Senegal // O terramoto político que abalou o neocolonialismo~ 49 min

Por Jorge Santos
Em 24 de março de 2024, um terramoto político abalou o Senegal, país da África Ocidental com cerca de 19 milhões de habitantes. Pela primeira vez, o bipartidarismo dominante foi quebrado. A vitória de Diomaye Faye nas eleições presidenciais, com o apoio do Patriotas do Senegal (PASTEF), um partido de esquerda pan-africanista, possivelmente abriu caminho para a construção de um país novo, livre do domínio neocolonial ocidental.
O jovem político senegalês, de 44 anos, obteve 54,28% dos votos, esmagando o opositor liberal Amadou Ba (35,79%). Foi a primeira vez que um candidato da oposição venceu na 1ª volta.
Em 17 de novembro do mesmo ano, após Diomaye ter dissolvido a Assembleia Nacional por esta se recusar a rever a Constituição, somou-se a vitória da esquerda nas eleições legislativas, onde o partido obteve 54,97% dos votos (130 deputados para um total de 165 lugares) e o ativista sindical Ousmane Sonko, de 49 anos, foi nomeado primeiro-ministro.
- Diomaye Faye e Ousmane Sonko: Uma amizade que construiu um projeto político de mudança
- A desesperada (e falhada) tentativa do regime de se autopreservar contra a vontade popular
- Guy Marius Sagna, o “tractor moral” do partido
- O pesado fardo da herança colonial no Senegal
- A ruptura ideológica e o necessário “choque fiscal” do novo Governo
- A importância do setor mineiro e a viragem para o petróleo e gás natural
- A “revolução” laboral em curso
- A face urbana do país em profunda mudança
- A saúde e a educação como prioridades absolutas
- O fomento de melhores transportes públicos e infraestruturas modernas
- O ambicioso investimento na proteção do ambiente e na mecanização agrícola
- A traição de Diomaye e a queda do Governo Sonko
- Conclusão
Diomaye Faye e Ousmane Sonko: Uma amizade que construiu um projeto político de mudança
Bassirou Diomaye Faye nasceu em 1980, em Ndiaganiao, no departamento de M’bour (região de Thiès). O seu pai, Samba Faye, foi membro do Partido Socialista do Senegal durante muitos anos, e o avô combateu ao lado da França na Primeira Guerra Mundial, e foi preso pelas autoridades coloniais devido aos seus esforços na criação de uma escola secundária distrital (escola que Diomaye mais tarde frequentou). Diomaye cresceu, assim, no meio rural, no seio de uma família com valores de esquerda.
Em 2004, concluído o mestrado em Direito numa universidade de Dakar, Diomaye foi aprovado com distinção na prova de acesso à Magistratura, mas preferiu ingressar na formação da Escola Nacional de Administração (ENA), com o propósito de seguir a carreira de funcionário da Direção-Geral de Impostos e Património (DGID na sigla em francês). A partir de 2007, exerceu as funções de inspetor tributário ligado à área do contencioso e justiça tributária. Viria a aderir ao Sindicato Autónomo dos Agentes de Impostos e Património (SAID na sigla em francês).
Na qualidade de sindicalista, destacou-se na luta pelo direito à habitação por parte dos funcionários no célebre episódio em que terá confrontado o diretor do Património por causa da decisão de retirar ao SAID terrenos que estavam destinados à construção de casas, e ameaçado com uma greve geral ilimitada caso a decisão se concretizasse.
Foi neste meio que conheceu Ousmane Sonko, a quem mais tarde viria a dar posse como primeiro-ministro. Diomaye e Sonko, que então se tornam amigos próximos (Diomaye viria a dar o nome de Ousmane Sonko a um dos seus filhos), eram ambos membros da direção do SAID. Juntos, fundaram o partido “Patriotas Africanos do Senegal pelo Trabalho, pela Ética e pela Fraternidade”, vulgarmente conhecido como “Patriotas do Senegal” (PASTEF), um partido de esquerda pan-africanista do qual Sonko foi eleito o primeiro Secretário-Geral.
Ousmane Sonko nasceu em 1974, em Thiès, a cerca de 70 km de Dakar. Passou boa parte da sua infância em Casamansa, terra do seu pai. Casamansa, onde se fala crioulo da Guiné-Bissau, é a zona sul do Senegal, uma das mais pobres e geograficamente isoladas do país (faz fronteira a sul com a Guiné-Bissau e a norte com a Gâmbia, pequeno Estado que atravessa o Senegal a meio). Desde 1982 que este território é palco de uma luta armada entre o separatista Movimento das Forças Democráticas de Casamansa (MFDC) e o exército do Senegal.
Em 1999, Sonko concluiu o mestrado em Direito Público numa universidade de Saint-Louis e ingressou na ENA, integrando depois os quadros da DGID ligados diretamente à área da fiscalização dos contribuintes.
Em 2016, Ousmane Sonko era já inspetor tributário principal, contando com uma carreira de 15 anos ao serviço do Estado. Numa entrevista a um canal de televisão senegalês, ele denunciou um complexo esquema de manipulação de preços-transferência por parte de uma multinacional canadiana, recorrendo a uma teia de holdings sediadas em paraísos fiscais, para evitar o pagamento de 8,9 milhões de dólares em impostos. Durante a entrevista, Sonko nomeou personalidades influentes que, segundo ele, beneficiavam de vantagens fiscais indevidas, incluindo um irmão do então presidente Macky Sall e até o proprietário do próprio canal de televisão. O Governo liberal classificou o ato como um “ataque” e uma “grave violação do dever de sigilo profissional”, mas Sonko defendeu que não violou os seus deveres, antes pelo contrário, já que existia legislação que obrigava todos os funcionários a denunciar qualquer irregularidade financeira de que tivessem conhecimento no exercício das suas funções. Por ter tornado público este escândalo, Sonko foi despedido por decreto presidencial. Ele acabaria por publicar o livro “Petróleo e Gás no Senegal: Crónica de uma Espoliação” (2018), que desmonta o esquema de fraude fiscal que denunciou.
Livre para se dedicar à política a tempo inteiro, Sonko preparou a sua candidatura à presidência da República do Senegal em 2019. Ficou em terceiro lugar nas eleições, com 15,67% dos votos.
Em 2022, foi eleito presidente da Câmara de Ziguinchor e renunciou ao seu salário.
A desesperada (e falhada) tentativa do regime de se autopreservar contra a vontade popular
Em 2021, Ousmane Sonko foi detido pela polícia por acusações de “violação” e “corrupção de juventude”. O Ministério Público pediu que fosse condenado a 10 anos de prisão, ou em alternativa, a 5 anos pela alegada “corrupção de juventude”. Em causa estava a queixa apresentada por uma jovem empregada de um salão de beleza que Sonko frequentava. Adji Sarr, a alegada vítima, acusou Sonko de a ter violado em cinco ocasiões. Sonko negou todas as acusações e criticou a investigação, considerando-a “negligente” e “politicamente motivada”. Alegou que frequentava o salão para fazer massagens terapêuticas por aconselhamento médico e garantiu que não houve qualquer tipo de envolvimento sexual com a alegada vítima. Acusou ainda o presidente liberal Macky Sall, no poder desde 2012, de ter orquestrado o caso para o eliminar da corrida presidencial e Sarr de ter sido “manipulada” com promessas de dinheiro e um passaporte diplomático.
Desde o começo, várias questões lançaram dúvidas sobre as acusações de que Sonko foi alvo. Desde logo, o exame médico forense realizado à alegada vítima não encontrou qualquer vestígio de violência ou de violação. Por outro lado, o capitão da Gendarmerie Nacional, Oumar Touré, responsável pela investigação do caso, foi demitido ou forçado a demitir-se devido à pressão política de que alegou ter sido alvo. Touré queixou-se de estar a ser seguido por agentes dos serviços secretos, ter o seu telefone sob escuta e ainda de sofrer ameaças e não ter proteção policial. Após a sua saída da Gendarmerie, este capitão encontrou emprego como professor de um instituto privado, mas foi despedido, alegadamente por pressões sobre a instituição, antes mesmo de começar a trabalhar.
A detenção de Sonko gerou protestos nas ruas de várias cidades senegalesas. Os jovens de esquerda, apoiantes do PASTEF, protestaram queimando viaturas e atacando supermercados do grupo Auchan. A polícia reprimiu violentamente as manifestações, tendo causado mais de uma dezena de mortes. O Governo suspendeu dois canais de televisão (Sen TV e Walf TV) por 72 horas e restringiu ainda o acesso às redes sociais.
Na sequência da detenção de Sonko, Diomaye foi eleito Secretário-Geral do PASTEF. Reuniu-se com os líderes de vários partidos da oposição com o objetivo de formar uma coligação para concorrer às eleições legislativas de 2022. A coligação “Libertar o Povo”, encabeçada por Sonko (não obstante estar detido) e composta por 5 partidos, ficou em segundo lugar, com 32,85% dos votos, conquistando 56 lugares na Assembleia Nacional.
Em fevereiro de 2023, Sall tentou jogar a cartada do adiamento das eleições presidenciais, mas isso só veio gerar maiores protestos nas ruas das cidades senegalesas, e o Conselho Constitucional do Senegal acabou por não permitir o adiamento. Em abril de 2023, Diomaye também foi detido como forma de intimidação, devido às críticas que fez à detenção dos ativistas do partido.
A 1 de junho de 2023, chegou ao fim a saga do caso Sonko, mas (ainda) não os seus problemas com o braço judicial do regime. O Tribunal de Dakar absolveu o dirigente político do crime de violação, por não provado. No entanto, condenou-o a dois anos de prisão efetiva por “corrupção de juventude” (a maioridade no Senegal atinge-se aos 21 anos e, apesar das dúvidas quanto à sua idade real, o Tribunal determinou que a alegada vítima teria 20 ou menos anos à data dos factos). Esta bizarra condenação foi feita à medida para tornar Sonko inelegível às eleições presidenciais do ano seguinte. Inicialmente, o PASTEF desafiou a autoridade e nomeou-o candidato do partido, mas acabou por ser Diomaye a constar do boletim de voto nas presidenciais de 2024. Nas ruas, o povo gritava ”Sonko mooy Diomaye!” (“Sonko é Diomaye!”)
Tudo parecia bem encaminhado, mas o Governo não desarmou. Sonko foi novamente detido, a 28 de julho, desta vez acusado de “apelo à insurreição”, “associação criminosa em ligação com um projeto terrorista” e “atentado à segurança do Estado”. Três dias depois da detenção, foi ordenada a dissolução do PASTEF. No mês seguinte, o Governo baniu o Tiktok para evitar os protestos dos jovens senegaleses. Como forma de protesto contra as atitudes ditatoriais de um Governo supostamente democrático, Sonko entrou em greve de fome.
Em outubro de 2023, o tribunal de Ziguinchor anulou a remoção de Ousmane Sonko das listas eleitorais, mas o Governo recorreu para o Supremo Tribunal. A 14 de dezembro de 2023 foi proferido o acórdão do Supremo que declarou Sonko elegível e que o reintegrou na lista eleitoral. A 15 de março de 2024, Sonko foi finalmente libertado da prisão. A cínica lei da amnistia de Sall (aprovada para proteger as forças de segurança que mataram manifestantes) também permitiu a libertação de Diomaye e centenas de outros ativistas detidos, a poucas semanas do ato eleitoral. Finalmente, três dias após a vitória de Diomaye Faye nas eleições presidenciais, o decreto que dissolvia o PASTEF foi revogado.
Todas as tentativas dos liberais para se manterem no poder, mesmo à custa de ilegalizar a oposição e prender os opositores, falharam redondamente. A vontade popular era mais forte.
Guy Marius Sagna, o “tractor moral” do partido
Ao longo deste artigo, falaremos muito da dupla de ativistas que protagonizou a mudança do rumo político do Senegal, pela força das suas ideias e a coragem de as defender até às últimas consequências. Mas a esquerda senegalesa tem ainda outro pilar sem o qual o projeto político do PASTEF não teria a mesma consistência (e talvez não sobrevivesse). Esse alicerce fundamental é o deputado Guy Marius Sagna.
Sagna é um ativista conhecido pela sua frontalidade e pela lealdade crítica ao partido. Embora seja membro fundador do PASTEF e tenha sido eleito para a Assembleia Nacional, é difícil, quanto a ele, distinguir o antes e o depois. Desde sempre, Sagna é uma presença constante nas ruas, em protestos, greves e ocupações. E nunca tem medo de criticar o partido ou questionar os seus líderes quando discorda deles. A sua popularidade nas redes sociais arrasta multidões de jovens senegaleses, rendidos às suas posições firmes e incisivas contra o neocolonialismo e a corrupção que grassam nas instituições.
Um dos episódios mais marcantes ocorreu em junho de 2025, quando o deputado apresentou um relatório detalhado denunciando a “traição aos princípios do PASTEF” na Assembleia Nacional. Sagna evocou os exemplos de Sankara e de Amílcar Cabral para sublinhar a importância de uma governação sóbria e ao serviço do povo. Alertou para a distribuição de envelopes de dinheiro (“sukëru koor” em uolofe, literalmente “açúcar de coco”) a deputados do próprio partido, a atribuição de subsídios aos grupos parlamentares sem a correspondente apresentação da prestação de contas e ainda a falta de produção legislativa dos deputados, acusados de não terem apresentado uma única iniciativa parlamentar concreta no espaço de um ano, não obstante o salário que receberam. Numa situação habitual, diríamos que este deputado provavelmente não permaneceria muito mais tempo a exercer funções, já que nenhum partido gosta de “delatores”. Contudo, o respeito granjeado dentro e fora do seu partido protege Guy Sagna e torna-o numa verdadeira referência de honestidade e compromisso com os valores e causas que sustentam o novo Governo de esquerda.
Um outro episódio digno de referência foi a sua visita à embaixada do Burkina Faso em Dakar, em maio desse ano, trajado de faso danfani (literalmente “tecido da pátria”, é o tecido tradicional do Burkina) como forma de manifestar o seu apoio ao presidente Ibrahim Traoré. Este gesto foi amplamente criticado pela elite burkinabé que vive no estrangeiro. Os críticos condenaram o apoio a um Governo que alegadamente prende jornalistas e proíbe partidos da oposição. Mas Sagna não recuou diante das críticas, defendeu a revolução no Burkina e respondeu que “aqueles que fogem do Burkina Faso não têm legitimidade para falar pelo povo que ali ficou.” Já o PASTEF desvalorizou o episódio e focou-se na solidariedade com os povos do Sahel e na resolução dos problemas internos do país.
O pesado fardo da herança colonial no Senegal
Avaliando fatores como a qualidade dos serviços públicos e das infraestruturas, à primeira vista, poderíamos ser tentados a achar que o Senegal é um país mais desenvolvido do que a média no continente africano. Contudo, essa superioridade é meramente aparente, já que estamos a olhar para a “carcaça”, sem espreitar o que se encontra por baixo. Embora mais próspero do que a maioria dos países do Sahel, o Senegal ocupa, no contexto africano, uma posição modesta em termos Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e PIB per capita. A economia é caracterizada por uma forte informalidade (mais de 95% dos empregos são informais), uma produtividade e inovação muito baixas e o predomínio de antigos monopólios coloniais e grandes multinacionais estrangeiras (é o caso da Orange France nas telecomunicações, da TotalEnergies nos hidrocarbonetos, ou da Société Générale na banca). Se, por um lado, existe um setor produtivo ligado ao petróleo, telecomunicações ou indústria química, por outro, a maioria da população trabalha na agricultura, maioritariamente de subsistência. O resultado é um país empobrecido e extremamente desigual em todos os sentidos.
A desigualdade social e as assimetrias regionais que caracterizam o Senegal são o resultado de mais de seis décadas de colonização (a conquista militar dá-se a partir de 1895 e dura até 1960, ano da declaração de independência, mas a presença francesa em entrepostos comerciais esclavagistas remonta à segunda metade do séc. XVII). O Império francês adotou este país como uma espécie de “montra” para exibir os supostos benefícios da sua “ação civilizadora” na África Ocidental Francesa (AOF).
Nesse sentido, podemos dizer que o Senegal teve, apesar de tudo, um pouco mais de sorte do que outras antigas colónias, como o Burkina Faso (“Alto Volta”) ou o Mali (“Sudão Francês”). A localização estratégica da baía de Dakar fez da cidade um importante porto para escoar produtos como o amendoim e o algodão do interior das colónias africanas, onde os trabalhos forçados e a extorsão por via de pesados impostos eram a regra para as comunidades nativas. Atenta à sua importância, Dakar converteu-se na capital da AOF em 1904.
Mas, na realidade, o interesse do colonizador branco neste território manifestou-se logo no séc. XV, quando os portugueses, e mais tarde os holandeses e ingleses, se estabeleceram na zona para o comércio de pessoas escravizadas, ouro e marfim. Com a revolução industrial no séc. XIX, as cidades costeiras do Senegal cresceram rapidamente e foram dotadas de infraestruturas de boa qualidade (estradas, caminhos de ferro, portos e aeroportos).
Já o interior do país permaneceu deficitário no que toca a serviços públicos e infraestruturas, e a população foi deixada à sua sorte.
As quatro communes (Dakar, Saint-Louis, Gorée e Rufisque) constituíam a exceção no Império colonial francês. Concedeu-se aos homens que nascessem nestas cidades o direito de sufrágio, que lhes permitia eleger representantes para a Assembleia Nacional francesa e para os órgãos políticos municipais. Em 1914, o senegalês Blaise Diagne foi o primeiro negro a ser eleito deputado em França.
Mas no resto do Senegal, os nativos eram considerados “súbditos” (pois não tinham direito à cidadania), estavam segregados e condenados à invisibilidade, e sujeitos à arbitrariedade do administrador colonial, uma realidade institucionalizada desde cedo pelo “Código do Indigenato” (1887).
Então, por que razão existia a exceção das quatro communes? Os franceses usaram estas cidades como uma espécie de “projeto-piloto” de propagação da “civilização” e um pilar da “montra” do seu Império em África. Acreditavam que alguns negros poderiam assimilar a língua, a cultura e os “valores” franceses, se fossem devidamente educados pelos colonos. No entanto, mantiveram o projeto propositadamente contido naqueles limites geográficos, pois não tinham qualquer interesse de atribuir direitos iguais a todos os senegaleses. A igualdade formal foi apenas alcançada em 1946, e a autodeterminação conquistada em 1960, data da independência do Senegal.
A ruptura ideológica e o necessário “choque fiscal” do novo Governo
A conquista do poder por parte do PASTEF abriu caminho para a revisão constitucional. O novo Governo pretendia reformar o Conselho Constitucional (que passaria a ser chamado “Tribunal Constitucional” e teria novas regras relativas à independência dos juízes e às competências de fiscalização da constitucionalidade das leis e da legalidade dos processos eleitorais) e o Conselho Superior da Magistratura (que seria aberto a personalidades de fora da magistratura, reforçando a sua transparência), e ainda extinguir o Conselho Económico, Social e Ambiental (CESE) e o Alto Conselho das Autarquias Territoriais (HCCT), dois órgãos consultivos do Estado que o Governo considerava servirem apenas as “clientelas” dos partidos, sendo vistos como dispendiosos e de pouca utilidade para o país.
Para responsabilizar os crimes das forças de segurança durante a repressão aos manifestantes e ativistas do PASTEF, o Governo tentou corrigir a lei da amnistia do Governo de Sall, mas esbarrou com a rejeição do Conselho Constitucional, invocando motivos técnico-jurídicos.
Diomaye Faye prometeu a ruptura ideológica com o anterior Governo, adotando uma política que promovia a soberania económica e o desenvolvimento financiado com recursos próprios, ao mesmo tempo que não gerava endividamento excessivo. Falou ao país de uma visão de futuro “Senegal 2050”, materializada na Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2029. Este plano tem como objetivos a redução da pobreza, triplicar o rendimento per capita até 2050 e alcançar um crescimento económico anual de 6 a 7%.
Em fevereiro de 2025 a assinatura de um acordo de paz com os grupos separatistas de Casamansa, mediado pela Guiné-Bissau, foi um marco histórico. Pela primeira vez, o Governo do Senegal sentou-se publicamente à mesa com os líderes do MFDC. No passado, outros acordos haviam sido assinados, mas de caráter essencialmente político-militar (acordos de cessar-fogo com compromissos frágeis). O plano de Diomaye para a paz compromete o Estado senegalês com o desenvolvimento de Casamansa, nomeadamente através de um investimento público massivo para melhorar as infraestruturas e serviços públicos da região.
O presidente defendeu o reconhecimento da Aliança dos Estados do Sahel, afirmando que o Senegal “não os abandonará” perante a saída da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Exigiu a retirada das tropas francesas estacionadas nas bases militares do país e defendeu a valorização das forças armadas do Senegal. Mostrou-se favorável a um maior uso das línguas nativas do Senegal no ensino, e passou a usar a língua uolofe nos seus discursos oficiais. Em julho de 2025, os últimos 350 soldados franceses abandonaram definitivamente o Senegal, pondo fim a uma presença ininterrupta desde a era colonial. Diomaye também apontou baterias ao franco CFA, considerando que “não há soberania económica sem soberania monetária”.
O franco CFA foi criado pela França em 1945 para evitar que a decisão de desvalorizar fortemente o franco face ao dólar, durante o pós-guerra, afetasse os territórios em África, mantendo-se assim a balança comercial desigual para o lado das colónias. O plano foi vendido aos povos africanos como uma espécie de “gesto de caridade” para evitar que caíssem no empobrecimento. Mas para usar esta nova moeda, os territórios africanos eram (e ainda são hoje em dia) obrigados a depositar 50% das suas reservas no Banco Central de França, sediado em Paris. A União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), que supostamente administra esta moeda, é controlada pela França, através dos seus representantes nos órgãos de decisão. Ao todo, a moeda neocolonial francesa ainda é utilizada por 14 países africanos (incluindo a Guiné-Bissau), 8 dos quais integram a CEDEAO. Mas a necessidade de a abandonar é consensual entre os Estados-Membros, que ainda não chegaram a um consenso sobre o seu futuro monetário.
O primeiro-ministro Ousmane Sonko vincou que “nenhuma dignidade é possível sem soberania económica, e nenhuma soberania económica é possível sem soberania monetária”, acrescentando que “mudar de nome sem mudar de lógica não é uma revolução, é um rebranding da dependência”. Esta impactante declaração faz alusão ao acordo alcançado, em 2019, entre a França e os países da UEMOA para a substituição do franco CFA por uma nova moeda única, chamada “eco” — uma jogada de marketing do imperialismo, já que se mantém a indexação ao euro (moeda sobrevalorizada) e, portanto, também a submissão de África aos efeitos da política monetária da zona euro.
Sonko apelou ainda a um “renascimento africano”, alicerçado no regresso às raízes culturais, na valorização das línguas africanas, na governação rigorosa e na gestão responsável dos recursos naturais.
Nos primeiros meses de Governo, o primeiro-ministro ordenou uma auditoria às contas públicas, a qual foi realizada pelo Tribunal de Contas e pela Inspeção-Geral de Finanças. O resultado foi dentro do esperado, e a corrupção endémica e as mentiras do Governo de Macky Sall tornaram-se mais claras aos olhos dos senegaleses. Afinal, os números do défice e da dívida pública do ano de 2024 eram muito maiores do que havia anunciado o Governo anterior. O défice orçamental não foi 5,5% mas 14% do PIB e a dívida pública foi corrigida de 76,3% para 119% do PIB (podendo vir a atingir, segundo o FMI, 132% do PIB, caso se incluam elementos adicionais). Esta revelação colocou maior peso em cima do novo Governo, mas nem por isso este se deixou imobilizar. Parte da dívida foi classificada como “oculta” (dívida não divulgada nem registada oficialmente), diversos contratos nos setores do petróleo, minas e energia foram renegociados e, além dos já referidos CESE e HCCT, 17 outras estruturas paraestatais com elevadas dívidas e consideradas supérfluas foram dissolvidas, e 10 foram “reposicionadas” (redefinidos os seus modelos de intervenção para evitar duplicações e conflitos de competências). Contudo, nenhum trabalhador do Estado seria despedido.
De imediato foi lançado o Plano de Recuperação Económica e Social (PRES), um plano ambicioso de cerca de 5.600 mil milhões de dólares para o período 2025-2028, com o objetivo de restaurar a estabilidade macroeconómica. Este plano será financiado em 90% por recursos financeiros próprios.
Perante uma grave crise financeira e sem alternativas, o Governo comprometeu-se a aumentar a carga fiscal de 19,3% em 2025 para 23,2% do PIB em 2026 com vista a reduzir o défice para 3% do PIB até 2027. Para tal, aprovou um conjunto de medidas que se podem apelidar de um autêntico “choque fiscal”:
- Aplicou um imposto de transações de “dinheiro móvel” dividido em duas taxas: uma de 1% sobre cada compra ou pagamento digital, independentemente do valor, e uma de 0,5% por cada transferência bancária através de um número de telemóvel;
- um imposto sobre a publicidade digital e jogos online;
- o aumento da tributação sobre álcool e tabaco;
- a atualização das taxas de licenças de telecomunicações pagas pelas operadoras;
- e ainda a aplicação de taxas de visto para cidadãos não africanos.
- Foram também eliminadas as isenções fiscais nos setores do jogo e digital, e os proprietários de terrenos foram obrigados a regularizar a sua situação fiscal.
A primeira destas medidas foi a mais criticada, por penalizar sobretudo os grupos mais vulneráveis e acarretar o perigo de gerar efeitos regressivos e contraproducentes. Ciente destas desvantagens e riscos, o Governo isentou de cobrança as transferências bancárias até 20.000 Francos CFA por dia (o equivalente a cerca de 30,50 euros), mas manteve o imposto em vigor, devido à necessidade de mobilizar uma enorme quantidade de recursos em pouco tempo para estancar o buraco financeiro deixado pelo Governo anterior.
Mas as medidas na área financeira não se ficaram pelo mero aumento de impostos. Para responder à crise de liquidez, o Governo recorreu aos “sukuks” (financiamento islâmico) e utilizou os títulos de obrigações verdes (“green bonds”). As “green bonds” são empréstimos mediante a condição de investimento do montante na área ambiental. É comum bancos sediados em países da União Europeia concederem créditos com estes pressupostos. Já os “sukuks” são a versão islâmica das obrigações (“bonds”) e são muito utilizados por instituições financeiras na Ásia Ocidental. A diferença está no facto de a Sharia não permitir a cobrança de juros, por isso, ao invés de juros, o financiador recebe em troca uma parte dos rendimentos gerados pelo ativo no qual se investiu o dinheiro emprestado. O recurso aos “sukuks” e às “green bonds” é uma medida estratégica que pretende contornar a dificuldade de financiamento no mercado internacional, devido à subida das taxas de juro e às baixas classificações das agências de rating e consequente exclusão do Senegal dos mercados internacionais por parte do FMI.
A importância do setor mineiro e a viragem para o petróleo e gás natural
Cerca de 1/3 das exportações do Senegal são minerais como o ouro, os fosfatos e o titânio. Consciente de que o modelo económico do país está desenhado para privilegiar as grandes multinacionais, o Governo está a rever e renegociar as concessões de longo prazo, para obter o controlo dos seus recursos minerais estratégicos e recuperar as receitas fiscais não cobradas. Até ao momento, 71 licenças mineiras (incluindo 14 de ouro) foram revogadas por incumprimento contratual, e as sociedades que não cumpriram com as suas obrigações fiscais estão a ser penalizadas. A revisão do Código Mineiro em curso garante ao Estado uma participação mínima de 10% nas sociedades mineiras, com opção de compra de mais 15% das ações (podendo assim a fatia alcançar os 25%). Os contratos deixarão de ser concessionados por 25 anos como regra, limitando-se as licenças concedidas à duração de 12 anos (com possibilidade de renovação por 10 anos). Esta atitude contrasta com as dos governos anteriores, que assinavam contratos “leoninos” sem qualquer transparência nem sequer a consideração do interesse nacional. O combate à mineração artesanal ilegal, um grave problema ambiental no país, também foi reforçado, prevendo-se penas de prisão de até 5 anos e pesadas multas, juntamente com o confisco a favor do Estado dos minerais ilegalmente extraídos.
Em 2024, foram descobertas importantes reservas de petróleo e gás natural. Esta novidade pode ser uma oportunidade para o país. Ao dotar a empresa estatal Petrosen de capacidade técnica e financeira para investir na prospeção e exploração de hidrocarbonetos, o Governo está a converter o Senegal num produtor destes recursos e a gerar receitas significativas para o erário público, deixando de depender das grandes multinacionais. Em 2025, o PIB cresceu 6,7% (com um crescimento trimestral que alcançou 12,1% no primeiro trimestre e 11,8% no segundo), a taxa mais alta desde 2018. As exportações de bens e serviços aumentaram 29,7% no quarto trimestre de 2025, reduzindo consideravelmente o défice comercial do país. Estes números foram, em larga medida, impulsionados por investimentos no setor dos hidrocarbonetos. O Governo pretende agora pôr fim às importações de gás já em 2026, o que se estima que permitirá ao Senegal poupar anualmente 140 a 277 mil milhões de dólares.
Porém, sabe-se que este impulso económico repentino não será suficiente, e a economia já dá sinais de abrandamento (estima-se que, em 2026, o crescimento do PIB recue para os 2,5%). Também por isso, o Governo mudou a estratégia e pretende acabar com as concessões de longo prazo. Foi anunciada a criação de uma comissão para analisar os contratos petrolíferos e gasíferos assinados pelo Estado. Foram já rescindidos vários contratos de exploração offshore de hidrocarbonetos considerados desfavoráveis. O Governo foi ainda mais longe e prepara-se para nacionalizar, sem custos, o enorme campo de gás de Yakaar-Teranga, que se encontra concessionado à norte-americana Kosmos Energy (a licença expira em julho de 2026). Também pretende aumentar a participação estatal em várias explorações petrolíferas, como aconteceu no campo offshore de Sangomar, onde a empresa pública Petrosen detém agora 18% das ações.
A “revolução” laboral em curso
Os direitos laborais são um tema muito caro aos novos líderes do Senegal, ou não teriam estes políticos de esquerda vindo da luta sindical para o Governo. O Código do Trabalho de 1997 está a ser amplamente revisto. Uma das principais alterações passa pelo reforço dos poderes dos inspetores do trabalho. Não obstante já existirem na lei algumas garantias dos trabalhadores, a impunidade continua a ser a regra no mercado laboral, devido à ausência de fiscalização nos locais de trabalho e à lentidão da justiça. Com a reforma em curso, os inspetores do trabalho passarão a decidir os processos contraordenacionais e a aplicar as coimas sem necessidade de recorrer aos tribunais. O objetivo é as decisões serem mais céleres e eficazes. O reforço das infraestruturas da inspeção do trabalho, e a sua descentralização com vista à sua aproximação dos trabalhadores em todo o território, é outro processo que está em curso. Os trabalhadores senegaleses passarão a ter prioridade na contratação, especialmente nos setores da mineração e hidrocarbonetos, uma medida que terá grande impacto social. Foi traçado como objetivo, a atingir até 2030, que 50% do valor dos projetos de exploração de petróleo e gás seja gerado no país, ou seja, que a mão de obra seja senegalesa e os bens e serviços utilizados (incluindo a tecnologia) sejam também nacionais. Para fiscalizar o cumprimento desta meta, foi criado o Comité Nacional de Acompanhamento do Conteúdo Local (CNSCL). Estas medidas obrigarão as empresas a investir mais na formação profissional e contratação de quadros senegaleses, em vez de os importarem do ocidente e, ao mesmo tempo, darão uma vantagem competitiva à indústria nacional em fase de crescimento.
Foi aumentado significativamente o salário mínimo para os trabalhadores domésticos, o qual se encontrava congelado desde 2009. Esta medida vai beneficiar sobretudo as mulheres senegalesas, que são o grupo etário que mais trabalha no serviço doméstico, e estão frequentemente sujeitas a enormes abusos e exploração. Foi ainda elaborada legislação que visa pôr cobro à situação de precariedade dos seguranças privados. O Governo comprometeu-se a relançar a contratação coletiva e a atualizar as convenções de trabalho existentes, bem como assinar novos acordos em setores ainda não cobertos. Garantiu que não iria esperar pelas greves para negociar com os trabalhadores, prometendo um diálogo constante e sincero com os sindicatos no setor público. A agilização da atribuição das pensões de reforma, a atribuição de um subsídio de habitação para funcionários públicos, a correção de injustiças relativas a várias carreiras da administração pública, reintegração dos funcionários despedidos do Porto de Dakar e do Grande Teatro Nacional, e a inclusão das pessoas com deficiência na administração pública foram também pontos prioritários da agenda do Governo para o trabalho.
A face urbana do país em profunda mudança
O novo Governo senegalês aposta fortemente em programas de habitação pública, uma das necessidades mais urgentes do país. Sabe-se que há um défice habitacional de 500.000 alojamentos (20.000 novos fogos em falta a cada ano), e que o peso das despesas com rendas representa mais de metade do orçamento das famílias. Ao contrário das iniciativas dos Governos anteriores, que apenas prometiam mais casas e geriram o processo da sua atribuição de forma amadora, o novo Governo do Senegal desenhou o projeto “30.000 alojamentos”, a primeira fase de uma ambiciosa estratégia que pretende vir a edificar 500.000 novas habitações em 10 anos. Os novos fogos estarão integrados em polos urbanos, que combinam zonas habitacionais com zonas industriais, equipamentos e serviços públicos de qualidade. São verdadeiros projetos de construção de um tecido urbano fortemente industrial e tecnológico para substituir as velhas cidades herdadas do período colonial, que não satisfazem as necessidades do povo senegalês. As obras já começaram nos projetos piloto “Mbour 4” e “Daga Kholp”, que servirão de modelo aos novos polos urbanos ambicionados. Ao todo, 18 novas cidades serão construídas de raiz em diferentes regiões. Mas talvez o mais comentado tenha sido o projeto “Smart City”, uma iniciativa da commune de Notto Diobasse, na região de Thiès. Este projeto inclui uma nova universidade, um polo tecnológico e industrial, e um “agroparque” focado na agricultura moderna e na transformação agroalimentar.
A concretizarem-se estes planos, acredita-se que se irá aliviar muito a pressão demográfica sobre a capital, baixar significativamente os custos da habitação e dar maior qualidade de vida a milhares de senegaleses. O acesso à habitação social será garantido às famílias independentemente dos seus rendimentos, nomeadamente através de contratos de arrendamento, locação com opção de compra ou simplesmente financiamento bancário ou aquisição a pronto. As rendas sociais serão bastante abaixo do preço praticado pelo mercado, e a aquisição de habitação é de “custos controlados”, sendo que a modalidade de locação com opção de compra vai permitir que uma parte da renda mensal seja investida na futura transferência do direito de propriedade para o inquilino no final do contrato. O processo de candidatura está a ser gerido pela Sociedade Nacional de Habitação a Preço Acessível (SNHLM), uma empresa pública de habitação social. Todo o processo é tramitado através de uma plataforma digital única e existem equipas de fiscalização no terreno. Prevê-se que as chaves das primeiras habitações sejam entregues já em 2026.
Importa ainda referir o Fundo de Garantia para o Acesso à Habitação (FOGALOG), instrumento “fiador” que permite às famílias de baixos rendimentos, especialmente as que trabalham no setor informal, acederem ao crédito bancário para compra de habitação social com juros reduzidos e com uma cobertura do Estado que chega a 80% do valor do empréstimo. Este mecanismo já existia antes, mas o novo Governo reavaliou-o, reforçou significativamente o seu capital e reestruturou as suas regras para aumentar a taxa de cobertura do risco para os bancos e alargar o leque de beneficiários.
No Senegal, apenas as famílias de maiores rendimentos conseguem adquirir habitação própria. Por falta de alternativas, as famílias de classe “média” e baixa residem em habitações sobrelotadas, onde podem coabitar um número elevado de pessoas. Os mais pobres vivem em bairros de lata (bidonvilles) constituídos por barracas feitas de materiais baratos ou reaproveitados, próximas de praias, encostas ou lixeiras, sem acesso a água canalizada, luz ou rede de saneamento. Mesmo nestas condições tão precárias, ainda há senhorios informais (que nem são donos dos terrenos) a cobrar rendas que podem representar um peso significativo no orçamento familiar. Essa realidade dificilmente mudará com as novas medidas anunciadas, mas o arrendamento social poderá, pelo menos, atribuir um teto mais acessível e condigno a uma parte das classes trabalhadoras (classe “média-baixa”).
A saúde e a educação como prioridades absolutas
A saúde, a par da educação, tem sido assumida como prioridade do novo Governo, que aposta na melhoria do acesso aos serviços públicos essenciais e no reforço dos recursos humanos em ambas as áreas. No final de 2025, o Governo anunciou que vai construir 35 novos centros de saúde de proximidade em todo o país. Cerca de 2.500 agentes de saúde serão recrutados para reforçar o sistema. Está em fase de conclusão o Hospital Oncológico de Diamniadio, dedicado ao tratamento do cancro. Ao mesmo tempo, prevê-se o reforço de equipamentos e capacidades técnicas em todo o território. Em 2025, foram entregues 76 novas ambulâncias equipadas, e espera-se o aumento da frota para um total de 122 ambulâncias, num esforço de melhorar drasticamente o serviço de emergência e a cobertura do transporte de doentes no país.
No mesmo ano, foram abertas 2.400 novas salas de aula, que irão substituir abrigos provisórios. Em 2026, juntar-se-ão àquelas mais 2.500 salas de aula, 300 blocos administrativos e 480 blocos sanitários, e a construção ou reabilitação de um total de 400 escolas. Também se anunciou o reforço do quadro de pessoal, com a contratação de mais 2.000 professores para zonas prioritárias e de 500 professores investigadores para o ensino superior. Para além das novas Universidades do Senegal Oriental e de Matam, o ensino superior foi contemplado com uma generosa dotação orçamental para a construção, reabilitação e equipamento de edifícios nas universidades e centros de formação profissional existentes.
O fomento de melhores transportes públicos e infraestruturas modernas
O trânsito da capital e a ausência de transportes públicos eficientes e acessíveis tem sido um problema no dia a dia da população. Os meios de transporte coletivo mais comuns nas cidades são os táxis, as motos-táxis, e diversos tipos de pequenos autocarros informais. Viajar nestes veículos pode ser uma experiência caótica e desconfortável. Diversos inconvenientes somam-se, desde a necessidade de negociar o preço das viagens, ao facto de estarem constantemente sobrelotados ou pararem em qualquer “apeadeiro” no meio da estrada.
O novo Governo está a fazer um investimento massivo em mobilidade urbana e conetividade regional. Para começar, o Bus Rapid Transit (BRT), o primeiro sistema de autocarros 100% elétricos do continente africano, já entrou em funcionamento. São 144 autocarros alimentados a energia solar que servem mais de 300.000 passageiros por dia, numa rede com 18,3 km de extensão entre a baixa de Dakar e 14 communes. Prevê-se que permitam reduzir o tempo estimado de viagem de 90 para 45 minutos e evitem a emissão de 59.000 toneladas de CO2 por ano.
O Comboio Expresso Regional (TER) vai passar a ligar a capital Dakar ao Aeroporto Internacional Blaise Diagne, em Diamniadio (Departamento de Rufisque), encurtando o tempo de viagem de 1h30m (via autocarro) para apenas 45 minutos. A etapa seguinte será a extensão desta linha suburbana desde Dakar até à cidade de Thiès, a terceira maior do Senegal.
Contudo, para que os sistemas de mobilidade BRT e TER funcionem bem, é necessário assegurar uma adequada interface entre diferentes meios de transporte. Por isso, o Governo está também a renovar a antiga e desajustada rede de autocarros urbanos informais, substituindo-a por uma frota de 380 novos autocarros movidos a gás natural. Além disso, foram criadas 700 novas paragens e 13 terminais de autocarros, permitindo-se agora o uso do mesmo passe em todos estes sistemas de transporte público. Os cidadãos de menores rendimentos poderão beneficiar de um passe social com um desconto de 50% no seu valor. Para facilitar a circulação, estão ainda a ser requalificados 30 km de estradas. Muito em breve, viajar de transporte público nas cidades senegalesas será uma experiência muito mais rápida, barata, confortável e segura para os utentes.
No que respeita a outros projetos não relacionados com os anteriormente referidos, está prevista a reabilitação da ligação ferroviária entre Dakar e Kidira, junto à fronteira com o Mali. Este projeto é fundamental para restabelecer a ligação de transporte de mercadorias com o país vizinho. A reabilitação do aeroporto de Ziguinchor (Casamansa) é outro projeto muito importante, porque vai ajudar a quebrar o isolamento geográfico do sul do país.
O ambicioso investimento na proteção do ambiente e na mecanização agrícola
O Senegal é um país com um clima simultaneamente seco e tropical. O norte saheliano pode ser descrito como árido ou semi-árido, ao passo que o sul subequatorial tem características de um clima húmido e tropical. Esta combinação contribui para que o Senegal seja considerado um dos países mais vulneráveis do mundo aos efeitos das alterações climáticas.
Os desafios são enormes, tendo em conta que 95% das terras são cultivadas em regime de sequeiro. Este modelo de cultivo faz com que os agricultores dependam exclusivamente da água das chuvas. As secas ou os simples atrasos das chuvas podem estragar a cultura daquele ano. Apesar de mais de metade da sua população ativa se dedicar ao setor primário, o país ainda é fortemente dependente da importação de alimentos, como o arroz. A título de exemplo, o Senegal é um grande exportador de castanha de caju, mas importa este produto transformado. Ao não ter capacidade para o transformar localmente, o país perde a oportunidade de gerar mais emprego e valor acrescentado.
Para lidar com estes problemas, o Governo pretende tornar a agricultura mais sofisticada e produtiva. Juntamente com o aumento dos apoios diretos aos agricultores (incluindo tratores, ceifeiras ou debulhadoras), e uma estratégia para reduzir a importação de sementes, o Governo vai investir na construção de 28 agropolos e de 30 novas zonas industriais por todo o país. Visa possibilitar a transformação local das culturas tradicionais como o amendoim, o caju ou os cereais, de modo a reduzir a dependência da importação de bens alimentares, aumentar o rendimento dos agricultores, e gerar mais oportunidades de emprego para os jovens e as mulheres. Espera-se que o sucesso da industrialização da agricultura leve à criação de 130.000 empregos diretos e 200.000 indiretos.
Não obstante a difícil situação financeira que o Senegal atravessa, o orçamento do Ministério do Ambiente e Transição Ecológica em 2026 aumentou 136% em relação ao ano anterior, sendo a maior fatia dedicada ao saneamento e resíduos (61%).
O Governo comprometeu-se a reduzir as emissões de metano em 30% até 2030 e lançou o Plano Nacional de Poluentes Climáticos de Curta Duração (SLCP), para melhorar a qualidade do ar e mitigar o aquecimento global.
Há também uma aposta forte na iniciativa pan-africana “Grande Muralha Verde”, que os países do Sahel pretendem erguer para travar o processo de desertificação. Só para este projeto, o Senegal dedicou 22% do orçamento do Ministério do Ambiente para 2026. Esta iniciativa partiu de uma ambiciosa visão de Thomas Sankara, nos anos 80, mas só começou a ser adotada a partir de 2007 pela União Africana. Ao contrário do que o nome sugere, não se pretende simplesmente plantar árvores de forma massiva ao longo de milhares de quilómetros. O objetivo é recuperar milhares de hectares de terras degradadas pela atividade humana e pelo efeito das secas, e garantir a gestão sustentável dos recursos naturais. Embora as intenções dos seus financiadores soem benévolas, as ONG e entidades supragovernamentais que o gerem raramente consultam as comunidades locais ou as envolvem na tomada de decisões, criando um ciclo de dependência externa e de falta de transparência e accountability. Por outro lado, este projeto está muito associado ao chamado “mercado de créditos de carbono”, que permite às empresas poluentes comprarem “créditos” para “neutralizar” a sua pegada ecológica. O problema é que não é assim tão simples quantificar o carbono sequestrado da atmosfera, e é mais fácil plantar florestas de monocultura de crescimento rápido, que não vão contribuir para a biodiversidade nem trazer retorno económico para as populações locais. De uma forma geral, os resultados do projeto têm sido muito fracos, com enormes atrasos na sua implementação e uma taxa de sobrevivência das árvores após dois anos muito reduzida (inferior a 30% e, em alguns casos, de apenas 5%). Além disso, existem alguns casos documentados de corrupção noutros países africanos (por exemplo, a Nigéria). Contudo, o Senegal é apontado como um exemplo de sucesso, devido ao eficaz envolvimento das populações no planeamento e na gestão dos solos, o que aumenta as possibilidades de sustentabilidade a longo prazo. Por outro lado, como no Senegal o solo está menos degradado que nos restantes países do Sahel, a aposta não é na plantação de árvores, mas na delimitação de 500 hectares de terras (cercar as áreas para as proteger do gado), de modo a permitir que as sementes germinem e a vegetação recupere naturalmente, com a ajuda da construção de diques para reter a água no solo.
Em 2024, os esforços do Governo permitiram que o parque nacional Niokolo-Koba fosse retirado da lista da UNESCO de sítios do Património Mundial em perigo, onde se encontrava desde 2007. Este parque, de mais de 9 mil km2 de extensão, abriga mais de 70 espécies de mamíferos e 329 espécies de aves. A conquista alcançada muito se deve ao reforço da vigilância contra a caça furtiva e prospeção ilegal de ouro, assim como à melhoria da gestão dos animais e da qualidade ambiental do parque.
No Senegal, as empresas de exploração mineira são legalmente obrigadas a contribuir com 0,5% do seu volume de negócios para um fundo de conservação da natureza, como forma de compensar o impacto ambiental da sua atividade. Na prática, esse modelo serve o “greenwashing” das empresas mineiras que, em troca de uma pequena percentagem dos seus lucros, podem decidir voluntariamente como “compensar” os efeitos da poluição do meio ambiente. Contudo, tem sido afirmado que o controlo governamental exercido sobre estas empresas é agora mais apertado, e que as contrapartidas exigidas são cada vez maiores. Um exemplo que o Governo considera ter sido bem sucedido é o “Programa Tombo”, da sociedade Petowal (controlada pela australiana Resolute Mining), que criou 2.500 hectares de zonas de conservação para proteger chimpanzés, e apoiou 14 grupos de mulheres na produção de produtos florestais não-lenhosos.
Foram ainda abertos concursos internacionais para a construção de centrais solares com uma capacidade total de 500 MWp (megawatt-pico). O Governo quer atingir a meta de 40% de energia renovável no total da capacidade instalada e assegurar que a energia elétrica chegue às casas de todos os senegaleses até 2029.
A traição de Diomaye e a queda do Governo Sonko
O forte vínculo pessoal que ligava Diomaye e Sonko não impediu que, gradualmente, ambos fossem dando sinais de afastamento e cedo se gerassem rumores de discordâncias em relação ao rumo político a seguir.
O primeiro sinal de alerta foi em Julho de 2025, quando Sonko acusou indiretamente Diomaye de “falha de liderança”, alegando que existia um problema de “falta de autoridade” do Estado. Estas declarações surgem no contexto de ausência do Presidente em constantes visitas oficiais a países ocidentais, como os EUA ou a França, e a países africanos mais pró-ocidentais (como o Gana, a Nigéria e a Costa do Marfim). Sonko sentiu-se abandonado por parte do Presidente, que não o defendia dos ataques da oposição.
Desde que foi eleito, Sonko manteve sempre um discurso firme, coerente e provocatório, recusando a submissão do país aos interesses económicos e financeiros ocidentais.
Em contraste, Diomaye, agia de forma discreta e pragmática, atuando como um porta-voz conciliador nas relações com os diferentes países. Uma das tarefas que assumiu (e na qual, aliás, falhou) foi a tentativa de convencer os governos do Burkina Faso, Mali e Níger a regressar à CEDEAO.
Durante a campanha em que venceu as eleições presidenciais, Diomaye havia-se rodeado de pessoas de fora do PASTEF, criando a Plataforma “Diomaye Président” (composta por muitos independentes e até por ex-adversários políticos). Esta decisão foi criticada por várias figuras do PASTEF, que se viram na necessidade de reafirmar a sua lealdade ao partido. Na altura, as divergências entre Diomaye e Sonko já existiam. Contudo, é possível que o partido não tenha levado a sério o perigo de uma traição se consumar, julgando que esta Plataforma tinha objetivos benignos e temporários, tais como reforçar as hipóteses de o partido vencer as presidenciais, facilitar as negociações com outros partidos, ou criar uma base ampla de consenso nacional.
Em agosto de 2025, Guy Marius Sagna viu mais longe e afirmou que existia um “Presidente legal e um Presidente legítimo” no Senegal, uma declaração que causou alguma polémica. De facto, Diomaye só era Presidente porque Sonko não se pode candidatar, devido à perseguição política do regime. Poucos duvidavam de que era Sonko o líder incontestado do PASTEF e o político mais popular do país.
Em novembro de 2025, Diomaye ressuscitou a adormecida Plataforma “Diomaye Président”, substituindo a coordenadora Aïssatou Mbodj, próxima de Sonko, por Aminata Touré, uma antiga primeira-ministra que não era do PASTEF. Apercebendo-se de que Diomaye se estava, de facto, a autonomizar, mantendo um grupo isolado de apoiantes fiéis e aliados fora da estrutura partidária, Sonko compreendeu que teria de dar uma resposta. Criou a “Aliança Patriótica para o Trabalho e a Ética” (APTE), composta sobretudo por membros do PASTEF. Nenhuma destas facções se converteu em partido político, mas era notório que o partido se estava a dividir em duas tendências distintas.
Em março de 2026, numa reunião com centenas de ativistas e apoiantes, Sonko declarou que “ninguém pode apagar o meu trabalho no PASTEF e, hoje mais do que nunca, reivindico a minha filiação”. Até para os mais desatentos, era já evidente que Diomaye já não era Sonko e Sonko já não era Diomaye.
As condições exigidas pelo FMI para a concessão de um novo empréstimo ao Senegal resultaram na ruptura política definitiva. A exigência de “reformas estruturais” implicaria o corte nas despesas sociais e o aumento de impostos, em troca de o país se amarrar a mais uma dívida de longo prazo, acentuando a sua dependência externa. Diomaye pressionava o Governo para que chegasse a um acordo para um resgate financeiro, mas Sonko rejeitava a renegociação da dívida segundo aqueles termos, considerando que se tratava de uma “vergonha nacional” e que sugeria que o Senegal era “um mau aluno que pediu dinheiro emprestado apenas para o roubar” .
No dia 2 de maio de 2026, perante a tensão política entre os dois poderes, Diomaye terá dito que “enquanto ele [Sonko] for primeiro-ministro, é porque beneficia da minha confiança. Se isso deixar de ser o caso, teremos um novo primeiro-ministro” e que “no dia em que eu não estiver satisfeito, colocarei o Senegal à frente”, sinalizando que o Governo poderia cair em breve.
A ruptura definitiva aconteceria em 22 de maio de 2026, cerca de 20 dias depois daquelas declarações e em plena ronda de negociações com o FMI. Após Sonko se dirigir à Assembleia Nacional e criticar a gestão dos fundos da Presidência, que escapavam à fiscalização dos deputados, afirmou que “o Presidente se enganou” e que ele era um primeiro-ministro que “não obedece cegamente e que não concorda com tudo”.
Estas declarações de Sonko irritaram Diomaye e foram a gota de água que fez com que este demitisse o primeiro-ministro. É possível que Sonko tenha provocado a sua própria demissão para obter o domínio da situação e preparar a resistência a um Presidente que traiu o programa do partido e escapou ao seu controlo.
Diomaye apontou Ahmadou Al Aminou Lo como novo primeiro-ministro. Trata-se de um tecnocrata que já passou pelo Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO) e que certamente irá fazer os possíveis por amarrar o Senegal a mais um acordo humilhante com a burguesia financeira. A cumulação da pasta das Finanças com a da Economia é um passo para a concretização de uma das exigências do FMI (“centralizar a gestão da dívida num único ministério”).
Apesar do esforço dedicado a dividir o PASTEF ao longo de vários meses, Diomaye apenas conseguiu que algumas figuras secundárias do partido aceitassem assumir funções no novo Governo. A maioria dos ministros são tecnocratas e independentes. A cúpula e as bases do partido mantêm-se, assim, fiéis a Sonko.
Após a demissão, Sonko assumiu as funções de deputado e foi eleito presidente da Assembleia Nacional (com apenas uma abstenção e nenhum voto contra), convertendo-se, na prática, no líder da oposição. Recentemente, foi também reeleito líder do PASTEF.
As próximas eleições presidenciais estão previstas para 2029, sendo provável uma disputa direta entre Diomaye e Sonko.
Conclusão
A conquista do poder pelo PASTEF, em 2024, abriu caminho para a esperança num futuro em que as classes trabalhadoras do Senegal estão no centro da política. É evidente o entusiasmo das novas gerações com os discursos que prometem o combate ao neocolonialismo e a construção de uma nova nação, mais livre, soberana e justa.
Contudo, se antes já eram notórias as contradições do Governo Sonko (do greenwashing de alguns projetos ambientais e agroindustriais à inexistência de uma oferta gratuita de habitação pública e à aplicação de um imposto contraproducente sobre o “dinheiro móvel”), a postura centrista e moderada do Presidente Diomaye colocou um firme travão no ímpeto revolucionário e soberanista da esquerda senegalesa.
Mesmo que, nos próximos anos, Ousmane Sonko consiga manter-se à tona e capturar a presidência ao seu antigo comparsa, permanece dúbia a posição oficial do partido em relação à Aliança de Estados do Sahel e à intenção de concretizar, de facto, o rompimento com a velha moeda neocolonial francesa.
Os próximos anos serão decisivos para avaliar se a esquerda senegalesa terá capacidade de quebrar este impasse, manter as bases unidas em torno de um projeto de mudança e cumprir os compromissos assumidos junto do povo, contra os obstáculos do “realismo”, “pragmatismo” e “possibilismo” que alguns espalham pelo caminho para manter a ordem social e a submissão ao imperialismo.

