Portugal // Retiro de surf para genocidas na Ericeira~ 24 min

Por Francisco Ulrike

Mais um Verão começa neste país transformado num parque de diversões para turistas ricos do norte da Europa, tornado agora também num destino de sonho para genocidas das IDF virem descansar dos crimes que cometem na Palestina, no Líbano e no Irão.

E este Verão ia começar com um evento especialmente escabroso na Ericeira: um retiro de surf destinado a genocidas, organizado por um criminoso de guerra confesso. Durante o processo de redacção deste artigo, o criminoso de guerra organizador do retiro anunciou o seu adiamento para uma data a anunciar, como resultado do cancelamento de voos em tel aviv devido ao conflito em curso com o Irão. Como é possível que este – ou outros eventos organizados por este genocida – venha a realizar-se mais tarde, decidimos avançar na mesma com a publicação.

Com eventos como este, Portugal passa de ser um território onde festivais de música electrónica e outros eventos shanti-shanti são frequentados por criminosos de guerra que batem o pé enquanto falam de “paz e amor”, para acolher iniciativas destinadas especificamente a genocidas que querem descansar da realidade monstruosa que elas e eles próprios criaram.

  1. O retiro de surf planeado para a Ericeira
  2. Os crimes e atrocidades de Zuckerman
  3. Demolição total da vila de Khuza’a
  4. A passividade cúmplice das autoridades portuguesas
  5. Sobre adiamentos, cancelamentos e manobras
  6. Como evitar que genocidas organizem eventos como este na tua cidade ou vila

O retiro de surf planeado para a Ericeira

Organizado por Shimon Avi Zuckerman, um colono sionista com nacionalidades israelita e alemã acusado pela Fundação Hind Rajab de uma longa lista de crimes de guerra, o retiro estava previsto decorrer entre 5 e 17 de Julho na «mais encantadora vila de surf da Europa» e é publicitado como sendo um evento que junta «ondas, movimento, workshops, ioga e boas pessoas».

O site oficial do evento organizado por Zuckerman e a sua esposa Michal, também israelita, está disponível integral e exclusivamente em hebraico, tornando claro qual o público alvo deste evento. A Ericeira é apresentada como «um lugar com uma atmosfera de liberdade, ondas perfeitas e festas» a apenas «6 horas de voo directo» de tel aviv, vendida como destino apetecível pelo seu «conforto e limpeza europeus» por oposição às «condições de “Terceiro Mundo”» de outras geografias.

Em www.retreat-elements.com/

Shimon Zuckerman, além de soldado das IDF, também é professor de surf e profissional dos retiros – porque toda a gente sabe que exterminar palestinianos e demolir povoações inteiras combina bem com eventos de paz e mindfullness. Pelas palavras do próprio Shimon:

Já viajei por cerca de 50 países, dei aulas de surf em israel, organizei retiros na Geórgia e no Sri Lanka, e há anos que sonho em criar um retiro de surf que combine desenvolvimento pessoal, boa companhia e ondas. Portanto, estou entusiasmado por isso estar finalmente a acontecer!

Zuckerman no site oficial do retiro

Esperem pelo capítulo sobre os crimes de guerra do Shimon e depois tentem perceber o que é que os conceitos «desenvolvimento pessoal» e «boas pessoas» significarão para este genocida.

A sua esposa, Michal, que adquiriu nacionalidade portuguesa no passado mês de Março, é «professora de dança e movimento» e diz que passou «uma década nos maiores palcos do país», como quem diz «fiz carreira no entretenimento de colonos na Palestina ocupada». A Michal diz que traz «energia, libertação e expressão pessoal através do corpo – é aí que a magia acontece» – à boa moda israelita, usa esta linguagem new age que retira qualquer significado a palavras como «libertação», enquanto o seu marido “liberta” palestinianos transformando-os em corpos mortos.

Que orgulho que é ver gente desta a ser recebida de braços abertos no nosso país. Porque, sim, foram de tal maneira bem recebidos quando cá vieram para «experimentar tudo em primeira mão» que decidiram organizar o retiro cá, e não tiveram problemas em encontrar parceiros que aceitassem colaborar neste evento para genocidas. No website do evento, afirmam trabalhar «com as melhores escolas [de surf] da Ericeira» e que o alojamento será no FLH Hotels da Ericeira, um «luxuoso hotel boutique no centro da cidade – uma combinação perfeita de conforto europeu, design acolhedor e serviço personalizado», estando incluídos na estadia «pequenos-almoços esplêndidos» – daqueles pequenos-almoços fartos que os palestinianos em Gaza nunca viram.

E qual será o custo de cada um dos programas de 6 dias deste retiro que combina aulas de surf, ioga, meditação e workshops “de desenvolvimento”, hip-hop e “escrita intuitiva”, além de concertos e muita festa? Uns módicos 1440€, que não incluem nem as viagens, nem almoços e jantares. Ou seja, sem grandes estragações, a semana de férias com outros genocidas no paraíso do surf português ficará, no mínimo, nuns 2000€. Parece que paga bem ser colono genocida.

Os crimes e atrocidades de Zuckerman

Shimon Avi Zuckerman participou no genocídio em curso na Faixa de Gaza como parte do Batalhão de Engenharia 8219 da 551.ª Brigada do exército israelita, e está acusado pela Fundação Hind Rajab de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.

A acusação da Fundação Hind Rajab, apresentada no ano passado à procuradoria-geral alemã, foi acompanhada de um relatório de 164 páginas que compila uma extensa lista de crimes cometidos por Zuckerman, muitos dos quais foram documentados e partilhados nas redes sociais pelo próprio.

Na sua conta do Instagram, partilhou muitas imagens e vídeos do campo de batalha – não só da sua presença e acções em zonas de combate, mas especificamente da destruição de infraestruturas civis palestinianas. 

A queixa identifica visualmente Zuckerman em vários vídeos e publicações em que  ele faz detonar ou celebra a demolição de edifícios residenciais. As publicações incluem frequentemente cenas explícitas de destruição, acompanhadas de gestos de celebração, como fumar shisha, comemorar com outros soldados ou posar para a câmara antes e depois das explosões. (…)

Os vídeos publicados por Zuckerman mostram-no a desencadear pessoalmente demolições, a comemorar com os camaradas e a documentar a destruição como uma forma de performance. Numa das ocorrências, é visto a posar e a rir enquanto os edifícios desabam atrás dele. Noutra, um videoclipe com temática techno mostra-o a desencadear uma explosão sem usar capacete – o que indica uma situação fora de combate e a ausência de necessidade militar.

em HRF Files Criminal Complaint in Germany Against Dual National IDF Soldier Shimon Avi Zuckerman

Um artigo do Washington Post, publicado em Dezembro de 2024, debruçava-se sobre esta prática abjecta, tão comum nas fileiras das IDF, de os soldados israelitas documentarem e se gabarem abertamente dos seus próprios crimes. Na altura, Shimon Avi Zuckerman, que já havia publicado «vídeos que mostram as detonações de, pelo menos, duas dúzias de edifícios», e que havia sido aconselhado pelas IDF a parar de o fazer, afirmou ao Washington Post:

Gravei estes vídeos para levantar a moral do pessoal em casa, e não me arrependo nem um segundo.

É este o senhor que organiza eventos que combinam «desenvolvimento pessoal» e «boas pessoas».

Demolição total da vila de Khuza’a

Entre as muitas atrocidades perpetradas por Zuckerman na Faixa de Gaza, destaca-se a sua participação na Operação «Nir e Oz», durante a qual a vila de Khuza’a, a leste de Khan Younis, foi totalmente demolida. Antes de 2023, viviam em Khuza’a cerca de 5 mil palestinianos.

A unidade de Zuckerman – o Batalhão de Engenharia 8219 – desempenhou um papel central na destruição desta zona civil, reduzindo a escombros casas, escolas, mesquitas, uma estação hídrica e um edifício comunitário.

em HRF Files Criminal Complaint in Germany Against Dual National IDF Soldier Shimon Avi Zuckerman

Era na vila de Khuza’a que o jovem escritor palestiniano Abdallah Qudaih e a sua família viviam antes do genocídio em curso na Faixa de Gaza. Abdallah falou sobre Khuza’a no primeiro artigo que escreveu para a Guilhotina:

Antes da guerra, vivia em Khuza’a, a leste de Khan Younis. Uma vila agrícola. Sossegada. Constante. O meu pai tinha uma loja de roupa no mercado. Éramos donos de terras agrícolas em diferentes zonas, tínhamos estufas cheias de tomate, campos de trigo e ervilhas. Criávamos ovelhas, galinhas, patos. Antes e depois da escola, eu dava de comer aos animais. Tínhamos um cão que guardava a quinta. Amava-o. Perdemo-lo na guerra.

Não éramos pobres. Não estávamos desesperados. Tínhamos terra, trabalho, dignidade, rotina.

Agora, a casa já não existe.
Os campos estão inacessíveis.
A quinta está destruída.

Abdallah Qudaih em «Sob o Que Resta»

Aproveitamos a deixa para recomendar a leitura dos outros dois artigos de Abdallah Qudaih que entretanto publicámos, que podem encontrar aqui. Podem, além disso, apoiá-lo a sobreviver ao genocídio em curso comprando o seu livro sobre a sua experiência durante os dois primeiros anos do genocídio (informações sobre outras formas de contribuir aqui).

A passividade cúmplice das autoridades portuguesas

Shimon Zuckerman e Michal vieram a Portugal «experimentar tudo em primeira mão» antes de decidirem organizar o retiro na Ericeira. Mas não são, nem de longe nem de perto, os primeiros criminosos de guerra israelitas a fazê-lo.

Em Julho do ano passado, a Fundação Hind Rajab apresentou uma queixa nos tribunais portugueses contra o sniper israelita Dani Adonya Adega, que também participou no genocídio em Gaza e que estava, nessa altura, em Lisboa. Depois disso, a presença de criminosos de guerra israelitas em território português continuou a ser denunciada por utilizadores nas redes sociais (exemplos aqui e aqui). Nós mesmos, num artigo sobre o Anta Gathering e outros festivais frequentados por genocidas, denunciámos a ampla participação de soldados israelitas e apologistas do genocídio em vários festivais (do Anta Gathering ao Insomnia, passando pelo Boom e o River Riders Gathering) – e o Comité de Solidariedade com a Palestina identificou pelo menos 3 membros das IDF que participaram no genocídio em Gaza e estiveram no Boom: Gil Cohavi (Boom, genocídio), Ziv Elkayam (Boom, genocídio) e Amos Iluz (Boom, genocídio).

Perante esta realidade, o Ministério Público e a justiça portuguesa nunca mexeram uma palha – nem contra confessos criminosos de guerra acusados pela Fundação Hind Rajab (como Zuckerman e Dani Adega) nem contra o sem-fim de soldados israelitas que cá vêm a festivais. Se se colocassem à porta do ZNA Gathering, do Insomnia e do Being Gathering, iam encontrá-los aos magotes. Da mesma forma, se as autoridades portuguesas fossem procurar nas longas listas das dezenas de milhares de israelitas a quem foi concedida nacionalidade portuguesa nos últimos anos, não devem ser poucos os que se gabaram nas suas redes sociais dos crimes que cometeram em Gaza e no Líbano – sendo a sua maioria crimes de jurisdição universal e, portanto, passíveis de serem julgados em qualquer tribunal português.

A passividade das autoridades portuguesas quanto a criminosos de guerra e genocidas, de tão sistemática que é, deixa de ser apenas passividade, constituindo cumplicidade activa na manutenção da impunidade de que estes gozam a nível internacional.

Num contraste gritante, no passado dia 18 de Junho, a Unidade Nacional Contraterrorismo da PJ invadiu várias casas de pessoas alegadamente ligadas ao Colectivo pela Libertação da Palestina, no cumprimento de quatro mandados de busca emitidos na sequência de uma investigação do DIAP de Almada, confiscando bens pessoais e levando várias destas pessoas para interrogatório.

Em regimes como o nosso, é mais provável veres a tropa de choque do imperialismo entrar-te pela casa adentro se manifestares solidariedade com a Palestina, do que um juiz emitir um mandado de captura contra um soldado que tenha participado no genocídio em curso na Faixa de Gaza.

E já que falamos de cumplicidade por parte de autoridades judiciais, vale a pena mencionar que a queixa apresentada no ano passado pela Fundação Hind Rajab contra Zuckerman foi indeferida pela Procuradoria-Geral da República Federal da Alemanha este mês de Abril, e o caso foi encerrado sem qualquer investigação. Em reacção a essa decisão, a Fundação Hind Rajab afirmou:

O indeferimento representa um acto deliberado de cumplicidade estatal. Zuckerman não é apenas um suspeito; é um cidadão alemão plenamente consciente dos crimes de que é acusado e que apelou abertamente ao estado israelita para que o protegesse de qualquer processo judicial. (…) A Alemanha não se limita a não agir. É cúmplice do genocídio ao prosseguir a sua política de longa data de defesa de israel e dos seus perpetradores, criando assim um refúgio seguro para cidadãos alemães acusados dos mais graves crimes internacionais.  (…)

Ao aceitar a narrativa que serve os interesses do suspeito como base para o indeferimento do processo, o Ministério Público abdicou do dever do Estado de descobrir a verdade e transformou o Ministério Público Federal de guardião da justiça em escudo para o genocídio. (…)

A falha da Alemanha em processar Zuckerman não é um erro processual e jurídico isolado. É uma falha sistémica que permite a continuação do genocídio.

em Hind Rajab Foundation Files Disciplinary Complaint Against Senior Federal Public Prosecutor for Shielding German Citizen Shimon Zuckerman from Genocide Charges

Esta é a realidade nua e crua: o estado alemão, o estado português, o Reino Unido e a maioria dos estados ocidentais são, todos eles, regimes sionistas – onde cometer genocídio é um direito protegido, e enfrentar sem meias-palavras o supremacismo judaico te pode valer uns bons anos na choldra.

Sobre adiamentos, cancelamentos e manobras

O anúncio do adiamento do retiro na Ericeira foi feito este domingo por Zuckerman nas suas redes sociais, justificado pelo cancelamento de voos em tel aviv devido à guerra imperialista contra o Irão. Efectivamente, procurando nos principais motores de busca, não é possível encontrar voos directos de tel aviv para Lisboa nas datas mencionadas, tornando bastante provável que o anúncio do adiamento seja real. No entanto, como é frequente ver vários tipos de manobras acontecerem em torno de eventos sionistas, vale a pena olhar com mais atenção para alguns aspectos deste retiro.

Imediatamente após a primeira denúncia pública do retiro, publicada pela página Ericeira for Palestine, vários utilizadores das redes sociais comentavam que, ao contactar o FLH Hotels da Ericeira, tinham sido informados de que este havia recusado acolher o evento. Na altura, um utilizador afirmou que tinha falado ao telefone com alguém do hotel que lhe dissera que «recusaram receber o evento a partir do momento em que tiveram conhecimento da situação». Num outro contacto telefónico feito por outra pessoa mais recentemente, o dono do hotel afirmou que a reserva de Zuckerman havia sido cancelada por falta de pagamento algumas semanas antes. 

As coisas já aqui se afiguravam estranhas. Das duas uma: ou o hotel recusou receber os grupos do retiro «a partir do momento em que tiveram conhecimento da situação» ou a reserva foi cancelada há várias semanas por falta de pagamento. Para tirar as dúvidas, tentámos ligar várias vezes para o hotel. Hoje, finalmente, a nossa chamada foi atendida – apenas para fazer valer a velha máxima «das duas, três».

Quem atendeu foi uma funcionária que nos disse que a gerência não estava disponível durante o dia de hoje. Quando foi mencionado o retiro, a resposta foi imediata e peremptória: «Nunca houve nenhuma reserva. Puseram aquilo [as fotos do hotel no site] à nossa revelia.» Mais à frente na conversa, reiterou que «nunca tivemos nada marcado por nenhum grupo para as datas marcadas», sugerindo que poderia ter sido uma manobra dos organizadores do retiro para desviar as atenções e ter alojamento marcado em algum outro local na Ericeira. Se essa seria uma hipótese perfeitamente plausível, também há várias coisas que sugerem que a manobra pode ser outra.

Por um lado, perante elementos do público e jornalistas, o hotel esforçou-se por se desmarcar do retiro desde o primeiro momento, apresentando no entanto histórias diferentes a cada pessoa que lhes ligou a perguntar pelo assunto (ora a reserva nunca existiu, ora foi cancelada quando tiveram conhecimento da situação, ora por falta de pagamento há várias semanas). Por outro, o hotel não publicou nenhum comunicado público a desmarcar-se do retiro, apesar de alegar que os organizadores utilizaram o nome e fotografias do hotel sem qualquer autorização ou comunicação.

Se tivéssemos organizado um programa de preparação física e conferências com o embaixador iraniano e representantes da FPLP, do Hamas e da Frente Polisário, publicitando que a estadia seria num hotel da cadeia FLH Hotels sem qualquer contacto prévio com a mesma, apostamos que a dita cadeia não tardaria nada a desmarcar-se do evento com um comunicado público e a denunciar a utilização indevida de fotografias do hotel. A questão que se impõe é: porque não o faz esta cadeia para um evento organizado por um criminoso de guerra?

Importa aqui sublinhar que já por várias vezes aconteceu circularem notícias que dão a ilusão de uma vitória do movimento pela Palestina – seja o anúncio do cancelamento de eventos ou da participação de israelitas – apenas para provocar a desmobilização da solidariedade, e os eventos poderem depois seguir conforme planeado, ou com pequenos ajustes. Vejam-se apenas dois casos dos últimos dois anos em Portugal:

  • Em Novembro de 2024, o 10.º fórum global da United Nations Alliance of Civilizations, que decorreu no Centro de Congressos do Estoril, anunciou o cancelamento da participação de uma antiga ministra dos negócios estrangeiros israelita – apenas para, após o protesto no local ter sido desconvocado, a participação da ex-ministra prosseguir como planeado. Na altura, o Comité de Solidariedade com a Palestina condenou a organização do fórum por recorrer «a manobras de diversão para ludibriar os activistas em solidariedade com a Palestina».
  • No ano passado, após uma enorme campanha de e-mails e chamadas que exigiam às autoridades locais medidas para impedir o Anta Gathering, também organizado por um israelita que serviu nas IDF durante o genocídio em curso, o festival foi cancelado. Se é verdade que o festival, como planeado, foi efectivamente cancelado, também é verdade que vários artistas no cartaz do Anta acabaram por tocar, nessas mesmas datas, numa festa improvisada num outro local na mesma zona, naquilo que alguns deles chamaram de “Plano B”. Ou seja, apesar de com apenas uma fracção do público inicialmente previsto, o Anta acabou por, de certa maneira, acontecer – apenas num formato mais reduzido e intimista. 

Restringir a acção política a campanhas de e-mails, chamadas e publicações nas redes sociais tem essa limitação: não estarmos na realidade material, no local, a verificar se aquilo que é anunciado se materializa ou não – e a confrontar directamente aquilo a que dizemos opôr-nos.

No que toca ao retiro para genocidas na Ericeira, embora não seja possível ter a certeza, é bastante plausível que tenha sido adiado. O que também é bastante plausível é que o retiro venha a acontecer em algum momento futuro quando voltar a haver voos directos entre a Palestina ocupada e Lisboa – talvez já sem qualquer anúncio público do Zuckerman e da Michal. E, dado tudo o que apresentámos anteriormente, não é descabido considerar a hipótese de que acabem mesmo por ficar alojados na FLH Hotels.

A única maneira de monitorizar tudo isto é as gentes da Ericeira ficarem de olhos e ouvidos bem atentos.

Shimon Avi Zuckerman e a esposa, Michal

Como evitar que genocidas organizem eventos como este na tua cidade ou vila

Se compreendermos que as nossas autoridades são, elas mesmas, sionistas – e cúmplices activas dos genocídios em curso –, não será difícil concluir que enviar e-mails a apelar ao bom-senso dessas mesmas autoridades vale tanto como falar com uma parede.

Salvo raras excepções, o único resultado prático dessas campanhas virtuais é fazer com que o estagiário do ministério x ou y passe umas horas a eliminar e-mails – ou 5 minutos a dar ordem à conta de e-mail para classificar como spam todos os e-mails com as palavras “retiro”, “surf”, “ericeira” ou “zuckerman”. O mesmo vale para as menções à conta de instagram de um ministério, uma procuradoria-geral ou um qualquer governante – igualmente geridas por estagiários, e não por quem toma as decisões.

Mas há maneiras de tornar as nossas cidades e vilas destinos menos apetecíveis para organizar eventos destinados a genocidas. Reparem: Shimon e Michal, antes de organizarem o retiro, vieram a Portugal e visitaram a Ericeira, onde gravaram vários vídeos promocionais em hebraico para mostrar aos colonos na Palestina ocupada o quão espectacular é esta vila de surf a 40 minutos de Lisboa. Agora imaginem que, quando cá estiveram, tinham encontrado espalhados pelas ruas da Ericeira cartazes de figuras como Yahya Sinwar, Abu Obeida, Seyyed Hassan Nasrallah, Qassem Soleimani e Ali Khamenei. Esses vídeos dificilmente teriam sido gravados, e a Ericeira teria sido descartada com destino de sonho.

E se o passado é algo que não se pode alterar, também é verdade que o futuro é um livro aberto cheio de páginas por escrever. Supondo que o retiro vai mesmo acabar por acontecer em algum momento dos próximos dois meses, imaginem que os genocidas amantes do surf chegam à Ericeira e encontram, em cada rua e ruela, cartazes dos líderes das forças da resistência que o regime sionista tão afincadamente tentou obliterar da face da terra com bombas poderosíssimas, demolições de aldeias, vilas e cidades, e massacres ininterruptos nos quais se contam já, em três anos, centenas de milhares de mártires.

Na verdade, na Ericeira e em qualquer outro lugar, não é preciso esperar por um evento para genocidas ser organizado para decorarmos as paredes e muros com aquilo que os sionistas mais odeiam. Fazê-lo é a melhor vacina contra a tua cidade ou vila se tornar um destino de sonho para genocidas. Veja-se como a contínua presença de cartazes e autocolantes pró-resistência em Coimbra levou a imprensa sionista a apresentar a cidade, em múltiplas ocasiões, como um perigoso antro de “anti-semitismo”. Melhor publicidade para manter genocidas afastados das nossas comunidades não pode haver.

Bem, na verdade, até pode. Se a reacção a estas coisas saísse da virtualidade – dos e-mails, das publicações em redes sociais, das menções em comentários furiosos, e dos longos artigos bem fundamentados – e se concretizasse na realidade material, se os genocidas fossem confrontados cara a cara, mesmo sem violência física, se lhes negássemos essa “paz de espírito” que procuram, rapidamente deixariam de ver Portugal como um bom sítio para recuperar da sua participação nos genocídios em curso.

Tudo isto, claro, admitindo que não estamos dispostos a abandonar os nossos brandos costumes. Se, por cá, acontecesse aos israelitas aquilo que lhes acontece na Tailândia ou na Grécia, o Zuckerman certamente não teria apresentado Portugal como «um dos países mais seguros do mundo.

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