Zeinab Nasser El-Din, Rosa do Sul: Professora, Poetisa e Tradutora~ 10 min

Por Ana Só e Francisco Ulrike
«Na madrugada de sábado, 15 de Agosto de 2026, a chamada para a oração coincidiu com o estrondo de um traiçoeiro ataque aéreo israelita na vila de Ansar, no sul do Líbano. O ataque arrasou uma casa, soterrando os seus habitantes vivos.»
Assim começa um artigo do jornal libanês Al-Akhbar sobre o massacre que nesse dia varreu da face da terra mais uma família libanesa: Zeinab Nasser El-Din – professora, poetisa e tradutora –, o seu marido, Ali al-Hajj Hassan, e os seus quatro filhos: Hussein, Zahra, Abbas e Hassan.
Num mundo em que a barbárie foi normalizada, o Líbano aparece ainda menos nas notícias do que a Faixa de Gaza. Tanto num território como no outro, estão supostamente em vigor os ditos “cessar-fogos” – mas as demolições, os ataques aéreos e as rajadas de metralhadoras continuam a preencher o dia-a-dia de dois povos abandonados pelo mundo. As vítimas, cada uma com os seus sonhos e vidas por cumprir, a maioria das vezes já não chegam a nós – nem sequer como números.
Hoje, dedicamos a nossa atenção a Zeinab Nasser El-Din, que herdou o gosto pela literatura do seu falecido pai, o poeta e professor Mahdi Nasser El-Din. Os poemas do seu primo materno, o também falecido poeta Muhammad Ali Shams El-Din, encheram o seu mundo.
Zeinab deixou neste mundo um vasto legado literário, incluindo a tradução para árabe de dois clássicos da literatura francesa: a obra-prima de Alexandre Dumas, “Os Três Mosqueteiros”, e “O Corcunda de Notre Dame” de Victor Hugo. Com a sua colega e amiga Khadija Haidoura, traduziu ainda vários livros infantis para inglês, numa colecção com quase 20 títulos sobre temas educativos e religiosos. Além de tradutora e poetisa, era também professora de francês e inglês.
O local atingido pelo ataque dessa madrugada em Ansar era um alojamento local onde a família tinha ido passar o fim-de-semana. Meras horas antes do massacre, no caminho de Beirut para Ansar, a família passou por Sujud, a vila-natal de Zeinab, também no Sul do Líbano, para aquela que se tornaria a última despedida da sua família e da sua terra. A mãe de Zeinab, Noura, conta como, nesse derradeiro encontro, a sua neta Zahra, agora mártir, a convidara para passar com eles uns dias em Ansar, «onde há montanhas imponentes, árvores frondosas e rosas exuberantes».

Horas depois, em Ansar, no meio dos escombros, uma repórter da Al Mayadeen relatou como «o dono desta guesthouse chegou às 4 e meia da madrugada (…) para recolher restos mortais na piscina dentro da propriedade». «Há ainda uma extensa destruição em toda a guesthouse, e podemos ver aqui brinquedos de crianças (…) [além de] um grande número de restos mortais espalhados por toda a residência turística.» No mesmo bombardeamento, um edifício vizinho foi destruído, tendo morrido mais uma pessoa e pelo menos três ficado feridas.
Ansar está a cerca de 15 km do ponto mais próximo da frente de batalha, e as forças israelitas nem sequer chegaram perto da aldeia na presente guerra. Nesse mesmo dia, em Deir Zahrani, no distrito de Nabatieh, outro ataque israelita deixou mais duas pessoas mortas e nove feridas.
Num Ocidente em que académicos e intelectuais, vozes de esquerda e anarquistas, continuam a instrumentalizar os direitos mulheres para alimentar a islamofobia e o ódio às forças que resistem ao regime sionista e ao Império, a Guilhotina continua aqui para dar voz a essas mesmas mulheres, vítimas da barbárie que a apatia colectiva das nossas sociedades permitiu normalizar.

O que se segue é um outro artigo do diário Al-Akhbar sobre Zeinab Nasser El-Din, publicado originalmente em árabe, traduzido para inglês pela jornalista libanesa Marwa Osman, e agora traduzido para português.
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Zeinab Nasser El-Din… Um Terceiro Olho para a Poesia e uma Mãe da Beleza
Publicado a 18 de Agosto em al-akhbar.com
Uma menina de Sujud atirou doces a um soldado da ocupação israelita, e cresceu a personificar a língua, a literatura e a educação como outras formas de resistência. Zeinab Nasser El-Din (1979–2026), que foi morta juntamente com os seus quatro filhos num ataque aéreo israelita à cidade de Ansar, no sul do Líbano, deixou para trás uma vida em que a tradução, a poesia e a educação se entrelaçavam, bem como um arquivo pessoal que tinha vindo a preparar para servir de base a uma colectânea da sua escrita.
Quando era menina, em Sujud, um dia Zeinab atirou doces a um soldado israelita que com eles tentava aliciar as crianças da aldeia ocupada. Tal como para tantas pessoas do sul do Líbano, este incidente marcou o início de um percurso de luta e de ódio pelo inimigo.
Zeinab Nasser El-Din (1979–2026), a mãe que foi morta juntamente com os seus quatro filhos num ataque aéreo israelita em Ansar, sul do Líbano, há alguns dias, encarnava outra história do Sul: a de uma mulher que transformou a cultura num modo de vida, e a sua paixão pela língua numa discreta missão educativa e literária. Deixou para trás um legado duradouro e uma biblioteca que preservou as palavras e ideias que reunira ao longo da vida.
Uma casa em Sujud
Zeinab nasceu em 1979, numa família que amava as palavras e reverenciava a escrita, o que fortaleceu o seu sentido de consciência e compromisso. A mãe era uma mulher de resistência, enquanto o pai, professor universitário, desde cedo incutiu na família os valores da resistência e da rejeição da ocupação.
No final de 1984, a família experienciou a amargura da expulsão de Sujud, não lhes sendo permitido regressar até à libertação do sul do Líbano, em 2000.
Durante a década de 1990, Zeinab frequentou a Escola Secundária Al-Batoul, onde o seu compromisso religioso e nacional se aprofundou. Anos mais tarde, regressaria à mesma escola como professora, após concluir os seus estudos na Universidade Islâmica e obter uma licenciatura e um diploma em tradução com distinção, figurando entre os melhores alunos da universidade.
Poetisa e Tradutora
O espírito literário de Zeinab revelou-se através dos poemas e textos que publicou no suplemento Al-Nahar Al-Shabab durante a década de 1990, escrevendo sobre o amor e a vitória num estilo moderno e característico que lhe valeu os elogios do falecido jornalista e editor Gebran Tueni, que a descreveu como uma das poetisas mais promissoras do Levante.
Zeinab era o coração pulsante da literatura no seu lar. Lia e discutia com o seu pai os romances de Naguib Mahfouz, Gabriel García Márquez e Hanna Mina, e enchia as margens do seu exemplar da colecção completa de poesia de Mahmoud Darwish com as suas notas e reflexões apaixonadas.
Mais tarde, Zeinab tornou-se professora de francês nas Escolas Al-Batoul, as mesmas escolas em que ela própria estudara. Graças à sua paixão e dedicação, incutiu nos seus alunos a paixão pela língua e literatura francesas.
No entanto, o ensino foi apenas uma parte do seu percurso literário. Era também uma tradutora apaixonada, tendo traduzido dois livros sobre literatura francesa para a Dar Al-Rafidain. Até aos seus últimos dias, manteve-se profundamente empenhada na tradução e acompanhou de perto os novos desenvolvimentos na área.
A sua presença literária estendeu-se muito além da sua própria escrita. Tornou-se uma referência essencial e uma mentora cultural para a sua família e para os que a rodeavam. Era a primeira leitora, o «terceiro olho», do seu irmão, o poeta e jornalista Dr. Mohammad Naser el-Dine, que confiava profundamente no seu parecer. Ele partilhava com ela os seus artigos e colectâneas de poesia antes de os publicar, procurando a orientação das suas observações maduras e do seu requintado gosto literário.
A Casa, a Biblioteca e o Seu Último Dia
Zeinab casou com um jovem combatente da resistência, um homem que, em muitos aspectos, se assemelhava à terra que a tinha criado. Em casa, ela personificava os valores da sinceridade e tranquilidade. Tratava dos assuntos da família e criou os seus quatro filhos, Hassan, Zahraa, Hussein e Abbas, com honestidade, serenidade e um sorriso que nunca lhe abandonava o rosto.
E, quando o momento da partida chegou, ela não partiu sem os filhos, os mesmos filhos a quem ensinara a rejeitar a ocupação e a sua realidade.
A sua biblioteca pessoal guarda os últimos vestígios da sua vida literária. Nos dias antes da sua morte, com a ajuda do marido, Zeinab reorganizou a biblioteca da sua casa em Haret Hreik, nos subúrbios do sul de Beirute, a fim de preparar a compilação dos seus poemas e escritos para publicação em livro.
No último dia da sua vida, uma sexta-feira, visitou o túmulo do pai duas vezes. Mais tarde, contou à mãe um sonho em que viu a avó a recebê-los com chávenas de cerâmica coloridas.
Nessa mesma noite, Zeinab foi morta juntamente com os seus quatro filhos, deixando para trás um legado literário, humano e crítico marcado pela beleza, pela pureza e por uma devoção duradoura às palavras.
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O primeiro artigo referido no início deste texto, assinado pela jornalista libanesa Cherine Moussa, termina com o seguinte parágrafo:
Como uma rosa, Zeinab teve uma vida breve mas fragrante. A professora, poetisa e tradutora pode já não estar entre nós, mas por vezes a ausência é presença. Ela está presente no liceu como sempre a conhecemos, nos seus livros e poemas, e na memória de todos aqueles que a conheceram. Ela permanecerá enquanto o seu legado permanecer connosco.
Cherine Moussa em Zainab Nasser El-Din, the Rose of the South: Teacher, Poet, and Translator
Após o massacre de Ansar, a organização libanesa União de Famílias de Crianças Mártires emitiu um comunicado em que se lê:
A partir do sentimento comum de dor que nos une enquanto pais e mães que perderam filhos, damos as nossas condolências à família dos mártires. Os seus filhos não são números num registo de massacres. Cada um tinha um rosto, uma história, um sonho e uma vida que devia ter continuado. (…)
Apelamos ao nosso povo em todo o Líbano para que se mostre solidário (…) pois o sangue de uma criança libanesa não pertence a nenhuma região em detrimento de outra (…)
Apelamos às autoridades libanesas para que tomem medidas firmes para proteger os civis e construam uma posição nacional unificada que salvaguarde o Líbano e o direito do seu povo a defender-se da brutal agressão israelita (…)
Não normalizaremos o assassinato das nossas crianças (…) Que o seu sangue sirva para unir os corações e a vontade de todo o povo libanês em defesa da vida humana, do Líbano e do futuro de todas as crianças no Líbano.
Esta é a nossa contribuição para o combate contra a normalização do assassinato de crianças, no Líbano e em qualquer parte do mundo, e para que Zeinab Nasser El-Din permaneça viva e o seu legado seja conhecido também deste lado, no Coração da Besta.

