Greve geral: reflexões a partir de um texto de Myriam Charabaty~ 10 min

Por Francisco Ulrike e Duarte Guerreiro
Hoje começámos o nosso dia como se tornou hábito para nós nos últimos três anos: a consultar as nossas fontes no terreno na Palestina, no Líbano e nas várias geografias do Eixo da Resistência. Nessa actividade matinal deparámo-nos com duas coisas – uma reportagem da Bisan Owda, uma das mais proeminentes jornalistas de Gaza, e um texto de Myriam Charabaty, uma jornalista cristã libanesa – que nos levaram a registar algumas reflexões sobre a greve geral de hoje que, de outra maneira, provavelmente ficariam por expressar. O texto da Myriam, publicado há dias no seu Substack, começa assim:
Defender o que está certo não é um pormenor marginal na nossa jornada humana; é, pelo contrário, uma das suas vertentes mais sagradas. Quando a injustiça é praticada abertamente e à luz do dia, defender a verdade já não pode ser considerado uma razão insuficiente para nos empenharmos numa luta que exige sacrifício.
Myriam Charabaty
É gritante como a maior injustiça do mundo no momento presente da História – o genocídio em curso na Faixa de Gaza – está ausente das pautas e do discurso construído em torno desta greve geral.
Em primeiro lugar, porque o ser humano é o amparo dos outros seres humanos. Depois porque, se não defendermos o que está certo quando outros são oprimidos, quando o absurdo e a crueldade do opressor acabarem por se voltar contra nós, não encontraremos ninguém que nos apoie.
Myriam Charabaty
Nisto, o colonialismo da entidade sionista não difere dos que vieram antes. É um insulto contra toda a humanidade, e isso nem precisa de ser argumentado, excepto com quem tem os bolsos cheios de shekels.
Mas a classe trabalhadora tem também de considerar os seus interesses. A Primeira Guerra Mundial foi a tumba da revolução na Europa, porque os trabalhadores europeus colocaram os interesses dos respectivos colonialismos nacionais acima dos seus interesses de classe, e a sua recompensa foi a oportunidade de morrer pelo sangue azul consanguíneo dos seus governantes – e viver outra guerra mundial 20 anos depois, desta vez ainda pior porque alimentada pelos ressentimentos e as almas mortas abertas ao fascismo pela brutalidade da primeira.
Os campos de extermínio foram inventados pelo colonialismo britânico para pacificar nativos recalcitrantes, e depois usados na Alemanha Nazi, grande admiradora do império britânico, para exterminar as organizações de trabalhadores. A contra-revolução militar que deu início à guerra civil espanhola provavelmente nunca teria ido a lado algum se não tivesse sido o contingente de forças coloniais de Marrocos, habituadas à brutalidade do combate e à supressão de civis. Até os uniformes das SA nazis eram castanho-claro por serem material excedente inicialmente destinado às posses africanas da Alemanha.
Os exemplos são inúmeros e arrastam-se até aos dias de hoje. São os partidos liderados por israelitas a sentarem-se em parlamentos na Europa, são as empresas militares israelitas a ser pagas pelos nossos impostos para caçar migrantes no Mediterrâneo, é a tecnologia israelita usada para espiar e controlar os palestinianos como gado que agora está a ser implementada um pouco por todo o lado no ocidente, para nos vigiar pela forma das nossas caras, pelas indentações dos nossos dedos, pelas vibrações da nossa voz, pela pegada do nosso andar, por onde foi deixado o nosso dinheiro, pelos telemóveis com que o nosso se cruzou, pelas mensagens que trocámos, pelos websites que visitámos e até pelo DNA no nosso sangue – tudo alimentado a máquinas que nunca dormem, que correm software programado por startups israelitas super chiques incubadas pela Mossad e a Unidade 8200 para que qualquer um de nós possa, quando chegar a hora da verdade, ser tornado um pária, chantageado ou quiçá num futuro não muito distante, caçado na rua por um daqueles drones armados com metralhadoras, até agora só usados para caçar crianças palestinianas.
Perdoem, portanto, a frustração com as vistas curtas.
Hoje, em Portugal, milhões de trabalhadores e trabalhadoras fizeram greve contra o pacote laboral e a retirada generalizada de direitos. Ao mesmo tempo, na Palestina e no Líbano, a barbárie sionista continua a exterminar palestinianos e libaneses, a demolir aldeias e bairros inteiros e a tornar os aspectos básicos da vida uma provação constante.
O capital que nos quer tirar direitos laborais é o mesmo capital responsável por fazer com que algo tão básico como encontrar água potável se torne uma missão árdua que ocupa boa parte do quotidiano da maioria dos palestinianos em Gaza, como registado pela Bisan nesta sua reportagem.
Enquanto as classes trabalhadoras ocidentais não reconhecerem isto, continuarão a ficar surpreendidas com cada ofensiva contra os nossos direitos colectivos protagonizadas pelas nossas elites fascistas e genocidas – e continuarão incapazes de combater essas mesmas elites que governam o nosso mundo e que, enquanto nos tiram este ou aquele direito formal, exterminam povos inteiros aqui bem perto, do outro lado do Mediterrâneo. Não é como se fizessem sequer segredo disso, tendo em conta a prevalência de bandeiras israelitas em manifestações da direita. Para as forças pró-capital, o seu lado da barricada é claro.
Myriam Charabaty continua:
E como pode uma pessoa viver estando plenamente consciente de uma injustiça que destrói todo o conceito de humanidade, e ainda assim aceitá-la ou conviver com ela como se fosse normal? O que resta da consciência quando o silêncio perante a injustiça se torna uma postura, e ignorá-la se torna uma escolha?
Isto faz parte da nossa compreensão religiosa e moral… ou, pelo menos, deveria fazer.
Myriam Charabaty
O mais caricato de tudo isto é que os mesmos sindicatos que convocaram a greve geral de hoje participam, desde o primeiro momento do genocídio, nas concentrações e manifestações pró-Palestina. Ao longo dos últimos quase 3 anos, vimos as Uniões de Sindicatos de variados distritos, afectas à CGTP, a assinar comunicados e a proclamar dos púlpitos a sua solidariedade com a Palestina no final das marchas – os mesmos púlpitos aos quais o acesso de outras organizações e pessoas comuns foi sistematicamente barrado por aqueles que se acham donos desta luta.
Logo no início do genocídio, numa concentração numa pacata cidade do Oeste, aconteceu-nos a nós, e terá acontecido a muito mais gente que o tenha tentado ao longo destes três anos. O caso mais recente de que tivemos conhecimento só o descobrimos após termos publicado o artigo «Para onde marcha a Paz?», sobre a marcha fúnebre pela paz que percorreu as ruas de Lisboa no passado mês de Março, quando uma companheira nos escreveu a contar que um grupo de malta foi «literalmente barrada quando pediu à organização para ler uma carta/manifesto» de apoio ao Irão. «Foi-lhes dito “não” na cara.»
Apesar de estarem na cúpula do dito movimento pró-Palestina, estes mesmos sindicatos não são capazes de integrar no discurso da greve o genocídio, ou até a utilização da Base das Lajes na mais recente guerra lançada pelo Império contra o Irão e o Eixo da Resistência. Na convocatória de greve geral da CGTP não há uma única referência à Palestina, quanto mais ao Irão.
Isto marca um contraste gritante com outras greves na Europa, como as que sindicatos minoritários convocaram no Estado Espanhol em Setembro de 2024 e em Itália em Novembro de 2024, ambas sabotadas pelas centrais sindicais maioritárias de cada país, ou a greve massiva em Itália em Setembro de 2025 e as outras duas greves gerais que tiveram lugar no mês passado em Itália. Todas estas greves tinham, no topo das reivindicações, a Palestina. Por cá, temos uma central sindical maioritária que co-organiza regularmente eventos pró-Palestina, mas que não inclui o fim do genocídio na lista de exigências das suas greves.
Os apelos de organizações sindicais palestinianas para que passemos dos comunicados a acções concretas foram sistematicamente ignorados, assim como os sucessivos apelos a Greves Globais por Gaza [1, 2, 3].
Já na greve geral de Dezembro passado fomos criticados por malta que milita em organizações da esfera do PCP por denunciar o umbiguismo destas organizações sindicais, que tudo fazem para compartimentalizar todas estas diferentes lutas em que estão presentes.
E quando as bases não pressionam as suas direcções sindicais para construir um discurso e exigências à altura do que o momento presente exige, a classe trabalhadora portuguesa torna-se cúmplice da normalização da barbárie sionista – tal como o são as classes trabalhadoras ocidentais no geral.
O preço da normalização do genocídio em curso é pago, no imediato, pelo povo palestiniano – e por todos os povos que se ergueram em armas para o defender. Contudo, mais tarde ou mais cedo, esse preço será sentido na pele por todos e todas nós – sem que as classes genocidas, sionistas e fascistas que nos governam tenham sofrido qualquer consequência.
A humanidade enfrenta hoje um grande desafio, e cada um de nós tem um papel concreto a desempenhar nesse contexto. Alguns prestam assistência às pessoas necessitadas. Outros tornam-se a voz daqueles cuja dor os deixou sem voz. Outros ainda trabalham para esclarecer realidades que os inimigos distorceram deliberadamente através da manipulação da opinião pública e da propagação do derrotismo. Outros levam alegria aos corações consumidos pela tristeza. E outros lutam nas arenas da jihad espiritual e intelectual, em mesquitas, igrejas, universidades e fóruns públicos.
Myriam Charabaty
Vale a pena deixar claro às almas que se sentem mais facilmente melindradas que este texto não pretende ser um ataque aos sindicatos ou à greve em si, mas um contributo para olharmos as nossas acções (e inacções) de forma crítica, e dar alguma consequência às conclusões a que chegarmos.
E para concluir, o parágrafo com que Myriam Charabaty termina o seu texto:
Quanto a lamentar-se perante as ruínas, isso não serve de nada hoje em dia. E a mera teorização tem pouco valor. Aqueles que se prepararam, organizaram e puseram mãos à obra conhecem o caminho. Aqueles que optaram por não fazer parte disso, acreditando que havia outros assuntos mais importantes, não devem atrever-se a ditar condições àqueles que se prepararam, que se comprometeram e que agiram.
Myriam Charabaty
Em suma, de todos os militantes de esquerda, activistas e anarquistas – que hoje deram o corpo ao manifesto no contexto da greve geral, mas que não colocam a Palestina no centro da sua luta – o mínimo que se esperaria, hoje como no resto dos dias, é que não façam o trabalho sujo do Império ao atacar as forças de Resistência Islâmica que resistem materialmente à barbárie sionista, por nós patrocinada, mesmo que esses ataques sejam lançados a partir de supostas “posições híper-desconstruídas”.
Isso, pelo menos, é coisa que o PCP não faz.

