Bar Harel, o genocida que é eterna vítima: a telenovela continua~ 29 min

Por Francisco Ulrike
Nas últimas semanas, muitos media portugueses, norte-americanos e israelitas voltaram a falar do pobrezinho do Bar Harel. A razão? Um suposto “anti-semitismo” de que o menino foi alegadamente vítima em Coimbra – essa cidade onde, segundo a sionista portuguesa Sofia Afonso Ferreira, se encontram “ecos dos anos 30”.
O ridículo de tais comparações entre o Holocausto e a solidariedade com a Palestina é óbvio – e já o expusemos no artigo «O Genocídio em Gaza ultrapassa em muito os horrores do Holocausto». O presente artigo serve para relembrar quem é Bar Harel, e porque foi ele exposto publicamente; para partilhar as novas informações sobre a sua fuga de Coimbra, acagaçado por artigos e cartazes; e para expor um pouco da cumplicidade da nossa cidade com o genocídio em curso na Faixa de Gaza. No final, deixo uma mensagem à Né Ladeiras e à corja de hasbaristas portuguesas.
Quem é Bar Harel?
Antes de mais, importa perceber quem é o pobre coitado que fez tanta gente, de um lado e doutro, gastar o seu latim. Bar Harel não era um simples estudante da Universidade de Coimbra que, por ser judeu, “sofreu anti-semitismo” – é um colono israelita e agente da Unidade 8200, a unidade de ciberespionagem dos serviços secretos militares israelitas.
E nós não o descobrimos porque andávamos obcecados com caçar judeus na cidade – foi o próprio Bar que, obcecado com fazer-se passar por vítima por não gostar de ver cartazes e autocolantes pró-Palestina nas paredes de Coimbra, se expôs publicamente. No dia 1 de Julho de 2025, o Bar, juntamente com outros israelitas e um punhado de sionistas portugueses, montaram uma operação para tentar identificar quem andava a colar os cartazes e autocolantes e, ao mesmo tempo, centrar os sentimentos deste grupo de genocidas. O evento, que registámos em detalhe neste artigo, durou três longas horas, e acabou quando o energúmeno em causa fez um exercício abjecto de negacionismo do genocídio em curso na Faixa de Gaza. Nesse momento, a própria pessoa responsável pelo local onde o evento decorria interveio para dizer que, sendo esse um local antifascista, não há nele espaço para a negação do genocídio em Gaza, assim como seria intolerável alguém negar o Holocausto.
Como se não lhe bastasse ter-nos roubado três horas do nosso precioso tempo, Bar Harel achou por bem ir para os media israelitas fazer o seu choradinho sobre os cartazes e autocolantes. Nessa altura, ainda não sabíamos o nome da personagem – e foi num desses artigos que o descobrimos. Os detalhes sobre a sua vida “profissional”, incluindo a sua participação nas IDF, encontrámo-los no seu perfil do LinkedIn, anunciados ao mundo de uma forma totalmente amadora, especialmente para alguém que faz parte de uma unidade de serviços secretos.
Foi tudo isto – e não um qualquer ódio aos judeus – que nos levou a expor publicamente a personagem, em meados de Julho do ano passado, num par de artigos que foram lidos por milhares de pessoas nas várias plataformas em que estamos presentes.
Como cartazes e artigos venceram as embaixadas dos EUA e israel
Esta telenovela voltou às manchetes em meados de Abril, quando Bar Harel publicou um artigo de opinião no Washington Times. Além da habitual vitimização por ninguém lhe ter dado atenção quando se queixou de se sentir ameaçado por cartazes, há algumas informações interessantes que são reveladas pela primeira vez neste artigo.
Algum tempo após os episódios de Julho de 2025, ouvimos uns rumores de que Bar teria abandonado a cidade, que na altura não tivemos forma de confirmar. A parte mais deliciosa deste novo artigo diz respeito, precisamente, a essa saída de Coimbra.
Meios de comunicação locais amplificaram alegações falsas sobre mim. A situação deteriorou-se a tal ponto que recebi uma chamada inesperada de um funcionário do governo israelita a aconselhar-me a não sair do meu apartamento e a preparar-me para deixar o país imediatamente.
Pouco tempo depois, tanto a embaixada israelita como a embaixada dos EUA intervieram. A embaixada de israel informou-me de que não podia garantir a minha segurança e aconselhou-me a regressar a casa. A Embaixada dos EUA, após analisar os materiais que me visavam, escreveu à universidade a dizer que compreendia por que razão me sentia inseguro.
Deixei Portugal em setembro, abandonando os meus estudos de doutoramento.
Bar Harel no Washington Times
Sim, leram bem: cartazes, autocolantes e um par de artigos levaram, segundo Bar, à intervenção das embaixadas de duas das maiores potências militares do mundo – os EUA e israel – e, em última análise, à fuga de um agente de uma unidade dos serviços secretos militares israelitas de uma pacata cidade portuguesa.
Só faltava mesmo terem enviado um helicóptero com forças especiais, numa operação airborne para extrair o seu valioso asset.
A bem dizer, isto dava um filme de Hollywood, cheio de suspense e tensão, que culminaria nessa heróica acção das forças do “free world” para salvar o pobre menino perseguido.

Há partes do artigo do Bar que podiam servir para o guião:
A reacção negativa intensificou-se rapidamente. As minhas informações pessoais foram divulgadas online. Fui rotulado de «nazi». Apareceram pela cidade cartazes com o meu nome, apelando à minha expulsão e, em alguns casos, à violência.
Nas redes sociais, dezenas de comentadores debateram se eu deveria ser espancado. A minha imagem foi partilhada juntamente com apelos de «morte às IDF».
Bar Harel no Washington Times
Sim, a sua informação pessoal foi circulada online… antes de mais, pelo próprio Bar. E sim, houve cartazes com o seu nome nas paredes da cidade – mas há aqui algo que vale a pena esclarecer.
Os pobres dos sionistas, nas suas eternas obsessões com a condição de vítimas, fabricam frequentemente histórias para ilustrar os seus delírios. A 27 de Julho de 2025, na sequência da publicação dos nossos dois artigos em torno da saga Bar Harel, e antes de haver nas ruas qualquer cartaz com o seu nome, saiu um artigo no Jerusalem Post que alegava que «apareceram flyers por toda a cidade com a sua fotografia e mensagens como “Não te devia ser permitido comprar pão aqui.”»
Esta é a mais pura das mentiras. Eu sou de Coimbra, estou atento à questão palestiniana e tenho contacto regular com pessoas em várias partes da cidade que também estão – e nem eu nem nenhuma das pessoas que conheço viram alguma vez qualquer flyer com a cara do Bar, ou sequer o seu nome, em qualquer parte de Coimbra, nem na altura nem desde então.
Fora da virtualidade, que eu tenha conhecimento, o nome do Bar só apareceu num único cartaz – e a primeira vez que vi um desses cartazes numa parede de Coimbra foi já em Agosto, mais de uma semana após a publicação do artigo do Jerusalem Post.

Como se pode ver, também não há nenhum “apelo à violência”, como alega Bar.
A única alegação feita por Bar que é sustentada pela realidade diz respeito a uma série de comentários nas redes sociais, em reacção ao artigo que o expõe como um agente da Unidade 8200 a estudar em Coimbra e a tentar fazer-se passar por coitadinho.
O curioso é que, provavelmente, a maioria das pessoas que escreveram comentários mais agressivos, se não todas, nem sequer são de Coimbra e estavam a escrevê-los no telemóvel algures atrás do sol-posto, enquanto a malta pró-Palestina em Coimbra estaria, na sua maioria, a fumar ganzas em Repúblicas, ou a beber copos num bar, ou no seu quarto a partilhar furiosamente publicações nas stories, apenas para seguir a sua vida no dia seguinte, como se nada se passasse – e não a preparar um plano maquiavélico para fazer justiça pelas próprias mãos.
Para ser minimamente fiel à realidade, o filme de Hollywood teria de intercalar esses cenários com a vida tensa do Bar, acagaçado por cartazes e comentários no instagram, o suposto telefonema do funcionário do governo israelita e, finalmente, a sua fuga em Setembro, quando já praticamente ninguém se lembrava dele.
Enquanto todos damos atenção a estas coisas, os israelitas continuam – nas redes sociais, nas televisões e em comunicados oficiais – a debater, não se devem dar porrada a palestinianos, mas como e quantos palestinianos devem matar. E, ao contrário dos utilizadores das redes sociais no Ocidente, os israelitas não só o discutem, como matam mesmo palestinianos – todos os dias.
Coimbra leva líderes da resistência ao Times of israel e Jerusalem Post
A saga Bar Harel fez com que Coimbra se tornasse parte de um grupo restrito de cidades no mundo que levou cartazes de líderes da resistência até às imagens de capa de vários artigos na imprensa sionista.
O artigo do Jerusalem Post de Julho passado, referido acima, é encabeçado por fotos de cartazes de Yahya Sinwar, líder do Hamas, e Sayyed Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah – ambos assassinados pelo regime sionista.

As imagens foram captadas a 15 de Maio de 2025 na Praça 8 de Maio, em Coimbra, no acto inicial da manifestação que assinalou os 77 anos da Nakba de 1948.
O curioso é que, ao lado destes dois cartazes, havia cartazes de Ismail Haniyeh, líder político do Hamas, assassinado em Teerão; do jornalista Hossam Shabat, assassinado pelas forças da ocupação e pela nossa indiferença colectiva; e de uma criança esquelética graças ao cerco genocida imposto sobre Gaza pelo regime sionista. Desses, nem sinal no artigo. Não serve a narrativa, né?
O mês passado foi a vez do Times of israel, com o artigo da Sofia Afonso Ferreira a ser encabeçado por cartazes onde figuram Abu Obeida, o porta-voz das Brigadas Al-Qassam martirizado o ano passado, e Sayyed Hassan Nasrallah.

Nada podia orgulhar-nos mais do que ver Coimbra receber atenção internacional por actos de apoio à resistência palestiniana e libanesa.
Estes episódios da telenovela Bar Harel são preciosos, equivalentes a fazer chegar a cara de Amílcar Cabral a um jornal do Estado Novo, de Xanana Gusmão a um jornal da ocupação indonésia ou de Nelson Mandela a um jornal do apartheid sul-africano.
Pena estes artigos, encabeçados por tão belas imagens, serem acompanhados de diarreia verbal do início ao fim. Ora reparem na prosa da Sofia Afonso Ferreira:
A ironia torna-se ainda mais evidente no próprio centro da cidade. A poucos passos da Praça do Comércio, as paredes públicas estão cobertas de cartazes que glorificam abertamente o terrorismo. Um deles mostra Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah, com a legenda «Labayk Ya Nasrallah! Viva a Resistência. Viva o Hezbollah». Outros proclamam «Glória a Gaza – Que deu esperança aos oprimidos, que humilhou o “invencível” exército sionista», «Defendam o Irão – Destruam a Ziomerika» e «Resistência por uma Palestina livre», ilustrados com figuras armadas. O mais surreal é o cartaz que exige «Liberdade para a Jordânia, o Egipto, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos» – uma exigência tão cómica quanto reveladora da confusão ideológica por trás desse activismo. Trata-se de Estados soberanos; os EAU, em particular, são uma próspera monarquia do Golfo com laços económicos profundos com o Ocidente. Os cartazes não se limitam a criticar a política israelita – eles celebram organizações designadas como terroristas e incitam a uma agitação regional mais ampla.
Nos termos da lei portuguesa, a apologia ou glorificação pública do terrorismo constitui um crime. A Lei de Combate ao Terrorismo (Lei n.º 52/2003, alterada pela Lei n.º 60/2015 e atualizações posteriores) pune estes actos com pena de prisão até quatro anos.
A Sofia, que acha que o Hamas e o Hezbollah são terroristas, e que certamente usará a palavra “regime” para se referir à República Islâmica do Irão, refere-se aos EAU como “um estado soberano” que “é uma próspera monarquia do Golfo com profundos laços económicos com o Ocidente”. O que é que a Sofia se esqueceu de referir? Que os EAU são um regime governado com mão de ferro por um conjunto de famílias monárquicas, que utiliza trabalho escravo, está envolvido na ocupação do Iémen e é o principal apoiante das Rapid Support Forces, responsáveis por múltiplas campanhas genocidas no Sudão. Talvez por isso ela goste tanto deles.
E depois, claro, a Sofia vem falar do “terrorismo” e da “lei portuguesa”. Bem, se fossemos falar de leis, podia dizer-se muita coisa – sobre o direito internacional, violado diariamente pelo regime sionista desde 1948, a Carta da ONU ou a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, que para além de proibir o genocídio em si, considera serem «actos puníveis» tanto «o incitamento público e directo para cometer genocídio» como «a cumplicidade em genocídio». Segundo esta mesma Convenção, quem comete estes actos «deve ser punido, sejam governantes responsáveis constitucionalmente, funcionários do estado ou indivíduos privados», e devem ser julgados por um «tribunal do estado onde o acto foi cometido» ou por um «tribunal penal internacional». Não parece, mas o estado português é signatário de todas estas Cartas e Convenções.
Mas também se podia falar de como o Protocolo Adicional I (1977) à Convenção de Genebra estabelece que os povos que travam guerras de libertação o fazem «no exercício do seu direito à autodeterminação». Em 1982, a resolução 37/43 da AG da ONU reafirmou «a legitimidade da luta de um povo pela independência, integridade territorial, unidade nacional e libertação de uma dominação colonial ou estrangeira por todos os meios disponíveis, incluindo a luta armada».
O Hamas, o Hezbollah e outras forças de resistência armada na Ásia Ocidental não são “terroristas”, são movimentos de resistência anticolonial. Os verdadeiros terroristas, como qualquer pessoa com olhos na cara reconhecerá, são os genocidas em Washington, Londres e Tel Aviv – que estas propagandistas servem entusiasticamente. Basta comparar o estado dos prisioneiros israelitas e dos reféns palestinianos quando são libertados. Os israelitas passaram meses a fio nos túneis dos “malvados terroristas” do Hamas – onde não foram nem torturados nem violados – e, se saíram mais magros do que entraram, é responsabilidade exclusiva do cerco bárbaro a Gaza. Por outro lado, os palestinianos que saem das prisões do “estado de israel” fazem frequentemente lembrar os sobreviventes de Auschwitz encontrados pelo Exército Vermelho na sua ofensiva contra o exército nazi.
E já que falamos de leis e tribunais, e como a Sofia Afonso Ferreira parece estar a incitar à pena de prisão para a solidariedade com a Palestina (a coberto do “combate ao terrorismo”), merece ser lembrado o que aconteceu a Julius Streicher, um propagandista do regime nazi condenado pelo Tribunal de Nuremberga à morte por enforcamento.

Os Julgamentos de Nuremberga aconteceram para punir os responsáveis pela barbárie nazi – e, supostamente, as execuções deviam ter servido para as gerações seguintes não se aventurarem a ir pelos mesmos caminhos.
Não funcionou.
Streicher fazia apologia do regime nazi, e trabalhou activamente para fabricar consentimento para o Holocausto. Oitenta anos depois, há uma corja infinita de propagandistas do regime sionista, que praticam diariamente apologia do Holocausto dos nossos tempos sabendo que têm a impunidade garantida – pois não há Aliados, nem Tribunal de Nuremberga, nem estado nenhum que se mostre interessado em fazer cumprir as convenções que assina.
Qualquer pessoa que apoie abertamente a resistência palestiniana, ou que veicule a sua mensagem, sabe que paira constantemente sobre si a possibilidade de enfrentar um processo kafkiano num qualquer tribunal ocidental – mas são os apologistas do genocídio que sempre se fazem passar por vítimas perseguidas e ameaçadas.
A “Coimbra anti-semita” é cúmplice do genocídio em curso na Faixa de Gaza
O mais curioso de toda esta campanha contra a Universidade de Coimbra (UC) por “encobrimento de anti-semitismo” é que esta universidade, e a cidade em si, são cúmplices do genocídio em curso até à ponta dos cabelos.
Confesso que, dado que praticamente não existe em Coimbra um movimento pró-Palestina organizado (além de um clube de leitura), há algum tempo deixei de seguir em detalhe todos os níveis a que a cidade e a universidade estão implicadas no genocídio. Mas há coisas que nem precisam de investigação para serem notadas.
Comecemos pela cidade. Já o genocídio corria há longos meses, a empresa Busway tomou o controlo de vários serviços de transporte colectivos no nosso distrito. As ligações entre Coimbra e as restantes capitais de concelho, anteriormente operadas pela Transdev, passaram a ser operadas por esta empresa israelita. Ultimamente, tenho reparado que não são só as ligações entre capitais de concelho – em vários municípios, como a Figueira da Foz e Condeixa, a empresa já parece operar a totalidade dos transportes colectivos.
Ao longo dos últimos anos, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) pagou somas absurdas de dinheiro público a uma israelita de nome Nirit Harel – imaginamos que a partilha de apelido com o Bar não será pura coincidência –, a quem entregou também a gestão de um espaço da CMC no Pátio da Inquisição.
Em Outubro do ano passado, o Instituto Pedro Nunes (IPN) acolheu o Coimbra Tech Challenge, um evento pejado de start-ups israelitas organizado por Nirit Harel. O IPN é dirigido por João Gabriel Silva, que é também ex-reitor da UC e irmão do então presidente da CMC, que por sua vez tinha uma relação estreita com Nirit Harel. Coimbra é tão anti-semita que os protestos contra este evento tiveram a participação de apenas uma dezena de pessoas.
É difícil encontrar uma cidade mais acolhedora aos interesses sionistas – e, ainda assim, esta gente queixa-se de que há em Coimbra ecos dos anos 30… Só se forem ecos do colaboracionismo com os nazis.
Há que notar que na principal artéria da Baixa de Coimbra, já durante o genocídio, uns banhos medievais judaicos abriram ao público. À entrada está, bem visível, uma estrela de David – mas como o espaço não está relacionado com o estado de israel, este não foi atacado nenhuma vez.
Passemos então à universidade.
Os primeiros meses do genocídio foram marcados pelo silenciamento sistemático de estudantes solidárias com a Palestina. Em Dezembro de 2023, a Associação Académica de Coimbra (AAC), que supostamente representa os estudantes, negou a essas mesmas estudantes o direito a realizar uma Assembleia Magna sobre a Palestina, apesar de estas terem recolhido mais do que as assinaturas necessárias para tal segundo os estatutos da AAC. Da Universidade de Coimbra, não se ouviu um pio sobre este atropelamento crasso dos direitos das estudantes.
Um mês e meio depois, quando o tema foi finalmente discutido em Assembleia Magna, a proposta de apelar a um boicote académico às universidades israelitas foi rejeitado por todo o espectro político. A proposta, que tinha em vista um boicote semelhante ao que foi imposto às universidades do regime de apartheid sul-africano, foi criticada até pelos estudantes afectos ao PCP, que defenderam que os pobres estudantes israelitas não deviam pagar pelos crimes do seu regime. A sabotagem da discussão do tema em Magna, e o silenciamento sistemático das estudantes, continuou por largos meses.
Durante o primeiro ano, grupos de estudantes e investigadores denunciaram a existência de inúmeros protocolos entre a UC e universidades israelitas. Em Maio e Junho de 2024, durante a Intifada Estudantil, dezenas de estudantes estiveram mais de um mês acampadas em frente à Faculdade de Letras da UC, exigindo o fim de todos os programas ou acordos com empresas, instituições e universidades israelitas. Estas exigências foram sistematicamente ignoradas pela UC.
Dois anos depois, a cumplicidade das universidades portuguesas com a ocupação da Palestina e o genocídio em Gaza continua. A académica norte-americana Maya Wind esteve em Portugal a semana passada e, numa entrevista à Lusa, denunciou que israel pressionou as universidades portuguesas a desmobilizar os protestos estudantis. Na Universidade de Lisboa, o acampamento foi alvo de um ataque violento por parte da PSP, enquanto em Coimbra o acampamento foi assediado inúmeras vezes por elementos suspeitos, especialmente à noite, levando os estudantes a montar turnos de vigia para garantir a sua própria segurança.
Mas a única agressão violenta (se excluirmos a violência policial em Outubro passado) registada na nossa cidade no âmbito do, como lhe chamariam, “conflito israelo-palestiniano” teve lugar a 16 de Maio de 2024, cinco dias antes do início desse acampamento, quando turistas israelitas agrediram um grupo de estudantes que manifestavam a sua solidariedade com a Palestina no Largo D. Dinis, no Pólo I da UC, cuspiram em cartazes, rasgaram uma bandeira e proferiram insultos racistas. Ao contrário das histórias inventadas por Bar Harel, este episódio foi de tal maneira real que, como o JN noticiou na altura, “obrigou à intervenção da PSP”. Parte da interacção foi registada em vídeo.
Dois anos depois, turistas israelitas continuam a pavonear-se pela universidade, e estudantes israelitas continuam a estudar em Coimbra – e a espalhar negacionismo do genocídio nas nossas ruas, como testemunhámos no início do presente ano lectivo, durante um dos protestos contra o Coimbra Tech Challenge.
Se houve alguém em Coimbra que sofreu silenciamento e perseguição sistemática, não foi Bar Harel – foram os e as estudantes pró-Palestina, e a comunidade pró-Palestina no geral. E o Bar Harel foi parte activa desse silenciamento quando andou a arrancar centenas de autocolantes e cartazes para os arquivar e usar como “provas” nas suas “investigações académicas” sobre “o anti-semitismo em Coimbra” – quando a esmagadora maioria destes autocolantes não referiam nem se direccionavam aos judeus. Agora, segundo a Né Ladeiras, «o material do ódio recolhido na UC [está] a caminho de ser exposto no museu [israelita] Yad Vashem», em Al-Quds, na Palestina ocupada. É isto: um colono israelita negacionista do genocídio veio para a nossa cidade impedir a população local de exprimir a sua solidariedade com a Palestina – e nas manchetes dos mass media é apresentado como vítima.


Enfim. O anti-semitismo na nossa cidade é tanto que, na infeliz ocasião em que conhecemos o Bar Harel, vários de nós estivemos mais de três horas numa sala com ele e com vários outros judeus a conversar, com a cordialidade possível, e citámos judeus e sobreviventes do Holocausto durante a discussão – até esta besta negar a existência de ocupação, apartheid ou genocídio na Palestina.
Qualquer pessoa que caminhe pelas ruas de Coimbra, o que encontra é apatia e cumplicidade com o genocídio em curso – não anti-semitismo. Esse, só existe na cabeça destes lunáticos genocidas.
3 milhões? Só se for de bofetadas
Uma pessoa olha todo este cenário e depois descobre no Expresso que o Bar está a pedir uma indemnização de 3 milhões de euros à Universidade de Coimbra por não ter dado valor ao terror que se instalava no seu coração puro cada vez que via um autocolante com a palavra “Palestina”.
O caso, felizmente, foi arquivado pelo DIAP de Coimbra – mas só o facto de ter sequer existido, e de a Provedoria da Justiça ter publicado o relatório que publicou, levanta várias questões.
Porque raio é que a Provedoria da Justiça andou a gastar dinheiro público a produzir um relatório sobre a telenovela Bar Harel e a alimentar o mito do anti-semitismo? Se investigaram tão bem o caso, não terão descoberto que, em cada artigo que saiu sobre o Bar, há um novo episódio que surge, detalhes que mudam, e por aí fora? Se há assim tanto anti-semitismo em Coimbra, e a universidade o encobre, como é que se explica que o Bar tenha estado dois anos na cidade sem que tenha havido uma única agressão que tenha produzido provas documentais além das suas palavras?
E será que essa mesma Provedoria da Justiça, que achou por bem alocar recursos a este circo, já investigou algum representante do estado português por violar a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, de que Portugal é signatário, ao branquear os crimes perpetrados pelo regime sionista contra o povo palestiniano? E as declarações criminosas de membros do governo sobre a passagem pela Base das Lajes de aviões e drones norte-americanos a caminho do Irão, para participar numa guerra que viola todos os preceitos do direito internacional, já foram investigadas?
Mas o mais absurdo de todo este alarido em volta do “anti-semitismo na Universidade de Coimbra” é que, tanto quanto sei, a maioria das pessoas que, ao longo destes dois anos e meio, colaram cartazes ou autocolantes nas paredes de Coimbra não são sequer estudantes – e a maioria dos cartazes e autocolantes foram colados (e arrancados) bem longe dos espaços da universidade.
E já agora, porque é que este gajo, que esteve a estudar na UC mas nem sequer sabe falar português, tem passaporte português – quando há imigrantes que estão cá há décadas, e contribuem de forma positiva para a sociedade portuguesa, mas lhes continua a ser negada cidadania?
Vamos falar de doxxing: Mensagem à Né Ladeiras e a todas as hasbaristas
A Sofia Afonso Ferreira, no seu artigo no Times of Israel, queixa-se de que “a informação pessoal [do Bar] foi doxxed online”. Sabem quem mais é que teve “informação pessoal“ doxxed? Eu – pela Né Ladeiras. Mas disso a Sofia nunca se vai queixar – pois tanto a Né como a Sofia estão na mesma equipa de propagandistas do regime sionista.
No final do mês passado, a Né Ladeiras publicou uma foto minha no seu perfil no facebook, como se estivesse a fazer algo espetacular ao revelar a identidade de um “perigoso anti-semita” da Guilhotina. Pois a senhora Né que fique sabendo que eu nunca tive problema em dar a cara ou defender publicamente as minhas posições. Fora do mundo virtual, defendo as minhas posições com a mesma determinação com que as defendo aqui.
Se não vêem a minha cara escarrapachada nas redes sociais é porque eu não tenho qualquer interesse em tornar-me um influencer, e porque acho que a palavra tem mais valor do que a imagem – e, acima de tudo, porque acredito que, ao fim de cinco séculos, é altura de dar o protagonismo não aos europeus, mas a quem resiste à barbárie que espalhámos e espalhamos pelo mundo.
Já agora, aproveito também para responder a uma das dúvidas levantadas pela Né Ladeiras nessa publicação. «É urgente apurar quem financia e avaliza estas publicações», diz ela. Resolve-se já: a Guilhotina nunca recebeu fundos de lado nenhum, nem nunca ninguém recebeu um cêntimo por ter publicado um artigo no nosso site. Por muito que isso possa surpreender na era do individualismo, há quem faça as coisas por convicção, sem esperar nada em troca. Em boa verdade, se tivéssemos interesse em fazer as contas, ao longo destes 13 anos, a Guilhotina provavelmente já nos custou vários milhares de euros. No nosso caso, não ganhamos nada com o que fazemos – nem dinheiro, nem reconhecimento, nem reputação para afagar os nossos egos. O que temos é muito mais valioso: independência editorial.
Pode ser difícil para quem está habituado a fazer coisas à espera de ganhar alguma contrapartida, ou quem continua obcecado em enfiar tudo o que vê nas caixinhas dos ismos. É por isso que muita gente acha que somos bloquistas, muitos bloquistas acham que somos comunistas, muitos comunistas acham que somos anarquistas, e muitos anarquistas acham que somos islamistas. Na verdade, somos só um meio de informação realmente independente, que faz aquilo que é hoje muito raro ver por estas bandas: jornalismo.
É esta independência editorial, sem constrangimento de linhas partidárias e interesses económicos, que nos permite apontar a lâmina da Guilhotina a quem acharmos que deve ser apontada, doa a quem doer. É esta independência editorial que, por exemplo, nos permitiu expor a extrema-direita ucraniana, e ser chamados de putinistas por isso, e ao mesmo tempo criticar a Rússia pela sua cumplicidade com o regime sionista ou pelo seu papel na queda da Síria.
Mas agora devolvo a pergunta: será que à Né Ladeiras chegou uma parte do orçamento de 730 milhões de dólares que o regime sionista aprovou recentemente para a hasbara? Ou será que faz propaganda genocida de graça, por convicção?
E para a Né não achar que estas são palavras vãs, manifesto aqui a minha total disponibilidade para debater todos estes temas cara a cara, num espaço e data a acordar, seja com a Né Ladeiras, seja com a Sofia Afonso Ferreira ou com qualquer outra hasbarista portuguesa. Sei que o princípio correcto é o de não debater com sionistas – mas gostava de dar a estas apologistas do genocídio oportunidade para se humilharem publicamente.
Para concluir, e como sabemos que vai incomodar os sionistas, fica aqui uma série de cartazes que foram espalhados pelas paredes de Coimbra nos últimos dois meses. Digam ao Bar que o Yedioth Ahronoth, o Maariv, a +972 ou qualquer outro media israelita estão à vontade para usar as imagens em qualquer um dos seus artigos – não cobramos copyright.








