Espanha // Grupos pela habitação travam mais um despejo a meio de vaga gentrificadora

Building covered with anti-eviction banners.

A convocatória estava marcada para as 9:30, mas meia hora antes já mais de meia centena de pessoas se reuniam em frente à porta da Calle Argumosa 11 no bairro de Lavapiés em Madrid para impedir o despejo de Josefa Santiago de 65 anos, mais conhecida como Pepi, e das suas duas filhas.

A história de Pepi é igual à de muitas outras que vivem numa cidade vítima de um processo brutal de gentrificação. Segundo os últimos números, o preço das rendas em Madrid subiu em média mais de 27% nos últimos 4 anos, chegando a atingir quase os 40% nalguns bairros.

 

Especulação e Fundos Imobiliários

Old man looking at poster which identifies one the people responsible for the evictions.

O edifício onde vive Pepi foi vendido a um fundo de investimento imobiliário, a Proindivisos SL. Há alguns meses atrás, começaram a enviar burofaxes (um tipo de fax usado no Estado Espanhol que pode incluir serviços notariais e ser usado como notificação legal) aos inquilinos a avisar que os seus contratos não seriam renovados e que as rendas iriam sofrer um aumento na ordem dos 300%, recusando entrar em qualquer negociação.

Em Novembro, dois representantes dos novos proprietários ofereceram 2.000€ aos inquilinos para que deixassem o apartamento vazio em dois meses. Segundo os moradores, apenas um deles aceitou a proposta. Três tiveram que deixar as suas casas no início do ano, no final dos seus contratos. E um quarto saiu na semana passada.

Cada vez que uma casa fica vazia, uma equipa de pedreiros vem emparedar a porta. Já há quatro apartamentos emparedados, e à porta do edifício encontra-se uma pilha de tijolos e sacos de cimento aguardando a próxima casa que fique vazia.

O modus operandi é sempre o mesmo. Primeiro retira-se os moradores com rendas antigas, faz-se obras de renovação (por vezes com ajudas estatais), e depois arrenda-se pelo triplo do preço.

 

Organização e resistência no bairro de Lavapiés

Crowd os supporters and journalists standing in front of the evicted person's house.

A concentração de ontem foi convocada pelo recém criado Sindicato de Inquilinas, pela PAH (Plataforma de Afectados por la Hipoteca) centro, pela associação Lavapiés ¿dónde vas?, entre outros colectivos.

A assembleia destes movimentos, que se reúne todas as semanas, tentou contactar o Ayuntamento (Câmara Municipal) de Madrid. Querem que o governo municipal tenha um papel de mediador entre os proprietários dos imóveis e o poder judicial para arranjar soluções que não impliquem despejo sem uma alternativa de habitação, como no caso de Josefa Santiago. Exigem também que a Ahora Madrid (a coligação que governa a cidade) implemente um plano abrangente contra a especulação imobiliária.

Até ao momento, o Ayuntamiento tem tido uma resposta muito tímida, dizendo que não possui habitação social disponível no bairro de Lavapiés. O Sindicato de Inquilinos já lhe fez chegar uma lista de pisos que se encontram vazios e emparedados, propriedade da EMVS (Empresa Municipal de Vivienda y Suelo).

O despejo de Pepi foi parado devido à resistência dos moradores. Dia 31 deste mês haverá uma nova tentativa de despejo . A Guilhotina.info vai estar no local a acompanhar todo o processo.

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