«Sim, todos os judeus» – pela judia norte-americana Amanda Gelender~ 26 min

Arte de Mohammed Afefa

Por Amanda Gelender. Tradução de Ana Só.

Publicado originalmente a 28 de Março de 2026

Passei a desprezar profundamente o meu povo, o mal que causámos e os demónios em que nos transformámos. A nossa hipocrisia cobarde, as nossas lamentações por causa do holocausto, a nossa dissociação egoísta, a nossa imparcialidade infindável, a nossa inacção catatónica, o nosso frágil agitar de cartazes, as nossas condenações condescendentes, o complexo de vítima em que chafurdamos, as nossas traições auto-indulgentes, o nosso egocentrismo descarado, o nosso carreirismo explorador, o nosso racismo de sangue e solo, a nossa cobardia liberal, as nossas montanhas de clichés vazios entre montanhas de cadáveres palestinianos que aniquilámos a sangue frio. “israel” provavelmente matou centenas de milhares de pessoas em dois anos e meio de bombardeamentos incessantes, execuções e fome fabricada em Gaza. As profundezas do nosso sadismo parecem não conhecer limites.

Uma das últimas vezes em que o fôlego e o coração pulsante do judaísmo — que o profeta Moisés trouxe — existiram e se manifestaram morreu em Auschwitz, quando os judeus sionistas já estavam ocupados a construir o que viria a ser a colónia de morte judaica, “israel”.

Se um eco do judaísmo de Moisés ainda pode existir, ou é recuperável, ainda está por determinar, mas posso afirmar com confiança: pouco me importa, não é por isso que aqui estou, não tenho a vontade nem o desejo de sequer considerar possibilidades da continuidade do judaísmo até que a entidade sionista seja reduzida a cinzas e a Palestina seja livre.

Esta não é uma luta egocêntrica pela “alma do judaísmo”, a Palestina não é o nosso “julgamento moral judaico“. Não há um pingo de moral judaica à vista. A Palestina é uma luta de libertação anticolonial e decolonial na qual nós, judeus, somos os suseranos fascistas, os propagandistas e financiadores perversos, os colonos-soldados militarizados que demolem e roubam casas, provocam pogroms na Cisjordânia, e executam crianças em massa. Os judeus sionistas dirão que isto evoca «clichés anti-semitas» — não queremos saber, as vossas palavras caem totalmente no vazio enquanto os judeus em “israel” celebram o Purim aplaudindo bombardeamentos como o que assassinou 165 alunas e funcionários, mortos por ataques aéreos israelo-amerikanos no Irão. A verdade do terrorismo judaico já está gravada na terra palestiniana e entalhada toscamente ou marcada com ferro em brasa na pele palestiniana com suásticas de David. Os judeus habitam agora e dão vida à era do judaísmo totalitário; não quero voltar a ouvir falar de «anti-semitismo» ou de «vitimização judaica».

Os sionistas insistem que odiar “israel” é equivalente a odiar os judeus, mas, num mesmo fôlego, exigem que as pessoas não confundam “israel” com os judeus. Quando digo aos judeus que todos nós somos responsáveis por pôr fim ao sionismo e ao genocídio palestiniano em curso, geralmente ouço: «Nem todos os judeus / Diz sionistas, não judeus / Na verdade, há mais sionistas cristãos do que judeus.» Bem, eu estou a falar para os judeus neste momento, um povo que apoia o sionismo fascista em uníssono em todas as instituições da nossa comunidade.

Esta incessante fuga às responsabilidades já enjoa. Nós, judeus, consideramo-nos um orgulhoso povo colectivo, uma linhagem ininterrupta de geração em geração (L’dor, vador) — até que o espelho rachado do judaísmo moderno não reflecte mais do que terrorismo, massacre, sangue, sadismo, violação e roubo de órgãos. Praticamente todos os grupos judeus apoiam a existência de israel de uma ou outra forma, e nós atrevemo-nos a apontar o dedo aos outros em vez de limpar a nossa própria casa imunda?

Formações judaicas organizadas em toda a nossa comunidade mantêm a colónia em pleno funcionamento através de um empenho inflexível e consistente, propaganda, dinheiro e recursos, considerando que fortalecer e defender “israel” é não só um mitzvah, mas parte do seu dever para com o povo judeu e uma extensão da sua identidade judaica. Note-se que o povo judeu está actualmente a operar uma série de masmorras de tortura e violação na Palestina e a bombardear o Líbano e o Irão com ataques aéreos. Torturadores israelitas raptaram recentemente uma criança palestiniana de 1 ano e queimaram-lhe as coxas com cigarros. É isto o “Estado judeu», foi a este ponto que chegámos.

O sionismo não é uma corrente marginal dentro do judaísmo: é omnipresente. Cabe aos judeus de consciência tornar essa distinção entre sionismo e judaísmo uma realidade material, destruindo o sionismo nas nossas próprias comunidades, não negando a nossa cumplicidade generalizada e vigiando os outros que se limitam a observar a realidade fascista do judaísmo moderno.

A um custo enorme para si mesmos e os seus povos, os palestinianos, os árabes e os muçulmanos têm vindo a afirmar estas verdades de forma clara há várias gerações; a escritora Nada Chehade descreve de forma vívida a realidade diária do colonialismo judaico. Nada do que estou a afirmar é novo, o que é raro é um judeu ouvir isto de outro judeu. Os judeus menosprezam os palestinianos de forma condescendente e racista como mera narrativa da sua própria luta anticolonial, e insistem, ao invés, na perpétua inocência judaica: enquanto povo, estamos lamentavelmente desligados tanto da humanidade como da realidade.

Arte de Marc Rudin/Jihad Mansour apresentada na contracapa do Boletim das FPLP (1981)

O facto de praticamente todos os judeus e espaços judaicos serem sionistas e apoiarem a existência de “israel” constitui uma acusação de que somos um povo moralmente falido. Podia não haver judeu algum a apoiar a Palestina, e isso apenas nos condenaria ainda mais a nós – e certamente não aqueles que se encontram sob o jugo do nosso reinado fascista, desenvolvendo constantemente novas formas de persistir e resistir ao nosso massacre sádico. Os pensamentos e sentimentos dos judeus sobre a Palestina não importam, ou melhor, não deviam importar: Hoje em dia, atribui-se demasiado peso aos sentimentos judaicos, com o mundo a parar para dar prioridade aos sentimentos dos judeus, particularmente dos judeus brancos. O pessoal docente e os estudantes judeus das universidades estão actualmente a receber avultadas indemnizações por alegações de suposto «anti-semitismo» após a abençoada operação Inundação de Al Aqsa (indemnização de 21 milhões de dólares num acordo colectivo na Universidade Columbia). Comparem isto com a forma como o martelo cai sobre os árabes e os muçulmanos que sofrem verdadeiras perseguições, ataques e abusos sistémicos. A Palestina é uma luta geracional pela liberdade, não um círculo choroso de luto judaico.

A Palestina não precisa do aval dos judeus para se libertar; os judeus têm de aceitar a realidade, sair da Palestina e livrar o judaísmo do sionismo fascista.

Por nossa própria vontade, o povo judeu coroou o sionismo como um pilar central do judaísmo moderno e transformou “israel” no nosso novo Deus. Um bezerro de ouro hipermilitarizado para um povo cada vez mais descrente que procura um lugar no Mundo Superior (supremacia branca, colonização, construção da nação, poder no seio do império euro-amerikkkano). Integrámos completamente “israel” e o sionismo em todas as facetas da vida judaica a nível global: o sionismo não tem fronteiras. israel não se tornou fascista por causa de Netanyahu e do partido Likud; pelo contrário, israel é intrinsecamente fascista devido à sua estrutura colonialista — o mesmo se aplica a Trump e à colónia de colonos cruzados cristãos amerikanos, o molde de israel, como o Dr. Mohamed Abdou articula em Islam and Anarchism. Os Estados Unidos e israel são ambos irreformáveis e irredimíveis, construídos a partir do mundo estabelecido em 1492, entidades erigidas por colonos genocidas sobre valas comuns indígenas.

Quase metade da população judaica mundial (~46%) são colonos-squatters israelitas: apoiam de forma esmagadora a limpeza étnica de Gaza (82%) e a actual guerra dos EUA-israel contra o Irão (93%). A maioria do resto de nós vive como colonos brancos privilegiados em colónias como a chamada Amérika (41% dos judeus). Aqueles de nós que vivem em colónias fora de israel também negligenciamos as nossas responsabilidades enquanto colonos para com os movimentos de devolução de terras aos indígenas e de autodeterminação negra nos locais onde estamos; em Turtle Island, os genocídios de negros e indígenas persistem há 533 anos e continuam.

Quando afirmo que praticamente todos os judeus e formações judaicas são sionistas, estou a incluir a maioria do número muito reduzido de judeus e organizações judaicas que se auto-identificam como «anti-sionistas» ou «pró-Palestina». Basta um olhar superficial para descobrir rapidamente que a maioria são sionistas liberais, como Lara Kilani e a equipa do Good Shepherd Collective frequentemente apontam. Todos os judeus que se dizem «não-sionistas» são sionistas nas suas políticas, porque menosprezam sempre a resistência e confundem colonizador com colonizado (por exemplo: «Condenamos tanto a violência do Hamas como a violência de israel» ou «Um futuro de coexistência na terra tanto para palestinianos como para israelitas/judeus»).

Judeus anti-sionistas genuínos apoiam incondicionalmente a erradicação total de israel (e do Grande Satanás: a Amérika); a devolução total da terra, sem qualquer vestígio de controlo imperial/colonialista sionista ou euro-amerikano. Isto inclui os judeus que apoiam a retirada dos judeus da Palestina (assegurando, ao mesmo tempo, que não causem danos onde quer que vão/não expulsem também os povos indígenas noutros locais), e um apoio franco e reverente à resistência armada da Palestina. Os mujahideen de Gaza estão no centro da luta, actualmente liderada pelas Brigadas Al Qassam do Hamas, que executaram a milagrosa Inundação de Al Aqsa a 07 de Outubro de 2023; uma operação que os verdadeiros judeus anti-sionistas reconhecem inequivocamente como uma das operações anticoloniais mais prolíficas da história.

É extremamente raro encontrar judeus comprometidos com esses princípios políticos e, mesmo quando se encontram, são ainda fracos, uma vez que não realizámos praticamente nada de material ou significativo para impedir o nosso povo de cometer os actos mais hediondos e repugnantes que se possam imaginar ao longo do último século na Palestina ocupada. O povo judeu está actualmente a violar palestinianos até à morte com barras de metal incandescentes em prisões que são campos de concentração, e os alegados “aliados” judeus que vivem vidas confortáveis no centro do império ainda têm a audácia de choramingar sobre “anti-semitismo” e “não culpem os judeus pelas acções de israel”. Este pesadelo sionista é uma responsabilidade moral nossa, enquanto judeus, que devemos assumir e guerrear nas nossas próprias fileiras:

Sim, todos os judeus.

“Deadly Star” [“Estrela Mortífera”] por Mahmoud Khalili (1984)

Embora a auto-identificação com o termo «sionista» tenha caído em desuso nos últimos tempos, o apoio à existência de israel entre o povo judeu continua inabalável. À medida que as pessoas em todo o mundo se voltam cada vez mais contra israel, tendo reconhecido o sionismo como o mal que é, o povo judeu não vacilou nos seus compromissos fascistas. Alguém vê confrontos exaltados sobre o genocídio judeu a eclodir em sinagogas por todo o mundo? Alguém vê motins gerados por conflitos internos na comunidade judaica e em espaços religiosos que vendem terras palestinianas roubadas e acolhem terroristas das IOF para discursar e angariar fundos? Não, claro que não. Os judeus sabem que se espera que apoiem israel em todas as shuls. Isto é considerado a vida judaica normal: o nosso “direito de nascença” num mundo que “nos odeia perpetuamente pelo simples facto de sermos judeus”. Os nossos delírios de inocência judaica, a nossa grandiosa presunção, o nosso domínio mortal e arrogante sobre a colónia é praticamente inquestionável dentro da comunidade judaica.

Os judeus sionistas vêem a Palestina e aliam-se aos judeus porque são judeus; os judeus anti-sionistas vêem a Palestina e aliam-se aos palestinianos porque representam o sagrado «Abaixo» a ser esmagado pelo «Acima», o sal da terra a lutar pela dignidade e pela libertação na sua própria terra, nos seus próprios termos. A terra, de facto, luta com eles. Não vacilamos nem recuamos nas nossas posições porque são os nossos companheiros judeus que são os fascistas que atropelam crianças vivas com tanques: os compromissos anti-sionistas são éticos, não identitários.

Os judeus podem discordar sobre as políticas do governo de Netanyahu, sobre quem deve liderar a entidade sionista, sobre os colonatos da Cisjordânia e assuntos semelhantes, mas assim que se manifesta apoio às Brigadas Al-Qassam do Hamas e aos acontecimentos de 7 de Outubro, se defende a expulsão dos judeus da Palestina e se promove a dissolução total de israel, é-se considerado pelos judeus um traidor da comunidade judaica. Os judeus com clareza moral carecem da coragem, espinha dorsal, organização, fé, princípios interiorizados e vontade necessárias para expulsar o sionismo do judaísmo. Aos judeus que também odeiam israel e o que este tem causado: orgulhem-se quando vos chamarem traidores do seu projecto de morte. Sejamos “traidores” sem vacilar.

Todo o território de israel é um colonato ilegítimo e todos os israelitas são colonos e soldados em terras roubadas, não «civis». Os judeus sionistas — tanto liberais como conservadores — agarram-se a noções de um futuro para os colonos judeus numa Palestina livre, inscrevendo-se arrogantemente no futuro descolonizado da Palestina, acreditando que os colonos judeus devem poder permanecer na terra e manter pelo menos uma parte dos seus espólios roubados. Os anti-sionistas judeus não devem tolerar o menor indício deste sentimento de direito adquirido no seio do nosso próprio povo; não se deve esperar que os palestinianos vivam ao lado dos seus genocidas.

Passados dois anos e meio, as bombas de fabrico amerikano continuam a cair do céu enquanto pilotos orgulhosamente judeus destroem vidas em Gaza, no Líbano e no Irão, enquanto orgulhosos fiéis judeus em todo o mundo hasteiam e acenam a bandeira israelita, se organizam para que os anti-sionistas sejam despedidos, suspensos, deportados, e criminalizados, facilitam a colonização e as viagens à entidade, distribuem recursos às forças armadas sionistas e rezam a D€us para que proteja a nossa preciosa colónia judaica que criou a maior geração de crianças amputadas da história moderna e expulsou mais de um milhão de pessoas no Líbano, à medida que a violenta campanha de limpeza étnica para o «grande israel» se expande impiedosamente. As sinagogas já não são sagradas, não há Deus onde o sionismo habita. Sejamos, pelo menos, honestos acerca daquilo em que nós, enquanto povo judeu, nos tornámos.

Os judeus na Euro-Amérika enviam os seus filhos para sinagogas, acampamentos de verão e escolas judaicas — todas sionistas —, ensinando-lhes, em última análise, mentiras descaradas sobre israel («uma terra sem povo para um povo sem terra», «fizemos o deserto florescer»), celebrando o “aniversário de israel” (a Nakba) e preparando as nossas crianças judias para que um dia se tornem elas próprias colonos e soldados sionistas ou para defenderem o Estado judeu de onde quer que estejam, como parte da sua identidade e dever judaicos.

A culpa é dos seus pais, professores e adultos judeus da comunidade, que colocam as crianças judias nestes circuitos institucionais judeus sionistas que fazem lavagem cerebral e moldam os jovens judeus para se tornarem fanáticos endoutrinados, anti-árabes, islamofóbicos, nacionalistas e com um sentido de direito adquirido.

Eles estarão, tal como vocês estão agora, lamentavelmente desligados do pulso moral da humanidade, que compreende cada vez mais o quão profundamente malignos são o sionismo e israel. Os judeus serão os últimos a ver, os últimos a compreender, e agora já é demasiado tarde.

Mais uma razão, para quem ainda precisar, pela qual as pessoas não devem recorrer a nós, judeus, para obter análises sobre a Palestina. De qualquer forma, não dizemos nada de original; tudo é diluído, desprovido de substância e neutralizado, através do espelho dos propagandistas judeus que nos moldaram. Mimem-se a vocês mesmos com perspectivas que não sejam limitadas e forçadas a passar pelo esófago do poder.

Arte de Mohammed Afefa. Retrata o “Monumento aos judeus europeus assassinados” em Berlim (Alemanha), com o mártir de 19 anos, Sha’ban al-Dalo que estava a receber soro intravenoso quando israel o queimou vivo, juntamente com a sua mãe, a 13 de Outubro de 2024, depois de os aviões de guerra israelitas bombardearem a tenda deles, no Complexo do Hospital Mártires de Al-Aqsa, em Gaza.

Claramente, o povo judeu só afirma a nossa colectividade judaica quando nos vemos como heróis ou vítimas, ou com a distância confortável que a história nos proporciona; não quando precisamos de assumir a responsabilidade e enfrentar o nosso papel como fascistas neste momento cataclísmico. Através do sionismo, testemunhamos o que acontece quando esses conceitos romantizados e utópicos de colectividade judaica são abusivamente distorcidos em direcção a um excepcionalismo e a um tribalismo supremacista judaico, ao serviço de objectivos imperiais euro-amerikanos.

Rejeito também a narrativa de que «israel coloca os judeus em perigo/aumenta o anti-semitismo» porque: (1) no contexto de israel, nós somos os opressores, não as vítimas; (2) esta narrativa exime os judeus de responsabilidade, pois «israel» não é uma entidade amorfa e autónoma que simplesmente paira sobre nós, mas uma colónia que nós, enquanto judeus, construímos e sustentamos activamente todos os dias através de um esforço concertado ao longo de várias gerações; (3) isto não é «anti-semitismo», é uma reacção ao genocídio liderado por judeus que todas as nossas instituições apoiam; (4) estás a aceitar a propaganda de que há um «aumento do anti-semitismo» quando, hoje em dia, os judeus não enfrentam opressão sistémica por serem judeus, e os dados sobre «incidentes anti-semitas» são registados de tal forma que cada cartaz de protesto anti-sionista é contabilizado pela ADL  como um «incidente anti-semita» separado; (5) basta de conversa sobre vitimização judaica, «segurança judaica» e «anti-semitismo»; isso é apenas uma distracção do genocídio perpetrado pelos judeus contra palestinianos, árabes e muçulmanos.

Muitos dirão que o argumento que apresento coloca injustamente um alvo nas costas do povo judeu. Continuam a não perceber o cerne da questão. Apoiamos o sionismo genocida em todo o espectro da nossa fé; somos nós que colocamos o «alvo» em nós próprios e podemos retirá-lo renunciando ao sionismo genocida e defendendo um anti-sionismo baseado em princípios. Mas, mais fundamentalmente, não somos as vítimas visadas pelo sionismo, somos os seus perpetradores: os verdadeiros alvos são aqueles que os israelitas colocam materialmente sobre os palestinianos, ao realizarem bombardeamentos do tipo «Onde está o papá?» e «ataques double-tap» para causar o máximo de carnificina às famílias palestinianas por soldados judeus.

Se os judeus se preocupassem com a justiça e encarnassem o espírito dos nossos próprios antepassados que lutaram contra o fascismo, veríamos judeus a derrubar e a queimar as bandeiras israelitas das suas congregações, a expulsar rabinos racistas e genocidas das bimahs e sinagogas, a exigir que os templos cortassem todos os laços com a colónia da morte, a instigar uma revolução no seio da fé para extirpar o cancro sionista. Teríamos sido altruístas e dado as nossas vidas aos palestinianos e à resistência na entidade, teríamos cometido traição contra o judaísmo moderno e sedição aberta contra qualquer noção há muito abandonada de um «povo colectivo», que deixou de existir nos últimos 100 anos, e ainda mais desde a abençoada Inundação de Al-Aqsa, em 7 de Outubro de 2023. Se os judeus tivessem um pingo de moralidade, estaríamos a assistir a uma divisão e batalha furiosas no seio do judaísmo. Nenhuma dessa rectidão existe. E o genocídio continua a devastar.

Chega de publicações promocionais e patrocinadas, das nossas entrevistas moralistas sobre sermos alvo de doxxing ou despedidos por causa da Palestina, enquanto palestinianos, árabes e muçulmanos sofrem um destino muito pior por dizerem a verdade. Chega da nossa insípida classe de influencers liberais, do nosso carreirismo, do nosso eleitoralismo inútil e sem sentido, e dos nossos contratos editoriais de autocongratulação que vêm à custa da carne, pele e órgãos de palestinianos, árabes e muçulmanos serem colhidos e vaporizados sem identificação ou rasto sob escombros de betão. Nós, como judeus, não somos especiais e, francamente, o «apoio judaico» é muitas vezes prejudicial na sua forma liberal e orientalista de neutralizar a luta palestiniana, independentemente das intenções de cada um.

Maldito seja israel, uma colónia judaica que massacra centenas de milhares de pessoas sob a bandeira explícita de proteger a «segurança judaica» universal.

Maldito seja este Estado doentio, pedófilo e violador, ao qual nós, como judeus, temos todos um «direito de nascimento» colonial ao abrigo da «lei do regresso», um Estado que todas as nossas instituições judaicas apoiam unanimemente. Desviar a atenção ou minimizar esta brutal realidade entre o nosso próprio povo — ousando difamar como «anti-semitas» aqueles que a denunciam — é uma abdicação desonesta e cobarde da nossa responsabilidade. Qualquer aparência de moralidade judaica há muito que está morta, nós matámo-la em Gaza.

Como o jornalista Laith Marouf frequentemente observa, «a voz judaica mais sonora hoje em dia é a do genocídio». Ele defende, e bem, que os judeus devem lutar contra o sionismo dentro das nossas próprias comunidades e fazer sacrifícios que vão além da polémica, de forma concreta – tal como os palestinianos, os árabes e os muçulmanos têm feito desde que o sionismo começou. Perderam gerações e linhagens familiares inteiras enquanto atiravam areia para as engrenagens da interminável máquina de morte do sionismo. Laith Marouf observa que não existe uma resistência significativa por parte de judeus anti-sionistas que lutem contra o sionismo judeu, como existiu, por exemplo, entre os alemães antifascistas que lutaram contra o nazismo. Ele pede-nos que reflictamos: «Onde está o John Brown judeu?» «Onde está o Oskar Schindler judeu?» E observa como, em mais de um século do projecto sionista, nem um único judeu morreu pela causa da libertação palestiniana. Por que razão, então, seria de esperar que Laith ou qualquer outro palestiniano não fundisse judaísmo e sionismo, quando nós mesmos, enquanto judeus, não nos importamos o suficiente para lutar e para nos sacrificarmos por essa distinção? Não, não seria de esperar. Os palestinianos não nos devem nada. Nós é que temos para com a Palestina uma dívida infinita e impagável que continua a acumular-se a cada momento de cada dia.

Tweets de Laith Marouf da Free Palestine TV

Ser judeu de forma ética neste momento da história significa assumir a responsabilidade de lutar activa e militantemente contra o sionismo. Sim, todos os judeus. O relógio marca o genocídio a cada momento de cada dia. Esta entidade supremacista judaica depende do consentimento e da participação dos judeus para se manter em funcionamento. Se nós, judeus, retirássemos a nossa participação e, mais ainda, se nos opuséssemos activamente a ela, a entidade entraria em colapso.

Nós operamos este posto avançado militar imperial euro-amerikano, vestimo-lo de judaísmo para o branquear e proteger de escrutínio, mantemo-lo a funcionar para nosso ganho egoísta de colonos. Entre uma população judaica mais justa, haveria judeus a protestar e a confrontar os seus espaços judaicos em cada serviço, feriado e encontro, haveria judeus na Palestina ocupada a usar as suas competências militares para apoiar a resistência, tribunais contra judeus que participaram neste genocídio geracional, esforços em grande escala para desnazificar e des-sionizar o nosso povo para que não causássemos mais mal.

Hoje em dia, nenhuma energia deste tipo existe no judaísmo. Nem uma única sinagoga passou de sionista a anti-sionista ao longo dos sangrentos últimos dois anos e meio. Aconteceu precisamente o contrário: muitos judeus redobraram e triplicaram o seu compromisso com o judaísmo (sionista) e o apoio a israel após a impressionante operação anticolonial «Inundação de Al Aqsa».

Continuo a não conhecer nenhum rabino ou sinagoga genuinamente anti-sionista (pelo menos na Euro-Amérika) que apoie a resistência armada palestiniana e defenda a dissolução total dos EUA/israel e a descolonização da terra. Esta é uma acusação inacreditável contra nós.

Nem mesmo um genocídio, transmitido ao vivo, de bebés queimados vivos todos os dias por bombas e balas judaicas foi suficiente para afastar as instituições e os líderes judeus do sionismo de forma séria ou significativa.

Enquanto o judaísmo moderno continua a ser ateu — basta olhar para Gaza arrasada —, o Islão revela-se como um poço profundo do «Abaixo», do qual a Palestina e os seus aliados na região e em toda a Ummah se abastecem de força espiritual para resistir à colonização sionista e ao império euro-amerikano.

Arte de Mohammed Afefa

A hora do acerto de contas aproxima-se para os responsáveis — incluindo muitos judeus — não por causa da nossa identidade judaica, mas devido ao nosso apoio incondicional a, e em uníssono com, israel e o nazi-sionismo, do qual continuamos a recusar, enquanto comunidade, a abrir mão. O que há a dizer? É um holocausto de nossa autoria. Quando as consequências inevitavelmente recaírem sobre as instituições e os indivíduos judeus, porque propagámos esta violência e nos recusamos a abandonar o nosso compromisso de apoiar o genocídio, não se tratará de «anti-semitismo» — mas de colher o que se semeou. As pessoas irão, com toda a razão, perseguir as pessoas e as estruturas que facilitaram estes crimes para o resto das suas vidas, tal como os nazis continuam ainda a ser procurados até à velhice, por mais insignificante que pareça ter sido o seu papel na facilitação do massacre. E este genocídio não é apenas geracional, mas em curso; é de natureza colonialista e, por isso, não é comparável com o holocausto nazi.

A solução é que cada judeu, sinagoga e organização abandone a colónia de imediato, de forma total e pública, responsabilize o nosso povo e canalize recursos para a libertação palestiniana nos termos definidos pela própria Palestina. Sim, todos os judeus.

E, se não cumprirmos as nossas responsabilidades e não o fizermos nós mesmos, outros irão inevitavelmente assumir o controlo da questão, porque esta afronta à humanidade simplesmente não pode continuar.

Não podes fazer o bulldozer retroceder de cima do corpo dela. Não podes fazer os cabos des-chicotear as costas dele. Não podes trazer de volta à vida os preciosos mártires da Palestina, esse barco já zarpou. E os crimes do judaísmo ressoarão por toda a eternidade. O massacre continua todos os dias, apesar de desviares o olhar, apesar de racionalizares o porquê de «não ser culpa nossa». É culpa nossa, e o derramamento de sangue não vai parar até ser forçado a isso.

Vivam as Brigadas Al-Qassam do Hamas, homens de honra e de aço, que emergem das profundezas subterrâneas com armas caseiras e uma fé inabalável para infundir medo e desferir golpes fatais nos corações do inimigo sionista. Onde os judeus extinguiram a vida, as Al-Qassam devolveram o oxigénio ao corpo. Esta é a geração de judeus mais vergonhosa que alguma vez existiu. Nenhum de nós pode dizer que não sabia. Estamos espiritualmente vazios, moralmente eviscerados. Não se limitem a dizer de forma egoísta que «israel não representa todos os judeus» — lutem para que essa distinção seja materialmente verdadeira, erradicando o sionismo de dentro do judaísmo. Essa é a única escolha.

No que aos males do sionismo diz respeito, nós, judeus, preferimos iludir-nos e mentir a nós mesmos a assumir um pingo de responsabilidade para além de débeis slogans movidos por interesse próprio. Por quanto tempo mais terão a Palestina e a região de pagar pela nossa negação delirante, pela nossa incessante violência desenfreada, pela nossa recusa em assumir a responsabilidade pelas formas como destruímos tanta vida neste precioso e precário planeta?

Os judeus têm de destruir o Estado de israel e a ideologia sionista na sua totalidade, cada um dos seus nódulos e tentáculos, incluindo a colónia anfitriã de israel: a Amérika. Preocupo-me mais com a Palestina que com o judaísmo. Se o judaísmo tiver de morrer para que a Palestina viva, matem-no.

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