O Genocídio em Gaza ultrapassa em muito os horrores do Holocausto~ 31 min

Por Francisco Ulrike

Estou há quase um ano para escrever este artigo – desde que ouvi uma entrevista a Stephen Kapos, um sobrevivente do Holocausto, no final de Maio do ano passado. Um artigo publicado há duas semanas por uma sionista portuguesa no Times of Israel, a propósito da telenovela protagonizada por Bar Harel, deu-me a motivação que faltava.

O título do artigo? Echoes of the 1930s in Coimbra: University Rebuked for Antisemitism.

A realidade por detrás destes delírios sionistas é óbvia: os ecos dos anos 30 e 40 do século passado não se encontram em Coimbra, mas na Faixa de Gaza.

A memória do Holocausto, instrumentalizada para branquear os crimes que são cometidos pelos sionistas na Palestina há 78 longos anos, é agora usada para silenciar qualquer solidariedade com o povo palestiniano – que está a ser exterminado pelos judeus sionistas, tal como os judeus europeus (na altura, na sua maioria, anti-sionistas) foram exterminados pelos nazis.

Muita gente – especialmente os sionistas – mostra-se escandalizada quando se fazem comparações entre estes dois genocídios. Estas comparações, contudo, são não só possíveis, como pertinentes e essenciais.

Como diz Kapos:

Algumas das acções desumanizantes do Estado nazi, e os extremamente cruéis assassinatos em grande escala, etc., se forem repetidos, não vejo porque não se poderia estabelecer um paralelo. Estabelecê-lo só pode ajudar a compreender o que se passa. Não creio que deva haver qualquer tabu em relação a isso.

Os paralelismos são óbvios. Sobreviventes do Holocausto, como Kapos e Hajo Meyer, e muitos outros judeus anti-sionistas, como Norman Finkelstein e Miko Peled, comparam frequentemente a realidade vivida hoje em Gaza com os campos de concentração e extermínio do regime nazi – e o 7 de Outubro com a Revolta do Gueto de Varsóvia.

Ouçam sobreviventes do Holocausto, não propagandistas pró-genocídio

Stephen Kapos é um judeu húngaro nascido em 1937 em Budapeste. O seu pai era médico, e a mãe vinha de uma família abastada. As suas palavras são especialmente valiosas pois Kapos já era crescido o suficiente para guardar memórias vivas da sua experiência quando o Holocausto atingiu o seu auge na Hungria, no final da Segunda Guerra Mundial.

Actualmente vive em Londres, onde é uma voz activa na oposição ao genocídio perpetrado pelo regime sionista, e faz parte do colectivo Holocaust Survivors and Descendants against the Genocide in Gaza.

Kapos tornou-se mais activo no seu apoio à causa palestiniana na última década, mas desde a sua primeira viagem à colónia sionista para visitar familiares, ainda antes de 1967, percebeu que a maneira como os colonos israelitas olham e tratam os palestinianos tem muitos paralelismos com a desumanização dos judeus por parte dos nazis.

Servem de base a este artigo quatro entrevistas a Stephen Kapos: a sua participação no podcast Bad Hasbara, em Maio de 2025; duas entrevistas à Double Down News, uma em Maio de 2024 e outra em Agosto de 2025; e uma entrevista pré-genocídio, de 2021.

Stephen Kapos e o seu filho numa manifestação em Setembro de 2024 [Fonte]

«O genocídio em Gaza rima com a nossa experiência»

No que diz respeito às comparações óbvias, as palavras de Stephen Kapos bastam:

Descobri que há muitos aspectos em que o actual genocídio em Gaza, em particular, rima com a nossa experiência – por exemplo, as frequentes evacuações com muito pouca antecedência, tendo de confiar simplesmente nas informações fornecidas pelo inimigo, algo que também tivemos de fazer.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [43:15]

O que distingue o Holocausto judeu é a sua escala industrial e os métodos industriais que foram utilizados. E o que tem estado a acontecer em Gaza é semelhante, na medida em que a escala dos bombardeamentos e a sua natureza indiscriminada, e a total indiferença em relação ao facto de crianças e mulheres constituírem a maioria das vítimas, equivalem a um genocídio em escala industrial. A representação do povo palestiniano como sem valor, quase animal pela descrição de alguns dos líderes [israelitas], essa desumanização permite que a população de israel tolere o que se está a passar. A forma como os palestinianos detidos foram tratados, tendo de se despir e serem exibidos, faz parte da humilhação. Na Cisjordânia, a forma como os postos de controlo estão organizados (…), tudo isto equivale a humilhação, semelhante à que experienciámos.

O tipo de determinação e consistência com que se propõem destruir toda a Faixa de Gaza é muito semelhante ao tipo de crueldade e determinação dos regimes fascistas.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2024

Extermínio, desumanização, fome, bloqueio, falta de água e de medicamentos, a destruição dos serviços de saúde, a caça aos médicos, a caça aos jornalistas, locais seguros que se revelam não ser seguros de todo, mas armadilhas, campos de concentração – tudo isto, em conjunto, constitui claramente um Holocausto. É evidente que todos estes elementos não diferem, de forma alguma, de acções semelhantes levadas a cabo pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Gaza é um campo de concentração a céu aberto – num certo sentido, é um campo de extermínio, porque não há outra saída senão morrer devido aos bombardeamentos, às doenças ou à falta de alimentos.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2025

Esta última iniciativa [israelita] de criar um chamado campo humanitário é apenas mais um campo de concentração. Uma vez lá dentro — e és forçado a entrar, porque não restarão outros locais onde estar a salvo dos bombardeamentos —, não te é permitido sair, a não ser, aparentemente, para um país estrangeiro. Supondo que não queiras sair, as condições nestes campos são inevitavelmente tão terríveis, porque estão superlotados e nunca haverá serviços médicos adequados disponíveis, que haverá uma lenta diminuição do número de pessoas devido ao desgaste e à morte, por privação. É um caso claro de genocídio, e o paralelismo com os campos nazis é óbvio.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2025

O que está a acontecer em Gaza é um holocausto. E o que está actualmente a ser planeado pelo governo israelita é a solução final para o “problema palestiniano”.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2025

Mas há muitos outros paralelismos que se podem fazer. Veja-se este exemplo absurdo.

As IDF desenvolveram, anos antes do 7 de Outubro, uma técnica para matar combatentes palestinianos nos túneis de Gaza. Esta técnica consiste na utilização de bombas bunker-buster que libertam grandes quantidades de monóxido de carbono que se espalha pelos túneis e os transforma, assim, em autênticas câmaras de gás. Usada várias vezes antes de 2023, esta técnica continuou a ser usada durante o genocídio em curso. Um destes ataques, em Fevereiro de 2024, atingiu um túnel em Khan Younis onde, além de combatentes da resistência, se encontravam também 6 prisioneiros israelitas. A liderança militar das IDF, apesar de alegadamente não ter tido confirmação, estava ciente dessa possibilidade – e, mesmo assim, avançou com o ataque. Os 6 prisioneiros morreram, bem como muitos combatentes palestinianos.

Sim, leram bem. O regime sionista matou 6 judeus prisioneiros em Gaza transformando o túnel onde estavam captivos numa câmara de gás. E esta história não vem de uma qualquer fonte obscura – vem directamente da revista israelita +972.

A perversidade é estonteante, mas não acaba aqui – a delegação militar que, meses depois, informou os familiares da morte destes prisioneiros, confortou-os dizendo que «a morte causada por este gás é indolor, pois as pessoas perdem a consciência imediatamente e, em poucos minutos, morrem como se estivessem a adormecer.»

Se escrevesse uma frase como esta sobre a “morte indolor” que os judeus sofreram no Holocausto, imaginem os artigos que não seriam publicados no Times of Israel! Mas, como foram judeus sionistas a dizê-la sobre outros judeus gaseados, está tudo bem.

«A situação em Gaza é pior do que a minha experiência directa [do Holocausto]»

Durante o Holocausto nazi, uma grande parte da população judaica da Europa foi encarcerada e exterminada em campos de concentração. No entanto, também houve comunidades judaicas que, de alguma forma, escaparam à manifestação mais extrema da barbárie nazi – e que, por isso, tiveram uma experiência que não se aproxima remotamente da dos palestinianos em Gaza. É o caso da comunidade judaica de Budapeste, de que Kapos fazia parte.

Em Gaza, que é em si mesma um campo de concentração transformado num campo de extermínio, a totalidade da população está a sofrer a totalidade da barbárie sionista há dois anos e meio – com os bombardeamentos constantes, o ruído ensurdecedor e omnipresente dos drones, os ataques de atiradores furtivos e drones, as demolições, os raptos, o cerco bárbaro, a fome, a falta de medicamentos básicos e a destruição da infra-estrutura de saúde, e agora também os ataques de ratos que se tornam cada vez mais comuns – e muitos outros horrores que não podemos sequer imaginar. Em Gaza, ninguém escapa.

Nada disto diminui os horrores dos campos de concentração nazis – nem dos campos de concentração do Império japonês, nem dos campos de concentração para japoneses nos EUA, nem dos outros campos de concentração nas colónias que os impérios europeus tinham por esse mundo fora.

A realidade é que a barbárie do genocídio em Gaza ultrapassa, em muitos sentidos, os horrores do Holocausto e da maioria dos muitos genocídios da nossa história colectiva. Por exemplo: enquanto quem acabava nos campos de concentração nazis vivia em cabanas de madeira sobrelotadas e empestadas de doenças, a esmagadora maioria dos palestinianos em Gaza tem apenas tendas, feitas de lonas e pedaços de tecido degradados, para se proteger das tempestades impiedosas do Inverno e do sol escaldante do Verão. Tendas que não oferecem qualquer protecção nem das intempéries, nem dos ratos, nem das doenças que se espalham num território em que as montanhas de escombros são interrompidas por montanhas de lixo, e onde as águas de esgotos se acumulam no meio dos campos de tendas, graças aos sistemas de saneamento terem sido sistematicamente destruído pelos nazis do nosso tempo.

Outra diferença brutal apontada por Kapos é a origem da destruição. Na Segunda Guerra Mundial, cidades inteiras foram arrasadas – em combates violentos entre exércitos com aviação, tanques e armamento pesado. Em Gaza, a destruição é um fim em si mesma – as cidades são apagadas da face da terra deliberadamente, como parte do genocídio.

Em todas as comparações que posso fazer, a situação em Gaza é pior do que aquilo que eu e as nossas famílias vivemos em primeira mão. Por exemplo, acontece que o local onde ficavam as nossas casas, as «Swiss Protective Homes», ficava perto do Castelo Real, onde se desenrolou o clímax dos combates entre os alemães e os soviéticos. E a destruição, quando saímos e olhámos à nossa volta depois de os combates terem terminado, era total naquela pequena área. Nem toda a Budapeste estava assim, mas naquela pequena área em particular, por ter sido o local do combate final, a destruição foi total – apenas montes de lixo, tijolos e vidros partidos, aos montes, cavalos mortos, soldados mortos, munições abandonadas, tanques queimados, etc. Era esse o cenário, mas tudo isso era um subproduto do combate entre dois exércitos. Em Gaza, o mesmo ambiente [foi] criado deliberadamente. Destruição deliberada. Então, o que é pior?

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [53:30]

Kapos diz frequentemente que não sentiu medo durante a Segunda Guerra Mundial, por ser criança e por ter tido a relativa sorte de ser de Budapeste.

Não tinha medo. Olhando para trás, devia ter tido medo, mas não tive – porque não compreendia totalmente as implicações das coisas. Era mais um medo reflectido, porque percebia o intenso medo e angústia dos adultos à minha volta. Mas eu próprio, até em várias situações difíceis, ainda assim não sentia medo.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [26:15]

Desafiamos alguém a encontrar uma criança em Gaza que possa dizer o mesmo.

Os nazis preocupavam-se com a imagem

Durante o episódio do Bad Hasbara, Daniel Maté sugere que Kapos terá sido «muito afortunado por ter acabado onde acabou», ou seja, por não ter acabado nos campos de concentração nazis. Kapos corrigiu:

Em parte, foi uma sorte de grupo. As deportações eram intensas e muito eficientes. (…) Foram cerca de 400 000 judeus, na sua maioria provenientes dos meios rurais.

Deixaram os judeus de Budapeste para mais tarde, isso era mais problemático [para eles] porque era mais visível para o mundo.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [37:23]

Reparem bem: muitos dos judeus de Budapeste não foram deportados para campos de concentração porque, sendo uma capital, tinha muita presença de jornalistas e diplomatas, e a atenção do mundo – tornando, por isso, “mais problemático” fazer uma evacuação em massa.

Houve várias intervenções na altura, incluindo do Papa Pio XII, que, na verdade, não tinha um bom historial – mas até mesmo ele interveio a certa altura junto do almirante Horthy, que ainda estava no poder na altura, e isso acabou por adiar e adiar [as deportações], até à tomada efectiva do poder (…). Imediatamente, o Arrow Cross, o partido fascista – o partido abertamente fascista, devo dizer – assumiu o poder . O Arrow Cross era um partido político, bem como os Camisas Castanhas, um conjunto de hooligans e gangues armados que passaram a perseguir judeus a partir desse dia. E aconteciam coisas terríveis se fosses encontrado. Mas até então, como grupo, os judeus de Budapeste estavam numa espécie de posição de espera. Passaram por esta fase preliminar, digamos, de terem de viver em grandes edifícios marcados com uma estrela amarela, obviamente para tornar as futuras deportações eficientes e rápidas. Mas nunca se chegou a esse ponto.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [38:07]

Devido às tentativas do governo húngaro, que fazia parte do Eixo e havia participado na invasão da União Soviética, de sair da aliança com a Alemanha e assinar um acordo de paz com a URSS, os nazis levaram a cabo um golpe em Outubro de 1944 e instalaram brevemente no poder o partido de extrema-direita anti-semita Arrow Cross. Nesse momento, a situação em Budapeste mudou: começaram as perseguições e execuções de judeus. Mas a Hungria nazi tinha os dias contados. No final de Dezembro, começou o cerco a Budapeste e, a 13 de Fevereiro de 1945, a capital da Hungria caiu para as forças soviéticas. Apesar de os judeus de Budapeste não terem sido deportados, milhares de judeus acabaram por ser mortos em execuções sumárias durante o cerco.

Oito décadas depois, há um contraste gritante. Os sionistas gabam-se abertamente dos crimes que cometem. As atrocidades são anunciadas previamente pelos desavergonhados porta-vozes do regime israelita, e depois são transmitindas para o mundo – ao vivo e a cores – pelos palestinianos que, ao contrário das vítimas do Holocausto, têm smartphones e contas nas redes sociais, ao alcance de qualquer pessoa no mundo através de um simples clique.

Estas atrocidades anunciadas com pompa e circunstância são demasiadas para serem listadas, por isso tomemos apenas um exemplo que serve de comparação à situação de Budapeste. Se recuarmos ao Verão de 2024, o mundo todo repetia o slogan “All Eyes on Rafah” – organizações humanitárias, milhares de influencers, manifestações gigantescas em dezenas de capitais. Até a administração norte-americana – cinicamente, apenas para alimentar a ilusão de “polícia bom, polícia mau” – disse que Rafah era uma “linha vermelha”. O regime sionista invadiu na mesma. Dois anos depois, Rafah foi apagada do mapa, totalmente arrasada, e os corpos de milhares de vítimas foram enterrados sob os escombros aplanados do que antes fora uma cidade com mais de 250 mil habitantes.

E, a julgar pela normalidade com o mundo seguiu – e segue – no business as usual, não houve nada de “problemático” nisso.

Como os nazis lidaram com as Swiss Protective Homes
vs. como os sionistas lidam com a UNRWA e diplomatas

Quando os nazis instalaram no poder o Arrow Cross, a família colocou Stephen Kapos nas Swiss Protective Homes, uma rede de refúgios geridos pela Cruz Vermelha Suíça em Budapeste, que acolheu um grande número de crianças judaicas. As casas, no entanto, não tinham qualquer estatuto formal que as protegesse, jurídico ou outro.

Eram protegidas por bluffs, com a ajuda do emissário da Cruz Vermelha Suíça em Budapeste, que fingiu que certos edifícios gozavam de proteção extraterritorial internacional – o que era um bluff total. (…)

A organização chamava-se «The Good Shepherd Organization» [Organização O Bom Pastor], apoiada por essas duas igrejas protestantes e pela Cruz Vermelha Suíça, que tinha um emissário muito corajoso, [Friedrich Born] (…). Ele não tinha absolutamente nenhum acordo ou documentação para provar que qualquer uma dessas casas, cujo número estava a crescer, tivesse de facto protecção internacional suíça. Hasteavam nelas a bandeira suíça e, quando os grupos fascistas húngaros o questionavam e tentavam invadir esses locais, o que aconteceu várias vezes, bastava um rápido telefonema para Born, que dizia: «Não se atrevam a pôr um pé além da soleira, porque isso é Suíça e haverá um incidente internacional.» Era um bluff completo. Ele tinha um colaborador no Ministério dos Negócios Estrangeiros húngaro a quem se podia ligar para confirmar isso aos grupos fascistas, e ele dizia «Sim, por favor, não façam isso porque, se entrarem, será um incidente internacional». E, geralmente, eles acabavam por se ir embora passado algum tempo.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [27:14]

Agora olhemos para a Palestina, onde não há absolutamente nada que garanta protecção. Em Gaza, escolas da UNRWA transformadas em abrigos para os deslocados foram bombardeadas vezes sem conta; camiões de organizações humanitárias foram bombardeados ou saqueados por gangues de colaboracionistas; um hospital da Igreja Anglicana em Gaza foi bombardeado vezes sem conta; e ONGs são atacadas sem sequer fazerem manchetes. Em Jerusalém, a sede da UNRWA foi incendiada, atacada por colonos, invadida pela polícia israelita, demolida e incendiada novamente. Há um ano, na Cisjordânia, uma delegação diplomática da União Europeia e de vários países árabes e asiáticos foi atacada pelas IDF no campo de refugiados de Jenin.

Nada está a salvo da barbárie sionista – nem mesmo diplomatas ou as Nações Unidas.

Nada disto diminui nem o Holocausto nem as muitas outras atrocidades industriais cometidas ao longo da História – mas dá um termo de comparação que, em tantos aspectos, supera todas as outras em sede de sangue, sadismo, crueldade e desprezo por todas as normas internacionais possíveis e imaginárias.

Os nazis tinham mais respeito pelos acordos que assinavam do que os sionistas

Na entrevista de 2021, Kapos fala em detalhe de um acordo entre os nazis e Rezső Kasztner, um judeu sionista originário da Transilvânia.  

A proposta era a seguinte: um certo número de judeus húngaros — mais concretamente, judeus da Transilvânia — seria salvo e transportado para a Suíça via Bergen-Belsen. Estava prevista uma breve paragem em Bergen-Belsen, seguindo depois para a Suíça, em troca do fornecimento de uma determinada quantidade de camiões — camiões de transporte militar, estando especificados também outro tipo de maquinaria e têxteis. Esse era o acordo original.

Stephen Kapos em 2021

O pai e os tios de Kapos embarcaram no terceiro comboio que partiu da Hungria ao abrigo deste acordo. Segundo Kapos, os judeus que seguiram nos dois primeiros comboios chegaram à Suíça conforme planeado. Contudo, quando o seu pai e tios se encontravam em trânsito, Hitler descobriu o acordo, que até então havia sido negociado nas suas costas, e cancelou-o.

Ficaram todos retidos em Bergen-Belsen, mas num campo separado. Como os alemães eram rigorosos, “ um acordo é um acordo”, foram tratados de forma diferente, como reféns e não como prisioneiros.

Stephen Kapos em 2021

No podcast Bad Hasbara, Kapos volta a falar deste episódio:

[O meu pai], no âmbito do projecto Kastner, esteve brevemente detido em Bergen-Belsen, num campo dentro do campo – porque, como parte dos acordos, embora não tenha acabado na Suíça como os transportes Kastner anteriores… Os alemães, quando puseram fim ao projecto, pelo menos respeitaram o facto de que era um pouco diferente, que tinham um contrato com essas pessoas, por isso mantiveram-nas num recinto «privilegiado» dentro do campo. E ele viu, por entre o arame farpado, o que se passava no campo propriamente dito.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [1:19:43]

Ou seja, mesmo após o acordo já ter sido oficialmente rasgado pelos nazis, foi garantido aos sujeitos por este abrangidos uma posição de relativo “privilégio” – um cativeiro com condições sensivelmente melhores do que o resto do campo, e ainda assim de absoluta miséria.

Estes judeus do comboio Kastner, que acabaram numa posição de relativo “privilégio” em Bergen-Belsen, não devem ser confundidos com os colaboracionistas judeus que se converteram em funcionários dos campos de concentração em troca de privilégios reais, conhecidos como kapos – uma palavra que, por uma infeliz coincidência, partilha a ortografia com o apelido da família Kapos. Stephen continua o relato da experiência do seu pai:

Ele disse que viu, de facto, pessoas completamente desumanizadas, quase reduzidas ao estatuto de animais, enfraquecidas e a disputar uma sopa intragável, serem depois espancadas até à morte pelos kapos. Ele viu-o mesmo. E isso criou uma imagem muito forte na minha mente sobre os kapos e o que isso significava.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [1:20:36]

Agora comparemos isto com o regime sionista, obcecado com violar, desde o primeiro momento, toda e qualquer provisão de todo e qualquer acordo que assine. Não é preciso recuar até aos acordos de Oslo, que previam o progressivo desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia como forma de abrir caminho para a solução de dois estados – e cujo suposto “período de transição” foi marcado pelo aumento do número de colonatos na Cisjordânia.

Se nos cingirmos aos últimos dois anos e meio, todos os acordos de cessar-fogo assinados pelo regime sionista, seja com a resistência palestiniana em Gaza, seja com o Hezbollah no Líbano, viram cada um dos itens do seu texto violados sistematicamente pelos israelitas – da probição de bombardeamentos e fogo real (daí o nome “cessar-fogo”) ao bloqueio de ajuda humanitária (em Gaza) e dos esforços de reconstrução (em Gaza e no Sul do Líbano).

O “cessar-fogo” em Gaza, e o cessar-fogo do mundo

Há um aspecto em concreto que torna o genocídio em curso na Faixa de Gaza infinitamente mais bizarro do que o Holocausto.

Em Outubro de 2025, dois anos após o início do genocídio, entrou em vigor um “cessar-fogo” em Gaza. Uns anunciaram que o genocídio tinha acabado, outros que tinha sido posto em pausa, e Gaza abandonou as manchetes e os telejornais. Foi deixada ao esquecimento. Mas o fogo não parou – nos quase 7 meses desde então, as forças da ocupação mataram mais de 830 palestinianos em Gaza. O acordo foi violado em toda a linha, todos os dias. O cerco bárbaro continua, assim como a fome, a miséria, a destruição e as doenças que, sendo facilmente tratáveis em qualquer outro lugar do mundo, colhem vidas todos os dias.

Sempre que há um cessar-fogo com o regime sionista, os nazis do nosso tempo gozam de total impunidade para continuar o extermínio do povo palestiniano sem serem importunados.

Só consigo comparar isto com um cenário em que as diferentes potências mundiais tivessem assinado um cessar-fogo com o regime nazi, que ficaria assim livre para continuar o extermínio nos campos de concentração sem ter de se preocupar com as diferentes frentes de batalha.

E se continuarmos estes exercícios comparativos, fica ainda mais bizarro. Enquanto cometiam o Holocausto, os nazis estavam a ser combatidos pelos soviéticos, pelos ingleses e por uma série de brigadas e grupos armados anti-fascistas por toda a Europa – e, só mais tarde, pelos norte-americanos.

Hoje, os israelitas não gozam apenas de impunidade – são apoiados por praticamente todo o mundo. Da Europa, e do Ocidente no geral, recebem diariamente não apenas armamento, mas comida, medicamentos e todo o tipo de bens que permitem à população de colonos manter o seu conforto e os seus padrões de consumo enquanto o seu exército extermina palestinianos. Até países do Sul Global, percepcionados pela opinião pública como inimigos do Ocidente ou forças emergentes de uma qualquer multipolaridade, contribuem para isso – da Rússia e China (que mantém relações estreitas com o regime sionista, contra o qual não impuseram uma única medida) à África do Sul (que, ao mesmo tempo que acusava israel de genocídio no Tribunal de Justiça Internacional, aumentava as exportações para israel do carvão que alimenta o genocídio, para assim compensar o embargo ao envio de carvão para israel imposto pela Colômbia, então o segundo país que mais exportava carvão para israel). 

Enquanto os nazis foram combatidos por uma aliança militar que se estendia por vários continentes, hoje as únicas forças que enfrentam militarmente o regime sionista são as forças do Eixo da Resistência. E, neste mundo surreal em que vivemos hoje, essas forças do Eixo da Resistência são acusadas – tanto por sionistas como por conservadores, liberais e muita gente que se diz de esquerda ou anarquista no Ocidente – de serem, elas mesmas, forças islamofascistas. Este é um termo que só faz sentido utilizar em referência ao Estado Islâmico (ISIS) e outras forças do género – criadas, financiadas e armadas pelo Império e os seus lacaios –, contra as quais o combate foi liderado, precisamente, pelo Eixo da Resistência. E apesar de tudo isto, estupidamente, é um termo usado por um grande leque de escolas de pensamento político ocidentais para se referirem às forças que resistem aos nazis do nosso tempo.

Já para não falar de que a Faixa de Gaza, bem antes de ser transformada num campo de extermínio, era já em si mesma um campo de concentração, cuja população é maioritariamente constituída por refugiados da Nakba e os seus descendentes. Hoje, há pessoas em Gaza que atingiram a maioridade sem nunca ter saído do campo de concentração em que nasceram.

A apatia no Quarto Reich

Antes de começar o genocídio em curso na Faixa de Gaza, quando pensava no Holocausto, uma imagem que frequentemente me vinha à cabeça era a dos alemães dos anos 30 e 40 na ópera, a apreciar cultura refinada enquanto saboreavam umas quaisquer bebidas que se bebiam na época. Bem vestidos, como pessoas civilizadas que apreciavam essa forma sublime de arte, enquanto polacos, russos, ciganos, judeus, comunistas, homossexuais e muitas outras minorias consideradas “indesejáveis” eram exterminadas pelas SS e pelas forças colaboracionistas por essa Europa fora.

Muita gente não quererá admiti-lo, pois acredita que ainda vivemos em “democracia” porque o Seguro venceu ao Ventura nas presidenciais – mas a realidade é que nós, ocidentais, vivemos no Quarto Reich.

O regime sionista é apenas o machado que desfere os golpes contra o povo palestiniano, enquanto o Ocidente é o braço que brande esse machado e o corpo que o sustém. As armas, os recursos e os bens de consumo que alimentam o projecto sionista vêm de cá, a impunidade é garantida pelas instituições internacionais criadas e controladas pelo Ocidente, e esse suposto “país do Médio Oriente” continua a participar nas competições culturais e desportivas europeias.

Nós somos o Quarto Reich.

E o que se pode encontrar em qualquer país ocidental hoje são sociedades que não diferem muito, na apatia e na indiferença, da sociedade da Alemanha nazi. Enquanto os nossos regimes exterminam palestinianos, libaneses, iranianos e iemenitas, a malta continua a ir a concertos, festivais, peças de teatro e exposições como se nada de muito importante se passasse – tal como os alemães iam à ópera e aos seus eventos culturais.

Com a diferença de que, na altura, os alemães podiam invocar, com um certo grau de plausibilidade, o desconhecimento dos crimes que estavam a ser cometidos pelo seu regime, pois não havia propriamente jornalistas no terreno a relatar o que se passava nos campos de concentração nazis.

Hoje, qualquer pessoa pode saber o que está a acontecer em Gaza, a cada momento, numa questão de segundos.

Ouçam sobreviventes do Holocausto, mas não qualquer um

Importa também ressalvar que ser sobrevivente do Holocausto, por si só, não significa nada. Muitos sobreviventes do Holocausto, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, participaram na Nakba que expulsou 750 mil palestinianos das suas aldeias e cidades na Palestina histórica para campos de refugiados em Gaza, na Cisjordânia, na Jordânia, na Síria e no Líbano.

Vejam como Stephen Kapos fala da sua primeira ida à colónia sionista, ainda antes da Guerra dos Seis Dias que, em 1967, culminou com a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza:

O meu primeiro choque em relação a este tipo de coisas, este extremismo sionista, deu-se quando visitei israel pela primeira vez, antes dos combates de 1967. Descobri que aquele ramo da minha família, que ou agiu heroicamente durante o Holocausto em Budapeste ou regressou de Auschwitz, no caso de uma prima em particular, eram todos sionistas e racistas, sem excepção. Foi um completo choque para mim, e não conseguia compreender como é que pessoas que passaram pelo que passaram podiam agir assim, podiam acabar por se tornar assim.

Stephen Kapos ao podcast Bad Hasbara [1:35:50]

Isso afectou até mesmo a [minha] prima, que era adolescente na altura da sua deportação para Auschwitz e foi posta a trabalhar em armazéns onde se separavam as roupas das pessoas que tinham sido mortas nas câmaras de gás; e, um dia, teve de separar as roupas dos seus próprios pais, o que deve ter sido um trauma enorme. (…) Quando me encontrei com ela em Haifa, achei-a racista, completamente racista, tal como todos os outros. E, francamente, achei quase incompreensível que alguém com essa experiência tivesse caído nessa propaganda.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2025

Conclusão

Para fechar o artigo, deixo aqui algumas palavras de Stephen Kapos que expõem a perversidade de artigos como o da Ana Sofia Ferreira que, como todos os hasbaristas, tentam equiparar a resistência palestiniana (e o Eixo da Resistência no geral) aos nazis, para assim justificar as atrocidades cometidas pelo regime sionista.

A forma como o governo israelita está a utilizar a memória do Holocausto para justificar as suas acções em Gaza constitui um completo insulto à memória do Holocausto – é um ultraje.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2024 

São vítimas permanentes, por mais agressivos que sejam para com os outros.

Eles [os sionistas] não devem, de forma alguma, escapar a serem denunciados como fascistas, tal como denunciamos os fascistas em qualquer outro lugar onde os vejamos. (…) A comparação entre as acções extremas dos sionistas e o regime nazi tem uma longa história. Albert Einstein e Hannah Arendt, na sua carta aberta publicada no New York Times em 1948, assinada também por muitos outros, já tinham salientado que as políticas e crenças da organização sionista Haherut, que mais tarde se transformou no partido Likud, apresentavam semelhanças ideológicas com os nazis. Se uma comparação com as filosofias e práticas nazis era aceitável naquela altura, tão pouco tempo depois do Holocausto, certamente tem de ser aceitável agora, e devemos protestar contra o tabu de não fazer quaisquer comparações entre as acções genocidas de israel e do regime nazi.

Stephen Kapos em entrevista à Double Down News em 2025

Portanto, senhoras propagandistas porta-vozes do regime sionista: não nos acusem de ser anti-semitas – estamos apenas a cumprir os desejos deste sobrevivente do Holocausto.

Este artigo serve para centrar Gaza enquanto as propagandistas tentam centrar os sentimentos do pobre do Bar Harel, o agente da Unidade 8200 dos serviços secretos militares israelitas, que estudou na Universidade de Coimbra e que andou na nossa cidade a espalhar negacionismo do genocídio e a tentar silenciar a solidariedade com a Palestina. Publicaremos sobre as novidades em torno dessa telenovela em breve.

Para concluir, e para não acharem que Stephen Kapos é uma anomalia, deixamos aqui algumas citações de vários outros judeus – que, já bem antes do presente genocídio, faziam as comparações com os anos 30 que nem a Ana Sofia Ferreira, nem a Adelaide Chichorro, nem a Né Ladeiras alguma vez farão. As citações destes judeus estiveram nas paredes de Coimbra o ano passado – até algum sionista anti-semita as arrancar.

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