River Riders, sionismo e cumplicidade no genocídio na Faixa de Gaza~ 22 min

Por Francisco Ulrike
Não estava nos nossos planos gastar o nosso latim com este festival sobre o qual já escrevemos no ano passado – e, se escrevêssemos sobre todos os festivais sionistas que acontecem em Portugal, não faríamos outra coisa. Contudo, como tem havido uma campanha concertada para lavar a imagem do River Riders Gathering, decidimos estruturar melhor a coisa e partilhar aqui, para que qualquer pessoa possa aceder ao contraditório e chegar às suas próprias conclusões.
Recapitulemos então alguns pontos importantes que deixam evidentes várias problemáticas graves em torno deste festival, que está previsto ter lugar na Zona de Lazer da Volta da Lomba, no concelho de Arganil, entre 30 de Julho e 2 de Agosto.
1. Saar Alperovich, sionismo e supremacismo judaico
A figura no centro deste festival é Saar Alperovich, um israelita sionista. Para a edição deste ano, foi montada uma equipa multicultural para lavar a cara ao projecto, mas o ano passado claramente não havia dúvidas: Saar era o organizador, com o seu número pessoal (israelita) a ser fornecido como contacto oficial do festival. As posições dele são públicas e podem ser consultadas no seu perfil de facebook.
Saar Alperovich, apesar de expressar críticas ao Netanyahu, defende a existência do “estado de israel” ou, por outras palavras, do projecto colonial sionista – um “estado” responsável pela expulsão de 700 mil palestinianos e destruição de centenas de aldeias e cidades palestinianas durante a Nakba de 1948, e responsável por crimes diários contra os palestinianos desde então. Se Saar critica o Netanyahu, é porque acha que o que ele está a fazer é mau para os colonos judeus e para a continuidade da existência da sua “pátria” em terra palestiniana. Dificilmente encontraríamos melhor exemplo do que é o supremacismo judaico: ser-se contra Netanyahu por percepcionar que as suas acções vão contra os interesses dos colonos judeus na Palestina, e por ser alvo de umas acusações de corrupção – e não por Netanyahu liderar o processo de obliteração da Faixa de Gaza e de extermínio do povo palestiniano, um processo apoiado pela esmagadora maioria da população israelita, nem por achar que deve ser finalmente concedido aos palestinianos o direito ao retorno às terras que lhes foram roubadas.
Isto não é um comentário tirado do cu, é produto de termos perdido horas a ler as barbaridades que o Saar publica no seu próprio perfil – seleccionámos e publicámos algumas delas o ano passado no artigo sobre o Anta Gathering e o rol de eventos para genocidas que acontecem por cá.
2. Agente da hasbara israelita
Nas suas redes sociais, Saar também amplificou a hasbara (propaganda) israelita sobre o 7 de Outubro, que serviu para fabricar consentimento a nível internacional para o genocídio em curso na Faixa de Gaza, e conteúdo que apresenta a resistência palestiniana como “terroristas”, quando o direito internacional reconhece claramente o direito à resistência armada contra a ocupação colonial.
Se tudo isto não é problemático para a tal “equipa multicultural” que é agora apresentada como organizadora do festival, então isso diz tudo sobre essa equipa – sobre a “paz e amor” que tanto apregoam, e sobre a “construção de pontes” que normaliza a ocupação, o apartheid e o genocídio.
3. As conexões sionistas do River Riders 2025
O River Riders não acontece no vácuo – é apenas um entre muitos festivais organizados por sionistas em Portugal e que recebem de braços abertos soldados das IDF, alguns deles criminosos de guerra confessos. Há, por exemplo, um par de ligações directas entre o River Riders e o Anta Gathering, que no ano passado foi organizado pelos irmãos Bickel:
- um deles, Shahar Pierre Bickel, voltou à Palestina no início do genocídio em curso para servir nas IDF na frente libanesa e, em Maio de 2025, promoveu uma festa na Palestina ocupada que celebrou a Nakba como “a independência de israel”;
- o outro irmão, Dean Bickel, com o nome artístico BickeloZ, esteve no alinhamento do River Riders do ano passado;
- ao todo, foram pelo menos cinco artistas israelitas no alinhamento do River Riders 2025, entre eles Maiky – que estava no alinhamento do Anta Gathering e acabou por tocar na festa improvisada que a malta do Anta fez na mesma, apesar do cancelamento oficial do festival; Maiky actuou várias vezes nos palcos israelitas em 2024/2025, em pleno genocídio na Faixa de Gaza, incluindo na “celebração da independência” organizada pela produtora israelita Fusion Culture e promovida por Shahar Bickel.
E ainda têm o descaramento de pedir para não associar o River Riders ao sionismo!
4. Genocidas no cartaz do River Riders 2026
No programa da edição deste ano do River Riders encontrava-se Gilad Sheffer, um israelita ligado às IDF através da preparação de programas de formação de yoga para soldados, numa participação clara no complexo militar do regime sionista. O festival, entretanto, anunciou a remoção do genocida do programa, mas fê-lo de maneira muito peculiar.
Em resposta a um e-mail do Comité de Solidariedade com a Palestina a propósito da participação de Gilad Sheffer, que nos foi também enviado em CC, a organização do River Riders afirma que «tomámos a decisão de o remover do nosso programa», explicando que o fizeram «não em submissão a uma exigência, mas porque é coerente com os valores que estão no centro deste encontro — que este espaço não carregue quaisquer ligações institucionais a estruturas militares ou a conflitos de qualquer natureza, em qualquer parte do mundo.» Nessa resposta, também afirmam já ter informado o próprio Gilad. O curioso é a forma como informaram o público – numa simples story no instagram, que já nem sequer está disponível, que dizia apenas:
Este ano, o workshop de yoga passa a ser conduzido por Tslil Nachshonm, que sucede a Gilad Sheffer, já não integrado no nosso programa.
O River Riders nasceu para unir pessoas – não bandeiras, instituições ou causas. Continuamos, sempre, a escolher construir pontes em vez de muros, e a paz que une em vez do confronto que divide.
Os muros de que falam são comentários, stories ou publicações no instagram, claro – e não as centenas de quilómetros de muros e vedações com tecnologia de ponta que cercam e controlam a população palestiniana da Cisjordânia.

Porque é que esta gente fala de construir pontes e preocupar-se com a paz e depois, quando cancelam um artista israelita e abertamente genocida, nem sequer anunciam explicitamente a razão que levou à decisão? Custava assim tanto usar as palavras “Gaza”, “genocídio” ou “IDF” numa story com um tempo de vida de meras 24 horas?
O padrão é o mesmo em todo o lado – todas as acusações recebem respostas floreadas, com um discurso cuidado e politicamente correcto, mas que nada diz. O que nunca fazem é posicionar-se aberta e claramente contra o genocídio em Gaza e contra os crimes perpetrados diariamente pelas forças israelitas no resto da Palestina, da Cisjordânia aos territórios de 48. Nunca defendem o fim do projecto colonial sionista e a devolução das terras roubadas aos milhões de refugiados em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria, na Jordânia e pelo mundo fora.
De qualquer das formas, a participação de sionistas no River Riders não se resumia a Gilad Sheffer – o cartaz deste ano inclui vários nomes que saltam à vista:
- Gili Golomb, DJ israelita e esposa de Saar Alperovich; à excepção do River Riders e de uma actuação privada nos EUA, todas as actuações que tem marcadas até Setembro são na Palestina ocupada (ou “israel”, como lhe chamam);
- Nadav Dagon, músico presumivelmente israelita que actuou na Palestina ocupada durante o genocídio em curso;
- Maisha, DJ israelita que actua regularmente na Palestina ocupada;
- Noga, DJ israelita que actua regularmente na Palestina ocupada;
- Pettra, DJ israelita que actua regularmente na Palestina ocupada;
- Ori Kadosh, DJ israelita
Merece ainda menção o DJ KobiKo (também conhecido como kobi aviv), que reside no centro de Portugal e que continua a ter uma casa no colonato de Tziv’on, no norte da Palestina ocupada, que recentemente colocou a arrendar no seu perfil de facebook! Escusado será dizer que a casa deste DJ da paz e do amor, construída em terras roubadas a palestinianos, continua a ser fonte de rendimento para este colono israelita que agora vive entre nós e toca nas nossas festas onde se fala de “harmonia” e “construir pontes”.
E a quem não prestar muita atenção à realidade no terreno na Palestina, importa relembrar que a esmagadora maioria dos colonos judeus na Palestina apoiam o extermínio dos palestinianos e que, por isso, posições pró-Palestina são estigmatizadas e quem ousa expressá-las é ostracizado. Não sabemos quais são exactamente as posições de cada um destes artistas, mas sabemos que quem actua nos palcos israelitas são artistas que não expressam qualquer solidariedade com a Palestina – ou não seriam convidados para evento nenhum. Quem já ouviu entrevistas a israelitas anti-sionistas, que representam uma fracção ultra-minoritária da sociedade israelita, sabe do que estamos a falar. Da mesma forma, quem sobe aos palcos israelitas actua, invariavelmente, para criminosos de guerra que estão de férias das suas campanhas genocidas em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano.
Claro que, para a equipa organizadora do festival e para os seus acólitos, que tanto gostam de usar palavras suaves e floreadas quando estão a falar do extermínio do povo palestiniano, nada disto deve ser muito problemático. E ainda vêm com a lengalenga de que estamos a julgar estas pessoas por causa da sua nacionalidade.
Andam aí com pezinhos de lã a tentar construir uma imagem de neutralidade – mas não há neutralidade perante a injustiça e a opressão. Quanto às origens das pessoas envolvidas na organização, essas pouco importam – o que importa são as acções e posições dessas pessoas.
5. A equipa organizadora
Segundo os próprios, a equipa organizadora inclui, além de Saar, duas pessoas iranianas, uma palestiniana, duas portuguesas e três do norte da Europa. A informação é apresentada como prova do carácter multicultural do festival, e como escudo contra qualquer crítica ao sionismo do Saar, fundador do festival.
No entanto, lendo o esclarecimento enviado à Guilhotina e ao Comité de Solidariedade com a Palestina, sabe-se pouco sobre essas pessoas além da sua nacionalidade. Os organizadores criticam as denúncias do festival alegando que se baseiam na nacionalidade do seu fundador, mas apresentam uma lista de nacionalidades como se fosse prova do que quer que seja.
5.1 Os iranianos
Por exemplo, quem são essas duas pessoas iranianas? Se forem daquelas personagens reaças tão características das diásporas, que andaram nas concentrações em que bandeiras monárquicas iranianas ondularam ao vento ao lado de bandeiras israelitas e cartazes que pediam a Trump uma intervenção norte-americana contra o Irão, ou que andaram activamente a amplificar a propaganda imperialista contra a República Islâmica do Irão, então não servem de prova de nenhuma “paz” nem “união” na multiculturalidade. A única informação divulgada pelos organizadores sobre estas duas pessoas é que “fizeram eventos de caridade” para juntar fundos para Gaza – infelizmente, tal não é incompatível com as possibilidades acima referidas, tendo em conta a quantidade de malta (tuga, até) que se diz pró-Palestina e andou a propagar as narrativas anti-Irão.
Basta visitar os perfis destes iranianos para concluir que pelo menos um deles confirma as nossas suspeitas. Soheil Mousavi não só divulgou no seu perfil de instagram uma concentração anti-República Islâmica do Irão em que figura a antiga bandeira monárquica do Irão e um apela ao regresso da dinastia Pahlavista, como aparece numa reportagem em que apresenta uma visão obscurantista do Irão, segundo ele um regime fundamentalista e obcecado com a guerra que indoutrina crianças. Soheil Mousavi assume-se como apoiante de Reza Pahlavi, filho do Xá instalado como monarca absoluto pelo golpe patrocinado pelos serviços secretos britânicos e norte-americanos em 1953, e deposto pela Revolução Islâmica de 1979 – e tem o desplante de afirmar que «quem começou esta guerra foi o Irão, o governo do Irão», referindo-se à actual guerra iniciada pelos EUA e israel contra o Irão no dia 28 de Fevereiro, e que «as acções que eles [o “regime”] fizeram nos últimos meses é que começaram esta guerra».
Não haveria melhor exemplo de como as diásporas reaccionárias são um instrumento fundamental para o Império fabricar consentimento para as suas guerras de agressão pelo mundo fora, e para depois branquear os seus crimes. A reportagem é divulgada orgulhosamente pelo próprio no seu perfil.
Soheil Mousavi, além de organizador, vai também actuar no River Riders sob o nome artístico Deioces.
5.2 Caroline Lethô
Uma das organizadoras portuguesas do River Riders é Caroline Lethô, uma DJ e produtora cujos posicionamentos relativamente à Palestina são interessantes de analisar. Lethô é apresentada como uma das estrelas da equipa pela sua participação em activismo pró-Palestina – pois esteve envolvida na Liberation Station, um evento de música para recolher fundos para Gaza.
Vejamos então o currículo da Caroline no activismo pró-Palestina.
Em Setembro do ano passado, Lethô posicionou-se publicamente sobre os eventos em curso na Palestina. Nessa altura, Lethô vinha sendo pressionada devido à sua participação num evento da Hör em 2024, com apelos a que retirasse do ar o vídeo do seu set na Hör, uma plataforma de música sediada em Berlim e fundada pelos israelitas Ori Itshaky e Doron Charly Mastey. Logo no início do genocídio, a Hör ficou conhecida por silenciar a solidariedade com a Palestina nos seus eventos – os primeiros casos remontam a Novembro de 2023, quando foi pedido a um artista em Copenhaga que removesse o seu keffiyeh, e uma actuação em Berlim foi interrompida a meio porque o DJ trazia vestida uma t-shirt que dizia “Palestina” em árabe.
Para provar o seu posicionamento pró-Palestina face à pressão que enfrentava, Lethô aproveitou estar no alinhamento da Liberation Station e fez uma publicação no instagram que inclui uma foto do seu cão com um keffyieh e outra de si própria com um keffiyeh a tapar-lhe parte da cara. As fotos vinham acompanhadas de um texto sobre as “polémicas” – e, num texto que supostamente prova o seu apoio à Palestina, Lethô consegue a proeza de não usar as palavras “Palestina” ou “Gaza” uma única vez:
Nunca concordei com a ideia de que preciso de me pronunciar politicamente nas redes sociais. (…)
Não é a primeira vez que sinto pressão externa para me mostrar de formas com as quais não me sinto verdadeiramente à vontade. Dito isto, estou sempre aberta a debates saudáveis com qualquer pessoa que dedique tempo e espaço para perguntar sobre a minha perspectiva — sabendo que podem coexistir várias opiniões na mesma barraca.
Uma coisa que sei com certeza é que a cultura do ódio e do julgamento está (por si só ou não) a destruir a nossa humanidade e a nossas formas de tolerância.
Caroline Lethô após dois anos de genocídio
Aparentemente, para ela, aquilo que está a destruir a nossa humanidade é “a cultura do ódio e do julgamento”. Após dois anos de pura barbárie transmitida diariamente para os ecrãs de todo o mundo, a Caroline ainda achava que o genocídio e a colaboração com sionistas eram questões sobre as quais pode haver diversas opiniões válidas. Vendo onde ela está hoje, não surpreende. Lethô continua a sua “prosa pró-Palestina” criticando os “boicotes extremistas”.
Faço esta declaração agora porque amanhã vou actuar num evento de angariação de fundos para ajudar famílias palestinianas (…) Tem havido muitos julgamentos vindos de diferentes lados, sobretudo de movimentos de boicote mais extremistas que parecem acreditar que a cultura do cancelamento é a única solução. Como disse… podem coexistir várias opiniões na mesma barraca
Também fui alvo de críticas devido à minha transmissão na HÖR em março de 2024 — sei que a HÖR suscita opiniões contraditórias — algumas pessoas adoram-na, outras criticam-na.
Caroline Lethô após dois anos de genocídio
Lethô diz que a Hör provoca «opiniões contraditórias», mas quem a lê não recebe nenhuma pista sobre o que motiva as críticas. E vai mais longe: afirma sentir-se «orgulhosa» da sua participação e que «estou a dedicar algum tempo a decidir o que fazer com o meu vídeo da HÖR. Enquanto isso, continuo a ouvir e a aprender.»
Na conclusão, provavelmente para evitar ser achincalhada por um texto tão absurdo, afirma ser «contra todas as formas de ocupação, apartheid e violência», terminando o texto com um «Stop the Genocide» seguido de uma melância – aquele símbolo que dá acesso ao estatuto de “pró-Palestina” na era do activismo performático.
No início do mês passado, a Hör foi vendida pelos seus donos israelitas à 99Solutions, uma empresa de serviços musicais e investimentos, após uma campanha sustentada que causou pesadas perdas à plataforma, com inúmeros artistas a juntarem-se ao boicote e vários a retirarem os vídeos das suas anteriores actuações na Hör. O set de Caroline Lethô na Hör em Março de 2024 continua disponível até hoje.
Por outro lado, a actuação de Lethô na Liberation Station – e a publicação acima referida – continuam a ser invocadas como credenciais inquestionáveis do seu apoio à causa palestiniana.

Na verdade, o que isto mostra é como certas iniciativas organizadas com o intuito de apoiar a Palestina acabam por ser usadas por figuras como Lethô para construírem uma imagem pública pró-Palestina – que depois usam para escudar iniciativas que envolvem sionistas, como é o caso do River Riders Gathering. Na mesma lógica, quando a Flotilha da Liberdade permitiu a participação do Boom Festival na mais recente flotilha para Gaza, serviu para limpar a imagem de um festival que em todas as edições recebe um grande número de israelitas, incluindo criminosos de guerra confessos. Lições para o futuro, camaradas.

Caroline Lethô faz parte da organização, vai actuar e está a promover activamente o River Riders nas suas redes sociais.
5.3 Identidades e colaboracionismo
Como se pode ver, as identidades e aparências, por si só, de pouco ou nada valem – e isso é válido até para o palestiniano que faz parte da equipa. Infelizmente, ser palestiniano não serve como prova de nada – não faltam exemplos de palestinianos que espalham propaganda contra a resistência palestiniana, reúnem com altos cargos da Autoridade Palestiniana e legitimam esta entidade colaboracionista que prende e mata palestinianos na Cisjordânia tal como as forças da ocupação. Os tristes exemplos encontram-se tanto em palestinianos filhos da diáspora (como Rima Hassan ou o DJ Khaled) como em palestinianos nascidos em Gaza (como Motaz Azaiza ou Mosab Hassan Yousef).
Portanto o que aqui está em causa não é de onde é exactamente cada pessoa, mas quais as suas posições. Defendem a existência do projecto colonial sionista na Palestina ocupada, também conhecido como “estado de israel”? Condenam a resistência palestiniana? Espalham propaganda contra o Eixo da Resistência, que aglutina as únicas forças que confrontam materialmente os perpetradores do genocídio em curso na Faixa de Gaza? Se, além de fazerem parte de um festival fundado por um sionista, responderem afirmativamente a todas estas perguntas, então o apelo ao boicote fica ainda mais justificado.
Quanto a nós, a equipa organizadora até podia ser maioritariamente da Cochinchina – se defendesse a existência do regime que está a perpetrar os genocídios em curso em Gaza e no Sul do Líbano, manteríamos a posição de que devem ser boicotados. Ponto final.
6. Quais as medidas do festival para evitar a participação de criminosos de guerra das IDF?
Não é preciso ser-se um génio para perceber que um festival fundado por um israelita e com vários DJs israelitas no alinhamento vai, invariavelmente, chamar público israelita.
Vivemos um momento em que a maioria dos festivais de música electrónica em Portugal conta com uma participação expressiva de israelitas e com a presença documentada de soldados das IDF que participaram no genocídio em Gaza – como por exemplo no Boom Festival 2025. A triste realidade é que Portugal se tornou um destino para onde criminosos de guerra israelitas vêm desanuviar das atrocidades que eles próprios cometem contra civis indefesos em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano.
Neste contexto, há perguntas que devem ser feitas a qualquer festival que afirme professar os valores da “paz” e da “união”. Neste caso, no e-mail que nos foi enviado, a equipa organizadora do River Riders Gathering afirma que são «profundamente contra a guerra, a ocupação e qualquer forma de violência deliberada sobre civis – incluindo o que está a acontecer em Gaza» e que estão comprometidos com o festival não ter «quaisquer ligações institucionais a estruturas militares ou a conflitos de qualquer natureza, em qualquer parte do mundo».
A formulação, como habitual, é cuidada – especialmente após a remoção de Gilad Sheffer, é difícil argumentar que o festival tenha uma “ligação institucional” às IDF. As questões que se impõem, contudo, são outras:
Os organizadores vão fazer algo para impedir que este seja mais um festival onde criminosos de guerra vêm curtir o Verão?
Vão ter algum mecanismo para impedir a entrada no festival de israelitas que serviram nas IDF durante o genocídio em curso?
Vão ter alguém a verificar os perfis pessoais dos israelitas que aí chegarem, para ver se eles se gabaram publicamente dos crimes que cometeram em Gaza e no Líbano?
Se não, o que esta “equipa multicultural” está a criar é um espaço para genocidas virem descansar da sórdida realidade que eles próprios criam, enquanto batem o pé e falam de paz e amor – e hasteiam bandeiras israelitas nos acampamentos, exibindo orgulhosamente a sua pertença ao regime que ocupa a Palestina, como aconteceu no fim-de-semana passado no ZNA Gathering.

7. Para não ser acusado, basta não ser cúmplice
No tal e-mail, a equipa organizadora pede «que a nossa imagem seja reposta das acusações que, como aqui demonstrámos, são infundadas. (…) Meios como a Guilhotina amplificaram estas narrativas sem verificação dos factos.»
Pois os factos estão aí, com todas as fontes, para toda a gente poder ver com os seus próprios olhos e tirar as suas próprias conclusões.
Sionistas apologistas do genocídio em curso não são perseguidos por serem israelitas, são perseguidos por defenderem a existência de um projecto genocida de ocupação colonial e apartheid. As acusações não são infundadas, e as palavras são escolhidas cuidadosa e deliberadamente – pois as coisas devem ser chamadas pelos seus nomes. “Sionista” é alguém que defende a existência do estado de israel – um regime sionista colonial assente no supremacismo judaico, em que colonos judeus têm o direito de roubar a terra à população nativa palestiniana. “Genocida” é alguém que participa, apoia ou branquela o genocídio em curso. “Colaboracionistas” e “normalizadores” são pessoas que propagam as narrativas israelitas, querem a normalização do projecto sionista ou apoiam a Autoridade Palestiniana.
Se não querem ser alvo de acusações e campanhas de boicote, os israelitas que vivem na tuga têm uma boa solução: reconhecer que o principal factor aglutinador da sua identidade “israelita” é os seus pais e avós terem ido para a Palestina roubar a terra aos palestinianos.
Condenem publicamente o genocídio em Gaza e o regime sionista de ocupação da Palestina. Afirmem publicamente que o estado de israel não tem direito a existir. Defendam o direito do povo palestiniano ao retorno a todas as terras que lhes foram roubadas desde o início da colonização judaica da Palestina. Tornem-se vozes activas no apoio aos movimentos de resistência anticolonial na Palestina, no Líbano e em toda a Ásia Ocidental.
Se o fizerem, ninguém vos vai acusar de serem sionistas ou cúmplices no genocídio em curso, nem serão alvo de nenhum boicote – a não ser dos sionistas, claro.

