EUA // Declaração do hacker Jeremy Hammond, momentos antes de ser condenado a 10 anos de prisão

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Ilustração e tradução para português da declaração do hacker Jeremy Hammond, momentos antes de ser condenado a 10 anos de prisão por revelar ao mundo o papel das agências de informação privadas em minar governos e activistas. Uma história de intriga, traição, espionagem e muita luta por aquilo em que se acredita. Vale bem a pela ler.

“Bom dia. Obrigado por esta oportunidade. O meu nome é Jeremy Hammond e estou aqui para receber a sentença por actividades de hacking levadas a cabo durante o meu envolvimento com os Anonymous. Estive trancado no MCC [Centro de Correção Metropolitano] durante os últimos 20 meses e tive muito tempo para pensar como iria explicar as minhas acções.

Antes de começar, peço um momento para reconhecer o trabalho das pessoas que me apoiaram. Quero agradecer a todos os advogados e outros que trabalharam no meu caso: Elizabeth Fink, Susan Kellman, Sarah Kunstler, Emily Kunstler, Margaret Kunstler e Grainne O’Neill. Também quero agradecer à Guilda Nacional de Advogados, ao Comité de Defesa do Jeremy Hammond, à Rede de Suporte, aos Anons Livres, à Rede de Solidariedade dos Anónimos, à Cruz Negra Anarquista e a todos os outros que me ajudaram ao escrever uma carta de apoio, enviando-me cartas, comparecendo às minhas sessões de tribunal e ao espalhar a palavra sobre o meu caso. Também quero enviar cumprimentos para os meus irmãos e irmãs atrás de grades e aqueles que ainda estão lá fora a lutar contra o poder.

Os actos de desobediência civil e acção directa pelos quais recebo senteça hoje estão em linha com os princípios de comunidade e igualdade que sempre guiaram a minha vida. Fiz hacking a dezenas de corporações de alto perfil e instituições governamentais, com a percepção clara que o que estava a fazer era contra a lei, e que as minhas acções podiam ditar o meu regresso a uma prisão federal. Mas senti que tinha a obrigação de usar as minhas capacidades para expôr e confrontar a injustiça – e trazer a verdade à luz do dia.

Podia ter conseguido os mesmos objectivos através de meios legais? Tentei tudo desde petições de votação até ao protesto pacífico e descobri que quem está no poder não quer que a verdade seja revelada. Quando dizemos as verdades ao poder, na melhor das hipóteses somos ignorados e, na pior, brutalmente suprimidos. Estamos a confrontar uma estrutura de poder que não respeita os seus próprios sistemas de fiscalização e equilíbrio, tão pouco os direitos dos seus próprios cidadãos ou da comunidade internacional.

A minha iniciação à política foi quando George W. Bush roubou as eleições presidenciais em 2000 e depois tirou partido das ondas de racismo e patriotismo após o 11 de Setembro para lançar, sem provocação, guerras imperiais contra o Iraque e Afeganistão. Eu fui para as ruas em protesto, acreditando ingénuamente que as nossas vozes seriam ouvidas em Washington e que podíamos parar a guerra. Em vez disso, fomos marcados como traidores, espancados e presos.

Eu fui preso por numerosos actos de desobediência civil nas ruas de Chicago, mas só em 2005 é que usei os meus conhecimentos informáticos para quebrar a lei como protesto político. Fui preso pelo FBI pelo hacking dos sistemas informáticos de um grupo de direita pró-guerra chamado Guerreiros de Protesto, uma organização que vendia t-shirts racistas no seu website e acossava grupos anti-guerra. Fui acusado sob o Acto de Fraude e Abuso Informático e as perdas financeiras no meu caso foram calculadas de forma arbitrária ao multiplicar os 5000 cartões de crédito na base de dados dos Guerreiros de Protesto por 500$, resultando em perdas totais de 2,5$ milhões. As linhas guia da minha sentença foram calculadas na base desta “perda”, apesar de nenhum cartão de crédito ter sido usado ou distribuído – por mim ou quem quer que seja. Recebi uma sentença de dois anos de prisão.

Na prisão eu vi por mim próprio a feia realidade de como o sistema de justiça criminal destrói as vidas de milhões de pessoas mantidas atrás das grades. A experiência solidificou a minha oposição às formas repressivas de poder e a importância de defender aquilo em que se acredita.

Quando fui libertado, estava ansioso para continuar o meu envolvimento em lutas pela mudança social. Não queria voltar à prisão, por isso foquei-me na organização legal de comunidades. Mas, ao longo do tempo, fiquei frustrado com as limitações do protesto pacífico, vendo-o como reformista e inconsequente. A administração Obama continuou com as guerras no Iraque e Afeganistão, aumentou o uso de drones e não fechou a baía de Guantanamo.

Por esta altura, eu estava a seguir o trabalho de grupos como o Wikileaks e Anonymous. Era muito inspirador ver as ideias do hacktivismo a darem fruto. Fui particularmente tocado pelas acções heróicas de Chelsea Manning, que expôs as atrocidades cometidas pelas forças dos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão. Ela correu um risco pessoal enorme para revelar estas informações – acreditando que o público tinha o direito a saber de saber e na esperança de que as revelações seriam um passo positivo para acabar com estes abusos. Parte o coração saber o tratamento desumano que recebeu na prisão militar.

Pensei longamente sobre voltar a tomar este caminho. Tive de perguntar a mim mesmo, se a Chelsea Manning caiu no pesadelo abismal da prisão a lutar pela verdade, poderia eu, em boa consciência, fazer menos? Pensei que a melhor forma de mostrar solidariedade era continuar o trabalho de expôr e confrontar a corrupção.

Fui puxado pelos Anonymous porque acredito em acção directa autónoma e descentralizada. Nessa altura, os Anonymous estavam envolvido em operações de suporte às revoltas da Primavera Árabe, contra a censura e em defesa da Wikileaks. Eu tinha muito com que contribuir, incluíndo capacidades técnicas e como melhor articular ideias e objectivos. Foi um período emocionante – o nascimento de um movimento de dissidentes digitais, onde as definições e capacidades do hacktivismo estavam a ganhar forma.

Estava especialmente interessado no trabalho dos hackers da Lulzsec que estavam a conseguir penetrar alguns alvos importantes e a tornar-se cada vez mais politizados. Por volta desta altura, comecei a falar com o Sabu, que era bastante aberto em relação aos hacks que supostamente tinha levado a cabo e estava a encorajar hackers a unirem-se para atacar os grandes sistemas de governos e corporações sob a bandeira da Anti Segurança. Mas pouco tempo após o começo do meu envolvimento, os outros hackers da Lulzsec foram presos, deixando-me responsável por entrar nos sistemas e escrever comunicados de imprensa. Mais tarde descobri que o Sabu tinha sido um dos primeiros a ser presos e que durante todo o período em que estivemos em contacto, ele era um informador do FBI.

Os Anonymous também estiveram envolvidos nas fases iniciais do Occupy Wall Street. Eu estava a participar nas ruas de forma regular como parte do Occupy Chicago e sentia-me muito excitado por ver um movimento de massas mundial contras as injustiças do capitalismo e racismo. No espaço de poucos meses, as “Ocupações” terminaram, encerradas por operações policiais e prisões em massa dos manifestantes que foram expulsos dos seus próprios parques públicos. A repressão dos Anonymous e movimento Occupy deu o mote para a Antisec nos meses seguintes – a maioria dos nossos hacks contra alvos policiais foram em retaliação pela detenção dos nossos camaradas.

Escolhi as agências policiais como alvo devido ao racismo e desigualdade com o qual a lei criminal é aplicada. Escolhi firmas de fabrico e distribuição de equipamento militar e policial como alvo porque lucram com o armamento que é usado para avançar os interesses económicos dos Estados Unidos no estrangeiro e para reprimir a população no interior do país. Escolhi firmas de segurança de informação como alvo porque trabalham em segredo para proteger interesses de governos e corporações à custa dos direitos individuais, prejuízo e descrédito de activistas, jornalistas e outras pessoas que procuram a verdade e a disseminação de informação.

Nem sequer tinha ouvido falar da Stratfor até o Sabu ma chamar à atenção. O Sabu estava a encorajar as pessoas a invadir sistemas enquanto ajudava a planear estratégias e facilitar ataques. Até me providenciou vulnerabilidades de alvos que outros hackers nos faziam chegar, pelo que foi com grande surpresa que recebi a notícia de que o Sabu tinha estado a trabalhar o tempo todo com o FBI.

A 4 de Dezembro de 2011, o Sabu foi abordado por outro hacker que já tinha entrado na base de dados de cartões de crédito da Stratfor. O Sabu, debaixo da vigilante observação dos seus mestres governamentais, levou então o hack aos Antisec ao convidar o hacker responsável para a nossa sala de chat privada, onde este disponibilizou links de download para a base de dados completa de cartões de crédito dos clientes da Stratfor, assim como o vulnerabilidade inicial que serviu como ponto de acesso aos sistemas da Stratfor.

Passei algum tempo a pesquisar a Stratfor e a rever a informação que nos foi oferecida e decidi que as suas actividades e base de clientes fazia deles um alvo merecedor. Achei irónico que a clientela rica e poderosa da Stratfor tenha usado os seus cartões de crédito para fazer donativos a organizações humanitárias, mas o meu principal papel no ataque era recolher o rol de emails privados da Stratfor, que é onde tipicamente se encontram os segredos sujos.

Levou-me mais de uma semana para ganhar acesso adicional aos sistemas internos da Stratfor, mas eventualmente entrei no servidor de email deles. Havia tanta informação que precisámos de vários servidores nossos para transferir os emails. O Sabu, que em todos os passos esteve envolvido com a operação, ofereceu um servidor que foi providenciado e monitorizado pelo FBI. Ao longo das semanas seguintes, os emails foram transferidos, os cartões de crédito usados para donativos e os sistemas da Stratfor foram vandalizados e destruídos. A razão do FBI nos ter apresentado o hacker que encontrou a vulnerabilidade inicial e de terem permitido que o hack da Stratfor fosse levado a cabo continua para mim a ser um mistério.

Como resultado do hack da Stratfor, alguns dos perigos das agências desreguladas da indústria de informação privada são agora conhecidos. Foi revelado através da Wikileaks e outros jornalistas à volta do mundo que a Stratfor mantêm uma rede mundial de informadores que usam para levar a cabo vigilância intrusiva e possivelmente ilegal em prol de grandes corporações multinacionais.

Depois da Stratfor, continuei a entrar em outros sistemas, usando uma poderosa “vulnerabilidade de dia zero” que me permitia ter acesso de administrador a sistemas que corriam a popular plataforma de hospedamento web, Plesk. O Sabu pediu-me muitas vezes acesso a esta vulnerabilidade, que eu recusei dar-lhe. Sem o seu próprio acesso independente, o Sabu continuou a providenciar-me listas de alvos vulneráveis. Entrei em numerosos sites que ele providenciou, fiz upload dos emails roubados para o servidor do FBI do Sabu e entreguei passwords e backdoors que permitiram ao Sabu (e, por extensão, aos seus mestres no FBI) controlar estes alvos.

Estas intrusões, todas elas sugeridas pelo Sabu enquanto cooperava com o FBI, afectaram milhares de domínios e consistiram na sua maioria de sites de governos estrangeiros, incluíndo os de Brasil, Turquia, Síria, Porto Rico, Colômbia, Nigéria, Irão, Eslovénia, Grécia, Paquistão e outros. Num caso particular, o Sabu e eu providenciámos informação a hackers que vandalizaram e destruíram muitos sites de governos. Não sei que outras informações é que lhe providenciei que possam ter sido usadas, mas acho que a recolha e uso destes dados por parte do governo devem ser investigados.

O governo celebra a minha condenação e aprisionamento, esperando então fechar a porta à história completa. Eu tomei responsabilidade pelas minhas acções ao declarar-me culpado, mas quando é que se fará o governo responder pelos seus crimes?

Os Estados Unidos exagera a ameaça dos hackers para poder justificar o complexo industrial de ciber-segurança, mas também é responsável pelo mesmo comportamento que processa judicialmente de forma agressiva e o qual diz trabalhar para prevenir. A hipocrisia da “lei e ordem” e as injustiças causadas pelo capitalismo não podem ser curadas por reformas institucionais mas através da desobediência civil e acção directa. Sim, eu quebrei a lei, mas acredito que por vezes as leis devem ser quebradas de modo a criar espaço para a mudança.

Nas palavras imortais de Frederick Douglas, “O poder não concede nada sem uma exigência. Nunca o fez e nunca o fará. Descobre aquilo a que qualquer um se submete calmamente e terás descoberto a medida exacta das injustiças e males que lhes serão impostos, e estes continuarão até que sejam resistidos com palavras ou golpes, ou ambos. Os limites dos tiranos estão prescritos pela capacidade de aguentar daqueles que oprimem.”

Com isto não digo que não tenha arrependimentos. Sei que revelei informações pessoais de pessoas inocentes que não tinham nada que ver com as operações das instituições que visei como alvo. Peço desculpa por revelar dados que foram prejudiciais a indivíduos e irrelevantes para os meus objectivos. Acredito no direito individual à privacidade – da vigilância governamental mas também de agentes como eu, e aprecio a ironia do meu próprio envolvimento no atropelo destes direitos. Estou dedicado a trabalhar para tornar este mundo um lugar melhor para todos nós. Ainda acredito na importância do hacktivismo como forma de desobediência civil, mas é altura de procurar outras formas de conseguir mudanças. Os meus dias na prisão desgastaram a minha família, amigos e comunidade. Eu sei que precisam de mim em casa. Eu sei que estive perante um juíz federal diferente há 7 anos atrás, sobre acusações semelhantes, mas isto não reduz a sinceridade do que eu tenho para dizer hoje.

Exigiu muito de mim escrever isto, explicar as minhas acções, sabendo que ao fazê-lo – honestamente – pode custar-me mais anos de vida na prisão. Tenho consciência que posso receber até 10 anos de prisão mas espero que não, pois acredito que há muito trabalho a fazer.”

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