Espanha // Madrid versus o presidente “Cara de Pila”~ 3 min

Por Víctor Boaventura e Duarte Guerreiro

Nas últimas eleições no Estado Espanhol, vários projectos municipalistas de esquerda reformista foram derrotados nas urnas em favor das alianças entre Partido Popular, Ciudadanos e Vox. Sendo que os dois últimos são excreções das alas mais neoliberais e fascistas do Partido Popular.

Um dos projectos derrotados foi o Más Madrid (anteriormente Ahora Madrid), encabeçado por Manuela Carmena. Madrid é agora governada pela tripla aliança, ou como é conhecida localmente, Trifachito. Esta não perdeu tempo em atacar as medidas reformistas dos governos anteriores, inclusive de governos do Partido Popular que remontam a 2004. De facto, essa era a sua promessa eleitoral.

A primeira e mais importante medida até agora foi o início do desmantelamento de “Madrid Central”. Este projecto visava reduzir o tráfego automóvel no centro da cidade e reforçar os transportes públicos para diminuir a considerável poluição aérea da cidade e melhorar a qualidade de vida dos habitantes. Esta medida reduziu a níveis históricos a contaminação do ar nas zona centro e norte da cidade. Maio de 2019 foi o mês com o ar mais limpo já registado.

Por agora, o Trifachito suspendeu as multas associadas à circulação em Madrid Central, mas não se espera que fique por aqui. As consequências já surgiram: nos últimos dias os moradores dos bairros centrais de Madrid têm vindo a sentir um aumento significativo do tráfego rodoviário, inclusive em ruas que estavam vedadas ao trânsito desde 2004. Houve uma redução dos transportes públicos e o tempo médio de espera em várias linhas de autocarro aumentaram de 5 para 15 minutos.

Um dos grandes alvos a abater da aliança Trifachito são também os movimentos sociais e tudo o que seja organização popular. Umas das primeiras medidas simbólicas da câmara municipal nos primeiros dias de governação foi a retirada de todos os cartazes a favor do acolhimento de refugiados e contra a violência machista.

O “Caso Carapolla” (Cara de Pila)

O actual presidente de Madrid, José Luis Martínez-Almeida, ganhou esta semana uma nova alcunha: Carapolla (Cara de Pila). Este nome surgiu de um protesto de moradores durante a noite de San Juan no bairro madrileno de Vilcavaro.

Nessa noite, a Associação de Moradores local pendurou algumas faixas pelo bairro a denunciar a violência machista, os despejos e o desemprego. A polícia municipal apareceu em força no bairro e retirou tudo o que eram mensagens políticas.

Uma semana depois, durante as festas populares daquele distrito, um grupo de jovens decidiu organizar um protesto contra a repressão sofrida às mãos do presente governo do município de Madrid. Fizeram autocolantes onde se podia ler: “Almeida Carapolla, seremos o tu peor pesadilla” – Almeida Cara de Pila, seremos o teu pior pesadelo.

A iniciativa foi bem acolhida pelos moradores locais. Ao longo dos quatro dias de festa, cada vez mais gente usava orgulhosamente o autocolante com a jocosa frase. A polícia municipal começou então a proibir a entrada destas pessoas no recinto da festa e a identificar todos os que portassem o autocolante.

Um dos identificados foi acusado de contra-ordenação leve por “insultar uma autoridade competente”, algo que não existe no Código Penal espanhol.

Esta situação veio agravar ainda mais a relação de tensão que existe no bairro para com o presente presidente municipal. Durante a campanha eleitoral, Almeida foi protagonista de uma cena caricata que desagradou à população local. Apareceu em Vilcavaro com uma escova e balde para eliminar da praça do centro cultural ‘El Madroño’ um graffiti que continha a mensagem “ACAB”.

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