómico face à subserviência aos interesses norte-americanos e franceses em África, que se revoltou e decidiu que seria a hora de tomar o destino nas suas mãos.
O que pretende este Movimento e o que podem os africanos esperar dele?
A ascensão política de Traoré e o seu Movimento aparece num contexto relativamente favorável na região do Sahel. Tal como no Burkina, o Mali (2021) e depois o Níger (2023) também foram alvo de golpes de estado que levaram militares descontentes ao poder. Em 2022, o Mali foi o primeiro país saheliano a expulsar as tropas francesas do seu território após o golpe de estado. Seguiu-se o Burkina Faso, o Níger e também o Chade (mais recentemente, a Costa do Marfim e o Senegal também solicitaram a retirada à França).
Este ato simbólico quebrou o paradigma da dependência africana da presença militar ocidental nos respetivos países. Se anteriormente a participação de militares franceses em operações em África era vista com naturalidade, senão mesmo como uma inevitabilidade, a partir de 2022 esta passa a ser associada às contrapartidas político-económicas que os ex-colonizadores reclamam em troca do suposto “apoio militar” “temporário” mas sempre sem fim à vista. Para além de uma eterna dívida que fica por pagar, a presença do exército francês traz consigo a ingerência nos assuntos internos destes Estados, não raramente levando a tentativas de golpes de estado patrocinados pela presença de armas e técnicos estrangeiros no território.
Alinhadas as posições políticas no plano internacional, foi possível a Traoré encetar negociações com os países vizinhos que também estão a sofrer com as incursões violentas de grupos armados salafistas e com a exploração económica neocolonialista, desafios comuns àqueles três países. Não é demais recordar que tais grupos armados frequentemente atravessam as fronteiras, especialmente em pontos desertificados ou pouco vigiados, para levar a cabo as suas ações terroristas contra as populações das aldeias.
Cedo Traoré percebeu que a presença de tropas francesas no território burkinabé não só não estava a ter qualquer eficácia no combate à insurgência (um problema que se mantém há décadas), como consistia numa humilhação do papel do exército nacional, sujeito ao comando estrangeiro e às exigências políticas da França.
A confiança no exército francês entre os militares e a população do Sahel é muito diminuta. E a dúvida permanece: porque razão deve um país com tantos recursos valiosos possuir um exército mal equipado e depender de potências estrangeiras para resolver problemas de segurança internos causados pelo legado do colonialismo?
A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que os países do Sahel integravam, nunca foi um verdadeiro bloco de unidade africana. Antes pelo contrário, trata-se de uma organização politicamente muito frágil e fragmentada que gira em torno da Nigéria e do “clube de ditadores” submissos às potências ocidentais. Contudo, e apesar de fecharem os olhos a casos de violação dos direitos humanos em outros países, a CEDEAO foi rápida a condenar os golpes de estado dos países do Sahel e a aplicar duras sanções aos seus governos, acusados de serem “autocráticos”. As promessas de auxílio no combate ao terrorismo e criação de zonas de livre circulação entre os 12 estados-membros também caíram em saco roto à medida que vários governos recuaram e introduziram barreiras, como o encerramento unilateral de fronteiras, a exigência de vistos e medidas de caráter protecionista.
De forma a promover uma alternativa de cooperação militar e económica, os três estados (Burkina Faso, Mali e Níger) abandonaram em bloco a CEDEAO e formaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES), uma confederação que surgiu inicialmente como pacto de defesa comum. Em Janeiro de 2025, foi lançado um passaporte biométrico comum e novos documentos de identidade para viajar entre estes países. Em Setembro desse mesmo ano, o Burkina Faso acabou mesmo por eliminar a existência de vistos para cidadãos de outros países africanos, que podem agora entrar no Burkina após a submissão e aprovação de um pedido online. A eliminação de barreiras a viajar, viver ou trabalhar no país é um passo firme em direção de uma maior integração económica na região, com potencial para desenvolver o turismo e outras atividades e aumentar o crescimento económico.

A unidade dos governos sahelianos criou terreno para pôr fim ao uso do Franco CFA, a moeda comum às ex-colónias francesas de África, que é controlada pelo banco central de França e tem constituído um dos principais mecanismos de domínio neocolonial francês no continente. Porém, ainda não há planos concretos nem prazos para abandonar a moeda.
Assim que assumiu o governo, o capitão Traoré assumiu como objetivos o combate eficaz ao terrorismo, a apropriação coletiva dos recursos minerais do Burkina Faso e a construção de infraestruturas para o desenvolvimento nacional.
Foi adotada uma “Carta de Transição” (Constituição provisória) que consagra os princípios da nova “Revolução Progressista Popular”, proclamada por Traoré em 1 de abril de 2025. Este documento, entretanto substituído pela “Carta da Revolução” (2026), altera profundamente as bases jurídicas do Estado. No seu preâmbulo, valoriza explicitamente os “valores socioculturais nacionais”, os quais se encontram acima de qualquer compromisso jurídico internacional que o país tenha assumido e que não se compatibilize com estes valores. Esta afirmação de soberania põe a lei fundamental no topo da pirâmide normativa do Burkina Faso, acima de quaisquer Tratados ou Convenções Internacionais.
Logo no primeiro mês de governo, foi lançada uma campanha de recrutamento para os “Voluntários pela Defesa da Pátria”, um corpo paramilitar para combater as milícias salafistas. Se a meta do governo era recrutar 50.000 novos elementos, em novembro de 2022 já se tinham alistado 90.000 voluntários, superando todas as expectativas. Foi também declarada uma mobilização geral da população em apoio aos militares. Esta declaração insere-se no âmbito dos novos valores da nação. A par dos princípios da “defesa da pátria” e da “soberania nacional”, o princípio do “engajamento patriótico popular” promove a participação voluntária do povo na construção do país, indo além da mera cidadania.
O objetivo destas iniciativas consiste em obter ganhos territoriais em larga escala, de modo a negociar com os grupos insurgentes a partir de uma posição de força. Foram ainda lançados alguns impostos para financiar este esforço de guerra. Traoré sabe que sem o controlo administrativo do seu território não haverá desenvolvimento económico. Os resultados deste esforço falam por si: no final de 2024, o número de deslocados internos causados pelo conflito caiu para metade em relação ao ano anterior, sendo o mais baixo registado desde 2019 (380 mil pessoas). Em janeiro de 2026, o exército nacional já havia recuperado o controlo de cerca de 74% do território que anteriormente estava nas mãos dos salafistas, controlando agora a esmagadora maioria do Burkina Faso (~90%).
Ao mesmo tempo, o governo de Traoré aprendeu com a experiência do Mali e avançou para o controlo dos recursos minerais estratégicos da nação, em especial o ouro, que é a sua maior exportação (70% do total das exportações do país).
Foi criada a Sociedade de Participação Mineira do Burkina, uma empresa estatal que controla todas as atividades de compra, transformação e venda de ouro do país. Esta empresa passou a gerir as 5 minas de ouro entretanto nacionalizadas (adquiridas às sociedades Endeavour Mining PLC e Lilum Mining).
Após a aprovação do novo Código Mineiro, em julho de 2024, o Estado burkinabé passou a ter uma participação mínima de 15% (no lugar dos anteriores 10%) nas ações de qualquer sociedade de exploração mineira, sem pagar nada por isso, e passou ainda a ter direito de adquirir mais 30% dessa empresa. Foram também abolidas as isenções fiscais na fase de produção, o que faz com que as empresas apenas possam solicitar benefícios fiscais na fase de preparação (primeiros 3 anos).
Em 2024, deu-se a construção da primeira refinaria de ouro do Burkina Faso, reduzindo a dependência de países como a Suíça ou os Emirados Árabes Unidos (EAU) na refinação de ouro. Passou também a ser obrigatório que uma parte significativa da refinação ocorra localmente.
Entre 2024 e 2025, várias licenças de exploração de minério concedidas a empresas estrangeiras foram revogadas, por serem consideradas inativas ou não conformes à legislação nacional. Também a exportação de ouro artesanal foi proibida, reforçando-se assim o controlo estatal sobre a parte mais informal do setor.
A nacionalização das minas de ouro gerou receitas que permitiram saldar a dívida externa em 4,7 mil milhões de dólares (em 2026 estima-se que ronde apenas 1,17 mil milhões de dólares).
Estes passos no aprofundamento da soberania sobre os recursos nacionais chocaram de frente com os interesses da França, que historicamente detinha não só parte desses recursos, mas também as informações estratégicas sobre os minerais depositados no subsolo do país. Atualmente, esses dados estão na posse do governo do Burkina e protegidos por sigilo.
Todas estas medidas poderão ser apenas um começo, mas são ao mesmo tempo passos firmes e decisivos no caminho do controlo público do minério nacional e dos setores estratégicos da economia.
Em 2025, foi alcançado o recorde de produção de 94 toneladas de ouro (resultado do aumento de 62% na produção deste recurso em relação a 2022).
Se continuar por este caminho, o Burkina Faso deixará de ser um mero país extrator de minerais para passar a ser também produtor e exportador de recursos minerais acabados, de maior valor acrescentado. Isto potencia o aumento de riqueza nas mãos da população e também aumenta as receitas estatais necessárias à realização de obras públicas essenciais.
Transformações profundas na saúde, educação, justiça e transportes
Numa economia pré-industrial, na qual cerca de 74% da população ativa trabalha no setor agrícola, Traoré mostrou visão ao fomentar a construção de 17 novas fábricas em 2025, com a criação de mais de 600 postos de trabalho permanentes, em setores como a produção têxtil e alimentar. Foram distribuídos pelos agricultores tratores, monocultivadores e fertilizantes subsidiados, e os engenheiros agrónomos estão a movimentar-se das cidades para as aldeias para aumentar a produtividade agrícola. Os objetivos principais destas políticas consistem em gerar mais emprego (a agricultura é maioritariamente de subsistência) e reduzir a dependência da importação de alguns dos bens alimentares mais consumidos no país.
Contudo, a industrialização depende de fontes energéticas suficientes e o Burkina Faso é um país jovem, com uma elevada taxa de crescimento populacional e ausência de soberania energética. Milhões de burkinabés não têm eletricidade em casa (25% da população total, incluindo 90% da população das áreas rurais), e 60% de toda a eletricidade consumida no país é importada. Não possuindo reservas relevantes de carvão, petróleo ou gás natural, Traoré aposta na energia nuclear como o futuro da produção elétrica nacional. Em 2025, o Burkina Faso assinou um acordo de cooperação com a Rússia para a instalação de uma central nuclear.
Para surpresa de muitos, em 2025 o país começou a produzir carros elétricos com carregamento solar, através da marca nacional Itaoua. Este feito foi possível através de uma parceria com a China. Atualmente, já circulam na capital do Burkina 30 táxis elétricos desta marca. Equipados com wi-fi e carregadores USB, estes táxis operam através de uma aplicação de telemóvel.
O sistema de transportes públicos, aliás, está a passar por transformações profundas que ameaçam pôr fim à hegemonia do transporte informal (as motos-táxi e as sobrelotadas carrinhas privadas são a regra). A Companhia de Transportes Públicos de Uagadugu (SOTRACO), a principal empresa de transportes públicos do país, foi 100% nacionalizada e está a ser amplamente expandida. O governo adquiriu 530 novos e modernos autocarros que agora circulam nas cidades de Uagadugu, Bobo-Dioulasso e Banfora, ligando os principais bairros ao centro urbano. Estes autocarros são gratuitos para estudantes e professores e os horários foram adaptados às rotinas escolares e académicas. Com o aumento da oferta pública de transportes mais seguros e confortáveis, prevê-se a descida do preço das viagens.
O reforço dos laços comerciais com os países vizinhos, a atribuição de subsídios à produção agrícola, a construção de estradas e o reforço do papel do Estado surtiram efeitos positivos na economia do Burkina Faso. De acordo com o Banco Mundial, a taxa de inflação diminuiu de 14,3% em 2022 para 0,7% em 2023, situando-se em 4,2% em 2024. Em 2023, a economia do país cresceu 3%, e em 2024 alcançou um crescimento de 4,9%. O PIB per capita subiu de 0,7% para 2,5% neste mesmo período. As perspetivas de futuro também são animadoras, prevendo-se um crescimento económico de 4,3% em 2025 e até 5% em 2027.
É certo que existem outros países com maior crescimento económico. Contudo, estes resultados são sustentados, registando-se também uma maior diversificação da economia.
Para evitar que os resultados económicos alcançados se percam para a corrupção ou para os “elefantes brancos”, Traoré lançou um ambicioso Plano de Desenvolvimento Nacional (2026-2030), com um investimento público estimado em 64 mil milhões de dólares para os próximos 5 anos, assumindo como eixos prioritários a redução da taxa de pobreza de 42% para 35%, o aumento da esperança média de vida de 61 para 68 anos de idade, o aumento da capacidade de produção de energia elétrica de 685 MW para mais de 2.500 MW e a retoma do controlo administrativo sobre a totalidade do território do país.
Para que se tenha ideia da ambição do governo de Traoré, vigora já um projeto para a construção de uma autoestrada entre a capital Uagadugu e Bobo-Dioulasso, a segunda maior cidade do Burkina. Um novo e moderno aeroporto internacional próximo da capital vai substituir o velho aeroporto construído pelo regime colonial francês nos anos 60. Ambiciona-se a construção ou reabilitação de 50.000 km de estradas até 2029, sendo que em 2025 já haviam sido construídos ou reabilitados uns impressionantes 5.000 km de vias rodoviárias.
Na área da saúde, entrou em funcionamento um novo Centro Hospitalar Universitário com um Centro de Radioterapia em Bobo-Dioulasso e um novo centro de hemodiálise em Gaoua. As primeiras cirurgias cardíacas e o primeiro transplante renal do país tiveram lugar no Centro Hospitalar Universitário de Tengandogo. Prevê-se a construção de 55 centros médicos e 5 unidades de cuidados intensivos em todo o território e 12% do Orçamento de Estado de 2026 foi alocado para a saúde, um dos rácios mais elevados da África Ocidental.


Na educação, diversas mudanças estruturais foram implementadas. O ensino do inglês passou a ser obrigatório logo nos primeiros anos de escolaridade. As línguas nacionais do país também estão a ser mais valorizadas. O uso obrigatório do uniforme tradicional (em tecido de algodão chamado “faso danfani”) é uma mudança simbólica que visa reforçar o sentimento de identidade nacional. As tecnologias de informação e comunicação e a iniciação aos ofícios são outras novidades, a par da disciplina de educação cívica. Para garantir que as crianças vão à escola sem fome, promoveu-se a criação de cantinas geridas pelas próprias comunidades, com uso de produtos locais. No ensino superior, criaram-se plataformas digitais e reforçou-se o acesso à internet.
Para responder ao défice habitacional e ao aumento anual da procura de habitação, o governo aprovou, em julho de 2024, um programa especial que visa construir 1000 novos fogos, destinados a deslocados internos e famílias mais vulneráveis. Estas casas estão a ser construídas em terrenos de 150 m2 e estarão preparadas para futuras ampliações. Em Agosto de 2025, foi aprovado um novo regime de acesso à habitação pública que dá prioridade à construção de habitação coletiva (prédios de apartamentos), sendo a habitação unifamiliar uma exceção dependente de análise prévia e autorização. As regras tornam-se mais claras e transparentes graças ao lançamento de uma plataforma digital que gere todo o processo de candidatura e atribuição, e quem pretenda adquirir uma habitação poderá, na generalidade dos casos, celebrar contrato de arrendamento ou de locação-compra (podendo, neste último caso, vir a adquirir a propriedade no final do contrato). Para as pessoas que comprovadamente não possuam rendimentos e para os “pupilos da nação” (filhos menores de militares ou funcionários públicos mortos em ações de terrorismo), a habitação é atribuída pelo Estado gratuitamente.
A justiça foi outro setor onde as mudanças causaram estrondo. A começar pela machadada no poder absoluto dos magistrados, cujo Conselho Superior da Magistratura passa a ser composto em 50% por personalidades de fora da magistratura (advogados e juristas). Deste modo, garante-se um poder disciplinar mais transparente e eficaz. Também foi abolido o uso da toga de estilo europeu, passando os magistrados e oficiais de justiça a usar togas confecionadas em faso danfani. Este tecido tradicional é 5 vezes mais barato, não necessita de ser importado e, mais do que um símbolo, é um meio de ajudar os tecelões locais e a indústria nacional de algodão.

O francês deixou de ser a língua obrigatória nos tribunais, passando as audiências de julgamento a poder ser realizadas numa das línguas nacionais do país (desde que todas as partes concordem). Esta lei teve um impacto positivo ao quebrar a barreira linguística que afeta milhões de cidadãos que apenas falam a sua língua materna, promovendo a equidade e facilitando o acesso da população à tutela judicial.
Para acabar com a sobrelotação das prisões, Traoré concedeu indulto presidencial a 1200 reclusos e foi introduzida na lei penal a possibilidade de condenação a trabalho comunitário, em alternativa à pena de prisão. Para descongestionar os tribunais, adotou-se o instituto da mediação penal, que visa solucionar pequenos litígios por acordo entre as partes.

Por último, é importante dar nota de que está em discussão, na Assembleia Legislativa do Povo, um novo código do trabalho de pendor mais favorável aos direitos dos trabalhadores. Embora ainda não haja certezas sobre tudo o que vai ser alterado, sabe-se que a melhoria das regras relativas ao trabalho a tempo parcial, horário flexível e teletrabalho são temas em cima da mesa.
Em suma, todos estes dados demonstram que não se trata aqui de mais um mero governo que vende falsas promessas, insistindo nos erros do passado. Antes pelo contrário, em poucos anos foi lançado um projeto de sociedade que está em construção e a avançar a um ritmo notável. O progresso económico já está a refletir-se na sociedade burkinabé e, não por acaso, o presidente Traoré é uma figura extremamente popular entre os jovens.
Que desafios enfrenta Traoré e o seu Movimento?
Não obstante os sinais de que está em curso uma verdadeira revolução no país, o Burkina Faso tem pela frente enormes desafios estruturais.
Para começar, a situação de insegurança tem de ser resolvida definitivamente. Os grupos salafistas têm de ser desarmados e desmantelados em todo o território, para que os muitos deslocados internos causados pelo conflito possam regressar a casa, e as terras voltem a ser cultivadas e os mercados reabertos. Quando tal for possível, o foco deixará de ser atender às necessidades urgentes de comida, água, abrigo e saúde das famílias deslocadas e passará a ser a reintegração das populações e a reconstituição do tecido económico das comunidades locais. Deste modo, a produção de alimentos irá voltar aos níveis normais, diminuindo a situação de fome e insegurança alimentar que o país atravessa. O fim do conflito também libertará recursos alocados à defesa nacional para serem usados noutras áreas importantes.
Para quebrar o ciclo do subdesenvolvimento, o governo terá de fazer uma aposta muito forte no “elevador social” da educação e tirar milhões de burkinabés da pobreza extrema. Os jovens precisam de incentivos para abandonar a agricultura de subsistência que absorve grande parte da mão de obra sem gerar empregabilidade nem riqueza.
Segundo o Banco Mundial, 43,2% da população do Burkina Faso está em situação de pobreza extrema e cerca de 64% da população é afetada pela pobreza multidimensional, revelando a falta generalizada de serviços básicos.
A aposta na autossuficiência agrícola também esbarra contra o caráter árido das terras numa parte significativa do território e os efeitos das alterações climáticas (frequentes secas e inundações) que estão a tornar as terras mais improdutivas. O Burkina Faso é um país sem acesso marítimo e com escassos recursos hídricos. Este é um problema que implica consciência da necessidade de uma cuidadosa gestão da água e aposta em medidas de adaptação do território às mudanças climáticas.
O plano de desenvolvimento de Traoré é ambicioso e necessário, mas vai depender muito da capacidade de cobrar impostos e gerar receitas fiscais. Sem uma máquina administrativa treinada e eficiente, é difícil que a taxa de execução do plano vá ser elevada.
Por outro lado, a ambição de abandonar o Franco CFA e instituir uma nova moeda nacional (ou comum à AES) implica a capacitação técnica do banco central nacional para operar essa mudança, bem como a existência de reservas de moeda estrangeira suficientes para assegurar o valor da nova moeda. A confiança gerada nessa futura moeda também dependerá da estabilidade política e económica dos países do Sahel.
Por último, é importante destacar o perigo do surgimento de golpes de estado e ações desestabilizadoras da soberania e integridade territorial do Burkina Faso, quer por parte de adversários internos, quer por ação dos serviços secretos ocidentais. Desde que assumiu o poder em Setembro de 2022, Traoré já foi alvo de várias tentativas de golpe de estado, a primeira logo em Dezembro desse ano, e a última já em Janeiro de 2026. Garantir que o governo permanece um corpo sólido é fundamental e vai depender da forma como as crises políticas e a insubordinação militar são enfrentadas por parte de Traoré.
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A quem quiser informar-se mais em detalhe sobre a situação em África, o legado do colonialismo no pensamento hegemónico que impera em África até aos dias de hoje, e os paralelismos entre os movimentos de libertação africanos e as organizações da resistência palestiniana, recomendamos esta excelente entrevista ao jornalista independente nigeriano David Hundeyin:

