Portugal // “Antigamente é que era bom”

O passado nunca está completamente morto e enterrado. Tem de ser disputado, ou arriscamos perder a verdade histórica para as fabricações de ressabiados e interesseiros. Assim o é também com a realidade do que foi a ditadura de Salazar. Trolls de direita trabalham com diligência para inundar as redes sociais com falsidades. Procuram encobrir o que foi a vida de pé-descalço-barriga-vazia-sem-ter-onde-cair-morto da maioria dos portugueses a quem calhou viver nesse período.

É por isso que seguimos com interesse há já algum tempo o trabalho da página “Antigamente é que era bom”, que procura repor a verdade histórica de forma simples e ilustrativa com fotos e documentos da altura. Entrevistámos o autor para saber o que motivou o projecto e o que aprendeu sobre os saudosistas do Botas.

O que o levou a começar a página? Qual a sua relação com o “antigamente”? Quais os objectivos da página?

O que me levou a começar a página foi ter visto comentários completamente absurdos nas caixas de comentários de jornais on-line. Além disso, eu tinha alguns documentos na minha posse (que ainda tenho) da PIDE/DGS que eram enviados para a Junta de Freguesia da localidade onde nasci e que me vieram parar à mão e comecei a partilhá-los na minha página pessoal. Eram quase todos sobre a perseguição que a PIDE fazia aos emigrantes que queriam ir para França (o que os do “antigamente” negam).

Após verificar que havia interessados e com alguns incentivos de amigos, resolvi começar com a página. Não tenho quaisquer outros objectivos que não sejam os de desmontar os mitos e os argumentos dos saudosistas salazaristas. Nasci em 1960, ainda vivi algum tempo no “antigamente”. Sou filho de alguém que foi sempre um opositor ao regime salazarista. Não sou filiado em qualquer partido político, sou defensor da democracia e da Constituição da República Portuguesa. Sou eleito na Assembleia Municipal do meu concelho, mas não vivo da política, tenho uma profissão ligada ao ensino. Gosto de política e esforço-me para que as pessoas possam viver, livremente, em democracia. Não sou avençado de qualquer força política, ao contrário do que me acusam os saudosistas.

Pretendo, também, que os jovens conheçam o que eram aqueles tempos, mas penso que esses são os mais manipuláveis por parte dos saudosistas.

Quais são os diferentes tipos de saudosistas e quais são os seus perfis? E existe algum padrão notável entre eles? Por exemplo, classe, sexo, geografia, etc.?

Não sei… Acho que estão espalhados por todo o país e muitos são emigrantes. Acho que alguns são jovens que atacam a democracia por terem que emigrar, ou por terem qualquer problema com a sua vida, nomeadamente a dificuldade em arranjar emprego.

Também há os que são mesmo salazaristas puros e os ressabiados com algo que se passou a seguir ao 25 de Abril. Nunca aceitaram a democracia. E também há os chamados “retornados” e ex-combatentes da guerra colonial.

Eu penso que estão concentrados em Lisboa e no Norte do país. Alguns são perfis falsos de pessoas que os usam para minar a democracia e fazerem acreditar aos mais jovens que “antigamente” era muito bom, que não havia desemprego, que toda a gente vivia bem, etc. Outras são pessoas que eram pobres (muito pobres) no regime salazarista e, hoje, têm a mania que são ricos. Esta é uma frase que eu gosto de usar para calar os saudosistas. E o que é certo é que com ela, por vezes ficam sem argumentos.

Quais são os mitos e argumentos mais comumente invocados pelos saudosistas?

Os mitos são os de que se vivia bem, que só vivia mal quem queria, que a PIDE não fazia mal a ninguém (ou que só o fazia a quem não queria trabalhar, que eram os comunistas), que não perseguia os emigrantes, que se havia crianças descalças era porque queriam, ou então porque eram ciganos.

Também argumentam que agora é igual como era “antigamente”, que está tudo mal, que os políticos roubam tudo, que antes ninguém roubava nada, que não havia crime, nem pedófilos, que não havia corrupção.

Também usam o argumento de que quem se recusou a ir à guerra colonial era traidor à Pátria, que venderam Portugal, que o Soares foi um criminoso, etc. etc. Curiosamente insultam mais o Soares do que o Cunhal.

Como respondem quando confrontados com provas do que foi a realidade do “antigamente”?

Continuam na mesma e não querem saber das provas. Arranjam desculpas para tudo. Não há uma prova que eles vejam com a qual estejam de acordo. Por exemplo: se se prova que nos países em guerra, nos anos 40 do século XX, as crianças estavam calçadas, eles dizem e insistem que era assim (como em Portugal, com crianças descalças) em todos os países. Apesar das provas (por exemplo, com soldados norte-americanos em França, com crianças ao lado calçadas) eles continuam a insistir que as crianças estavam descalças em todos os países.

Têm existido evoluções no saudosismo desde que a página abriu? Por exemplo, no tipo de argumentação mais comum, na regularidade ou persistência dos saudosistas, etc. Se sim, quais?

Acho que isso se tem mantido ao longo dos tempos, desde que a página começou. Mas quanto mais se publicam provas mais eles insistem em desmenti-las.

Quais são as fontes que usa para dados e registros fotográficos do “antigamente”? Algumas que se destaquem?

Como já disse eu tenho alguns documentos sobre a perseguição a emigrantes no meu concelho. Outros documentos e fotos eu vou arranjando na net (onde há muitos, felizmente) e alguns são de pessoas que me enviam para eu publicar.

O que são hoje as semelhanças com o “antigamente” no panorama político? Há noções e discursos que estão a ser recuperados ou nunca desapareceram, por exemplo? Se sim, que factores pensa que justificam essa recuperação?

Não há qualquer semelhança. Hoje há liberdade (desde o 25 de Abril). Hoje esses saudosistas criticam os governos, chamam todos os nomes aos políticos, insinuam factos falsos e nada lhes acontece. Se fosse no “antigamente” não o poderiam fazer. Agora, claro que nem tudo está bem e que há razões para se criticar o que está mal. Mas comparar esses tempos de pura miséria, com os tempos de hoje é como comparar o dia com a noite. Claro que o discurso populista e da extrema-direita me preocupa e é preciso combatê-lo. Mas também sei que há ainda muitos defensores do regime saído do 25 de Abril, em Portugal.

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