Portugal // Concentração anti-racista “A voz da mãe preta”

Dia 25 de Janeiro realizou-se junto à Câmara Municipal do Seixal uma concentração anti-racista que juntou uma variedade de colectivos e indivíduos interessados em denunciar o racismo estrutural na sociedade portuguesa. Aconteceu na sequência dos eventos no bairro da Jamaica e da manifestação da juventude negra na Avenida da Liberdade.

O evento decorreu sem incidente, contando com uma pesada presença da PSP e de jornalistas; ambos os grupos certamente foram para casa desapontados pela tranquilidade da tarde. Nem uma só pedrinha foi atirada.

Seguem-se alguns dos discursos que capturámos durante o evento.

O seguinte poema, da autoria de Marinho Pina, foi lido durante a tarde:

112, SOCORRO!


Alô? 112?


112, por favor, socorro,
ouve o meu choro sem portento,
sem contento, a cem por cento
já não aguento continuar a suportar esta dose
que me aplicam com neurose como se fosse algo doce,
mas revela a psicose destes gajos que fazem pose
de serem meus defensores.


112, por favor, ‘acuda-me’,
sem demora, ajuda-me,
estou na Cova da Moura
a toda hora a ser assaltado…
a ser maltratado e discriminado pela polícia.
Acredita, 112, estou farto desta sevícia,
para eles é uma delícia, pois fazem-no com perícia,
mas já não aguento toda esta foda sem carícia.


Também sou um cidadão,
porra, eu também sou,
mas não recebo proteção,
nem me dão o meu valor.
E quando eu falo que é racismo… ficam chateados…


«Polícia não é racista, eu não sou racista,
o meu vizinho do quinto esquerdo
do condomínio é também preto.
Logo não é correto que me chames de racista,
seu pre… seu ne… seu africano extremista.
Pois não existe racismo em Portugal,
nem na rua, muito menos institucional.»


Está bem!, não és racista, apenas um retardado.


112, vejo-me encurralado,
com o cu ralado e direitos negados,
pois só de olharem para a minha cor
assumem que sou do pior
e tratam-me como bandido
e sacam do seu distintivo
e assim sou detido e reduzido
a um indivíduo sem direitos
por causa de preconceitos.


Ok!… eu aceito, pode não ser da minha cor,
talvez tenham pavor é ao estilo do meu cabelo…
Talvez devesse cortá-lo e ficar com o caco mais ralo
e mais raso que o rabo do bebé de um bacano skinhead.
Isso já pode ser?


112, arrombam-me a porta
para revistar se tenho drogas…
Eu… um simples cidadão
que nunca lhes deu razão para vazão deste calibre,
mas não me deixam livre.
Mas aos Ricardos Salgados
eles tratam como sagrados,
tratam com deferência
e, apesar das referências, agem com reverência
e quando a sua excelência quer férias,
até recebe dispensa de se mostrar lá na esquadra…
e eu aqui… na Cova… porra, só pancada.


112, ouve bem, por favor, chama alguém,
chama o Costa, chama o Marcelo,
para passar por perto e trazer afecto,
e até aceito que chames o Coelho,
chama um ministro, ou um deputado,
Jesus Cristo ou o próprio diabo…
aceito aqui qualquer trampa,
só não chama o Donald Trump…
(é que ali na Damaia já temos um muro…
mas esse ainda tem furos…
aqueles arcos nada parcos… tu sabes!)


Ah, já agora, também não chama a polícia,
porque estou nesta linguiça
pela injustiça da própria polícia.
Dispenso o seu respeito,
só quero o meu direito.


112, estou a ser tratado como um cão,
diz-me qual é a minha opção,
já não aguento este afã,
terei de recorrer-me ao PAN?
A quem tenho de ladrar para ter algum direito?
Estou farto de preconceitos.

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