O assassinato de Hamidreza Rajabzadeh e a solidariedade selectiva~ 10 min

Por Francisco Ulrike e Jorge Santos
Hamidreza Rajabzadeh, um cantor religioso iraniano, foi brutalmente torturado e assassinado por estes dias no Irão. Depois de estar desaparecido mais de duas semanas, vídeos publicados em canais da “oposição iraniana” puseram fim ao mistério: Hamidreza foi raptado e torturado por apoiantes de Reza Pahlavi, que se filmaram a arrancar o coração do seu peito enquanto ele estava ainda vivo.
Já tínhamos visto todo o tipo de actos terroristas cometidos pela suposta “oposição democrática” que diz estar a tentar “libertar” o Irão das garras de um “regime tirano”. Desta vez, os pahlavistas superaram-se a si mesmos e fizeram-nos recuar à Idade Média, tempos em que até um crime desta natureza seria considerado cruel e excessivo.
Imaginem que este crime bárbaro tinha sido cometido por elementos das IRGC contra “manifestantes pela liberdade”. As televisões e os jornais ocidentais usariam e abusariam do caso para alimentar a imagem de um “regime iraniano” malvado, opressor e brutal – e assim justificar mais uma campanha de bombardeamentos para “libertar o povo iraniano”.
Tivesse este crime sido cometido contra uma figura da oposição na Rússia, na China ou em qualquer “regime” inimigo do Império, o clamor de revolta teria sido igualmente ensurdecedor.
Agora imaginem que isto teria acontecido a uma pessoa trans – no Irão, no Burkina Faso, em Portugal ou em qualquer parte do mundo. Estes actos bárbaros teriam sido condenados imediatamente (e bem) por um sem fim de movimentos, e denunciados em todos os “media independentes” no ocidente.
Quanto ao assassinato de Hamidreza Rajabzadeh, o silêncio é ensurdecedor – e mostra o quão problemática é a solidariedade selectiva que impera nos meios ditos “activistas”. Isto é problemático não porque pessoas a quem seja arrancado o coração do peito não sejam merecedoras de solidariedade se não se identificarem com o género com que nasceram, ou se fizerem parte da oposição deste ou daquele país – mas precisamente porque um crime desta natureza devia provocar uma reacção visceral da parte de qualquer sociedade, independentemente da identidade da vítima.
Aparentemente, apenas um muçulmano pode ser alvo de um crime tão macabro sem que o mundo pare um minuto sequer, sem que o mais pequeno clamor de revolta se oiça neste “ocidente civilizado”.
Este é mais um episódio que expõe a hipocrisia, o racismo e a islamofobia de muitos movimentos e de meios de informação ditos “independentes” como o Democracy Now, o Crimethinc, o Esquerda.net ou o Jornal Mapa.
Todos esses media regurgitaram as narrativas do Império sobre os motins que devastaram o Irão em Janeiro, apresentando os seus protagonistas como simples “manifestantes pacíficos pela liberdade” e repetindo números inventados por ONGs sediadas no Ocidente. A bandeira da “solidariedade com o povo iraniano”, agitada aos sete ventos quando serve ao Império, não se encontra em lado nenhum quando as atrocidades são cometidas por essa “oposição” contra iranianos religiosos.
Num momento histórico em que toda a gente denuncia o fanatismo religioso, o fanatismo anti-religioso instala-se e normaliza-se. A contradição seria anedótica, não fosse tão trágica – o mesmo fanatismo anti-religioso propagado por muita gente que se afirma defensora da Palestina, dos direitos humanos e da liberdade, é ao mesmo tempo usado pelo Império para demonizar as únicas forças que resistem materialmente ao projecto colonial sionista.
O sadismo da oposição mercenária
O caso de Hamidreza Rajabzadeh chegou às notícias iranianas no sábado, 8 de Agosto, poucos dias após um vídeo do seu corpo ferido ter sido publicado por um canal da oposição.
Os detalhes do assassinato de Hamidreza são verdadeiramente atrozes. O sadismo que faz lembrar os crimes bárbaros do Estado Islâmico, contudo, não é inédito – quem tiver lido o nosso artigo sobre os motins de Janeiro reconhecerá certamente o padrão.
Hamidreza Rajabzadeh tinha apenas 30 anos e era um cantor religioso, recitador do Corão e membro das Basij. Esteve cerca de duas semanas desaparecido depois de ter sido raptado por apoiantes monárquicos do filho do Xá deposto pela Revolução Islâmica de 1979, que o torturaram e assassinaram.
Estes fanáticos filmaram-se a arrancar o coração do peito de Hamidreza enquanto este ainda estava vivo, enviando depois imagens do crime à família da vítima. Segundo várias fontes, pedaços do seu corpo foram enviados para a família e para o seu local de trabalho.
Para quem tiver estômago, a TMJ News Network e Sara Sagaii entram em mais detalhes sobre este crime.
O corpo de Rajabzadeh, queimado pelos seus raptores, foi encontrado este domingo perto de Teerão. As seis pessoas responsáveis pelo crime, cinco homens e uma mulher, já foram detidos e confessaram ter assassinado Rajabzadeh a troco de dinheiro – uma recompensa paga em criptomoedas. A mulher, figura central do rapto e considerada a principal suspeita, foi capturada no norte do país quando tentava fugir para o estrangeiro.
Segundo o Jerusalem Post, o grupo responsável por incentivar estes crimes – e pagar chorudas recompensas aos seus perpetradores – chama-se “Ashtara Zero Day”, e foi no canal do grupo que os vídeos do crime foram originalmente publicados.
Este é o tipo de gente que querem que acreditemos que vai “libertar o Irão” e construir uma sociedade menos “opressiva”. Claro que este crime não será notícia nos mass media, nem nos media “independentes” acima referidos, pois expõe o ridículo da narrativa ocidental e a verdadeira natureza da “oposição iraniana” que uns e outros tanto tentam romantizar.
Execuções em Isfahan
Este crime bárbaro merece da nossa parte uma reflexão sobre as execuções no Irão, que tanto celeuma criam no Ocidente. As execuções mais recentes tiveram lugar há apenas duas semanas.
A 28 de Julho, dois “manifestantes” foram executados em praça pública em Isfahan – as primeiras execuções públicas no Irão desde o início do ano. Estes “manifestantes” foram responsáveis, durante os motins de Janeiro, pelo assassinato de quatro agentes da polícia em Isfahan, que primeiro foram incendiados vivos e depois desmembrados. Os eventos, e o seu resultado, foram registados em vídeo.
Nesse dia, em resposta à histeria gerada na propaganda ocidental, a Sara Sagaii publicou um texto em que reflecte sobre as execuções e revisita os eventos de Janeiro:
Depois de Janeiro, foi preciso muito tempo para que aqueles de nós que procuravam os factos soubessem o que realmente tinha acontecido naqueles dias terríveis (…). Mas, desde então, surgiram tantos vídeos e relatos em primeira pessoa que comprovam alguns pontos-chave sobre os protestos e que contradizem flagrantemente a narrativa simplista promovida pelos meios de comunicação ocidentais e sionistas.
Mais importante ainda, desde então os vídeos provaram que havia elementos armados e provocadores no meio das multidões. Mataram manifestantes inocentes, transeuntes e pessoas que por ali passavam – e atribuíram a culpa à polícia; dispararam contra a polícia a partir das multidões para induzir a polícia a ripostar; e provocaram e levaram a cabo o linchamento, a mutilação e a queima de agentes da polícia e de segurança, ou de qualquer pessoa que se lhes parecesse, das formas mais horríveis. [vídeo da queima de polícias em Esfahan CW] Muitas pessoas inocentes foram apanhadas no fogo cruzado. Além disso, muito recentemente, até mesmo os meios de comunicação pró-sionistas em língua persa retractaram as suas alegações de dezenas de milhares de mortos e admitiram que o número verificável está muito mais próximo do número oficial divulgado pelo governo iraniano, ou seja, pouco mais de 3 000 (o que já é um número muito elevado; portanto, exactamente porque é que precisam de mentir e de o inflacionar, especialmente se alegam preocupar-se minimamente com as vidas dos iranianos?). (…)
Por exemplo, um desses iluminados “críticos” de janeiro, que foi executado em Isfahan esta manhã — e que tinha sido condenado à morte pelo seu envolvimento no assassinato de quatro agentes da polícia numa praça da cidade de Isfahan —, tinha anteriormente, num vídeo público, declarado o seu apoio ao grupo terrorista MEK e foi detido na sua casa/laboratório de fabrico de bombas/armazém de armas, tendo todo o seu material sido exposto e confiscado perante as câmaras. Portanto, a esta altura, se fores uma pessoa séria, não deves repetir essas alegações ultrajantes sobre o número de mortos, ou sobre os “manifestantes” desarmados, ou sobre como os “inocentes” manifestantes estão agora a ser executados apenas por “se terem manifestado contra o regime”. (…)
A lei consagra uma política de «olho por olho» nestes casos, com o simbolismo adicional — devido à natureza pública dos crimes — de realizar as execuções na mesma praça onde esses quatro agentes da polícia foram mortos. Suponho que se possa criticar esta lei, e o simbolismo, e outras escolhas que levaram aos eventos de hoje em Esfahan. Na situação actual, com elementos armados a matar pessoas inocentes nas ruas das nossas cidades e a ameaça muito real de que isso se repita num futuro próximo, além das bombas, da contínua crise económica e da traição constante por parte da equipa económica do governo… sim, considero essas posições profundamente hipócritas e difíceis de levar a sério.
Sara Sagaii, em «The Spectre of “The Innocent Protestor”» 28 de Julho de 2026
Podem encontrar mais informação e links no texto de Sara Sagaii, uma voz que consideramos particularmente insuspeita por ser secular, de esquerda e ter vivido muitos anos no Ocidente, até recentemente ter regressado para o Irão. Sara vive em Teerão, expressa frequentemente críticas a políticas do governo iraniano, especialmente no campo económico, e não concorda com a pena de morte.

Se o Império está e continuará a ludibriar constantemente iranianos para cometerem atrocidades contra outros iranianos em troca de somas avultadas de dinheiro, é lógico que um pesado custo tenha de ser imposto a estes comportamentos atrozes. O que aqui está em causa não é meramente assegurar a sobrevivência de um “regime”. O Império quer pôr fim à milenar existência do Irão enquanto nação e transformá-lo num território sem lei como a Síria, onde reina a barbárie e a violência sectária.
O assassinato de Hamidreza Rajabzadeh torna evidente que, independentemente das nossas opiniões pessoais, não é assim tão difícil compreender a aplicação da pena de morte para determinados crimes hediondos no Irão.

