O genocídio em Gaza, os Epstein Files e a normalização da barbárie~ 10 min

Por Francisco Ulrike
Mais de 6 meses se passaram desde a publicação dos Epstein Files – sem que se tenham registado quaisquer revoltas ou convulsões sociais no Ocidente. Noutra época, aquilo que foi revelado nesses documentos, ainda que fortemente censurados, teria sido suficiente para fazer colapsar regimes inteiros.
Apesar de trágico, não é surpreendente. Afinal, o genocídio na Faixa de Gaza continua a avançar de forma implacável após quase 3 anos, sem que tenham sido impostos quaisquer custos às elites ocidentais. E é precisamente pela normalização do genocídio que algo tão escabroso como os Epstein Files não produz quaisquer consequências para as nossas elites – expostas como totalmente depravadas, muito além do que os mais lunáticos teoristas da conspiração poderiam ter imaginado. Um vídeo da uncivilized media, que descobrimos há dias, explica-o de forma sublime.
Na Era do Genocídio, a contínua exposição à barbárie, em níveis que até há poucos anos seriam impensáveis, dessensibilizou-nos. Como afirma a uncivilized, «ao sermos repetidamente expostos ao impensável, o próprio impensável torna-se familiar.»

Para responder à pergunta «Porque é que os Epstein Files não provocaram uma revolução?», este vídeo sistematiza a guerra psicológica que o Império trava contra todos e todas nós, as suas manhas e os seus objectivos sinistros – já em grande medida atingidos, se considerarmos como, nos últimos seis meses, a guerra contra o Irão e a campanha genocida no Sul do Líbano foram recebidas com total indiferença ou simples desconhecimento por sociedades como a nossa.
Estes documentos [os Epstein Files] surgem numa sociedade que já foi levada muito além dos seus limites anteriores, e nem mesmo o testemunho escrito mais perturbador consegue igualar o impacto daquilo que as próprias pessoas viram e ouviram. (…)
Não é exagero afirmar que o genocídio em Gaza mudou o mundo para sempre, tanto a nível material como a nível psicológico.
uncivilized — Why the Epstein Files Didn’t Start a Revolution
Recomendamos que tirem meia hora para ver e ouvir este trabalho que toca em várias questões que certamente afligem quem, após 3 anos, continua a escolher não fechar os olhos à barbárie. Ao analisar racionalmente e dar sentido a pensamentos e sentimentos que certamente também já experienciaram (mas não necessariamente processaram), este vídeo pode ajudar a lidar com a profusão de emoções que nos são provocadas por vermos o genocídio continuar enquanto as nossas sociedades continuam como se nada se passasse.
Para quem não compreender inglês, traduzimos alguns excertos que nos parecem particularmente importantes.
Com o passar do tempo, os horrores que israel impõe sobre Gaza intensificaram-se — mas a mobilização de massas não. (…)
Um mundo que não conseguiu impedir o genocídio em Gaza, e não conseguiu fazer justiça aos poderosos ligados a Epstein, foi o que abriu caminho para o que está a acontecer agora — onde os povos do Irão, do Líbano e da Palestina estão a sofrer níveis de selvajaria que nos deixavam abalados, em tempos, quando a eles assistíamos em Gaza. (…)
O que Jeffrey Epstein construiu naquela ilha, naquela casa e naquele rancho não eram anomalias, eram versões concentradas da forma como o poder já funciona — espaços onde as regras nem sequer se aplicam. Mesmo quando isto é exposto a esta escala, nada se altera.
O que estamos a viver colectivamente é uma guerra contra a verdade, a justiça e a decência humana básica. Estamos a ser arrastados para a aceitação da barbárie, para a normalização da falta de moralidade no poder. Tentam constantemente sobrecarregar-nos com níveis crescentes de violência para que, de alguma forma, possamos vir a aceitá-la um dia. Mas é nosso dever e nosso imperativo moral resistir a isso, mesmo que seja apenas dentro de nós próprios — todos os dias.
uncivilized — Why the Epstein Files Didn’t Start a Revolution
A normalização da barbárie, como sistematiza a uncivilized, é um processo mental colectivo que acarreta não só pesadas consequências psicológicas para todas e todos nós enquanto indivíduos, mas também grandes riscos para as nossas sociedades e para a Humanidade como um todo – como, aliás, vimos a alertar desde Janeiro de 2024.
A dessensibilização que foi forçada sobre nós é assustadora – basta tentarmos comparar as nossas próprias reacções a um vídeo de Gaza nos primeiros meses do genocídio com as reacções que hoje em dia provocam em nós vídeos do Líbano, Irão ou Iraque. Deste lado, onde não apenas consumimos notícias da Ásia Ocidental, mas tentamos proporcionar uma cobertura jornalística destes eventos em português, há todo um rol de outras perguntas que nos ocupa a mente:
Como evitar que o nosso trabalho contribua para essa normalização e banalização da barbárie? Após três anos em que o genocídio passou a enunciar-se no plural, como é que é suposto encontrar palavras que façam jus à dimensão da barbárie que os povos palestiniano e libanês enfrentam diariamente?
Qual o sentido de fazer jornalismo hoje? O jornalismo (o verdadeiro jornalismo, não a propaganda dos “jornalistas” ao serviço do Império) tem como objectivo não apenas informar o público sobre este ou aquele tema, mas também provocar uma reacção do público ou das instituições relativamente a esses mesmos temas. Contudo, vivemos um momento histórico em que as massas progressistas do Ocidente se enclausuraram a si mesmas no modelo de activismo do século XXI, cuja incapacidade de produzir resultados tangíveis está mais que provada, e os nossos governantes admitem sem vergonha não querer saber da opinião pública para coisa nenhuma.
Neste contexto, qualquer cobertura jornalística dos eventos em Gaza e na Ásia Ocidental perde-se no ininterrupto fluxo de informação e acaba por contribuir, mesmo que inadvertidamente, para a banalização da barbárie.


Ao longo dos últimos 3 anos, embora a publicação de artigos aqui no site tenha sido mais irregular, acompanhámos diariamente no nosso canal de telegram os eventos em Gaza e na Ásia Ocidental. A realidade é que, mesmo num momento em que supostamente estão em vigor vários “cessar-fogos”, poderíamos todos os dias fazer 10 publicações só sobre Gaza (ou só sobre o Líbano) e estas não seriam suficientes para transmitir uma ideia remotamente completa do que os povos destas duas geografias enfrentam diariamente. E, sem acção – directa, material e revolucionária –, essa informação serve para pouco mais do que normalizar essa realidade.
Ainda assim, continuamos aqui. Quem nos segue há mais tempo talvez se lembre que, meras semanas antes do 7 de Outubro, tínhamos anunciado que passaríamos a ser «uma célula adormecida» – uma decisão que teve um curto tempo de vida. Hoje em dia, a dormência é um luxo ao qual não nos podemos dar. Por isso, e porque é importante que haja quem conte a história como a contam os “inimigos” do Império, seguimos.

Aquilo que muita gente ainda não compreendeu é que a mesma barbárie que está a ser normalizada na Palestina e no Líbano poderá um dia bater à porta de todos nós. Na verdade, ela já cá está – nas periferias, onde as demolições são um lugar-comum (executadas com escavadoras da mesma empresa que produz os bulldozers das IDF) e há políticos que sugerem “soluções” para os bairros com populações afro-descendentes e brancas pobres semelhantes àquelas que o regime sionista está a aplicar na Faixa de Gaza. Veja-se como Susana Garcia, candidata do “centro”-direita na Amadora, propôs «erradicar a Cova da Moura» nas últimas eleições autárquicas.
Estes e outros tópicos foram tema de conversa de duas das reportagens gravadas pela Free Palestine TV em Portugal no passado mês de Junho. Acompanhados por Flávio Almada, militante pan-africanista da Cova da Moura e rapper, também conhecido como LBC Soldjah, a equipa de jornalistas vinda do Líbano percorre as ruas da Cova da Moura e do Bairro de Santa Filomena, que tem sido alvo de uma campanha sistemática de demolições.
A barbárie já cá está – só não é vista porque está (para já) confinada às periferias, que são sistematicamente invisibilizadas pelos órgãos de comunicação social.

