Plástico a mais // A produção desenfreada

Plastic waste in bags.


Apesar da sua produção ter começado antes de 1950, foi só a partir desse ano que o plástico começou a ganhar espaço na indústria. Este material caiu tanto em graça, que entre esta data e 2015, já haviam sido produzidas cerca de 8 300 milhões de toneladas (8 300 000 000 000 kg). Com o passar dos anos, foi atingindo uma importância acrescida. Por exemplo, o embalamento mais seguro dos alimentos, alguns avanços na medicina e tecnologias, ou telemóveis e computadores apenas foram tornados possíveis devido à existência de plásticos.

Do ponto de vista químico, são um grupo de materiais muito diverso, mas que ainda assim partilham entre si um conjunto de características significativo. De forma muito sintética e simplista, são polímeros, isto é, a repetição de grupos mais pequenos de moléculas, e bastante estáveis. E são produzidos a partir de combustíveis fósseis, como o petróleo e o gás natural. Dependendo do tipo de polímeros que contenham, podem ter propriedades distintas, tais como uma maior ou menor resistência ao calor, flexibilidade, opacidade etc.

Em 2015, cerca de 36% dos plásticos produzidos tinham como objetivo o embalamento de produtos. Os restantes encontravam-se no sector da construção (16%), têxtil (14%), de bens institucionais e de consumo (10%), transportes (7%), de produtos eletrónicos/elétricos (4%), de maquinaria industrial (menos de 1%) e outros (12%).  

O tempo entre a produção e o fim da sua utilização depende do uso para o qual são destinados. A maior parte da produção destina-se a um uso de curta duração. Dos 448 milhões de toneladas produzidos no ano de 2015, cerca de 72% serão descartados dentro de um período de 5 anos ou menos. Destes, cerca de metade tiveram um tempo de uso de menos de seis meses. A estes plásticos dá-se o nome de plásticos de uso único.

Uma vez findado o seu uso, existem três destinos para estes polímeros: a sua reciclagem, a destruição térmica ou o seu descarte sem aproveitamento.

A primeira apenas atrasa, mas não impede, que os plásticos eventualmente sigam para um dos outros dois destinos. Para os plásticos recicláveis, tal processo apenas pode ocorrer um número limitado de vezes, uma vez que a sua versão reciclada, sendo uma mistura entre vários tipos de polímeros, será um material com um valor técnico e económico mais limitado.

A destruição térmica pode ocorrer de variadas formas, mas a mais significativa é a incineração. Ou seja, a sua queima. Esta pode dar-se ou não com recuperação de energia. Caso exista recuperação de energia, pode produzir-se eletricidade e/ou calor. Os impactos ambientais e em termos de saúde pública deste processo dependem de factores técnicos, tais como os mecanismos de controlo de emissões e da forma como a operação é desenhada. Apesar dos seus efeitos nefastos serem virtualmente superáveis, na prática o processo liberta substâncias tóxicas no meio ambiente, entre as quais dioxinas, furanos e estireno.

A outra hipótese é o seu descarte sem aproveitamento, quer directamente para o meio ambiente, como para lixeiras a céu aberto ou aterros sanitários.

Desde 1950 até 2015, foram produzidos cerca de 6 300 milhões de toneladas de lixo plástico (incluindo plástico reciclado). Destes, 12% foram incinerados e apenas 9% foram reciclados, dos quais 10% mais do que uma vez. No mesmo período, aproximadamente 4 900 milhões de toneladas de plástico (60% de todo o plástico alguma vez produzido), acabaram em lixeiras, aterros sanitários ou no meio ambiente.

A lista dos efeitos nefastos destes polímeros é bastante conhecida. A libertação dos plásticos para o meio ambiente pode resultar em graves consequências para os ecossistemas e para saúde pública. A título de exemplo, em 2013 partilhámos que os microplásticos, pedaços extremamente pequenos de plástico que derivam da sua degradação, além de funcionarem como um poluente em si, também absorvem substâncias tóxicas que acabam por chegar até nós através da cadeia alimentar. Em 2015 partilhámos que cerca de 8 milhões de toneladas de plástico eram despejadas anualmente para o oceano. O próprio tratamento em aterros sanitários leva muitas vezes à contaminação das águas subterrâneas.

No entanto, a poluição provocada pelo plástico começa no momento em que este é produzido. Tendo como matéria prima produtos provenientes dos combustíveis fósseis, como o etileno, etano e o propileno, a sua produção acaba a ter um papel determinante na contaminação das águas, dos solos e do ar das comunidades locais perto das quais tal atividade industrial decorra.

O facto de serem constituídos a partir de matérias primas relativamente abundantes e de serem versáteis terão sido dois factores importantes para que o plástico se encontre hoje marcadamente no nosso quotidiano. Tornou-se, desde então, um problema global por resolver. Um problema conhecido e que, graças a um medir de forças ou até colaboração entre quem regula e quem é regulado, não parece ter uma solução política à vista.
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Segunda parte do texto disponível em:  “Plástico a mais // A desresponsabilização corporativa“.

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