Dossiê 7 de Outubro: Antecedentes e razões da Inundação de Al-Aqsa~ 17 min

Por Francisco Ulrike
Comecei a escrever este artigo há dois anos, no primeiro aniversário da Inundação de Al-Aqsa – a operação que marcou, de forma decisiva e para sempre, o mundo em que vivemos. Embora grande parte da informação que aqui lerão já fosse pública na altura, esta continua hoje a ser desconhecida pela generalidade da população no Ocidente. No tempo que passou desde então, foram tornando-se mais claros alguns detalhes que nos ajudam a melhor fazer sentido dos acontecimentos.
As informações que encontrarão nesta longa investigação vêm não apenas de fontes palestinianas e de media independentes; muitas vezes vêm de fontes israelitas que investigaram os acontecimentos desse dia, mas cujas conclusões foram, na sua grande maioria, ignoradas pelos mass media ocidentais. A investigação – que dividimos em quatro partes para facilidade de leitura – revisita a realidade no terreno no dia 7 de Outubro de 2023, o contexto em que a Inundação de Al-Aqsa se materializou e as razões que levaram a resistência palestiniana a pô-la em marcha; e expõe as inconsistências da narrativa israelita e a realidade por detrás dos mitos popularizados pela propaganda ocidental para justificar o genocídio que, três anos depois, continua em curso na Faixa de Gaza.
A segunda parte, sobre o “plano de camuflagem” de Sinwar e o mito do “inside job”, será publicada esta segunda-feira, 5 de Outubro.
Conteúdos
- Contexto histórico e antecedentes que levaram ao 7 de Outubro
- Escalada dos crimes da ocupação
- O isolamento internacional da causa palestiniana
- A inevitável agressão contra Gaza e os planos para a eliminação da liderança do Hamas
- «Era uma questão de tempo até que o povo de Gaza batesse nas paredes do tanque»
Contexto histórico e antecedentes que levaram ao 7 de Outubro
Para compreender os acontecimentos que foram postos em marcha nesse fatídico dia é preciso, antes de mais, compreender o território que os produziu. A Cidade de Gaza é uma cidade com milhares de anos de História que já era mencionada no século V antes de Cristo por historiadores como Heródoto – tal como a cidade de Ascalon, e a própria Palestina enquanto região geográfica.
Contudo, a «Faixa de Gaza» enquanto conceito de território é uma construção colonial. O termo foi cunhado após a Nakba de 1948 para designar a faixa costeira em torno da Cidade de Gaza, uma fracção do sub-distrito de Gaza do então mandato britânico da Palestina. Foi para o território hoje conhecido como Faixa de Gaza, onde na altura viviam cerca de 80 mil palestinianos, que foram expulsos 200 mil dos cerca de 750 mil refugiados produzidos pelas campanhas de limpeza étnica com que as milícias judaicas abriram caminho para a criação do projecto colonial sionista conhecido como “estado de israel”.
Após a Nakba, a Faixa de Gaza ficou sob administração do Egipto, e depois sob ocupação israelita – primeiro em 1956-57, e novamente de 1967 em diante. Em 2007, com a imposição do bloqueio pela ocupação israelita, a Faixa de Gaza tornou-se a maior prisão a céu aberto do mundo.

Antes de 7 de Outubro, neste pequeno pedaço de território com 41 km de comprimento e 10 km de largura, viviam mais de 2 milhões de pessoas – dois terços dos quais refugiados, expulsos das suas casas e aldeias durante a Nakba de 1948, e os seus descendentes.
Graças ao apertado controlo das entradas e saídas do território, a esmagadora maioria das crianças e jovens de Gaza nunca tinham tido oportunidade de sair do campo de concentração onde nasceram. Era também o regime sionista que controlava o fornecimento de água e electricidade e a entrada de todos os bens e ajuda humanitária, incluindo os que chegavam do Egipto. Desde 2008, o regime sionista estabeleceu o número diário de camiões autorizados a entrar em Gaza com base na quantidade mínima de calorias diárias necessárias para manter a população numa situação de fome sem, contudo, provocar mal-nutrição e um colapso generalizado. Em 2012, a ONU concluiu que a Faixa de Gaza se tornaria um território inabitável em 2020.
O regime sionista também levava a cabo regularmente campanhas de bombardeamentos contra Gaza, naquilo que os próprios israelitas chamam “mow the lawn“, ou “aparar a relva” – sendo “a relva” a população e as infraestruturas de Gaza. Foi o que aconteceu em 2008-9, 2012, 2014 e 2021.
Segundo dados oficiais, entre Setembro de 2000 e Setembro de 2023, a ocupação israelita matou cerca de 11 mil palestinianos e feriu mais de 150 mil.

Escalada dos crimes da ocupação
A Inundação de Al-Aqsa foi também uma resposta à, então, mais recente escalada de violência contra o povo palestiniano na Cisjordânia ocupada, bem como ao deteriorar dos já parcos direitos da população palestiniana de Jerusalém Oriental, e à intensificação dos ataques contra a Mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do Islão e o mais importante na Palestina.
A barbárie, embora não à escala industrial que conhecemos hoje, estava já presente no quotidiano do povo palestiniano – não só nos mortos e feridos vítimas da violência da ocupação, mas também nas crianças detidas pelas forças israelitas em plena luz do dia, no avanço dos colonatos, nas invasões de hospitais e campos de refugiados, nos ataques contra jornalistas e na destruição de oliveiras milenares e campos agrícolas.
No documento Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, publicado pelo Gabinete de Imprensa do Hamas em Dezembro de 2025, o movimento de resistência palestiniano aponta explicitamente como razões para a Inundação de Al-Aqsa o crescimento acelerado do número de colonos judeus na Cisjordânia («de cerca de 280 mil em 1993, após a assinatura dos Acordos de Oslo, para aproximadamente 950 mil em 2023») e o extremar da retórica do governo israelita a partir do final de 2022, quando Ben Gvir e Smotrich receberam posições ministeriais que se traduziram numa aceleração do processo de judaização da Cisjordânia, de Jerusalém e, em específico, da Mesquita de Al-Aqsa.
O ritmo da judaização da Mesquita de Al-Aqsa acelerou-se, prenunciando consequências catastróficas, através de incursões diárias e de tentativas de impor uma divisão temporal e espacial na Mesquita de Al-Aqsa sob a protecção do exército de ocupação — um cenário que reproduz a Nakba no coração de Jerusalém.
Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, Gabinete de Imprensa do Hamas, Dezembro de 2025

Enquanto Gaza estava cercada, sob bloqueio, a existência palestiniana na Cisjordânia ocupada havia sido transformada numa manta de retalhos dividida por colonatos, interpostos militares, estradas exclusivas para judeus e checkpoints onde os palestinianos são sistematicamente sujeitos a revistas humilhantes e desumanizantes. Neste território, a resistência palestiniana estava (e está) constrangida não só pela hipermilitarizada presença israelita, mas também pelas forças colaboracionistas da Autoridade Palestiniana – que caçam, prendem e matam membros de organizações da resistência, tal como a ocupação.
Vários foram os casos em que a resistência em Gaza – que possui armamento mais diversificado e gozava (e goza) de uma relativamente maior liberdade de operações – se ergueu em armas em apoio ao seu povo na Cisjordânia sem meios de se defender das agressões israelitas. Já acontecera em 2021, quando as Brigadas Al-Qassam, o braço armado do Hamas, dispararam rockets em retaliação contra os ataques à Mesquita de Al-Aqsa durante as tentativas de expulsar a população palestiniana do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém.
A tudo isto, há que somar o milhão de homens, mulheres e crianças palestinianas que passaram pelas prisões e centros de detenção israelitas desde 1967, e nelas sofreram todo o tipo de abusos. Não havia, já na altura, uma família palestiniana que não tivesse visto algum dos seus filhos ser detido pela ocupação.
A 6 de Outubro de 2023, encontravam-se encarcerados em prisões israelitas cerca de 5 mil palestinianos – entre eles crianças, mulheres e jornalistas. Um dos principais objectivos da Inundação de Al-Aqsa era, precisamente, conseguir a libertação desses prisioneiros – boa parte deles detidos por tempo virtualmente indeterminado sem qualquer acusação ou julgamento, e os restantes julgados em tribunais militares com uma taxa de condenação de 99%.
Desde Gaza, a resistência sempre prometera não abandonar os seus irmãos e irmãs indefesos na Cisjordânia, nem os prisioneiros a definhar nas masmorras da ocupação perante a indiferença da comunidade internacional.
O isolamento internacional da causa palestiniana
A 6 de Outubro, as perspectivas da causa palestiniana eram praticamente inexistentes. A iminência de uma normalização de relações entre a Arábia Saudita e israel ameaçava oficializar o reconhecimento formal da entidade sionista por aquela que era então percepcionada como sendo a maior potência da região – e assim consolidar a legitimação da existência do projecto sionista no seio dos Estados do Golfo, aprofundando o isolamento da causa palestiniana a nível regional e internacional.
Já em 2020, o Bahrain, os Emirados Árabes Unidos e Marrocos tinham normalizado relações com o regime sionista nos chamados “Abraham Accords”. O mais recente “projecto de paz” norte-americano, que havia sido apresentado nesse ano por Donald Trump, propunha a criação de um estado reduzido a uma série de enclaves palestinianos rodeados por colonatos israelitas, não muito diferente do proposto pela Administração Clinton em 2000. Segundo este plano, à semelhança dos Bantustões da África do Sul, os enclaves seriam nominalmente independentes sem no entanto controlar quaisquer fronteiras internacionais, totalmente rodeados pelo apartheid israelita, salvo a fronteira de Gaza com o Egipto.

A indiferença dos governos e das sociedades ocidentais perante os crimes da ocupação sionista, assim como o abandono das pautas anti-imperialistas pela generalidade da esquerda ocidental do século XXI, aprofundavam o isolamento da causa palestiniana. A Palestina estava, até 6 de Outubro, quase totalmente ausente do discurso público, especialmente no Ocidente.
Entre as razões que motivaram o 7 de Outubro, o documento Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa aponta sem rodeios «o fracasso da comunidade internacional».
Apesar de um vasto arsenal de resoluções da ONU a favor da Palestina — até ao final de Setembro de 2023, a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança aprovaram 1.180 resoluções —, nenhuma delas foi implementada ao longo de 77 anos. O que esperaria o mundo de um povo digno que procura reivindicar a sua liberdade e os seus direitos?!
Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, Gabinete de Imprensa do Hamas, Dezembro de 2025
Desengane-se, contudo, quem achar que o povo palestiniano tentou sempre reclamar os seus direitos através da violência. Em Março de 2018, a população da Faixa de Gaza deu início à Grande Marcha do Retorno, uma iniciativa pacífica de protesto contra o cerco imposto 11 anos antes pela ocupação – e pelo direito ao retorno às suas terras, de onde foram expulsos na Nakba de 1948. Durante um ano e meio, milhares de palestinianos dirigiram-se até à vedação todas as sextas-feiras, sem armas – apenas para encontrarem a habitual brutalidade da ocupação, e uma total indiferença da comunidade internacional.
As forças israelitas responderam aos protestos com balas de borracha e gás lacrimogéneo, por vezes disparado por drones, e também com balas reais, a maioria disparadas por snipers. Vários manifestantes acabaram encarcerados em prisões israelitas.
Segundo a ONU, durante os protestos da Grande Marcha do Retorno, entre Março de 2018 e Setembro de 2019, as forças israelitas mataram 214 palestinianos, incluindo 46 crianças, e feriram outros 36 mil, dos quais 8.800 eram crianças. Entre os feridos encontravam-se também médicos e jornalistas. Mais de 8 mil palestinianos foram atingidos por balas reais e 156 viram pelo menos um dos seus membros amputados.
Os protestos foram, em larga medida, pacíficos, com episódios pontuais de violência por parte dos manifestantes registados apenas após o acumular de atrocidades cometidas pela ocupação. Durante o mesmo período, um soldado israelita foi morto e outros 7 foram feridos.
Em consequência [dos Acordos de Oslo], os palestinianos perderam toda a esperança de estabelecer um Estado independente, mesmo que apenas numa parte do seu território. A situação chegou a um ponto em que a pacífica Grande Marcha do Regresso, em 2008, bradou ao mundo para lhe relembrar os direitos dos palestinianos, mas não encontrou quem a ouvisse.
Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, Gabinete de Imprensa do Hamas, Dezembro de 2025
Os últimos três anos expuseram perante o mundo inteiro o falhanço de todas estas organizações internacionais – mas esse falhanço não começou com o genocídio em Gaza. Pelo contrário, a Inundação de Al-Aqsa foi um produto directo da impunidade garantida por essas organizações à ocupação israelita, e do abandono da causa palestiniana pela esmagadora maioria das sociedades do nosso mundo.
O apoio à causa palestiniana estava, assim, reduzido às forças do Eixo da Resistência – composto pelo Irão, o Hezbollah no Líbano, o Ansar Allah no Iémen, a Síria (até à queda de Bashar al-Assad) e alguns grupos no Iraque – e a um pequeno conjunto de estados no Sul Global sem grande influência na política mundial.
A inevitável agressão contra Gaza e os planos para a eliminação da liderança do Hamas
A política israelita do “aparar a relva” tornava inevitável uma próxima campanha de bombardeamentos indiscriminados contra a Faixa de Gaza, independentemente de haver ou não algum “pretexto” que o regime sionista pudesse usar. A radicalização do discurso da liderança israelita deixava antever um aumento de brutalidade das agressões, em linha com o que já se verificava no terreno na Cisjordânia.
Hoje, sabe-se que esses planos existiam – só não receberam autorização para serem implementados. Lê-se no documento Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa:
A 1 de Outubro de 2023 — uma semana antes da Inundação de Al-Aqsa —, o então chefe do Shin Bet israelita, Ronen Bar, apresentou ao chefe do exército de ocupação, Herzi Halevi, e a outros altos responsáveis pela segurança, um plano para eliminar a liderança do Hamas na Faixa de Gaza, e solicitou a autorização de Netanyahu, mas este não a concedeu na altura.
Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, Gabinete de Imprensa do Hamas, Dezembro de 2025
A informação foi tornada pública pelo canal de televisão israelita Channel 12 em Fevereiro de 2025. A reunião em causa, que contou com a presença dos chefes das várias agências de segurança israelitas e foi liderada por Netanyahu, aconteceu efectivamente no primeiro dia de Outubro – mas há duas versões sobre como esta se desenrolou. Segundo a investigação interna do Shin Bet (o serviço de segurança interna israelita equivalente ao FBI) sobre as falhas no 7 de Outubro, cujas conclusões foram reveladas pelo Channel 12, o chefe do Shin Bet terá proposto a eliminação de Yahya Sinwar – mas Netanyahu «ignorou o pedido». O gabinete do primeiro-ministro, por outro lado, afirmou que as acusações eram «uma mentira completa», e que o chefe do Shin Bet tinha «recomendado conceder benefícios civis ao Hamas em troca de calma», enquanto Netanyahu defendeu «um cenário de escalada através da eliminação da liderança do Hamas em Gaza».
Ainda segundo essa investigação, o Shin Bet tinha já realizado, no início de Setembro de 2023, uma reunião com altas patentes das IDF para discutir o nível de preparação para uma campanha em Gaza.
Em Janeiro deste ano, o Channel 12 anunciou que Netanyahu terá rejeitado 11 oportunidades para assassinar Yahya Sinwar nos meses que antecederam o 7 de Outubro. Mais uma vez, o gabinete do primeiro-ministro negou veementemente as acusações, afirmando que Netanyahu «exigiu repetidamente a eliminação da liderança do Hamas» e que foi a liderança das agências de segurança que o negou.
Com a Inundação de Al-Aqsa, a resistência palestiniana decidiu não esperar pela inevitável agressão e passou à ofensiva, impondo uma nova equação ao inimigo.
«Era uma questão de tempo até que o povo de Gaza batesse nas paredes do tanque»
Para muitos entre as gerações nascidas a partir de 1990, que não têm memórias vivas da primeira e da segunda intifadas, o 7 de Outubro pode ter sido uma grande surpresa.
Contudo, no documento Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, o Hamas enquadra o 7 de Outubro não como um «evento súbito», mas como «mais um capítulo na luta em curso contra a ocupação israelita». Para o movimento de resistência islâmico, foi «o produto natural de 75 anos de ocupação desde 1948» e «uma resposta natural ao desafio estratégico enfrentado pela causa palestiniana».
A Inundação de Al-Aqsa faz parte de uma longa história de resistência do povo palestiniano contra a dominação colonial, iniciada em 1920, quando a Palestina estava sob o jugo do Mandato britânico.
Gaza tinha-se tornado a maior prisão a céu aberto do mundo, e era só uma questão de tempo até que o povo de Gaza «batesse nas paredes do tanque» — como disse o escritor mártir Ghassan Kanafani — em rejeição à morte lenta no interior dessa grande prisão.
Inundação de Al-Aqsa – A Nossa Narrativa, Gabinete de Imprensa do Hamas, Dezembro de 2025
A propaganda do Império, especialmente a que é direccionada ao público de esquerda, apresenta constantemente o Hamas (e outras forças do Eixo da Resistência) como um bando de “extremistas islâmicos” que odeiam (e matam) comunistas. Ei-los aqui a citar Ghassan Kanafani, o escritor, pensador e líder histórico da Frente Popular pela Libertação da Palestina (de raiz marxista-leninista) assassinado pela Mossad em Beirut, em 1972.
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A segunda parte desta investigação, sobre o “plano de camuflagem” de Sinwar e o mito do “inside job”, será publicada esta segunda-feira, 5 de Outubro.

