Kiko is Hot: influencers, oportunismo, causas e performance~ 6 min

Por Carlos Milhazes
No dia 16 de Maio de 2026, no Porto, 3 projetos musicais praticamente desconhecidos e um alegado influencer a fazer de DJ juntaram-se para o que diziam ser uma “noite especial, onde quatro artistas juntariam as suas vozes para defender os direitos humanos e expressar solidariedade com o povo Palestiniano”. O cartaz do evento ostentava as cores da bandeira palestiniana. O título do programa, “além do muro”, até vinha acompanhado de subtítulo em árabe, sumud. O último parágrafo da apresentação anunciava uma oferta generosa e abundante de 10% das receitas de bilheteira, que seria entregue ao Sameer Project… Por cada 100€ recebidos, apenas 10€ iriam para uma organização palestiniana. Os restantes, serviriam para pagar o aluguer da sala, o design do “belíssimo cartaz”, e o trabalho e despesas dos artistas e DJ que atuaram no evento. Tudo isto, esclarecido por um dos músicos e organizador, numa conversa, agora apagada por ele, na caixa de comentários da publicação do evento.
Para além do aluguer da sala, o Hard Club, que acolheu o evento, beneficiaria ainda da receita do bar. Os músicos, para além do cachê, ainda beneficiariam da exposição. Três projetos praticamente desconhecidos, em início de carreira, que normalmente teriam dificuldade para ter 30 ou 40 pessoas num concerto, tinham agora a oportunidade de atuar para um auditório 10 vezes maior. O DJ, de nome Kiko is Hot, por sua vez, já está habituado a grandes auditórios, é seguido por mais de meio milhão de pessoas nas redes sociais, e a estrela do line-up. Não é conhecida a percentagem da receita que levou para casa depois de uma noite a carregar play nos maiores hits da cultura pop do império, mas provavelmente não se terá vendido por pouco.
Neste evento com a Palestina como tema, toda a gente comeu. A Palestina ficou com as migalhas. Mas o Kiko é guloso. Enquanto petisca na capitalização da causa palestiniana camuflada de solidariedade, enche a barriga com capital imperialista de empresas como a McDonald’s, uma das 24 marcas de boicote prioritário do BDS.
Em Fevereiro de 2025, o Kiko lançou um vídeo no Tik Tok a devorar um hambúrguer da marca cujo franchise sionista regularmente publica vídeos a doar comida aos soldados da ocupação. No mesmo vídeo, explica também porque escolheu a garrafa de Lipton, uma das bebidas do grupo PepsiCo. que adquiriu a marca israelita Sodastream em 2018. Aparentemente era boa para a dieta…
Enquanto comia o hambúrguer, chorava de prazer e implorava à marca por uma parceria.
A parceria aconteceu uma semana mais tarde (ou possivelmente o tal vídeo até já havia sido o início da mesma). Passado mais de um ano, a colaboração mantém-se.
Talvez não seja ainda claro para muita gente, mas quando nos declaramos pró-Palestina, ou apenas contra o genocídio em Gaza (duas coisas muito diferentes), a primeira pergunta que nos devemos fazer é “como posso ajudar?”. As respostas são muitas, quase infinitas, mas duas das mais elementares e consensuais são: apoiar financeiramente famílias e organizações no terreno, e boicotar produtos sionistas ou com ligações financeiras à colónia. A última poderia parecer excessivamente ambiciosa, quase impossível. Por isso mesmo, os palestinianos organizaram-se e fizeram-nos a papinha. Criaram o movimento BDS em 2005. Entre muitos outros projetos, organizaram uma lista de 24 marcas de boicote prioritário. Pedem-nos que ignoremos todas as outras mas que nos foquemos disciplinadamente na penalização destas 24 pelas suas alianças com a entidade sionista.
Como não sou atento às vidas dos famosos e alegados influenciadores, desconhecia a parceria, e na verdade, pouco conhecia do Kiko na altura em que me deparei com o cartaz do evento parcialmente “solidário”. Era apenas uma cara que conhecia, sem saber bem porquê. Uma amiga detectou a incoerência e partilhou-a comigo. Achei por bem confrontar o organizador do tal evento com outra falha grave da noite dos 10%.
Afrontado pela denúncia, o Kiko bloqueou-me.
Já me tinha esquecido do assunto quando o Kiko me voltou a aparecer inopinadamente no ecrã. Desta vez era Catarina Martins que o introduzia num vídeo em que lançava a pergunta “o que é que o jogador francês Mbappé e o nosso Kiko is Hot têm em comum?”.
A resposta ao enigma era afinal muito simples: ambos se tinham recusado a colaborar com casas de apostas online. Perguntei-me porque é que recusou publicitar casas de apostas mas não a Mcdonalds. Não lhe pude perguntar a ele porque já me tinha bloqueado.
A semana passada, levei com mais Kiko no Instagram. Em todas as caixas de comentários e vídeos sobre os alegados influenciadores pagos para reproduzir hasbara a acéfalos portugueses, surgiam comentários elogiosos ao Kiko e à sua “coragem” por ter recusado o convite da embaixada sionista em Portugal. Convidaram-no para participar na marcha do pinkwashing de “tel aviv” mas o Kiko manteve-se firme e recusou. Foi um acto de profundo sacrifício, um momento heróico, merecedor de glória, digno de louvor, que finalmente permitia aos portugueses clamar por um nome tuga ao lado dos de Franco Fontana, Françoise Kesteman, Vittorio Arrigoni e Rachel Corrie.

Espera lá… O Pride foi em Junho. O convite há de ter sido feito o mais tardar em Maio. O que faz parecer que o Kiko, que não é oportunista, esperou dois meses, pelo momento mediático, para denunciar o convite da embaixada sionista.
O Kiko, bem como todos os restantes denominados e auto-denominados influencers, irrita-me, porém não escrevo por embirração mas indignação perante a falta de consistência ideológica que exigimos a estas pessoas cuja ocupação é viverem do culto da sua existência. A mínima manifestação de proximidade com a causa política ou social a que somos sensíveis é tratada como um ato heróico, de sacrifício e altruísmo. Não é. A esmagadora maioria das vezes, mesmo quando parecem ousadas, são ações calculadas que servem propósitos de autopreservação, oportunismo e marketing, em substituição do activismo consistente e abnegado. São a chamada oposição domesticada. Ocupam o espaço dos mensageiros e dos radicais, e no processo, tornam-se porta-vozes incompetentes ou medíocres de causas às quais se dedicam casualmente. A isso tudo, juntam o esvaziamento e a comodificação de mensagens, signos e símbolos revolucionários, e no meio de tanta confusão, somos nós que acabamos a confundir o seu anseio egotista por legitimação com a sua legitimidade.

