Portugal // Eventos de Setúbal contados por quem lá esteve~ 6 min

A comunicação social criou uma narrativa sobre os acontecimentos na passada quinta-feira, em Setúbal, que, pelas razões que apresentámos no nosso último artigo, nos parece bastante dúbia. O timing e as semelhanças com o atentado encenado contra Jair Bolsonaro foram duas razões que nos fizeram querer esmiuçar a fundo o que se passou. Por isso, decidimos conversar com Bóris, de etnia cigana, uma das pessoas presentes na manifestação.

Francisco Norega // Boa tarde, Bóris. Obrigado por aceitares conversar connosco. Antes de mais, podes contar-nos um pouco de como decorreram os primeiros momentos da manifestação contra a ida de André Ventura a Setúbal?

Bóris // Quando lá cheguei, já lá estavam largas dezenas de ciganas e ciganos, alguns até com crianças pequenas. Havia um sistema de som que tocava a Grândola Vila Morena.

FN // O ambiente estava, portanto, tranquilo?

Bóris // Muito. A aventesma ainda não tinha chegado.

FN // Quanto ao momento da chegada de André Ventura, os relatos da comunicação social são confusos. O que aconteceu nesse momento?

Bóris // Exaltação. Punhos no ar. Gritos de «RACISTA!», «FASCISTA!», «Vai-te embora!», etc.

FN // Não houve, então, arremesso de quaisquer objectos nesse momento?

Bóris // Nada. Só muito barulho. Alguns batiam panelas.

FN // Certo. Qual era a postura da polícia, nesse momento?

Bóris // Calma. Parados na posição de cada um. Relaxada. Condescendentes com as pequenas passagens do lancil do nosso passeio, fronteiro mesmo ao Charlot. Poucos agentes, alguns com shotgun, nenhum com escudo. Outros agentes estavam escondidos a alguma distância. Havia carrinhas de vidro escuro. Havia grades no limite do passeio, do nosso lado. O trânsito foi mantido por algum tempo. Para poente já não havia grades, uma vez que era um estacionamento. Talvez metade dos manifestantes se encontrassem nessa área, já não fronteira ao cinema.

FN // Um aparato policial mais imponente que os das restantes manifestações contra o fascista, mas ainda assim, calmo.

Bóris // Sim, mais imponente, sobretudo porque a maioria era da UEP, com as couraças habituais. E umas quantas espingardas de balas de borracha.

FN // Durante o tempo que este esteve dentro do auditório, alguma coisa aconteceu que deixasse antever o que viria a acontecer?

Bóris // Nada. Cantou-se a Grândola. Os dois lados mantendo as posições. Parecia uma festa cigana. Somos um povo alegre e festeiro.

FN // O que aconteceu, então, quando André Ventura saiu pela porta principal do Auditório Charlot?

Bóris // Uma grande algazarra. Gritos de «fascista!» e «racista!»…

FN // A comunicação social afirma que foram arremessados os mais variados objectos, desde isqueiros e caixas de pastilhas, passando por tampas de panelas, ovos e garrafas de água, até objectos metálicos cortantes e, claro está, as pedras. O que é que tu presenciaste?

Bóris // Nada disso. Os objetos arremessados, que vinham detrás, eram poucos e pequenos. Meia-dúzia de isqueiros e caixas de pastilhas. Eram infiltrados. A proximidade ao carro de André Ventura era tão pequena que se fossem pedras teriam deixado marcas no carro dele. E, eventualmente, na cabeça de alguém. A rua é relativamente estreita e nós estávamos na beira do passeio. Os seguranças do Chefe, puseram chapéus de chuva sobre ele enquanto entrava para o veiculo. Mas nada os atingiu.

FN // Bate certo com os relatos da repórter da RTP no local e publicados pela Visão. Nas filmagens não parece ter havido reacção policial nesse preciso momento. Sabemos, no entanto, que houve uma carga policial. Como surgiu essa carga? Foi imediatamente a seguir?

Bóris // Não houve carga nesse momento. Alguém começou a gritar: “Não batam no moço”. Corremos nessa direcção, um beco perpendicular poucos metros a nascente da frontaria do teatro. E vimos uma pessoa, deitada no chão a ser dominada por vários agentes… Imediatamente começa a “carga policial”, empurrando-nos ao longo do passeio onde tínhamos estado, na direção do estádio do Bonfim.

FN // Alguma ideia do porquê de essa pessoa ter sido “dominada” pelos agentes?

Bóris // Não. É estranho. Foram relativamente brandos. Não correram atrás das pessoas que fugiam e não dispararam as balas de borracha que tinham. Houve também o uso, comedido, de gás pimenta por homens à paisana. A única pessoa dominada, algemada e levada em viatura policial foi um homem a que alguns chamavam «ninja».

FN // Esse homem, em que contexto foi dominado e algemado?

Bóris // Explique melhor.

FN // Assististe à detenção? O que estava a acontecer nesse momento?

Bóris // Um homem a ser atirado ao chão, a ser virado de barriga para baixo… enquanto uma agente, um oficial, lhe punha um joelho nos rins, era algemado por outro. Estavam 3 ou 4 a rodear. Não havia mais manifestantes nas redondezas, tirando eu.

FN // Surreal.

Bóris // Parece que o detido se terá recusado a sair do “nosso” passeio a correr.

FN // Voltando à narrativa dos mass media… Alguns afirmam que houve uma “chuva de pedras” contra as forças policiais, apesar de não termos visto quaisquer vídeos que o sustentem. Qual foi, afinal, a resposta dos manifestantes à carga policial?

Bóris // Fugir a correr. Se tivesse havido pedras, haveria muitos donos dos carros estacionados, tudo ao longo da rua/avenida, a queixar-se dos danos. Ouviram alguém?

FN // Certo, faz sentido. Voltando atrás, a primeira pessoa “dominada”, foi libertada no momento?

Bóris // Isso não sei, porque tivemos de fugir. Tinha começado a carga policial. Mas fonte bem informada no interior da esquadra nº 1 diz que só entrou um. Poderia ter ido em segredo para outra esquadra… Mas, sendo cigano, como parecia ser, já haveria um alarido que se ouviria em Lisboa. Todo o cigano tem uma família numerosa. NINGUÉM FICA PARA TRÁS!

FN // E o segundo?

Bóris // O desgraçado do ninja é que não se safou. Não deve ter família.

FN // O que aconteceu depois dessa detenção?

Bóris // Não sei. Decidi ir embora. As coisas não estavam a ficar nada boas para o nosso lado. Em polícia e cheganos não se pode confiar. São uns filhos da puta.

FN // Surpreende-nos que nenhum jornalista tenha procurado apurar o que realmente se passou. O que tu nos contas é grave, e bate com esta ideia de que tudo não tinha passado de uma encenação. Tens mais alguma coisa a acrescentar?

Bóris // Não.

FN // Então, terminamos assim. Em nome da Guilhotina, muito obrigado.

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