Gaza: A Realidade Além da Superfície~ 13 min

Por Abdallah Qudaih
Abdallah Qudaih é um jovem escritor palestiniano. Com apenas 17 anos, já publicou um livro, que podes comprar aqui e, assim, ajudá-lo a sobreviver ao genocídio em curso. Mais informações sobre outras formas de apoiar o Abdallah no final do artigo. Imagens também de Abdallah Qudaih.
Gaza é frequentemente descrita através de uma narrativa simplificada: resiliência, sobrevivência e perseverança. Embora estes elementos sejam reais, não representam integralmente a complexidade da vida no terreno. A realidade actual em Gaza é moldada por uma contradição constante entre normalidade visível e instabilidade subjacente.
Depois de períodos de relativa calma, há um retorno visível da actividade social e económica. As pessoas voltam a sair. Cafés e restaurantes reabrem, uns recém-estabelecidos, outros reconstruídos após a sua destruição. Surgem pequenos negócios, e os espaços públicos ganham de novo uma sensação de movimento. Esta recuperação visível pode dar a impressão de que a vida está a estabilizar.

Contudo, esta percepção está incompleta. A normalidade aparente não elimina os desafios estruturais que as pessoas continuam a enfrentar. Necessidades básicas, como a água e a electricidade, mantêm-se inconsistentes. As condições económicas são frágeis, e muitas famílias estão ainda a recuperar da perda e dos danos com recursos limitados. Isto cria uma situação em que as pessoas participam na vida quotidiana e, em simultâneo, lidam com as dificuldades presentes.
Paralelamente, há uma dimensão psicológica significativa menos visível mas igualmente com grande impacto. A exposição continuada à instabilidade gera acumulação de stress, incerteza e fadiga mental. As pessoas agem sob pressão constante, mesmo durante os períodos de calma. Planear o futuro torna-se difícil quando o presente é, ele mesmo, imprevisível.

Para muitos, o conceito de estabilidade a longo prazo é substituído por adaptação a curto prazo. Apesar destes constrangimentos, as pessoas continuam a iniciar projectos e a tentar participar na economia. Abrir uma pequena loja ou restaurar uma danificada não é necessariamente um indicador de estabilidade, mas, ao invés, uma resposta à necessidade.
Estes esforços reflectem uma forma de resiliência prática, uma tentativa de se manterem funcionais num ambiente pleno de restrições. Contudo, estas iniciativas deparam-se frequentemente com limitações sistémicas. Recursos reduzidos, oportunidades limitadas e um ambiente de mercado instável reduzem a probabilidade de sustentabilidade a longo prazo.

Outro aspecto crucial é o impacto social destas condições. As famílias estão sob pressão constante para suprir as necessidades básicas. Os jovens confrontam-se com uma situação de incerteza no que toca a educação e emprego. Os estudantes tentam continuar a sua educação num ambiente desprovido de consistência e apoio. Isto afecta não apenas os resultados económicos, mas o desenvolvimento pessoal e as oportunidades futuras.
Como os Sonhos dos Estudantes São Estilhaçados Silenciosamente
Nem todos os sonhos se estilhaçam com estrondo. Alguns são estilhaçados em silêncio, sem que ninguém repare.
Há alunos que param de estudar, não porque não queiram fazê-lo, mas porque não podem. Não porque tenham perdido a paixão, mas porque as circunstâncias lhes roubaram a capacidade para continuar.
Pensamos muitas vezes que só grandes obstáculos podem matar os sonhos, mas a verdade é que coisas pequeninas podem bastar para quebrar um estudante por dentro. Um caderno, uma caneta, um livro, ou até o preço das explicações, coisas que podem parecer mínimas para alguns, mas que, para um estudante, podem ser a diferença entre continuar e parar.

Quando os estudantes não têm os materiais básicos, começa a crescer lentamente dentro deles um sentimento de impotência. Sentam-se na sala de aula sabendo que não conseguirão acompanhar os outros. Vêem os colegas a escrever, a estudar, a progredir… enquanto eles se limitam a tentar não mostrar a sua fraqueza.
Com o tempo, não é só a pobreza que os quebra, mas o sentimento. O sentimento de ser menos, de ser incapaz, de ficar para trás. Começam a ficar calados, a afastar-se, e a perder a confiança em si mesmos.
E é aqui que começa o verdadeiro estilhaçar.
Não acontece num dia, e não é uma decisão óbvia. Dá-se gradualmente, passo a passo. A motivação diminui, a participação diminui, e estudar torna-se um fardo ao invés de uma oportunidade.
Muitos destes estudantes tiveram, em tempos, grandes sonhos. Queriam ser médicos, engenheiros, professores. Mas os seus sonhos não foram mortos por eles serem incapazes, mas porque nunca encontraram um ambiente propício.
O problema é que este tipo de sofrimento dificilmente se vê. Ninguém presta atenção a um estudante que não tem um caderno ou não pode pagar uma explicação. Ninguém escuta este tipo de dor, porque ninguém fala dela a viva voz.
Mas ela existe… e repete-se diariamente.
E, quando ignoramos estes pequenos detalhes, não estamos a ignorar uma questão de somenos, mas a ignorar todo um futuro.
É por isso que apoiar estudantes não começa com grandes gestos, mas com o básico. Muni-los de ferramentas que os façam sentir capazes, incluídos, e que têm uma oportunidade real, como outros.
Quando dás uma caneta a um estudante, não estás a dar-lhe apenas um objecto. Estás a dar-lhe uma oportunidade para escrever, para aprender, para sonhar.
E quando o apoias, não estás apenas a ajudar o seu presente, estás a proteger o seu futuro de ser estilhaçado silenciosamente.

Há ainda outra faceta de que raramente se fala… o sentimento de um estudante quando se vê forçado a pedir.
Pedir uma caneta a um amigo, ou esperar que alguém lhe ofereça um caderno, ou pedir desculpa por faltar às explicações porque não pode pagá-las. Estas pequenas situações podem parecer normais para alguns, mas deixam um impacto profundo no estudante.
Com o tempo, já não é só uma questão de material. Passa a ser uma questão de dependência de terceiros. O estudante começa a sentir-se um fardo, diferente dos seus colegas.
Este sentimento pode ser mais duro do que a pobreza em si.
Porque o estudante não está apenas a perder a oportunidade de aprender, mas também a confiança em si mesmo.
Por vezes, é o próprio estudante que escolhe abandonar os estudos. Não porque não queira estudar, mas porque não aguenta mais este sentimento. Prefere o silêncio a ter de explicar a sua situação, e afastar-se a sentir-se menos que outros.
E aqui o problema torna-se mais profundo do que uma falta de ferramentas, torna-se uma luta mental silenciosa.
O ambiente envolvente também desempenha um papel importante. Quando um estudante vive num lugar cheio de pressão, instabilidade e recursos limitados, focar-se nos estudos torna-se um desafio em si mesmo. A sua mente está ocupada com preocupações básicas: como posso ajudar a minha família? Como posso eu sobreviver? Como é que lido com esta realidade?
Nessas condições, os sonhos tornam-se um luxo.

E, contudo, há estudantes que ainda tentam. Agarram-se aos seus sonhos apesar de tudo. Mas, sem apoio, estas tentativas podem não durar muito.
É por isso que não falamos apenas de prestar uma simples ajuda, mas de devolver a esperança. Falamos de criar um ambiente em que os estudantes sintam que não estão sozinhos, e que alguém os vê e os compreende.
Apoio real não é apenas providenciar as ferramentas, mas restituir aos estudantes o sentido de que são capazes, e de que o seu destino ainda não foi selado.
Dignidade vs Necessidade
Isto é parte de uma luta silenciosa de que muitas pessoas nunca falam. Não aparece nas fotografias, e nem sempre é ruidosa, mas é pesada. É a luta entre dignidade e necessidade.
Quando a vida se torna difícil, as pessoas assumem que pedir ajuda é a solução mais simples. Visto de fora, parece fácil: se precisas de algo, pede. Mas, cá dentro, não é assim tão simples.
Há algo dentro de nós que resiste a pedir. Não por uma questão de orgulho de uma forma negativa, mas devido a um profundo sentido de dignidade. O sentimento de que devíamos conseguir aguentar-nos sozinhos, providenciar, cumprir com as nossas responsabilidades sem ter de estender a mão.
Eu senti-o profundamente.
Tempos houve em que a minha família precisava verdadeiramente de apoio, e eu sabia que pedir ajuda era uma opção. Mas, sempre que pensava no assunto, algo me impedia. Não o medo da rejeição, mas um desconforto silencioso. O sentimento de não querer ser visto apenas como alguém em necessidade.
Isto é o que muita gente não entende. A necessidade não é só material, também é emocional. E a dignidade não é um luxo, é algo a que as pessoas se agarram, especialmente quando tudo o mais é incerto.
Então comecei a pensar de outra maneira.
Em vez de pedir ajuda directamente, queria criar algo. Uma coisa real. Uma coisa que me representasse. Foi por isso que decidi escrever e publicar o meu livro.

Não era só uma questão de dinheiro. Era tentar encontrar um modo para, de cabeça erguida, manter algum equilíbrio entre dignidade e necessidade. Para dizer: “Estou a passar por algo difícil, mas ainda tenho alguma coisa para oferecer.”
Esta pequena mudança fez uma grande diferença na forma como me senti.
Vender algo criado por mim, ainda que simples, deu-me uma sensação de controlo e o sentido de respeito por mim mesmo. Mudou o sentimento de “estou a pedir” para “estou a partilhar”.
E, quando as pessoas escolheram apoiar, teve um sabor diferente. Soube a laço, não a caridade.
Não quero com isto dizer que é errado pedir ajuda. Por vezes, é necessário. E há força em sermos honestos acerca das nossas necessidades. Ao mesmo tempo, devíamos compreender que, para muitos, este passo não é fácil de todo.
Por trás de cada pessoa que hesita em pedir há uma história. Há pensamentos, emoções e um desejo de se agarrar à dignidade, mesmo nos momentos mais difíceis.
As pessoas não precisam só de apoio, precisam de compreensão. Não precisam só de doações, precisam de respeito.
Porque, no fim de contas, dignidade e necessidade não são inimigas. Podem existir ao mesmo tempo, se aprendermos a ver-nos uns aos outros, antes de mais, como seres humanos, e não apenas como alguém que dá e alguém que recebe.

Em Gaza, este conflito revela-se de uma forma mais clara e mais complexa. Embora Gaza seja conhecida pelas suas condições árduas e pelo facto de a maioria das pessoas precisarem verdadeiramente de apoio, a realidade não se resume a uma única e simples imagem. Há aqueles que tentam por tudo preservar a sua dignidade, e evitam depender unicamente de ajuda humanitária, mesmo nas piores circunstâncias. Ao mesmo tempo, há outro problema quanto a algumas contas ou páginas não verificadas, e por vezes organizações obscuras e questionáveis, bem como indivíduos fora de Gaza, que podem alegar necessidade e abusar da simpatia humanitária de forma enganadora.
Isto gera confusão e falta de clareza, e faz com que algumas pessoas fiquem hesitantes ou inseguras quanto ao destino exacto do seu dinheiro. Este é o verdadeiro problema, pois não só afecta a confiança, mas também impede pessoas honestas, que realmente precisam, de receber o apoio de que necessitam urgentemente.
É por isso que é importante estar mais alerta e ser mais equilibrado, de modo a garantir que o apoio chega a quem realmente precisa e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade, evitando transformar a ajuda em algo aleatório e desorganizado. O verdadeiro propósito do apoio não é apenas dar, mas ajudar as pessoas a voltar a erguer-se, sem perderem o sentimento de valor ou independência.
Em conclusão…
Compreender Gaza exige ir além de observações superficiais. Não basta interpretar a actividade perceptível como recuperação. Ao invés, é necessário reconhecer a coexistência de duas realidades: esforços contínuos e pressão contínua.
Gaza não se define apenas pela crise, nem apenas pela resiliência. Define-se pela interacção de ambas. As pessoas não estão apenas a sobreviver nem estão a recuperar totalmente, estão a navegar uma realidade complexa e instável, em que cada passo em frente coexiste com desafios persistentes.
Uma compreensão total exige o reconhecimento de ambas as dimensões: o que está à vista, e o que continua escondido.
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Abdallah Qudaih é um jovem escritor palestiniano com apenas 17 anos. Podes apoiá-lo comprando o seu livro, um registo arrebatador da sua experiência durante o genocídio em curso, ou fazendo uma transferência para o PayPal. Abdallah faz ainda parte de uma iniciativa local, lançada há poucos dias, para apoiar estudantes com mais necessidades a prosseguir os seus estudos – contribui aqui.

