Plástico a mais // A desresponsabilização corporativa

 

Parte 2 de 2. Parte 1 aqui.

O movimento Break Free from Plastic levou a cabo uma auditoria a várias corporações para descobrir quais as principais produtoras de plástico e quais as responsáveis pela maioria do plástico que por aí anda à deriva.

A auditoria contou com o apoio de várias organizações associadas ao movimento Break Free from Plastic, entre elas a Rockefeller University, ligada à Rockefeller Family Fund. A família Rockefeller era conhecida até há bem pouco tempo por investir em fundos de investimento alternativos e em fundos especulativos ligados à exploração de combustíveis fósseis.

Em 2016, o grupo Rockefeller anunciou que ia desinvestir no que agora considera ser uma indústria incompatível com a sustentabilidade do planeta e acusou a ExxonMobil – empresa criada a partir do próprio grupo Rockefeller – de ter investido em campanhas de negação das alterações climáticas. Os milhões que anteriormente investiam no petróleo, são actualmente direcionados para organizações como a 350.org, focadas na defesa das energias renováveis – e na lavagem da imagem do grupo Rockefeller.

O Break Free from Plastic organizou, entre Agosto e Setembro deste ano, 239 acções de recolha de lixo, principalmente doméstico, em 42 países de todos os 6 continentes. Acabaram por apanhar e identificar 187 851 peças de plástico. De notar que esta metodologia deixa de fora a produção industrial e correspondente lixo, cuja pegada poderá ser vastamente superior ao do plástico para fins domésticos.

Em cada zona de recolha, os participantes apanharam o lixo, contaram as peças, registaram a marca, a empresa responsável pela marca, o tipo de produto (comida, produtos de higiene, entre outros) e o tipo de embalagem (polietileno de alta densidade, polietileno tereftalato, policloreto de polivinila, polipropileno, poliestireno, materiais plásticos de camada única e de multicamadas). Nestlé, Pepsico e Coca-Cola lideram a corrida de produção de plástico. Para além destas, também a Danone, Mondelez International, Procter & Gamble, Unilever, Perfetti van Melle, Mars Incorporated, Colgate-Palmolive, Mcdonalds, Heineken, Ferrero, Lidl, Philip Morris, Kraft Heinz, Haribo e Kellogg’s estão na corrida.

Todas estas empresas assumem princípios de Responsabilidade Social Corporativa e desdobram-se em campanhas de greenwashing, focadas em passar a falsa imagem de que estão a defender o ambiente. Marcas como a Nestlé, mundialmente idolatradas, exibem princípios de sustentabilidade nos seus sites e promovem políticas bem intencionadas de redução de plástico ou de uso de plásticos com mais componentes recicláveis. Mas no final das contas, a Nestlé é uma das corporações apontadas nesta auditoria como uma das que mais polui.

Outras tantas corporações ficaram por identificar, já que de acordo com o relatório publicado, só foi possível identificar cerca de 65% das 187 851 peças encontradas. Entre estas, pontas de cigarros, têxteis, fraldas e toalhitas estão entre alguns dos materiais encontrados que não são recicláveis. O  processo de reciclagem tem sido amplamente difundido por várias vias e em vários meios de comunicação como uma solução eficaz, mas a maioria dos plásticos não são recicláveis. E este processo depende de infraestruturas de que nem todos os países dispõem.

Ainda assim, de acordo com estudos feitos pelo Centro de Direito Ambiental Internacional, tudo indica que a produção de plástico vai aumentar 40% nos próximos 10 anos, apesar da urgência da transição energética apontada pelo inútil Acordo de Paris de 2015. O boom de exploração de gás “barato” proveniente de fracturação hidráulica nos Estados Unidos e o aumento da produção a partir do carvão na China estão a incentivar a construção de novas instalações de produção de etileno e propileno, assim como de novas plataformas de exploração de gás natural. Novos investimentos que são feitos à revelia do crescentemente irrelevante Acordo de Paris e contra uma opinião pública cada vez mais consciente dos problemas da utilização do plástico.

E ainda que os incentivos para reduzir e mesmo eliminar o plástico aumentem, as empresas mostram-se resistentes. A venda a granel, por exemplo, permite a disponibilização de produtos não embalados, contribuindo de uma forma considerável para a diminuição do uso de plástico doméstico. Mas alimentos como o arroz não podem ser vendidos sem embalagem porque a legislação, invocando questões de higiene, não o permite. A aveia ou a massa, por sua vez, não estão sujeitas a essa mesma proibição.

Face ao crescente burburinho sobre o plástico, a Comissão Europeia iniciou em Janeiro de 2017 um plano para delinear uma estratégia europeia contra o plástico. Desde então e até a versão oficial do plano ter sido publicada, a Comissão reuniu 92 vezes para discutir e repensar tal plano. Dessas 92 reuniões, 70 foram com corporações e entidades com interesses corporativos e apenas 16 com organizações não governamentais. A indústria do plástico conseguiu desta forma manter-se no campo de influência das políticas europeias, impedindo o avanço de taxas sobre o plástico e a sua produção e adiando a proibição dos plásticos descartáveis e dos plásticos com brilho. Quando o plano oficial foi lançado em Janeiro de 2018, não existia qualquer tipo de compromisso por parte da indústria.

Por agora, existe uma directiva europeia a ser discutida para lidar com os resíduos e lixos plásticos prejudiciais, numa tentativa de tentar controlar a produção e o uso dos plásticos descartáveis. Medidas pensadas para a transição da Europa para uma mal explicada economia circular, de forma a cumprir os tão aclamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e os falsos compromissos da UE em matéria de clima enquanto mantém os seus objetivos de política industrial para continuar a produção desenfreada de bens de consumo.

Neste medir de forças entre quem regula e quem não quer ser regulado, os mercados, as marcas e as suas empresas continuam a distanciar-se das suas responsabilidades enquanto produtores de lixo, neste caso plástico.

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